Arquivo mensal: Maio 2017

Bowery Electric – “Vertigo”

Sons

17 de Outubro 1997
DISCOS – POP ROCK


Bowery Electric
Vertigo (7)
2xCD Kranky, distri. MVM

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“Beat”, álbum do ano passado dos Bowery Electric, constitui, até à data, um dos objectos mais originais e corrosivos saídos da linha de montagem do pós-rock. Na sequência de uma corrente agora muito em voga, “Vertigo” surge como uma colecção de remisturas, na maioria extraídas de “Beat”, por “homenageantes” mais ou menos conhecidos, alguns deles inseridos na mesma cena do pós-rock. Estão neste caso os Third Eye Foundation, que recentemente editaram o álbum “Ghost”, ou, numa área mais próxima da electrónica industrial, os Main. Completam a lista de remisturadores os Chasm, Osymyso, Witchman, Immersion, Dunderhead e Twisted Silence. “Vertigo” soa um pouco em relação a “Beat” como “Resport”, outro álbum de remisturas, soava em relação ao “Weekend” dos Kreidler, ou seja, o som ganhou espaço, uma dose reforçada de electrónica e uma respiração mais ampla o que, neste caso, fez desaparecer algum do fascínio provocado pela atmosfera opressiva de “Beat”. Entre as nove remisturas aqui incluídas – estranhamente divididas em dois CD, o primeiro com apenas 18 minutos e três faixas, duas versões de “Fear of flying” e “Black light”, enquanto o segundo se estende por 56 – destaca-se a opção pela exclusividade dos sintetizadores e pelo experimentalismo dos Dunderhead, numa versão reptilínea de “Black light”, na linha da electrónica fria dos Microstoria.



L@n – “L@n” + Wabi Sabi – “Wabi Sabi”

Sons

5 de Dezembro 1997
DISCOS – POP ROCK


Electrões em mutação

L@N
L@N (8)

A-Musik, distri. Matéria Prima/Ananana

Wabi Sabi
Wabi Sabi (7)


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lan

A Alemanha vem sendo palco de alguns dos mais interessantes projectos de música electrónica dos últimos tempos. Basta recordar a obra recente de grupos como os Oval, Mouse on Mars, Microstoria, Kreidler ou To Rococo Rot, todos eles geralmente conotados com o pós-rock, para se compreender que nunca se desfez a cadeia cujo elo inicial remonta à geração dos anos 70 do “krautrock”. As noções associadas a este tipo de música alargam-se na perspectiva da editora alemã A-musik, para a qual gravam, além dos L@N e dos Wabi Sabi – cujos primeiros trabalhos acabam de chegar ao mercado português –, os F.X. Randomizer, com ligações aos Microstoria.
No caso dos dois primeiros grupos citados, as respectivas propostas diferem nos diferentes enunciados, tanto estéticos como ideológicos, de uma música que, de uma forma geral, se designa por “electrónica”. Os L@N, Rupert Huber e Otto Müller, dividiram as gravações do seu disco de estreia pelo estúdio e por registos de palco. Em termos sonoros, as diferenças são mínimas, já que a música resulta de uma manipulação exaustiva das máquinas e dos seus automatismos, num registo de abstracção que, uma vez mais, remete para as propostas pioneiras dos Cluster. Todos os temas, num total de sete, ostentam a designação L@N, seguida por um número ou uma espécie de patente.
Se os Cluster são o pilar, o carácter impiedoso e sequencial desta música que dispensa qualquer tipo de intervenção das emoções humanas remete, de igual forma, para os To Rococo Rot ou para os espanhóis Esplendor Geometrico. Embora evidenciando sempre marcas que o tornam indissociável dos seus meios de produção, o som consegue ter elasticidade suficiente para manter os acontecimentos musicais em constante mutação, numa escala cuja nitidez contrasta com as metamorfoses subliminares dos Microstoria. Música palpável, apoiada na matemática e na irredutibilidade dos estímulos sensoriais a que recorre, “L@N” contextualiza sem desvios uma certa paranóia urbana e contemporânea, conduzida por uma moral que, nascendo da tecnologia, não deixa de ser idealista. As máquinas também sonham?
Os Wabi Sabi não serão tanto um grupo como um dos múltiplos projectos saídos da mente distorcida de Markus Schmikler, cabeça pensante de bandas como os POL, Kontakta e Microstoria. O mundo em que se movimentam as partículas sonoras de “Wabi Sabi” (dois termos que expressam o poder artístico compreendido “entre o silêncio e o ‘decay’”) é o da música encarada, em primeiro lugar, como um espaço aberto a acontecimentos acústicos ou psicológicos, programados de acordo com uma lógica de contornos pouco perceptíveis.
O primeiro tema, “Wabi sabi”, é uma “composição espacial” para dois canais que evoca a música de computador de François Bayle. Sobre uma trama de “white noise” obsessivo, nascem e morrem detritos radiofónicos, intercalados por estática pura, tornando a audição quase penosa. O segundo tema, “Param”, igualmente desenhado para dois canais, redimensiona a música de uma composição mais extensa, “Drift/Dense”, feita em 1995, sendo os parâmetros sonoros sensivelmente os mesmos de “Wabi sabi”. As “drones” tornam-se, todavia, mais suportáveis, ganhando uma pulsação que chega a dar a ilusão de que nelas habita qualquer coisa vagamente parecida com a vida. Um comboio avança do nada, esmagando o som à sua passagem. Imaginamos formas vagas e obscenas a dançarem no escuro, formando um ente composto por uma acumulação de peças autónomas, animadas de um perturbante movimento. Já perto do fim, a loucura instala-se e uma voz humana dissolve-se no miasma electrónico. A máquina dos L@N parece o paraíso, comparada com o lugar pantanoso, onde o cérebro se afunda, de “Wabi Sabi”.



Madredeus – Entrevista – “A Pequena Eternidade”

Sons

3 de Outubro 1997


A pequena eternidade

Há paraísos e paraísos, artificiais e naturais. Paraísos azul-cueca e paraísos de um azul profundíssimo e transparente. Da cor do céu. O paraíso dos Madredeus é o caminho e a viagem em direcção a este azul, num barco capitaneado por Pedro Ayres com a voz de Teresa Salgueiro a servir de farol. “O Paraíso” é, muito provavelmente, o melhor álbum dos Madredeus.


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Pedro Ayres Magalhães, autor da maior parte das palavras do novo álbum dos Madredeus, quando se trata de uma entrevista, usas essas mesmas palavras num registo que, simultaneamente, esconde e revela. Percebe-se no que diz uma corrente oculta, mas ele prefere escudar-se nas alegrias e na luz do mundo e dos feitos materiais. Mesmo assim, à conversa, o tempo parou por um bocadinho.
PÚBLICO – O paraíso fica onde?
PEDRO AYRES MAGALHÃES – É uma ideia com mais de dois mil anos, sobre a qual se construiu a vida da sociedade ocidental. No caso deste disco, trata-se, na canção com este título, de uma utilização muito especial da voz da Teresa, neste caso aproximada dos modelos da música que ouvi durante a minha vida toda, os “blues”, os “slows” das bandas rock, os solos de guitarra, a música ambiental. Pretende-se ainda mostrar um estado de graça absoluta do próprio conceito Madredeus. Neste momento, o trabalho do grupo decorre numa harmonia que eu nunca tinha conhecido antes. Algo que decorre da conformidade das pessoas e da própria carreira do grupo. Uma mistura de convites e oportunidades, uma chuva de pedidos para os Madredeus se apresentarem nos sítios mais incríveis que se pode imaginar.
P. – Como é que se consegue esse estado de graça no meio de constantes digressões?
R. – Utilizando uma metáfora. É como a construção de um barco. O novo reportório é um barco muito mais forte do que aqueles que construímos até agora.
P. – Assume-se neste álbum como o timoneiro desse barco?
R. – Hoje em dia esse meu capitanear está mais do que consagrado, como nunca esteve até agora. Um estatuto criado e suportado pelos outros músicos.
P. – Há alguma unidade conceptual nas 14 canções que compõem o disco?
R. – Uma unidade de intenção. Foram todas compostas para a figura e para a voz da Teresa, por três autores [Pedro Ayres, Carlos Maria Trindade e José Peixoto] que fizeram três digressões mundiais com o grupo e esta proposta de reportório.
P. – Foram gravar a Itália por alguma razão especial?
R. – Aí há duas coisas. Para gravar o disco era necessário não estarmos em Lisboa, onde toda a gente tem muitas solicitações, família, não sei quê. Depois, fui para Veneza por gosto, apanhava o barco todos os dias para ir passar o dia a tocar e voltar de barco para a cama!… Era o único sítio onde eu podia fazer isso [risos]. É uma metáfora!
P. – A luz da cidade influenciou a luz do disco?
R. – Penso que sim, que ajudou muito. Pensei em muitas coisas quando quis ir para Veneza, que era um destino ideal para a tal construção de um barco para viajar. Tornou-se um lugar ideal nos últimos séculos. Um lugar de peregrinação e de sonho da Europa e do resto do mundo. É uma cidade onde foi cultivada a beleza, o requinte, o exagero e a ostentação, expoentes da criatividade.
P. – É claro que o facto de a apresentação oficial de “O Paraíso” ir ter lugar em Sintra não é por acaso…
R. – Claro que Sintra tem uma ressonância simbólica especial. Vamos estar no Palácio da Vila, o palácio real, que ainda por cima é manuelino. Mas se vamos por aí, há mais símbolos… Também preparámos o disco no CCB, na Praça do Império. O primeiro concerto foi em Évora. Posso fazer um guião fantástico das coisas dos Madredeus. Mas esse é um cenário que não é o objectivo. Acontece naturalmente.
P. – Já que falamos de conotações simbólicas, estou a lembra-me de um disco que gravou há muito tempo, intitulado “O Ocidente Infernal”…
R. – Mas é a mesma ideia! Esse disco tinha duas faces, aquilo que era o lado B era a construção do paraíso tal qual eu a vejo hoje. Como no “Espírito da Paz” já existia a preocupação de criar nas pessoas um estado de paz. Neste momento estamos apenas a repetir a mesma ideia que o mundo rico abraçou. Para nós, músicos, é o paraíso termos estes convites, fazermos estes concertos, chegar lá e ver as salas todas cheias.
P. – Então o lado material é o mais importante?
R. – O lado material é o suporte, qual é a dúvida?
P. – Nunca se cansam de estar tanto tempo juntos?
R. – Precisamente, o reportório actual é útil na ultrapassagem do problema da rotina. É mais interessante de tocar, mais ritmado, mais melodioso e mais pulsante do que tudo o que fizemos até agora.
P. – Os Madredeus encontraram a sua forma ideal?
R. – Não foi por acaso que ao saírem os outros músicos eu preferi que ficassem só os que já lá estavam, porque quis trabalhar com veteranos do processo dos Madredeus, com músicos como o Carlos Maria e o José Peixoto, que são meus professores e não meus alunos. Trabalhar com a sensibilidade, a experiência e a sabedoria deles. Foi isso que fiz e que correu bem. Este grupo, nesta altura, é o grupo ideal.
P. – Quando se chega ao paraíso como é que se sai de lá?
R. – Nunca se chega lá. O paraíso é o caminho e a construção de uma imagem… A música dos Madredeus associa-se melhor a este tema do que, se calhar, a outros, como o combate à pobreza. O que nos mobiliza é o chamamento, ou a invocação, das maiores ambições, da maior ambição do homem, que é o paraíso. Mesmo que não tenha a expressão da construção cristã do paraíso, no pós-morte.
P. – O “paraíso” constrói-se em torno da ideia do tempo?
R. – Sim. A espera, a vivência do tempo, o bom tempo.
P. – Com as “coisas pequenas” que cantam no álbum?
R. – Quando olho para trás, para a carreira pública deste grupo – e este grupo foi feito para ter uma carreira pública – muitas vezes encontro grandes parangonas, grandes palavras sobre a música, que às vezes me obrigam a ter uma relação um pouco extraordinária com as pessoas com quem falo. “Coisas pequenas” é uma canção de amor em que uma mulher diz ao seu amante que não são só coisas pequenas que podemos dar uns aos outros, mas que quando damos coisas grandes é preciso ter a certeza que estamos a dar. É outra metáfora sobre a própria carreira do grupo. Identifico os Madredeus com um caminho lento de aperfeiçoamento.