Arquivo mensal: Fevereiro 2010

Jennifer & Hazel Wrigley – Huldreland

World
23.10.1998
Jennifer & Hazel Wrigley
Huldreland (7)
Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção

“Huldreland” é uma terra de lendas e magia onde o mar e o céu se alimentam em ilhas encantadas habitadas desde há séculos pelos “huldrefolk”, “huldre”, do nórdico “hilda”, “miragem”… É o ponto de partida e de chegada do álbum de estreia das irmãs Jennifer (rabeca e rabeca “hardanger”) e Hazel (guitarra e piano) Wrigley, centrado no reportório do arquipélago de Orkney (cerca de 70 ilhas), no Norte da Escócia. Jennifer é a princiapl solista, com um estilo por vezes próximo da escola escandinava. Um ritual da noite das bruxas, um “set” de jigs para crianças, uma festa de gigantes (os míticos habitantes de Orkney que, nestas ocasiões, tinham por costume convidar os violinistas locais para tocar para eles) são ilustrados por execuções suvaes e evocativas de lugares e acontecimentos ligados Às ilhas. Numa destas festas, bem regada com “whisky”, os ditos gigantes descuidaram-se, apanharam sol e transformaram-se em pedra. Ainda lá estão, no círculo de pedras sagrado de Brogdar, um dos muitos vestígios neolíticos das ilhas (como a mítica aldeia subterrânea de Skara Brae). O ambiente de misticismo prevalece em “Huldreland”, presente na sonoridade quente e sensual da violinista, cujo estilo deverá agradar a quantos não ficaram convencidos com os recentes excesos de Eliza Carthy. Participações de Brian Sheils, no baixo (jazzístico, num tema como “Shannandah falls”), Neil Davey, no bandolim, Eamon Coyne, no banjo, e Jim Walker, nas percussões e caixa de “pipe band”.

Combustible Edisom – The Impossible World

23.10.1998
Em Órbita
Combustible Edisom
The Impossible World (8)
Bungalow / Sub Pop, distri. Symbiose

LINK (Parte 1)
LINK (Parte 2)

“A nossa música é para ser ouvida depois da meia-noite, ao anoitecer e ao amanhecer, a horas misteriosas em que tudo pode acontecer.” Estas palavras, proferidas por Nicholas Cuday, líder dos Combustible Edisom, a propósito do álbum anterior do grupo, “Schizophonic!”, continuam a poder aplicar-se a este novo trabalho. Este “mundo impossível” é o mesmo que leva Cuday a dizer que gostaria que a música do grupo “fosse ouvida em estações espaciais”. Cultores no novo easy listening, ao lado dos Stereolab e The High Llamas, os Combustible Edisom vêem na reapropriação desta música que fez escola nos anos 50 e 60, através de gurus como Jua Esquivel, Lalo Schiffrin, Burt Bacharach, Martin Denny ou Arthur Lyman, mais do que um género musical uma atitude capaz de incorporar a experimentação, mas sem perder de vista a acessibilidade, citando a propósito, como referências, Stravinski e Pierre Henry.
E, se o easy listening original recorreu, ainda antes do rock, a toda uma panóplia de instrumentos electrónicos, dos modelos mais arcaicos de sintetizadores ao “theremin” e outros híbridos entretanto extintos, os Combustible Edisom fazem também, a seu modo, um uso sistemático de toda essa artilharia, carregando-a de poesia e de imagens que parecem tiradas de filmes de David Lynch como “Veludo Azul” ou uma versão colorida de “Eraserhead”.
A “space age bachelor pad music” dos Combustible Edisom gira em órbita fora da atmosfera terrestre. No interiuor da sua estação espacial as guitarras, o vibrafone e os sintetizadores de porcelana flutuam numa dança que a voz de Lily Banquette transforma em canções sobrenaturais. Todos os lugares-comuns do easy listening passam por 2The Impossible World” para deixarem de o ser. Com a elegância de um “bal musette” parisiense, em “dior” (lembram-se de “Anne Marie Beretta”, aventura nos meandros da alta costura de Steve Beresford com John Zorn”…), ou a insustentável pureza de “In the garden of the earthly delights”. Porque de cada um destes fotogramas salta um grão de transgressão e de loucura. Ou de sonho, essa “dimensão assombrada” de uma “música que vem de um outro tempo e de outra dimensão”, ainda nas palavras de Nicholas Cuday. Os Combustible Edisom são o lado luminoso do pesadelo que nos Portished implode e neles explode com a intensidade de uma supernova.

Pere Ubu – The Modern Dance

16.10.1998
Reedições
Partir A Louça
Pere Ubu
The Modern Dance (10)
Cooking Vinyl, import. Virgin

LINK

Em David Thomas, o amor confunde-se com a doença. O ódio com o desejo. A América, mãe opressiva, com uma paisagem que é ao mesmo tempo sinónimo de prisão e de libertação. As canções de David Thomas exprimem, em qualquer dos casos, os múltiplos paradoxos de uma personalidade atormentada. O grito das suas vocalizações de criança que sujou as fraldas pertence a um coração cheio de ternura, do qual o resto do corpo parece estar desajustado. Quando escreve sobre relações amorosas, torna-se necessário camuflá-las sob a aparência de lixo e a escorrerem óleo queimado. Porque David Thomas, senhor das moscas e coveiro da “barbie” cor-de-rosa que faz apodrecer o rock’n’roll nas suas mãos envernizadas, é a vítima e o carrasco e só ele pode ditar as leis da sua loucura. “The Modern Dance” faz soar o alarme em 1978, pondo ponto final parágrafo no “punk” e abrindo as portas à música industrial. I´nício d eum percurso que o cantor e compositor insiste em conotar exclusivamente com o “way of life” norte-americano e que prosseguiria ao longo das duas décadas seguintes por novas obras de fôlego como “Dub Housing”, “New Picnic Time”, “The Art of Walking”, “Song for the Bailing Man” e “Tenement Year”, até Às mais recentes “Ray Gun Suitcase” e “Pennsylvania”. Na garagem dos Pere Ubu, banhada pela luz de um pôr do Sol artificial filtrado pela poluição, nascia uma obra que orientava a temática do rock no sentido da mutação do indíviduo, da denúncia da civilização moderna e da avaria emocional. Centro de operações: Cleveland, não muito distante do laboratório onde os Devo analisavam as sensações de um mongolóide ao enfiar a mão numa torradeira eléctrica. “The Moderna Dance” e “Q: Are We not Men? We Are Devo” seguem, aliás, estruturas idênticas, com a diferença de que enquanto os Devo empurravam a sua música (com a ajuda de Eno) para os canais da electrónica sintética, os Pere Ubu preferiam esfregar as feridas com uma lima até fazer espirrar o sangue. Sob os fantasmas da radiação e do holocausto, dois amantes esfregam-se, por sua vez, um contra o outro, numa “sentimental journey” de louça partida, numa tentativa para fazer saltar da fricção de carnes frias uma chispa de paixão.