Arquivo mensal: Agosto 2016

Tir Na Nog – “A Tear And A Smile” + “Strong In The Sun”

Pop Rock

6 de Novembro de 1996
reedições

Tir Na Nog
A Tear and a Smile (7)
Strong in the Sun (6)
EDSEL, DISTRI. MEGAMÚSICA


tnn

Na onda de fundo que levou, em 1969, o Psicadelismo a transformar-se em Progressivo, houve quem aproveitasse a troca de rótulos para fazer passar uma música acústica que, ao contrário da maioria dos primeiros progs, não tinha raízes no “rhythm’n blues” mas na “folk”. Estavam nesse barco os Tir Na Nog, duo formado por Sonny Condell e Leo O’Kelly, ao lado de formações como os Dando Shaft, Trader Horne, Tudor Lodge, Mellow Candle, Magna Carta, Spirogyra, Trees, entre outras. “A Tear and a Smile”, de 1972, é uma deliciosa pintura de interiores da Inglaterra da época, com o coração em Donovan e Simon & Garfunkel, um gosto marcante pelas guitarras de 12 cordas e pelo sabor e textura das vozes, e melodias entrançadas numa floresta encantada. No álbum seguinte, “Strong in the Sun”, de 1973, os Tir Na Nog quiseram tornar-se progressivos a sério e desorientaram-se, perdendo parte da magia inicial. Mesmo assim, entre derivações eléctricas que soavam a miniaturas incompletas dos grandes épicos Prog. de então, é possível encontrar deliciosos pedaços de rendilhado acústico, como “Teeside”, “In the morning” e “Most magical”. Para os nostálgicos sem preconceitos.



Art – “Supernatural Fairy Tales” + Spooky – “Tooth It’s All About”

Pop Rock

6 de Novembro de 1996
reedições

Art
Supernatural Fairy Tales (6)
Spooky Tooth
It’s all about (7)
EDSEL, DISTRI. MEGAMÚSICA


art

Gravado em mono, em 1967, com o número de catálogo original ILPS 967 (!), “Supernatural Fairy Tales” é considerado, nos meios coleccionistas, um dos ícones do psicadelismo. Tem tudo o que de positivo e de negativo fez este género: uma capa para tripar (da autoria dos míticos Hapshash and the Coloured Coat), guitarras ensopadas em ácido, pequenos sons escondidos na mistura para delícia dos “acid heads” e uma versão despropositada de “What’s that sound”, de Stephen Stills. Os Art eram a versão psicadélica dos V.I.P. e, depois deste álbum, mudaram de novo de nome, passando a chamar-se Spooky Tooth – este, sim, um nome já conhecido da maioria dos apreciadores do Progressivo. Com um novo elemento, Gary Wright, na voz e no órgão, e uma produção mais cuidada, os Spooky Tooth mostraram argumentos com outra solidez para a sua mistura de “soul” e psicadelismo. Baladas “tripantes” e as alucinações aquáticas de “Bubbles” soam hoje estranhamente apelativas, dando razão a quem se prepara para receber 1997 como a continuação, trinta anos depois, do “Summer of love” de 1967. Encontra-se também disponível, deste grupo, “The Last Puff”, cujo único ponto de interesse consiste na versão memorável de “I am the walrus”, dos Beatles.



Frank Zappa – “Läther”

Pop Rock

30 de Outubro de 1996
reedições poprock

Baba de vaca

FRANK ZAPPA
Läther (10)
3xCD Rykodisc, distri. MVM


fz

O homem continua vivo. O homem e o génio. “Läther” (sem trema, significa baba…) não é apenas mais um punhado de material desenterrado do vaso de cinzas do defunto, mas, de facto, “the great lost Frank Zappa album”, a peça que faltava no imenso “puzzle”deixado para a posteridade por um dos maiores compositores deste século.
Inicialmente pensado por Zappa para ser editado em 1977 na forma de uma caixa com quatro álbuns em vinilo, apenas agora, 19 anos após a ideia original, vê a luz do dia, num triplo compacto reunindo material inédito, entre temas e versões nunca editados e remisturas alternativas, que acabaram por surgir no mercado em quatro álbuns separados, entre 1978 e 1979.
Lá dentro, é o delírio. Nada soa a requentado ou a lixo reciclado, como é costume acontecer com frequência em projectos desta envergadura. Pelo contrário, as múltiplas vertentes da música do autor de “We’re only in it for the money” adquirem aqui um relevo ainda maior, experimentando a cada momento novas hipóteses e fórmulas. Pequenos desenhos animados alternam com ridicularias vocais na fronteira da demência, solos de guitarra iluminada cede o passo a sinfonias de complexidade quase paranóica. Está aqui tudo: as invenções e desinvenções de estilo, os contextos e a sua descontextualização, a forma e o paradoxo cultivados milimetricamente e com a distanciação dos deuses por Zappa.
Frank Zappa transformou as linguagens populares e eruditas – a “surf music”, o “hard rock”, os “blues”, a pop imbecil, o jazz, a canção de variedades, o serialismo, a música concreta, a música de câmara, a electrónica – em espectáculo, metendo-as todas no mesmo saco. Um saco sem fundo onde o seu cérebro fervilhante ia buscar alimento, moendo e deglutindo, ironizando e destruindo, desmontando e remontando de novo, até transformar toda essa matéria-prima num ser sonoro e conceptual autónomo que deixou em ruínas e sem capacidade de resposta a concorrência.
Talvez por esse motivo, Frank Zappa teve sempre a sua música arrumada num compartimento sem vizinho do lado, resguardando-se, ou protegendo-se, para construir sem entraves uma obra que até ao fim se regeu por normas que a mais ninguém se aplicavam e que apenas aproveitaram a quem tinha uma visão, pelo menos, de tão longo alcance como a sua. Frank Zappa, repetimo-lo com uma reverência aumentada e reavivada pela audição de “Läther”, era um génio.
Foram então dois grupos igualmente geniais os únicos capazes de assimilar algumas das suas regras para construírem, por sua vez, obra própria e intransmissível pelo lado das aparências: Faust e Henry Cow. Ambas as formações marcaram a música sem rótulos, mas avançada e desestabilizadora dos anos 70, fazendo escola pelas décadas seguintes (Negativland e todo um séquito de mentes bizarras, no caso dos germânicos; a imensa legião “Recommended”, no caso dos ingleses, liderada por Fred Frith e Chris Cutler).
Zappa foi o director, o professor e o contínuo da universidade. A matéria que leccionou e com a qual brincou durante toda a vida foi a música em estado puro. E é música em estado puro que percorre “Läther” da primeira à última faixa. Impossível destacar pormenores. Quando pensamos estar num lugar, já estamos sem remédio noutro. Quando pensamos poder descansar no conforto de um assento de um auditório clássico, somos abanados por uma anedota. E quando nos dispomos a rir da anedota, já o universo se modificou de novo e o cenário tanto pode ser um “blues” de alta voltagem como a visita, sem guia, pelo interior de uma construção barroca.
“Läther” exige que se lhe preste atenção. “Läther” torna banais as caganitas sonoras que, passados 20 anos, nos infestam os ouvidos a cada instante. “Läther” obriga a consultar, uma vez mais, toda a discografia do músico. “Läther” reduz a pó o tempo. “Läther” ficará, como ficou a maioria dos álbuns de Zappa (sim, porque há coisas dispensáveis, sobretudo nos anos 80…), connosco para sempre, obrigando-nos a reflectir. A capa de “Läther” é uma vaca, a mais louca das bovinas. Uma exagerada vaca de brinquedo, sobre um pasto exageradamente verde, sob um céu exageradamente azul. Porque Zappa sempre foi exageradamente Zappa.