Arquivo mensal: Março 2012

Nick Cave – Nocturnos do Velho Nick

20.02.2004 (tem foto – NickCave2.jpg)

Nocturnos Do Velho Nick

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Não há perdão para os nossos pecados. Deus é o “croupier” de um casino onde se joga a salvação. Quando o navio vai ao fundo os primeiros a abandoná-lo são os ratos. O capitão do navio é um rato. Salve-se quem puder do naufrágio e rezem-se as últimas orações aos santinhos que restam. Nick Cave, que actua por duas noites no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a 24 e 25, já rezou tudo o que tinha a rezar mas está por saber se a sua alma ficou da cor de um lençol ou suja como antes, nos tempos dos Birthday Party e da fase perigosa dos Bad Seeds.
Há quem lhe chame cínico e o ache gasto. Ele está simplesmente mais velho e, provavelmente, farto de pregar no deserto. O seu último álbum, “Nocturama”, tem extremado as opiniões. Nada de novo na capela, viciou-se nos Evangelhos, bradam uns. Está mais depurado e – olhem lá – tão furioso como nunca, garantem outros, agitando a bandeira do último e arrasador tema, “Babe, I´m on Fire”, 15 minutos de incêndio que reduzem o mundo a cinzas.
A verdade, a existir alguma, está, como quase sempre acontece, no meio termo. “From Her To Eternity” leva o seu tempo e o cantor australiano avançou pelo caminho das pedras. Como Diamanda Galas, Cave é um prisioneiro da culpa, que sublima através de uma arte apocalíptica e de uma religiosidade com os contornos da vingança.
O rock não chega para expiar os pecados mas serve para martirizar. Cave e Galas recusam ser mártires e, como tal, optaram por infligir aos outros o martírio – a praga, a peste, a paixão (“Babe, I’m on fire” é a sua mais recente e universalista ferroada) que, de entre as doenças da alma, é mais letal. Por isso recuaram ambos à matriz do “blues” e do “gospel2, só que em vez da auréola dos santos deixaram crescer chifres na cabeça e exalam um hálito a enxofre. O “bom filho” não o é, certamente, de Deus. “And the Ass Saw the Angel”? É bem possível, pois Lúcifer tem esse estatuto.
Musicalmente, Nick Cave roda, sem dúvida, em torno de sonoridades e obsessões que não são novos na sua obra. A entrada de Blixa Bargeld, dos Einstürzende Neubauten, para os Bad Seeds significou o reforço do esqueleto e da musculatura do grupo mas mesmo essa terapia parace já não surtir efeito sobre um “rocker” que, aparentemente, em definitivo deixou de o ser. Porém, a poesia e o terço de “Nocturama” continuam a deixar marca. O hábito pode provocar sintomas semelhantes aos da morfina.
Ou será que “Babe, I´m on Fire” é o primeiro passo do eterno retorno? Nesta litania cujo objectivo é idêntico ao dos Neubauten, isto é, a demolição sistemática das casas (“Home is in my head”, cantava alguém e Cave chamou ao seu primeiro DVD, recentemente editado, “God is in the House”…) que sustentam e abrigam os medos de cada um de nós, e a incineração dos crucifixos na pira da loucura.
Um ex-seminarista, Ernest D. Gengnbach, escreveu, no auge do período do Surrealismo, uma obra intitulada “A Experiência Demoníaca”. Salvou-se ou não, no final, leiam o livro. Nick Cave anda por aí, a desviar-se ou, vá lá saber-se, a dar comida à mão aos seres nocturnos. O branco da capa de “Nocturama” é o da noite.

Nick Cave
LISBOA | grande Auditório do Centro Cultural de Belém
Pç. Império. Dias 24 e 25, às 21h30.
Tel.: 213612444.
Bilhetes entre €50 e €30

Bernardo Devlin – Sonhos No Salão Preto e Prata

06.02.2004

Bernardo Devlin

Sonhos No Salão Preto e Prata

Nas nove implosões de “Circa 1999”, Bernardo Devlin pinta telas da mente para observar com a luz baixa. Quem já ouviu “Tilt”, de Scott Walker, deve munir-se da mesma lanterna.

“Circa 1999 (9 implosões)” é um disco estranho. O seu autor, Bernardo Devlin, antigo elemento dos Osso Exótico, não lhe fica atrás. “Circa 1999” é o seu terceiro trabalho a solo, depois de “World Freehold” e “Albedo”. A capa é prateada, como um espelho, e o livrete inclui um caderno de folhas coloridas, sem qualquer texto – as cores, explica Devlin, correspondem a estados de espírito, a sua sequência aludindo è estrutura completa do disco.
A música é uma tapeçaria densa de texturas electrónicas e elementos acústicos que contaram com a participação dos convidados José Ernesto Rodrigues (violino), Nuno Leão e Pedro Lourenço (guitarras adaptadas), Luís Filipe Valentim (piano), Luísa Gonçalves (sintetizador), Miguel Sintra (percussão), Oliver Vogt (saxofone tenor), Damiano Tonegutti (oboé) e o quarteto de cordas Opus 4. Vítor Rua, dos Telectu, responsabilizou-se pelos arranjos e direcção de cordas. Soa a música de câmara de fantasmas (ou fantasias?), acentuada pelas vocalizações semi-declamadas de Devlin, de textos nalguns casos impenetráveis que falam de luzes, visões e paixões geladas. Do tempo e da comunicação/incomunicação com o outro. E com o espelho.
Olhos vítreos, cortados por uma tesoura, como no filme de Bunuel, em “Un Chien Andalou”. A luz das estrelas e da morgue. Do espaço sideral e de um quarto onde é impossível dormir. Um faroleiro aparece misteriosamente num dos temas… Como se fosse “A plague of lighthouse keepers”, “a praga dos faroleiros”, o épico de Peter Hammill, músico com quem Devlin mantém afinidades estticas. E “Tilt”, outra referência de “Circa”, do Scott Walker inatingível… Devlin fala “à altura dos olhos”, título de uma das canções de “Circa 1999”.
“Circa 1999” convoca as memórias desse ano, 1999, “em que a maioria das canções foram escritas” mas também marcado por “uma série de adversidades que tiveram de ser superadas”. As “nove implosões” do subtítulo indicam essa viagem para dentro. “O disco preenche um período de transição de uma atitude mais romântica, ou ultra-romântica, para um estado de espírito diferente, mais racional”.

Para Ouvir No Escuro
Mergulha-se na música de “Circa” como numa tina de mercúrio congelado. Os movimentos tornam-se difíceis, a bússola deixa de funcionar. “A diferença entre o exterior e o interior é muito ténue”. E pode ser “complicado entrar”, diz Devlin pausadamente, “muito complicado…”.
Resta ao ouvinte inventar as suas próprias histórias a partir das palavras do disco que a razão disseca, ou não, conforme o tipo de viagem que pretenda seguir. A cabeça encarregar-se-á de escolher o itinerário mais conveniente. “Gosto de dar espaço à interpretação”. Liberdade por vezes mais aparente do que real, pois “Circa 1999” esconde armadilhas e outros perigos. “Havia verdade na luz/ Quando me protegi/Operam marés na clausura/ Que do alto vi/ Foi impressão/ Ou algo acenou/ Em gesto tão real/ Se elevou/ Vigília/ De mundo de estátua/ E êxtases/ De visionários/ Em convixão/ Chama de mistérios/ Sem conversão”, canta em “Novo alvor”. “Visões” que, segundo o seu autor” não fazem necessariamente parte do quotidiano, fora do momento da grande interiorização”.
Devlin fala em “fornecer pistas” e em “referências”. Umas e outras são o que não faltam em “Circa 1999”. “A explicação é muito complicada. É mais como uma pessoa quando se lembra de um sonho… Quando se descreve um determinado sonho a alguém está-se a dar uma pista extremamente diminuta em relação à informação que estava contida no momento”. Pistas “verbais”, sem “princípio nem fim”. Num país, Portugal, onde “as pessoas estão pouco habituadas a ouvir canções que tenham um trabalho literário mais aprofundado”.
As canções de “Circa 1999” são como as cores. Dos vários tons de azul ao branco, com choque brusco com o negro e passagem ulterior para o castanho. Do céu para a terra. Símbolos de “um percurso cromático” – “quase um ‘travelling’ muito lento”, entre o claro e o escuro. Ou um “pôr-do-sol”, provavelmente o último antes do “novo alvor” de que fala a canção.
Scott Walker, Peter Hammill, Syd Barrett, Edward Ka’Spel, dos Legendary Pink Dots. Arautos da alucinação. Devlin conhece bem a sua obra. “Tilt” é uma referência, certamente, mas não o vou assumir como um álbum-modelo. Percebo a comparação mas, por outro lado, são coisas distintas, não há, de modo algum, qualquer tentativa de recriação da mesma atmosfera…”. Psicadelismo? Um dos temas de “Circa 19992 tem como título “Cirros”. Os Pink Floyd gravaram “Cirrus minor”. As nuvens. “não sabia, é fantástico! Os Floyd, do Syd Barrett, fizeram um disco fantástico, ‘The Piper at the Gates of Dawn’. “Hoje em dia já não consigo ficar deslumbrado pelo universo do rock e da pop, mas acredito que se for metido num saco, é nesse saco”. Hoje em dia, Bernardo Devlin prefere ouvir música clássica, “em casa, sozinho”. Rock, sobretudo, “em casa dos amigos”. Pere Ubu e Roxy Music, por exemplo, actualmente até “mais inspiradores” do que Peter Hammill ou Scott Walker.
Existe um lado mágico no disco. “O concretizar de algo faz parte de um processo de depuração extremamente pessoal. A energia é posta na concretização dos conceitos em causa. No decorrer desse trabalho há uma simbologia que se vai criando a ela própria”. As cores? “Também as cores. Mas não pretendo pintar a mesma tela repetidamente. Interessa-me fazer música que tenha vários níveis de escuta”.
“Circa 1999 (9 implosões)” é para se ouvir no escuro. Ou, no mínimo, “com as luzes baixas”. Na cabeça de Bernardo Devlin agitam-se já outros projectos: Um “no formato 5.1 [som “surround”], chamado ‘Agio’, de canções electrónicas e, em paralelo, um álbum duplo que se chamará “Vol.3: As Duas Antenas do Caracol”. Risos. Fica a garantia: “Estou mesmo a falar a sério…”

Os Outros Nirvana

30.01.2004

Os Outros Nirvana

A história de um equívoco que serviu para dar a conhecer uma das mais requintadas e ignoradas bandas da pop dos 60’s. Os primeiros álbuns estão aí. O mito começa a nascer.

É um dos equívocos mais divertidos da pop – a confusão que se instala sempre que um fã declara a grande banda que foram os Nirvana e outro, mais velho, concorda, com um sorriso largo no rosto, acrescentando que sim, que foram uma deliciosa banda psicadélica, responsável por magníficas canções açucaradas por cubos de LSD.
“Estás a gozar comigo!?”, urra o primeiro, considerando a tirada ofensiva para a memória do seu ídolo, Kurt Cobain. “De modo nenhum!”, insiste o segundo, alargando ainda mais o sorriso. Tal discussão termina com o segundo a explicar ao primeiro, num gesto magnânimo, a causa de tamanha discrepância, aplacando deste modo a estupefacção e, nalguns casos, a fúria do acérrimo defensor dos heróis do “grunge”.
Pois bem, caros leitores, as enciclopédias registam de facto duas bandas com o nome Nirvana, cada uma delas em acção num período distinto. Os Nirvana de “Nevermind” e do rock escavado como uma ferida não cicatrizada estão bem documentados. Não é deles, porém, mas dos outros que se começa a falar, um pouco por todo o lado (discotecas lá fora, por exemplo, passam a sua música nas colunas e enchem com elas os escaparates e muitas revistas da especialidade incluem recensões aos discos nas respectivas páginas de reedições).
A perplexidade causada pela existência de dois Nirvana estendeu-se à própria banda de Seattle, ao tomar conhecimento dos seus homónimos de três décadas antes, e da consequente proibição legal em utilizar o nome. O “litígio” foi resolvido amigavelmente, com os Nirvana ingleses a abdicarem do uso exclusivo do nome. Melhor ainda: num gesto que aumentou ainda mais a confusão, os Nirvana originais gravaram uma versão do “single” “Lithium”, dos Nirvana modernos, arrumando-a, ao lado de inéditos de arquivo, na antologia de 1996, “Orange and Blue”.
O resultado não se fez esperar. Alguns comentários afixados no site da Amazon, de compradores “enganados”, são hilariantes. Um exemplo: “o meu primo ofereceu-me este disco no meu aniversário, sem se dar conta de que não são os mesmos Nirvana, os que fazem boa música!”. Outro: “Isto é mau! Realmente mau! Se gostam dos Nirvana de Seattle, não comprem este disco”. Menos preconceituoso, DJ Shadow samplou o tema “Love Suite” (de “To Markos III”) em “Stem”, incluído no seu álbum de estreia na Mo Wax, “Entroducing”.
Os Outros
Mas quem são estes “outros” que desencadeiam tanto o ódio como a admiração? Eram uma banda de pop psicadélica britânica que nos anos 60 gravou pérolas pop de sonho, como “Tiny goddess”, “Pentecost Hotel” e “Rainbow Chaser”, e três álbuns cuja música tem o poder de transformar os admiradores dos Nirvana dos 90’s em psicóticos enraivecidos: “The Story of Simon Simopath” (67), “All of us” (68) e “To Markos III” (70). Todos disponíveis nas lojas portuguesas, em novas versões remasterizadas e acrescidas de “bonus tracks”, substituindo as mais antigas da Edel dos dois primeiros, editados à época pela Island.
Patrick Campbell-Lyons e Alex Spyropoulos, um irlandês e um grego, formavam a dupla criativa dos Nirvana e desta aparente incompatibilidade de culturas terá resultado a originalidade da música – uma pop ornamentada por arranjos barrocos para melodias evanescentes. Não é um som típico, nem da pop nem do psicadelismo, mas um híbrido dos dois.
“The Story of Simon Simopath” é um dos mais antigos “concept albums” da pop britânica, a par de “S.F. Sorrow”, dos Pretty Things, e “Ogden’s Nut Gone Flake”, dos Small Faces. A história, inspirada na literatura de Ficção Científica, descreve as aventuras do dito Simon e a sua aprendizagem no espaço sideral (a história conta que no hospital psiquiátrico não lhe encontraram qualquer anomalia), o que, atendendo à contribuição do LSD na manufactura do álbum, terá sido fácil de conseguir.
As canções são fábulas às cores, pintadas com violoncelos, glockenspiel e “french horn”, e títulos como “Wings of love”, “Satellite jockey”, “In the courtyard of the stars” e “Pentecost hotel”, este último uma das melodias memoráveis que fazem de “The Story of Simon Simopath” um disco indispensável para quem gosta da pop psicadélica inlesa, na sua vertente mais angelical, cultivada por grupos como os Zombies, The Association e Kaleidoscope/Fairfield Parlour, ou da sua correspondente americana personificada pelos Millenium e Sagittarius. A nova reedição apresenta o mesmo alinhamento nas versões stereo e mono, mais quatro inéditos, incluindo um bizarro “Requiem to John Coltrane” em registo de “free pop”.
“All of us” é um manjar de melodias requintadas. “Rainbow chaser”, enfeitado com cravo e luxuriantes arranjos orquestrais, é um clássico do “acid rock” bucólica, ao nível do melhor que se fez em Inglaterra nos anos 60. “Tiny goddess”, outro exemplo da veia melódica da dupla Lyons/Spyropoulos, evoca tanto os Beatles, como os Beach Boys de “Pet Sounds” e os Bee Gees (não fujam já aos gritos) do período psicadélico dos quatro primeiros álbuns (“First”, “Horizontal”, “Idea” e “Odessa”). Bem, é verdade que o refrão de “Melanie blue” imita os Bee Gees naquilo que estes tinham de mais pindérico. Mas “Trapeze” – ao mais puro estilo dos Fairfield Parlour de “From Home to Home” – consegue falar de Camelot e de trapézios voadores sem cair no ridículo e a flauta de bisel e o violoncelo conferem a “The snow must go on” um ambiente de pop de câmara semelhante ao dos Fuchsia (outra banda obscura da folk-gótica-psicadélica inglesa). “Girl in the park” fulge como um cristal cuja melodia os Kinks não desdenhariam, “You can try” poderia trazer a assinatura de Brian Wilson e “St John’s wood affair” é Paul Mccartney a rodar num caleidoscópio, canção-camaleão onde cabe uma mão cheia de viagens de LSD. “The touchables”, por sua vez, é a canção-tema do filme com o mesmo nome realizado por Robert Freeman. E assim sucessivamente, cada canção com a capacidade de prender o ouvido através de um arranjo ou de uma volta especiais, quais mini-sinfonias cuidadosamente esculpidas mas que a cada momento ameaçam levantar voo e desaparecer.
Em comparação com “The Story of Simon Simopath” e “All of Us”, “To Markos III”, gravado quando o desentendimento entre Lyons e Spyropoulos já se fazia sentir muda para um tom que raia o patético em temas como “Aline cherie” e “Love suite”. O equilíbrio das vozes desfaz-se no exagero, caindo no “music hall” e em sugestões de “glam”, sobrando do delicado psicadelismo dos primeiros álbuns apenas “It happened two Sundays ago” e “Christopher Lucifer”.
Consumada a saída do grupo de Spyropoulos, Campbell-Lyosn faria sozinho a transição dos Nirvana para o rock progressivo, em “Local Anaesthetic”, álbum de 1971 composto por apenas dois longos temas (“Modus operandi” e “Home”) para a Vertigo, editora lendária do Progressivo da qual Lyons se tornou um dos principais produtores. Apesar de altamente coleccionável na edição original em vinilo (o CD saiu pela Repertoire) a música alterna boas “jams” progressivas com o horrível. A magia, essa desaparecera nas asas de Simão Simopath.

Nirvana
The Story of Simon Simopath
8/10

All of Us
9/10

To Markos III
6/10

Island, distri. Universal