Arquivo mensal: Fevereiro 2016

Camané – “Uma Noite De Fados”

POP ROCK

3 de Maio de 1995
álbuns portugueses

Camané
Uma Noite de Fados

EMI-VC


cam

De tão simples, a ideia chega a espantar. Mas era preciso que alguém a pusesse em prática, e esse alguém tinha de ser José Mário Branco, mestre entre os mestres da produção. Gravar em estúdio como se fosse ao vivo ou vice-versa, eis a questão que se punha. A solução foi a criação de um cenário realista de uma casa de fados onde, ao mesmo tempo, fosse possível acontecer toda a emoção inerente ao fado cantado “in loco” nos sítios tradicionais e reunir as melhores condições técnicas da captação possíveis. Montado tal cenário, faltava saber se o fadista conseguiria tirar o máximo partido da situação. Ao desafio assim colocado pelo produtor respondeu Camané da melhor maneira. A garra do fadista veio ao de cima, com uma pureza despojada, afastadas as distracções, os fumos, os aplausos extemporâneos, as falhas que espreitam sempre que a emoção toma o freio nos dentes e a disciplina não lhe acompanha o passo. Excelentes o peso e a medida da voz e do sentimento de Camané em “Esquina da rua” (com algumas oscilações de volume pelo meio), “O espaço e o tempo”, “A saudade aconteceu”, “Fado da sina” e “Esta contínua saudade”. “Fado da tristeza” toca no fado-canção e em cantos antigos de um Carlos do Carmo, um toque em que é visível o dedo de José Mário Branco como compositor, enquanto “Saudades trago comigo” deixa adivinhar as condições de ambiente em que foi gravado. Em síntese, um projecto conseguido e inovador que volta a colocar o fado no lugar que lhe compete, na estreia em disco de um dos “veteranos” mais jovens do circuito. (7)



Rafael Toral – “Sound Mind, Sound Body”

POP ROCK

15 de Fevereiro de 1995
álbuns portugueses

Rafael Toral
Sound Mind, Sound Body

ED. E DISTRI. ANANANA


rt

Estreia a solo do guitarrista, se descontarmos a sua dupla participação na colectânea “Em Tempo Real”, incluindo a colaboração com os No Noise Reduction. Quatro temas (contando como um as duas versões de “Loopability”), compostos entre 1987 e 1992, primam pela falta de originalidade e pouco mais mostram do que exercícios de estilo razoavelmente decalcados de músicos como Robert Fripp (sobreposição de contínuos electrónicos em “A E R 4”) da época de “Evening Star”, com Brian Eno, Fred Frith (“A E R 7 E” nas suas divisões do tempo ao longo de 12 monótonos minutos) e Glenn Branca, nas harmonizações massificantes, efectuadas ao vivo com Sapo, Jorge Pinheiro e João Oliveira e Silva, na Galeria Monumental em Dezembro de 1991. Os dois temas intitulados “Loopability” não passam disso mesmo, manipulações básicas de fitas magnéticas, com recurso ao sampler, sem qualquer aspecto minimamente estimulante ou, no mínimo, interessante. Não se percebe a finalidade deste disco. Estamos em 1995, não em 1975. A guitarra evoluiu. Toral deveria fazer o mesmo.



Luís Cília – “Bailados”

POP ROCK

15 de Fevereiro de 1995
álbuns portugueses

Luís Cília
Bailados

ED. E DISTRI. STRAUSS


lc

Não fala muito, não aparece na televisão e os seus discos não fazem parte das “playlists” da rádio. Luís Cília limita-se a fazer música. Excelente música. “Regra do Fogo”, editado em 1988, revelou o compositor liberto do espartilho das ideologias, num álbum de música instrumental que ficará para a história. Nos últimos tempos Cília tem composto sobretudo na área do bailado, sendo uma presente trabalho uma colectânea de alguns desses registos e, em simultâneo, o resultado de uma investigação apurada no domínio dos “samplers” e outras tecnologias digitais. “Bailados” reúne composições para coreografias de Paulo Ribeiro, Rui Horta, Rui Nunes e Clara Andermat, a par da recriação de um tema de Henry Purcell e um tradicional da Covilhã. Em “Une histoire de Passion”, as semelhanças com os Tuxedomoon são notórias, nomeadamente no fraseado de um saxofone samplado. “Encantado de servi-lo” integra os pressupostos do minimalismo e as sonoridades de outro notável compositor de bandas-sonoras da actualidade, Gabriel Yared. Um “loop” de uma voz feminina da aldeia de Paul serve de mote a “Encantados de servi-lo II”, uma composição encantatória baseada num tradicional beirão recolhido por José Alberto Sardinha. Em “O sonho de Ícaro”, Cília movimenta-se nas mesmas linhas circulares de outro minimalista americano, o heterodoxo David Borden, autor da história interminável “Electric Counterpoint”, enquanto na segunda versão do mesmo tema a nota é de classicismo à maneira de Purcell, precisamente, subvertido pela incursão de um piano samplado. “Uma ilha num copo de sumo I”, composto para um projecto pedagógico multidisciplinar com crianças do ensino secundário, é o tema onde Luís Cília leva mais longe a exploração dos “samplers”, numa cornucópia de efeitos que inclui toda a espécie de sonoridades, incluindo o miado de um gato. Já a versão dois do mesmo tema regressa às texturas rítmicas minimais próximas de David Borden e o tema final, “Mel”, ao universo Purcelliano. Ao Luís Cília “digitalizado” faltará talvez apenas a invenção de um programa mais personalizado. (7)