Arquivo mensal: Agosto 2016

Patti Smith – “The Patti Smith Masters”

Pop Rock

11 de Setembro de 1996

Iluminações

PATTI SMITH
The Patti Smith Masters (8)
6xCD, Arista, distri. BMG

O rock não tem futuro. É provável que não. Mas orgulha-se de um passado e não deixa de sonhar o presente. Patti Smith contribuiu para a construção desse tempo de glória, juntando a poesia e a energia numa obra cuja totalidade foi agora reeditada no formato de antologia. Seis compactos remasterizados, os cinco de originais que gravou entre 1975 e 1979, mais uma selecção dos seus maiores êxitos, incluindo um par de canções do novo “Gone again”


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William S. Burroughs, Robert Mapplethorpe, Vermeer, a literature japonesa do séc. XVI, Madre Teresa de Calcutá, Sam Shepard, Kurosawa, Godard, Woody Allen e, sobretudo, Jean-Arthur Rimbaud são alguns dos múltiplos nomes e interesses que estão ligados a esta artista cuja carreira se iniciou na aurora dos anos 70, a declamar poesia na Esta Village, com a ajuda da guitarra de Lenny Kaye, e a escrever artigos para a “Creem Magazine”. Armada com este arsenal de cultura, influências e amizades, Patti Smith poderia ter optado pelo diletantismo e pela máscara da artista afogada na sua visão. Ao invés disso, esta mulher de ar escanzelado e ar andrógino preferiu a via do rock e do confronto directo, privilegiando o contacto de emoções à dissecação dos conceitos. A reedição completa da sua discografia é, além disso, um bom pretexto para se perceber algum do sentido do “punk” e da maneira como as gerações mais recentes se apropriaram do seu fogo, até das suas entoações vocais (Siouxsie Sioux, P. J. Harvey ou Courtney Love devem-lhe bastante, neste aspecto), nos caso dos “punks” não aproveitando, infelizmente, da sua inteligência. Agora que o “no future” volta a ser palavra de ordem, convém lembrar que o niilismo nunca foi bom conselheiro e que o rock sempre avançou empurrado por ideais. E Patti Smith era, e continua a ser, uma idealista.
A caixa “The Patti Smith Masters” é parca em adereços. Nada de futilidades. Apenas a sobriedade e o tom incisivo que sempre caracterizaram, desde o invólucro ao conteúdo, todos os seus discos. Superfície negra, com caracteres finos impressos em prateado. No interior, os cinco álbuns de originais – “Horses”, de 1975, “Radio Ethiopia”, de 1976, “Easter”, de 1978, “Wave”, de 1979 e “Dream of Life”, de 1988 -, mais um volume de “Selected songs” retiradas destes cinco discos mais duas canções do recente “Gone again”. À remasterização, capas originais, com as fotos de Mapplethorpe, de quem a cantora foi amiga, e informação adicional, juntaram-se um ou dois temas extra a completar cada disco. “Selected songs” apresenta na capa uma foto da mesma sessão de fotografias de “Gone again” e versões iguais às dos álbuns de originais, não se compreendendo, portanto, muito bem o alcance da sua inclusão nesta antologia. A capa, desdobrável, como as restantes cinco, apresenta uma biografia sucinta. A grande qualidade de “Gone again”, para além da “ressurreição” do “punk”, por si sós, eram suficientes para justificar a presente reedição e o interesse renovado pela sua autora, ao ponto de o jornal “Melody Maker”, na sua edição de 6 de Agosto, lhe dedicar três páginas e a “Record Collector” do mesmo mês 15 (!).
“Horses” é o impacte, um ano antes da explosão “punk”. A produção está creditada a John Cale, mas todo o som, na sua violência e crueza, é da responsabilidade de Patti. “Ignorámos todas as sugestões de Cale”, diz ela a este propósito. É o álbum de “Gloria”, um original de Van Morrison, da homenagem a Hendrix, em “Elegie”, dos grandes crescendos poéticos, como “Birdland” e “Land”. O tema extra mostra a sua leitura pessoal de “My generation”, dos The Who. Charles Murray. Do “New Musical Express”, descreveu, na altura, “Horses” como “uma espécie de ensaio definitivo sobre a noite americana enquanto estado de espírito”. “Horses” faz a convergência perfeita do simbolismo de Rimbaud com a violência depurada dos Velvets, justapondo sons e palavras com a precisão de uma faca e a dureza do metal. Faca que Patti Smith usa metaforicamente na definição do seu trabalho seguinte, “Radio Ethiopia”, “a faca que abriu a carne”, naquele que é o álbum mais experimental de toda a sua discografia. Os sintetizadores aparecem pela primeira vez e as experiências sonoras adquirem maior envergadura no título-tema, dez minutos gravados ao vivo que não receiam a utilização do ruído, da distorção e da colagem. Uma “suite” dividida em três partes que prenunciava as técnicas de samplagem, na qual Patti Smith procurou traduzir as explorações com estruturas livres de Albert Ayler. Álbum de alucinações de ópio, o mais marcado por Rimbaud, a quem, de resto, é dedicado.
Curiosamente, no ano de glória do “punk”, 1977, o nome de Patti Smith desaparece de cena. Uma queda do palco, numa actuação na Florida, atirou-a para a cama durante nove meses, impossibilitando-a de participar na orgia. Por outro lado, a anarquia então vigente não era ainda capaz de assimilar a sofisticação, tanto musical como poética, que a cantora não dispensava.
“Easter”, de 1978, é o álbum da ressurreição e inclui o “hit” “Because the night”, co-composto pelo então desconhecido Bruce Springsteen. A produção, assinada por Jimmy Lovine, investe num som mais aberto e declaradamente inserido na estética “new wave”. As palavras continuavam, porém, tão acutilantes como antes, aqui inscritas a raiva na sequência declamada cujo título, “Babelogue”, antecipava a publicação do quinto livro de poesia da cantora, de genérico “Babel”. “Wave” sai em 1979, com produção de Todd Rundgren, ainda mais próximo da pop e do “mainstream”, mas onde não faltam excelentes canções como o caudal de “Dancing barefoot”, comprovativo de que o rock pode swingar, o “hit” “Frederick” e a versão de “So you want to be (a rock’n’roll star)”, dos Byrds.
No ano seguinte, 1980, Patti Smith casa com Fred “Sonic” Smith, ex –MC5, o que a leva a preferir a vida doméstica em detrimento do “show business”. Ela mesmo faz questão de explicar que abandonou a indústria musical mas não a música propriamente dita. O amor leva a melhor durante nove anos, período finalmente interrompido pela edição de “Dream of life”, em 1989, um álbum honesto mas sem o vigor de outrora. A água substituíra o fogo, enquanto a cantora se justificava com a descoberta de novas dimensões do ser e da influência do sol, num mal disfarçado misticismo. “Sonic” Smith viria a morrer cinco anos mais tarde, em 1994. As feridas seriam saradas de forma sublime em “Gone again”, uma história por nós já aqui contada. Do regresso á boa forma e à sua paixão de sempre: o rock, iluminado pelo discernimento e pela poesia.



The Byrds – “Mr. Tambourine Man” + “Turn! Turn! Turn!” + “Fifth Dimension” + “Younger Than Yesterday”

Pop Rock

22 de Maio de 1996
reedições poprock

Mais jovens do que ontem

THE BYRDS
Mr. Tambourine Man (9)
Turn! Turn! Turn! (7)
Fifth Dimension (9)
Younger Than Yesterday (10)
Columbia, distri. Sony Music


byrds

Hitchcock fez deles os maus da fita. Mas para um número considerável de novas bandas pop, os Byrds funcionam como uma das referências principais, na arte de conjugar a liberdade das guitarras com a sedução de uma melodia saída directamente do paraíso. O presente pacote de reedições, em separado, dos quatro primeiros álbuns da banda, sucede à anterior caixa produzida por Bob Irwin, que aqui se responsabilizou pelo trabalho de remasterização. Além da notável melhoria sonora, há a destacar ainda a inclusão de seis “bonus tracks”, extraídos na maioria das sessões de “Mr. Tambourine Man”, por álbum, e a reprodução do “design” das capas originais, acompanhado de textos de introdução à história do grupo e de comentários individuais para cada faixa.
“Mr. Tambourine Man”, de 1965, é, ainda hoje, um álbum seminal, fruto da inspiração de quatro individualidades cuja alquimia resultou no casamento perfeito entre a tradição das raízes “country” e um rock urbano simultaneamente enamorado pela melodia e pela electricidade. Dylan e Pete Seeger são os mestres revisitados e devolvidos de forma luminosa pela guitarra encantatória de Roger McGuinn e as vocalizações em órbita de David Crosby, servindo de engodo para as capacidades de composição reveladas por Gene Clark, que nesta estreia do grupo pretendeu “apenas” transcender os segredos vocais já então apresentados ao mundo pelos Beatles.
No álbum seguinte, gravado no mesmo ano e editado em 1966, os Byrds prestam tributo aos espirituais, ao “gospel” (o título do álbum e do tema de abertura, subintitulado “To everything there is a season”, deriva de uma adaptação de Pete Seeger do “Livro do Eclesiastes”), à “country music” e, de novo a Dylan, cuja leitura do texto do clássico “The times they are a-changin’” é aqui inteiramente subvertida. Gene Clark continua a transformar os seus desgostos de amor em grandes canções, enquanto se tornava num hábito o fecho numa veia satírica.
Depois de se terem despedido no álbum de estreia com uma versão da “country singer” Vera Lynn, usada no filme de Kubrick, “Dr. Strangelove”, os Byrds aceleravam e desviavam em proveito próprio a tonalidade do velho “standard” de “cowboys” “Oh! Susannah”, transformando-a numa deliciosa canção pop. Já agora, não, não são os R.E.M. que tocam em “If you’re gone”. Mas a ligação, talvez excessiva, a um certo classicismo, expresso na inteira adesão a modelos estéticos e ideológicos declaradamente norte-americanos como que normalizam “Turn! Turn! Turn!”, afastando-o da maior liberdade de movimentos e criatividade evidente nos outros álbuns.
“Fifth Dimension”, também de 1966, dá um passo gigantesco. Os Byrds descobriam e, até, antecipavam o psicadelismo. As guitarras soltam-se em estruturas cada vez menos lineares, as vozes viajam e redescobrem-se nessa maior profundidade de campo, com as despesas de composição a serem asseguradas maioritariamente por McGuinn e David Crosby, com arranjos orquestrais a cargo do mago da excentricidade, Van Dyke Parks, mas arrumados com método. O título-tema e “Mr. Spaceman” ilustram o gosto do primeiro pela ficção-científica, enquanto a realidade dura e crua se confunde com o pesadelo em “I come and stand at every door”, história da deambulação fantasmagórica de uma criança morta em Hiroxima. O onirismo atinge o auge em “Eight miles high” (vale a pena escutar a versão alternativa incluída na sequência de bónus), uma das mais inspiradas “drug songs” de todos os tempos, ainda que os seus autores a justifiquem com uma falsa inocência, dizendo tratar-se simplesmente de um voo rotineiro de avião… Não que os aviões não estejam presentes na quinta dimensão dos Byrds. O tema final, “2-4-2 fox trot”, voa ao som dos reactores de um jacto, numa curiosa antecipação de um certo “industrialismo” alucinatório, enquanto “Hey Joe (where you gonna go)” fala sem truques na manga da mentalidade “hippie”, que, mais ou menos na mesma altura, Frank Zappa arrasava pela sátira na recriação deste mesmo tema incluído no genial “We’re only in it for the Money”.
Se “Fifth Dimension” é a porta de acesso ao jardim, o álbum seguinte, “Younger than Yesterday”, editado em 1967, dá a conhecer cada canteiro dos “Mind gardens” descritos na quase “raga” vocal com este nome assinada por David Crosby. As tensões entre os vários músicos, que então ameaçavam a estabilidade do grupo, originaram um conjunto inigualável d canções, no meio das quais não é possível detectar uma única nota ou verso “para encher”. Do balanço corrosivo adornado por um naipe de sopros de “So you want to be a rock’n’roll star” até às “trips” de LSD do caleidoscópico “Renaissance fair” e “Thoughts and words”, passando pela intrusão de vozes alienígenas em “C. T. A. – 102” (a propósito do qual propomos, à laia de diversão, um jogo de adivinhas com solução em “Wolf City”, dos Amon Düül II…), “Younger than Yesterday” ergue-se como um rival de obras como “Sgt. Pepper’s”, dos Beatles ou “Pet Sounds”, dos Beach Boys, enquanto testemunho global e visionário – embora através de um discurso que não poderia ser mais personalizado – das vibrações, sonhos e inquietudes de toda uma geração.



Curved Air – “Live at the BBC”

Pop Rock

22 de Maio de 1996
reedições poprock

Curved Air
Live at the BBC
BAND OF JOY, DISTRI. MVM


ca

Nos anos dourados do progressivo, entre 1970 e 1974, os Curved Air, nome inspirado no álbum “A Rainbow in Curved Air”, de Terry Riley, chegaram a ocupar um lugar de destaque, com uma sólida reputação conseguida à custa da edição sucessiva de “Air Conditioning”, “Second Album” e, sobretudo, “Phantasmagoria”, um dos álbuns chaves de 1972. A originalidade do grupo resultava da química entre as proezas pirotécnicas do violinista Daryl Way (mais tarde fundados dos Wolf), o experimentalismo dos teclados de Francis Monkman (foi dos primeiros a utilizar um computador, num dos temas de “Phantasmagoria”, perdendo-se mais tarde nos Sky) e, sobretudo, da sedução e presença carismática da vocalista Sonja Kristina, hoje relançada numa carreira a solo de vocação “folk”. As gravações BBC agora editadas respeitam a sessões realizadas entre 1970 e 71, às quais foram acopladas três interpretações retiradas de um concerto realizado em 1976 no Paris Theatre, em Londres. Além da qualidade de som, bastante fraca, lamenta-se a não inclusão de qualquer dos temas fortes da banda, mesmo os mais comerciais, como “Back street luv” ou “Marie Antoinette”, havendo a registar, apenas, uma convincente sessão de virtuosismo de Daryl Way, no instrumental “Vivaldi” e uma curiosa e pouco vulgar prestação vocal de Sonja Kristina, em “Blind man”. Ausente a sofisticação formal que caracteriza as gravações de estúdio, fica o desejo de uma chegada em breve ao circuito das importações da reedição de “Phantasmagoria”, este sim, um disco indispensável. (5)