Arquivo mensal: Agosto 2016

Hawkwind – “Hawkwind” + “In Search Of Space” + “Doremi Fasol Latido” + “Space Ritual” + “Hall Of The Mountain Grill”

Pop Rock

17 de Abril de 1996
reedições poprock

“Strip-tease” no espaço

HAWKWIND
Hawkwind (7)
In Search of Space (7)
Doremi Fasol Latido (6)
Space Ritual (7)
Hall of the Mountain Grill (7)
EMI – Premier, import. Lojas Valentim de Carvalho


haw

“Demos o passo em falso há anos”, “We took the wrong step years ago”, uma das faixas do álbum “In Search of Space”, de 1971, podia servir de legenda para a viagem sem tino nem regresso, mas sempre bem regada a ácido, dos Hawkwind, argonautas do “space rock”, de 1969 até aos nossos dias. As actuais reedições, remasterizadas, dos cinco primeiros álbuns da banda incluem temas extra e vêm embaladas em formato “digipak” multidesdobrável.
“Hawkwind”, de 1970, apresenta uma banda paranóica, onde as referências à ficção científica se diluem na angústia de experiências sonoras que devem tanto ao “rhythm’n’blues” como ao “acid-rock” californiano e à desbunda electrónica fora de controle. Uma mistura de caos, drogas, energia sexual e literatura que situou os Hawkwind algures nas proximidades dos Amon Düül II, de “Phalus Dei”. A capa é considerada uma das mais “tripantes” da fase inicial do progressivo.
O álbum seguinte, “In Search of Space”, encontra o grupo em plena “trip” cosmocomunitária, com raízes na “Heroic fantasy”. Relevo para “You shouldn’t do that”, 16 minutos de descolagem de uma nave espacial com o motor gripado, com a guitarra saturada de Dave Brock a sufocar os soluços do saxofone de Nik Turner (uma espécie de David Jackson, dos Van Der graaf, mais primitivo), enquanto Dik Mik e Del Dettmar se entretinham a carregar nos botões e cursores do “áudio generator” e do sintetizador VCS3. As apresentações ao vivo contavam ainda com a dança “ritual” de Stacia, uma “stripper” que acabava invariavelmente nua em palco. “Adjust me”, com vozes em aceleração de rotações, “We took the wrong step years ago”, balada psicadélica de ressaca, e o precursor das ondas “heavy”, “Master of the universe”, conferem a este disco uma mística estranha para a qual muito contribui o livrete delirante que acompanhava a edição original e a presente reedição teve o cuidado de reproduzir.
“Doremi Fasol Latido”, de 1972, é uma “colecção de “hinos espaciais” e “canções de batalha”, pesados, monocórdicos e hipnóticos, quase velvetianos, na brutalidade e nas estruturas repetitivas e massacrantes das guitarras.
No mesmo ano foi editado o duplo ao vivo “Space Ritual” – para muitos, o auge da estética “space rock”. Antigos e novos temas alinham-se numa progressão implacável de ritmos robóticos, “riffs” de guitarra na melhor tradição do “metal” (“Brainstorm”, um dos hinos do grupo), contorcionismos de electrónica em estado bruto e interlúdios de declamação pelo poeta Robert Calvert (autor de interessantes álbuns a solo na companhia de Brian Eno, como “Captain Lockheed and the Strafighters” e “Lucky Leif and the Long Ships”) e Michael Moorcock, escritor de “sci-fi” e guru da banda.
“Hall of the Mountain Grill”, de 1974, funciona como album de transição, que deixa patente o protagonismo de Simon House, nos teclados e violino, em ex-High Tide que trouxe para a música dos Hawkwind cambiantes de classicismo, juntando os “mellotrons” dos Moody Blues à electrónica estelar dos Tangerine Dream da “Alpha Centauri”, no tema “Wind of change”. Qualquer destes discos deve ser ouvido alto, muito alto.



Moebius & Plank – “En Route”

Pop Rock

30 de Março de 1996
reedições poprock

Moebius & Plank
En Route
NO-CD, DISTRI. SYMBIOSE


mp

Há quem se derreta com o melaço “new age” satieano de Roedelius, mas o músculo dos Cluster sempre pertenceu à outra metade do duo, Dieter Moebius, um motor em rotação constante. Na sua quarta colaboração com um dos padrinhos da electrónica alemã, Conny Plank (depois de “Rastakraut Pasta”, “Material” e “Zero Set”, com Mani neumeier, baterista dos Guru Guru), Moebius retoma aqui a sua estética habitual de repetitivismos robóticos, numa linha mais industrial que os Kraftwerk, entre o tribalismo africano e as auto-estradas teutónicas. O compacto acrescenta três remisturas à versão original de 1986. (8)



Pink Floyd – “More” + “Relics” + “Obscured By Clouds”

Pop Rock

20 de Março de 1996
Reedições poprock

Relíquias do paraíso perdido

PINK FLOYD
More (8)
Relics (8)
Obscured by Clouds (6)
EMI, distri. EMI-VC


more

Está completa a reedição remasterizada e reempacotada de toda a discografia dos Floyd até “The Wall”. Resta saber se as novas versões, em termos de som, ficam a ganhar ou a perder em comparação com as anteriores edições, que alguns ouvidos juram ser mais fiéis aos originais em vinilo, questão polémica e sempre subjectiva. As novas embalagens, essa ganharam conteúdo, cor e informação. “More” e “Obscured by Clouds” são bandas sonoras de filmes de Barbet Schroeder. Duas viagens, uma má, “More”, de queda na dependência da heroína, outra, de “La Valée”, “boa”, iniciação psicadélica de um casal em busca do paraíso perdido nos confins da Amazónia. Os compactos trazem as respectivas sinopses, todas as letras e boas fotos a cores. Em “Relics” o desenho original a preto e branco de Nick Mason foi substituído por uma réplica construída e fotografada do estranho galeão-instrumento musical.
Sobre a música já tudo foi dito. “More”, de 1969, corresponde à fase experimental dos Floyd, situando-se a sua edição entre “A Saucerful of Secrets” e o duplo “Ummagumma”. Tem excelentes canções, na melhor tradição das baladas dolentes que então tinham o mesmo efeito que a ingestão de “drunfes”, como “Cirrus minor”, “The Nile Song” ou “Cymbaline”, ao lado de esquiços instrumentais que experimentavam o lado mais dramático e espacial da música do grupo. “Obscured by Clouds”, sucessor de “Meddle”, pelo contrário, apresenta uma faceta mais violenta e rock, por vezes próxima do “mainstream” e da poluição “FM”, que antecipava as vocalizações mais terra a terra e o lado tecnocrata de um som que explodiria e enjoaria até à exaustão no sobrestimado “Dark Side of the Moon”. Mesmo assim vale a pena recordar boas canções, à maneira antiga, como “Burning bridges” ou a colagem final, com a vozes dos índios papuas, em “Absolutely curtains”. “Relics” reúne versões diferentes dos primeiros singles dos Floyd, ainda com Syd barrett, como “Arnold Layne”, “Emily Play”, “Paintbox” ou “Júlia dream”, alem de faixas, também com durações diferentes dos originais, dos dois primeiros álbuns do grupo, “The Piper at the Gates of dawn” e “A Saucerful of Secrets”. Um caleidoscópio que resume na perfeição o termo “psicadelismo”.