Arquivo mensal: Novembro 2015

Tom Petty – “Wild Flowers”

Pop Rock

2 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Tom Petty
Wild Flowers

Warner, distri. Warner port.


tp

Não há, definitivamente, valores adquiridos no sector musical. Vejam agora o caso de Tom Petty. A eterna vedeta secundária vocacionada para os “pastiches” das glórias passadas da história do rock acaba de lançar uma obra de fundo. O passo não é, todavia, sem precedentes e prossegue o rumo traçado em 1989 com o seu primeiro álbum a solo, ou a estratégia de romper com o som “southern” monolítico da sua banda, os Heartbreakers. A pedra de toque desta abertura a novas experiências reside na escolha dos produtores e, se aquele disco era produzido por Jeff Lyne (seu parceiro nos Travelling Wilburys), este traz a chancela de Rick Rubin. Ora Rubin, o maestro da Def Jam, especializado em bandas radicais, surpreendeu tudo e todos quando, já este ano, produziu o veterano Johnny Cash, despojando-o de todo o acompanhamento, num álbum com a crueza e a mística de uma lenda viva a sós com a sua guitarra.
Tom Petty não tem esse carisma, nem nunca terá, mas Rubin aplicou-lhe um tratamento de choque muito no género. Assim, a maior parte dos temas em “Wild Flower” são acústicos ou de base acústica, trocando Petty as suas usuais vocalizações soalhentas, por um registo bem mais austero e dramático. As suas canções tratam agora de vagabundagem, da sina de andar pela estrada sem poiso nem destino fixo, lamentando a solidão que isso implica, mas também o gozo que confere a total liberdade. Petty ressurge assim no papel de um cantor/compositor amadurecido, de um trovador errante calejado pelos tombos da vida, reformulando a sua proverbial jovialidade numa melancolia do tipo fatalista. Claro que, depois, há as inevitáveis referências a Dylan, Beatles e, sobretudo, George Harrison, umas investidas no rockabilly e até no glam rock, mas filtradas segundo uma nova profundidade. Quando, em “Don’t fade on me”, Petty lastima a desistência daqueles que antes quiseram ir demasiado longe, somos levados a concordar e a admitir que, no rock, os frutos de juventude não são obrigatoriamente os mais suculentos. (8)



Jon Anderson – “Change We Must”

Pop Rock

2 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Jon Anderson
Change We Must

EMI, distri. EMI-VC


ja

“Na beleza natural que nos envolve parece existir um sentido perdido da maravilha como todos nós nos ajustamos. As árvores, as flores, os pássaros, os animais, os insectos: precisamos todos uns dos outros nesta vida”, diz, a propósito do seu novo disco, Jon Anderson. Precisamos, de facto. O que já é mais duvidoso é que precisemos dum álbum como este. São as preocupações de sempre do ex-vocalista dos Yes que, nesta sua mais recente aventura a solo, resolveu acompanhar temas antigos e modernos com o sinfonismo da London Chamber Orchestra, dirigida por Christopher Warren-Green. Inspirado no livro homónimo de Nana Weary, uma “professora espiritual havaiana”, sobre a indissociabilidade do homem e da natureza, “Change We Must”, para além de não considerar os pássaros e os insectos animais, considera igualmente que a importância do tema justifica por si só a pomposidade dos arranjos. Erro crasso. Apesar de a quantidade de meios utilizados ser incomparavelmente maior, “Change We Must”, gravado num “retiro de silêncio” na ilha de Kawaii, perde na comparação com o anterior e menos ambicioso “Deseo”. Nestes assuntos de flores, árvores e insectos a simplicidade de processos é aconselhável. Jon Anderson confunde a beleza com a sumptuosidade. Quanto ao silêncio, há demasiado ruído de interferência para que seja possível percebê-lo… Acontece então que temas conhecidos como “State of Independence” e outros da dupla Anderson/Vangelis perdem em relação aos originais, não se percebendo além disso muito bem o que é que faz uma composição do minimalista John Adams, “Shaker Loops”, no meio de tanta verdura. Quem não o conhecesse até julgaria que Adams é algum guru macrobiótico da “new age”. “Change We Must”, não há dúvida. E Jon Anderson devia ser o primeiro a dar o exemplo. (5)



Peter Hammill – “The Roaring Forties”

Pop Rock

19 de Outubro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

PETER HAMMILL
Roaring Forties

Fie, distri. Megamúsica


ph

Tem sido uma longa viagem, com altos e baixos, momentos de exaltação alternando com outros de cansaço e alguma desilusão. Peter Hammill é o amigo estrangeiro cuja obra tem tocado toda uma geração que o acompanha desde a estreia dos Van Der Graaf Generator, “The Aerosol Grey Machine”, de 1969, até hoje, já lá vão 33 álbuns, todos com a mesma recusa em fazer concessões, algo difícil de encontrar numa época em que a arte cada vez mais se reduz a um negócio. Os fiéis de Hammill sabem de antemão que em cada novo disco a qualidade se eleva inevitavelmente acima da média. O problema está, ou estava, em que nos últimos ele se mostrava incapaz de inovar e surpreender, parecendo que os seus trabalhos mais recentes giravam cada vez mais próximo de uma média, um “Hammill standard” impenetrável ao excesso e à diferença, ao contrário dos gigantescos contrastes que animam toda a discografia dos Van Der Graaf ou os álbuns a solo até “A Black Box”. Já nos tínhamos resignado a um Hammill previsível e preocupado com uma reforma tranquila, quando este “Roaring Forties” veio de súbito perturbar a acalmia.
Diga-se desde já que é o melhor Hammill desde há alguns anos. E um regresso ao som e às temáticas dos geniais “The Silent Corner and the Empty Stage” e “In Camera”. O ex-Van Der Graaf pôs de parte – momentaneamente ou não, os próximos capítulos o dirão – a tendência recente para se refugiar na segurança, manifestada em ternos práticos numa maior acessibilidade da sua música, para se concentrar de novo naquilo que ele sabe fazer melhor: o desmantelamento dos processos mentais através de uma auto-análise obsessiva e profunda que, por tocar nas zonas do ultraconsciente colectivo, se torna universal, daí a empatia que é possível estabelecer-se com os seus textos e a sensação de que “ele escreve e canta as mesmas coisas que eu sinto e penso”, vivida por muitos dos seus admiradores. “Roaring Forties” é, neste aspecto, um regresso aos bons velhos tempos, em particular no épico de 19 minutos, dividido em sete partes, “Headlong Stretch”, uma das típicas explorações onde o ressuscitado-Hammill-metafísíco aborda questões como os paradoxos do tempo e dos espaço, a personalidade dividida e a demanda alquímica de uma unidade perdida que acena na próxima curva da estrada mas nunca é alcançada (um pequeno aparte para dizer que, se fosse vivo, Fernando Pessoa teria com certeza muito prazer em conhecer Peter Hammill…). Um tema para escutar e meditar muitas vezes, na linha de grandes composições como “A louse is not a home” (de “The Silent Corner…”) e “Cockpit” (de “A Black Box” que traz de volta o prazer da grande aventura. Peter Hammill reencontrou o gosto pelo risco, o que não acontecia desde os álbuns da fase “branco e negro” dos anos 80. Musicalmente há em “Roaring Forties” surpresas, soluções arrojadas e uma sonoridade que se aproxima – suspenda-se a respiração – dos Van Der Graaf Generator. Um som colectivo, pujante e seguro, onde sobressaem os sopros desse músico “sui generis” chamado David Jackson, o violino de Stuart Gordon e as guitarras e manipulações electrónicas de um Hammill empenhado em fazer esquecer anteriores sensaborias. À entrada do próximo milénio, Peter Hammill acordou e é como se tivesse ainda tudo para dizer. (8)