Sérgio Godinho
Salão de Festas
PHILIPS, DISTRI. POLYGRAM
Gravado no ano de Orwell, 1984, “Salão de Festas” é um álbum luminoso e de uma simplicidade desarmante, como são todas as obras maiores. Aqui estão as luzes que brilham desde sempre na carreira discográfica do autor: a dança com o som das palavras, o tom jocoso-popular, na crítica de costumes se um “coro das velhas”, o olhar cinematográfico que enquadra cada história como se a vida fosse uma sucessão de episódios de telenovela, umas vezes ternos, como na mudança de canal de “Chave de Vidro”, outros filmados em “cinemascope”, como num “Duelo ao sol” de sons e atitudes, inspirado em King Vidor, ou a preto e branco, como numa “Quimera do ouro” de amores caleidoscópicos.
“Mil pedaços” é um “close-up”, pedaço de vida arrancado do quotidiano, um daqueles exercícios em que o compositor é perito, de poetizar o instante que muita gente reivindica como seu. Estendam-se os elogios aos dois autores dos arranjos: Luís Caldeira e José Martins. (8)
Janita Salomé
A Cantar ao Sol
ED. E DISTRI. EMI-VALENTIM DE CARVALHO
Que bom que era, em 1983, ouvir ao voz ao sol, a voz de sol, de Janita Salomé. Sentarmo-nos numa tarde à sombra de uma rua em Casablanca atentos a ouvir os ecos de um Alentejo lá mais para Norte… Ouvimos este disco, esta voz, depurados como o muro e as paredes de uma cidade assombrada de sol da capa, e percebemos tudo o que esta voz perdeu quando se deixou seduzir e enfeitar pelas falsas riquezas de arranjos empastados com pedras de fancaria, no recente “Raiano”. Assim decaem os impérios, tragados pelo novo-riquismo. Aqui, então, era apenas a voz vibrante e vibrátil de Janita, as suas percussões e as cordas de Júlio Pereira e Pedro Caldeira Cabral, suficientes para tecer o feitiço. Veículos ao serviço de uma música aberta às influências do Norte de África, do ar e dos pássaros, filtradas pela individualidade de um alentejano do universo. Brilhante, a luz antiga transportada na “ghaita”, supomos que marroquina, de Pedro Caldeira Cabral, em “Extravagante” (que, estranhamente, aparece duas vezes com o título “Extravagente” na ficha técnica…). Profundo e elevado o “cante”, em Pavão”. Mais próximo do Mediterrâneo e das moiras encantadas, em “São João”. Nem a “heresia” de ter subido à Beira Baixa para se deixar contagiar pela alegria de umas “Saias” retira a “A cantar ao Sol” o sabor dos grandes espaços e das grandes sedes cósmicas que em “Não é fácil amor” se abrigam e concentram no recato de um coração do tamanho do mundo. Uma das grandes, uma das maiores composições de Janita Salomé de sempre. Por fim, a partida, para as estrelas que brilham na “escuridão vinda do Oriente”, em “Quando chegou a lua cheia”, e no instrumental “Na Palestina”, alimentado pelo violino de Carlos Zíngaro. Viajava para bem longe, nestes anos que hoje parecem já tão afastados, Janita Salomé. (8)
6 de Dezembro de 1995 Os melhores de sempre – música portuguesa
GAC
“Pois Canté!”
Como foi
O GAC-Grupo de Acção Cultural, nasceu das cinzas do CAC-Colectivo de Acção Cultural. O CAC formou-se seis dias depois do golpe de Estado do 25 de Abril, mais precisamente na madrugada do 1º de Maio. Ou, mais precisamente, “no dia 30 de Abril, à noite, no dia em que cheguei de França, na casa, salvo erro, do José Jorge Letria” – recorda José Mário Branco. O antifascismo estava na ordem do dia, do minuto, do segundo. Um primeiro manifesto foi subscrito por todos os que se situavam à esquerda do antigo regime. Mas as divergências surgiram cedo – por razões ideológicas. “Entre os PC e a extrema-esquerda e mesmo alguns PS como o Manuel Alegre”. O GAC, desde o início, assumiu-se como frente musical da UDP. José Mário Branco, maoísta e militante do partido, foi o seu mentor, no período anterior a “E Vira Bom” e “Ronda da Alegria”. Era ele o mais velho, comparado com “a malta que viera da Juventude Musical Portuguesa”.
“Pois Canté!” aparece dois anos depois do conflito ideológico que determinou a extinção do CAC. Antes fora já editada a colectânea de “singles” dispersos, “A Cantiga é uma Arma”, composta por “cantigas essencialmente heróicas, hinos…” Em relação a “Pois Cante!” (o título original leva dois pontos de exclamação, mas optámos pela poupança de caracteres), José Mário Branco fala em “fusão”: “Devido à nossa própria formação musical, às nossas origens e à influência dos mentores do que foi a resistência do canto popular em Portugal. Além da linha do José Afonso, o que havia era a linha do Lopes Graça e do Giacometti. Acontece que esse canto ideológico – que está nos primórdios do GAC no ‘A Cantiga é uma Arma’ – é muito marcado por toda a tradição do canto ideológico, com as cantigas heróicas do Graça mas também pela experiência que terá havido em mim, fruto do contacto com o Eisler, o Kurt Weill e o canto heróico brechtiano.”
Mas “Pois Canté!” transcende a simples afirmação ideológica. A presença da música tradicional já se fazia sentir: “Alguns de nós, como o Luís Pedro [Luís Pedro Faro, actual director musical do grupo coral feminino Cramol], tinham uma formação nesse campo, da etnomusicologia.” Estavam criadas as condições para se criar a tal “fusão”: “Dá-se um encontro entre uma atitude que se poderia dizer ‘de canção’, que era a minha, do Sérgio Godinho ou do Zeca, com uma atitude de ‘canto heróico’ e uma atitude de ‘canto etnográfico’, imitativo, reprodutor de técnicas tradicionais de canto e toque de instrumentos.”
Encontros que José Mário Branco define como “um correr de risco”: “Não queríamos cometer leviandades, encarar levianamente a fusão desses elementos.” Este respeito estendia-se “à ideologia, aos princípios revolucionários perfilhados”. Para ele, “a situação social portuguesa obrigou, serviu de motivação, para experimentar coisas extremamente diferentes do que era habitual”. “Fomos para a rua, para as fábricas, para os campos, pusemos a questão da utilidade, da eficácia imediata do canto para fins sociais.”
Mais pessimista, ou realista, o autor de “Ser Solidário” acaba por reconhecer que “a própria indisciplina do movimento social”, que motivava o grupo e sobre o qual “tudo se apoiava” – uma indisciplina “se traduzia também nas estruturas políticas” e, forçosamente, “no grupo” – “levou a que certos objectivos não tivesse dado resultado, aliás, como tudo o resto da revolução, que também não deu resultado”.
“Pois Canté!” foi um álbum revolucionário até no sistema de produção (própria) e distribuição: “Uma distribuição paralela por vias das organizações das colectividades, dos sindicatos e da organização política a que o GAC esteve ligado, a UDP.” A seguir, vem a parte pior: “Mas depois ficámos sem o dinheiro, nunca mais vinha, era uma indisciplina total. Tudo faliu por esse lado.”
José Mário Branco, enquanto homem político – “havia uma consciência do movimento social que tomou totalmente conta de mim” -, não impediu a afirmação de José Mário Branco enquanto músico. O que significa que a arte não ficou assim tão desvalorizada, por oposição à política, como as afirmações públicas do grupo quiseram fazer crer. “Pois, o que nos separava não era a questão artística, mas sim a de estarmos ao ‘serviço de quê’. O GAC definiu-se completamente de uma forma partidária, ao contrário, por exemplo, do Zeca, que nunca se definiu como tal.”
Neste ponto José Mário Branco embrenhou-se na evocação das diferenças ideológicas que o separaram, na altura, de José Afonso e de Fausto, nomeadamente a propósito do problema de Angola e dos partidos angolanos na luta anticolonial e pós-independência daquele território. “Comissário político do GAC”, ao serviço da UDP, como a si próprio se definia nessa altura, do mesmo modo que os Almanaque eram a extensão musical do MRPP, reconheceu por fim o carácter da música propriamente dita, tão ou mais revolucionária, para a época, que a mensagem ideológica e partidária. “Pois Canté!”, explica, é uma expressão beirã, trazida para o grupo por Fernando Laranjeira, que significa ‘Então não há-de ser?!’. Afirmação forte. Sem maneiras.
Como a “Cantiga sem maneiras”, na voz feminina de Toinas (Maria Antónia Vasconcelos), a propósito da qual José Mário Branco recordou a presença, em 1975, do GAC no Festival da Canção, com “Alerta!”: “Fizemos uma declaração de voto a dizer que não participaríamos na palhaçada de Estocolmo. Como, nessa altura, o júri do festival eram os próprios autores e compositores, demos zero a todas as cantigas concorrentes e a nós a pontuação máxima [risos]. O Sérgio nunca me perdoou. Ele estava lá, a concorrer com uma canção, ‘A boca do lobo’. Nem o Tinoco, que também concorreu. Foi uma declaração de voto completamente marxista-leninista!”
Como é
“No calor da luta, forja-se a união, rebenta a fúria de esmagar as cadeias para sempre…” É o “leitmotiv” deste manifesto marxista-leninista-maoísta que, dois anos após o golpe de Abril, abalou a música popular portuguesa e permitiu a explosão de projectos como Almanaque, Raízes e Brigada Victor Jara. No interior da capa, a toda a largura, o grafito “Liberdade, paz, pão, terra, independência” sintetiza a mensagem política veiculada por este projecto nascido das cinzas do anterior e efémero Colectivo de Acção Cultural (CAC). José Mário Branco, o seu mentor, assumia-se então como “comissário político do GAC”, representante da UDP, numa altura em que a política se sobrepunha à estética nos objectivos do grupo. Mas se “mais política e menos arte” era o mote, tal não impediu que “Pois Canté!” se preocupasse com o rigor formal, resultado, aliás, de centenas de sessões de “canto livre” realizadas ao vivo logo a seguir ao 25 de Abril de 1974. Ombreando com os corais colectivos onde o mais importante era o grito de alerta ao povo, destacam-se temas como “Pois canté!”, com sopros arranjados por Luís Pedro Faro e voz de José Mário Branco, “Cantiga sem maneiras”, vocalizado por Toinas sobre um “ronco” de gaita-de-foles, “Cantiga do trabalho” e “Coro dos trabalhadores emigrados”, todos da lavra de J.M.B., e o belíssimo “Ir e vir”, composto e vocalizado por João Lóio. “Pois Canté!” abriu ainda o caminho para a integração da música tradicional num contexto mais socializado, de braço dado com o canto revolucionário. O álbum sucede a “A Cantiga é uma Arma”, primeiro disco de longa duração do grupo, onde estão recolhidos todos os temas dispersos até essa altura em “singles”. E se disparos poéticos como “Casas sim! Barracas não! As casas são do povo! Abaixo a exploração!” dificilmente atingem hoje o alvo, não é menos verdade que nenhum outro grupo, antes e depois do GAC, teve a coragem e a frontalidade de o dizer.