Arquivo mensal: Maio 2016

Dan Ar Braz – “Héritage Des Celtes”

Pop Rock

8 de Fevereiro de 1995
álbuns world

DAN AR BRAZ
Héritage des Celtes

Columbia, distri. Sony Music


dab

Dan Ar Braz, guitarrista com passado feito na banda de Alan Stivell, não oferece, com a sua posterior obra a solo, grandes motivos de elogio, ao contrário do que aconteceu com outro companheiro seu e de Stivell, Gabriel Yacoub. Braz raramente conseguiu ultrapassar os limites de uma música bonitinha, nas margens do “mainstream”, do rock sinfónico e da “new age”. Neste disco, resolveu empenhar-se num projecto mais “sério”. Só que tanta seriedade não passa de pretensão e os resultados reduzem-se a uma declaração de intenções. A “herança dos celtas” reduz-se aqui a algumas canções de variedades, na voz – bonita – de Karen Matherson, dos Capercaillie, como “Language of the gaels”, gaitadas ao melhor estilo “polaroid” de castelo escocês, doses reforçadas de reverberação (é o que está a dar com os “celtas”…), teorizações (“uma breve história de…” sobre o povo que 2000 anos antes de Cristo já tinha conquistado a Europa, os Balcãs e a Ásia Menor), uma apresentação de luxo (a capa é a 1328ª variação sobre a tripla espiral “an triskell”) e o lote de convidados escolhidos a dedo da ordem, entre os quais Patrig Molard, Jacques Pellen, Jean-Michel Veillon, Donnal Lunny, Nollaig Casey, a Shotts Pipe Band e a Bagad Kemper. Ou seja, gente recrutada das várias regiões célticas, o que não chega para fazer de “Héritage des Celtes” uma obra com o fôlego e a importância de “Symphonie Celtique” de Alan Stivell. Os únicos momentos onde a música consegue desligar o interruptor do “disco de fusão com celtas e batida rock” e ser algo mais que o simples afago dos sentidos são aqueles em que o bretão Yann Fanch Kemener, em “Maro eo ma mestrez” (numa versão bastante diferente da incluída no lendário “Chemins de Terre”, ainda de Stivell) e “Me zo ganet e kreiz ar mor” (aqui com uma segunda guitarra, de Jacques Pellen, e em diálogo com outro bretão lendário, Gilles Servat), ensina que a simplicidade é a melhor forma de chegar ao santuário do templo. O armazém Braz & Braz, ao contrário do outro, não tem. (5)



The Chieftains – “The Long Black Veil”

Pop Rock

25 de Janeiro de 1995
álbuns world

CALDO ENTORNADO

THE CHIEFTAINS
The Long Black Veil (6)

RCA, distri. BMG


chief

Está entornado, o caldo! Os Chieftains, a banda das bandas irlandesas de música tradicional, deu o primeiro passo em falso numa carreira que recentemente celebrou o seu trigésimo aniversário. Transformados em estrelas internacionais, facto a que não será alheio a sua passagem para uma multinacional, a banda do “virtuose” das “uillean pipes”, Paddy Moloney, notabilizou-se nos últimos tempos por trazer para os seus discos nomes famosos da cena pop anglo-americana. Até agora isso não impediu que a música continuasse a ter o toque e a magia especiais dos Chieftains. Era um processo controlado, no qual os convidados contribuíam com perspectivas diferentes, o que tinha inclusive a virtude de evitar que a rotina se instalasse no seio do grupo. Em “The Long Black Veil” manifestam-se porém os efeitos perversos dessa atitude, de tal forma se incorreu no excesso de enfiar “estrelas”, cada vez de nomes mais sonantes, numa música que pela primeira vez parece sofrer de obesidade e alguma ostentação. Para além de Van Morrison, aqui num monótono tema da sua autoria “Have I told you lately that I love you?”, convidado habitual dos Chieftains num passado recente, não é particularmente excitante ouvir Sting cantar “Mo ghile mear” (“Our hero”), Mick Jagger esforçar-se por dar credibilidade ao título-tema, Mark Knopfler aligeirar “The lily of the west”, ou Sinead O’ Connor a dar tudo por tudo para se parecer com uma “folk singer”, mas sem chegar aos calcanhares das grandes cantoras irlandesas tradicionais, em “The foggy dew” e “He moved through the fair” (a propósito, “The Long Black Veil” é uma espécie de “bê-á-bá” da música tradicional, com a inclusão de vários dos seus temas mais estafados). Divertida é o menos que se poderá dizer da interpretação do canastrão “crooner” Tom Jones, em “Tennesse waltz/Tennesse mazurka”, dedicada a Frank Zappa e gravada na casa do mesmo. Ry Cooder, por seu lado, acrescenta uma dose de espacialidade e faz seus “Coast of Malabar” e “Dunmore lassies”. Marianne Faithfull cumpre, com a sua voz sofredora de sempre, em “Love is teasin’”. Verdadeiramente caricata e, a nosso ver, inútil é a desbunda final dos Chieftains com os Rolling Stones (!), no tradicional “Rocky road to Dublin”, por muito que Paddy Moloney diga que foi “the most enjoyable” momento da gravação. Uma confusão onde tocam todos ao mesmo tempo, de certeza muito divertidos, e é possível ouvir, entre o chinfrim, a guitarra de Keith Richards a lançar no caos um punhado de notas de “Satisfaction”. Mas pronto, é a glória. Nos currículos de ambos já poderá constar que a maior banda folk do planeta tocou com a maior banda rock do planeta e vice-versa…
No meio do verniz dos convidados, faz pena ver escrita em letras menores o nome dos verdadeiros artífices de “Long Black Veil”, afinal aqueles que contribuem para que o projecto não vá ao fundo: o gaiteiro galego Carlos Nuñez, os acordeonistas Mairtin O’ Connor e James Keane, o guitarrista Arty McGlynn e o coro dos Anúna. São eles as verdadeiras estrelas e os pilares de “The Long Black Veil”, um disco onde os anfitriões quase têm de pedir licença para se fazerem ouvir. Esqueça-se a barafunda e procure-se conforto na vocalização, de longe a melhor do disco, do “humilde” vocalista da banda, Kevin Conneff, em “Changing your demeanour”. E agora quem é que os Chieftains poderão convidar para a próxima? Talvez o Papa?



Vários – “Folk Routes”

Pop Rock

18 de Janeiro de 1995
álbuns world
reedições

Vários
Folk Routes

ISLAND, DISTRI. BMG


fr

Das profundezas do catálogo Island emergiu um galeão carregado de tesouros. A época, não é difícil de adivinhar, é o final dos anos 60, início dos 70, e o mar o da música folk, então uma força viva tanto neste como noutros selos rivais que repartiam o seu interesse igualmente pela música progressiva. Mas foi na Island, em grande parte devido ao interesse pelos sons tradicionais do produtor Joe Byrd (“descobriu”, entre outros, John Martyn, Nick Drake e os Fairport Convention e foi buscar os Incredible String Band à Elektra), que a onda do “folk progressivo” rebentou com maior intensidade.
“Folk Routes” recupera temas extraídos de álbuns lançados neste editora entre 1969 e 1972 de nomes que posteriormente traçariam algumas das linhas de força que marcariam a evolução da folk nas Ilhas Britânicas. Estão neste caso os Fairport Convention, com um tema de “What We Did on Our Holidays” e outro de “Liege and Leaf”, os Albion Country Band, do seminal “Battle of the Field”, e Ashley Hutchings com John Kirkpatrick num excerto do genial compêndio de dança chamado “The Compleat Dancing Master”.
Ocasionais visitantes da folk, encontramos os Traffic de “John Barleycorn must Die”, John Martyn, de “The Tumbler”, Nick Drake, de “Pink Moon”, Richard e Linda Thompson, do excepcional “I Want to See the Bright Lights Tonight”, os Dr. Strangely Strange (veneravam e cultivavam o mesmo tipo de sonoridades dos Incredible String Band, passando posteriormente para a Vertigo), de “Kip of the Serenes”, os próprios Incredible String Band, de “Earthspan”, e um dos seus membros, Mike Heron, de “Smiling Men with Bad Reputations”. Curiosidades são o tema de abertura, uma brincadeira medievalesca dos Amazing Blondel, “Fantasia Lindum”, uma das desbundas de folk rock contidas em “Rock on”, pela superbanda de ocasião The Bunch, e o fecho, um “hornpipe” do violinista inglês John Locke, gravado em cilindro de cera pelo mítico Cecil Sharpe e editado pela primeira vez em 1976 num álbum de genérico “Rattlebone & Ploughjack”.
Presença emblemática ao longo de todo o disco é a de Sandy Denny, símbolo de uma atitude e de toda uma época que, com a sua morte, se perderam. A cantora aparece cinco vezes em “Folk Routes”: nos já citados álbuns dos Fairports, no colectivo The Bunch, num tema do disco único dos Fotheringay e naquela que é uma das preciosidades deste disco, o “single” “Man of iron”, incluído na banda sonora de “The Pass of Arms” e editado pela primeira vez em compacto.
Uma boa porta de entrada para os neófitos e uma recordação a não perder pelos que ainda se lembram do tempo em que a “folk” acordou e pegou em armas. (8)