Arquivo mensal: Fevereiro 2010

Amélia Muge – Taco A Taco

23.10.1998
Portugueses
O Céu É O Limite
Amélia Muge
Taco A Taco (9)
Mercury, distri. Polygram

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pwd: FADO

“Ai, flores”, tema que abre “Taco a Taco”, terceiro álbum de originais de Amélia Muge, dá o tom: uma voz que se experimenta, experimentando os limites do formato de canção. É impossível não recordar, nesta dança de vocábulos e estados de espírito, a herança de José Afonso, naquilo que esta tem de mais importante: a revolução dentro da música e das ideias que a sustentam, em oposição à ideologia e ao panfletarismo, por mais defensáveis que sejam as causas. Amélia Muge é, juntamente com os Gaiteiros de Lisboa, a única artista que, sem cortar os elos que a ligam a uma tradição da música popular portuguesa personificada por nomes como José Afonso, José Mário Branco, Fausto ou Sérgio Godinho, continua a procurar novas vias que a projectem no futuro. É esse sentido nato de experimentação, sustentado por uma forte ligação às raízes, que lhe permite em “taco a Taco” dar o salto para uma criatividade que nos dois álbuns anteriores ainda hesitava num certo apelo ideológico, chamemos-lhe assim, que aqui é perfeitamente redimido por uma ironia e por uma liberdade que não admitem coerções. Faixas como “taco a Taco”, com as susas sobreposições em que o falso-étnico rima com os jogos fonéticos de uma Anna Homler, apontam uma nova maneira de lidar com o som das palavras. Neste aspecto não é só a poesia de Grabato Dias a ter o exclusivo de fazer passar uma “mensagem” – esse conceito tão desvalorizado nos dias que correm… – em alinhamentos de palavras em que o humor esconde ressonâncias psicológicas mais profundas, como em “O tolinho da aldeia” (uma das grandes canções deste disco), “Inda bem que há esquimós”” ou “O ‘Robot’ que envelhece”. “Idades e médias”, outro dos momentos iluminados de “Taco a Taco”, no seu registo semideclamado, revela a própria Amélia Muge como hábil manipuladora das organizações de sentido que a intuição consegue estabelecer, num notável trabalho sonoro de parceria com José Mário Branco. Mas Amélia Muge arrisca mais e noutras direcções. Muda as agulhas ao fado em “Há quem te chame menina”, e à música tradicional, em “amphiguris”. A voz – “a” voz que para alguns faz esquecer o outro lado, não menos importante da arte de Amélia Muge: a composição – adquire toda a sua densidade emocional em “Falas de bem querer”, enquanto a costela africana, através da kora de José Galissa, se combina com as palavras de Grabato Dias numa síntese que evoca o melhor de Fausto. “Andor e Conduto” é outro dos sinais extremos da atitude globalizante de Amélia Muge. Fanfarra sincopada, cria uma ambiência entre a Idade Média e os sonhos do próximo milénio, traduzindo o fabuloso arranjo de José Mário Branco e António José Martins (cuja participação em todo o disco é determinante na sua concepção sonora global), contando ainda com a concepção de flautas de Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros. Depois do intimismo de “Havemos de nos ver outra vez”, da música de câmara “avariada” de “O robot que envelhece” e da Amélia mais baladeira e afonsina de “Rebelde (aos ciclos)2, “Taco a Taco” fecha com o hino processional “À nave” (embora o final esteja escondido, uma pequena bruxaria…), voz e vozes enlaçadas com electrónica, erguem-se numa espiral de reverberações e duplicações até à cúpula da catedral. Para Amélia Muge o céu é o limite.

Tarwater – Silur

23.10.1998
Tarwater
Silur (8)
Kitty-Yo, import. Ananana

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Na geneologia do planeta Terra o período silúrico, entre 439 e 409 milhões de anos atrás, caracteriza-se por intensa actividade vulcânica que reorganizou toda a superfície do globo, assistiu à transição das formas de vida oceânica para o habitat terrestre. Os germânicos Tarwater adaptaram neste seu terceiro trabalho, depois de “11/6 12/10” e “Rabbit Moon”, o termo germânico “Silur” no sentido inverso, de regresso ao elemento líquido. “A água faz-nos sentir uma atmosfera diferente, como se estivéssemos imersos num outro mundo dentro da nossa realidade” diz Bernd Jestram, um dos elementos do duo que, juntamente com os To Rococo Rot (aos quais também pertence o segundo elemento, Robert Lippok), Kreidler, Mouse on Mars, Kante, The Notwsit, The Tied and Ticked, Pluramon, Schneider TM ou Village of Savoonga, entre outras bandas, ressuscitaram o termo “krautrock”. Alfred Jarry é citado como referência (o poeta via Paris como um oceano) desta música, que junta colagens de “samples” e frequências electrónicas num universo, também ele, surrealista, de camadas sonoras em constante mutação que tanto se aproximam da pop industrial de Thomas Leer (“No More Extra Time”), como da visão acústico-minimalista de Jim O’Rourke (“Otomo”), ou da frieza mecanicista dos Kraftwerk (“Ford”), entre outras disjunções submarinas visíveis apenas através de um batiscafo.

Vários – China – Time To Listen

23.10.1998
World
Vários
China – Time To Listen (9)
Ellipsis Arts…, distri. Megamúsica

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Cada produto lançado pela editora Ellipsis Arts…, mais do que um simples disco, é um documento indispensável em qualquer arquivo de world music. À semelhança de anteriores lançamentos da editora, “China – Time to Listen” é um conjunto completíssimo e superiormente apresentado e documentado de sons, texto e imagens, neste caso uma retrospectiva de música chinesa, composta por três CD mais um livrete de 52 páginas com impressão imaculada, arrumados num pacote de cartão. Os três CD, cada um ostentando um símbolo e uma cor diferente na capa, estão divididos nos temas “Sounds of Our Stories”, “Many Faces” e “Spirit and Wisdom”. “Não é o ouvido que ouve a música, mas sim o som que abre caminho para chegar ao ouvido” constitui o mote do primeiro CD, uma panorâmica sobre diversas tradições e estilos, de técnicas específicas de ornamentação ao reportório do Cantão, passando por canções de combate e pela música da dinastia Tang. a relação entre as diversas regiões da China e os respectivos instrumentos e sonoridades é abordada no segundo. O lado mais contemplativo e religioso da música chinesa preenche o terceiro, cujo lema avisa que “a melhor música tem as notas mais ténues”. Acompanhar a audição desta música ancestral executada pelos seus intérpretes mais genuínos com a leitura da verdadeira enciclopédia que é o livrete configura uma experiência que alia o prazer ao didactismo. É a China mais profunda que se enraíza na nossa alma, ao escutarmos “China – Time to Listen” – autêntica manifestação do “tao”.