Arquivo mensal: Fevereiro 2010

Jacqui McShee’s Pentangle – Passe Avant (conj.)

27.11.1998
World
Outubro Em Novembro
A música céltica, sem rótulos nem (por enquanto) enfeites de Natal, regressa em força com duas lendas, um Outono de esplendor e uma harpa a celebrar o Cristianismo

Jacqui McShee pertence a uma geração de vozes femininas sobreviventes dos primórdios do folk-rock britânico dos anso 70, juntamente com Maddy Prior, Shirley Collins, Mandy Morton, Linda Thompson e June Tabor, entre outras. Sandy Denny, essa já não pertence ao mundo dos vivos. Foi nos Pentangle que, ainda nos anos 60, Jacqui se fez notar por uma voz fluida e cristalina que deslizava entre as baladas folk e o jazz. Para trás ficaram álbuns como “Basket Of Light”, “Cruel Sister” e “Solomon’s Seal”, situados um pouco à margem das principais forças motrizes do movimento – Fairport Convention, Steeleye Span, Strawbs, Albion Band – mas que trouxeram para os terrenso da folk uma agilidade que saltava entre o misticismo e o gosto pela improvisação. Passaram os anos e os Pentangle, sempre impulsionados pela voz de Jacqui e pelos talentos instrumentais de Danny Thompson (hoje movendo-se livremente pelas alamedas do jazz), John Renbourn (o medievalista do grupo) e Bert Jansch (estilista da guitarra (fingerpicking”), foram perdendo fulgor, apagando-se, mesmo assim, em glória, com “So Early in the Spring”, lançado há dois anos. Jacqui McShee apossou-se entretanto do nome da banda assinando este novo trabalho como Jacqui McShee’s Pentangle, um colectivo de novos músicos onde avulta o baterista Gerry Conway, ex-Fotheringay. “Passe Avant” é, como seria de prever, um pretexto para pôr em releveo as capacidades vocais da cantora, oscilando entre arranjos ortodoxos de temas tradicionais como “The House Carpenter” e “The Nightingale” e uma veia jazzística explorada ainda com maior intensidade que nos Pentangle, como “Gypsy Countess”. Belíssimas, a incursão pela nova tradição francesa, em “Jardin d’amour”, composto por Pierre Bensusan, o “standard” “We’ll Be Togheter Again2 – balada carregada de nostalgia pelo sax fumarento de Jerry Underwood onde a cantora demonstra todas as suas potencialidades expresivas como cantora de jazz – e o tradicionalismo folk (embora num original do grupo…) assumido até às últimas consequências, em “Lagan Love”. Já as incursões por um outro tipo de jazz de fusão de modernidade mais do que duvidosa, como “Edson” e “Midnight Dance”, só podem ser encaradas como chamadas de atenção para o ecletismo de Jacqui McShee que, todavia, se despede com outra balada tocante, “Just for you (song for Cath), onde as entoações folk e jazz da voz se confundem para nos mostrarem, bem juntas, a emotividade, a subtileza e a interiorização de uma cantora que decorridos trinta anos de carreira amadureceu sem perder a frescura dos primeiros tempos. (Park, distri. Megamúsica, 7).

Outra lenda do “folk rock” inglês, os Steeleye Span, perderam a sua diva, Maddy Prior. “Time”, álbum anterior do grupo, em que Maddy partilhava as vocalizações com Gay Woods (que cantara no primeiro disco do grupo, “Hark! The Village Wait”, antes de formar os The Woods Band com Terry Woods), surge assim como passagem de testemunho entre as duas cantoras, uma vez que em “Horkstow Grange”, a responsabilidade vocal, no sector feminino, passou a ser da inteira responsabilidade de Gay. Menos elástica e de timbre mais metálico (além de uma inconfundível ponta “country”) que Maddy Prior, Gay não deixa, no entanto, os seus créditos por mãos alheias, mesmo quando por vezes recorre a algumas artimanhas de estúdio ou se escuda nas harmonizações colectivas que, de resto, sempre foram uma das imagens dos Steeleye. O violino de Peter Knight, a bateria do multifacetado Dave Mattacks (dos Fairport Convention aos Pere Ubu, bateu todo o terreno…) e a escolha judiciosa dos temas permitem a sustentação de um nível de qualidade mais do que satisfatóriuo. Atente-se na curiosidade que constitui “Queen Mary / Husden House”, com os teclados de Tim Harries simulando uma harpa, numa evocação, precisamente, dos primórdios do grupo, de “Hark! The Village Wait” e “Please to see the King”. E temas como “Bonny Birdy” ou “I Wish that I never was wed” dão-nos a garantia de que o “folk rock” está longe de ter secado. (Park, distri. Megamúsica, 7).

Na Escócia, os The House Band insistem, por seu turno, em não se deixarem arrastar pela corrente “celtic shit” que vai empurrando para o esgoto um número crescente de produtos cuja quantidade não pára de aumentar, ainda para mais agora que o Natal se avizinha… “October Song” é, diga-se desde já, uma peça fundamental na discografia do grupo. Roger Wilson é um cantor e violinista de formidáveis recursos cuja vocalização em “Seven yellow gypsies” – tema monumental que, se não estamos em erro, é uma variação de “Raggle Taggle Gypsy”, que recordamos de uma portentosa interpretação pelos Planxty – evoca o melhor de Martin Carthy. Ged Foley faz-lhe frente com “The Factory Girl2, outra canção de antologia de “October Song” ainda, curiosamente, a fazer lembrar o mesmo tipo de abordagem estilística de Martin Carthy. Como de costume, há incursões no Leste, neste caso através do tradicional romeno “Risipiti”, instrumentalmente das melhores coisas que temos ouvido nos últimos tempos. Delírio da bombarda e da flauta. Puro gozo. “The end of the world” repete, como outro título, um tema de “Word of Mouth”, no primeiro de três “an dro” bretões compostos respectivamente por Patrick Molard, Jean-Michel Veillon e Alain Pennec. Os veteranos John Skelton, na flauta, bombarda, gaita-de-foles francesa (na modalidade “veuze”) e Whistles, Ged Foley, na guitarra e bandolim, e Chris Parkinson, na concertina e harmónica, derramam o seu virtuosismo num álbum que apenas pecará pelo grafismo, pouco adequado à estética do grupo, da capa. Quanto à música, roça a nota máxima. (Green Linnet, import. FNAC, 9).

Os amantes da harpa voltam a ter motivos de regozijo com o mais recente trabalho de Savourna Stevenson, “Calman the Dove”, projecto conceptual em torno da “celebração da chegada do Cristianismo celta à ilha de Iona”. Executado na sua estreia na abadia da ilha, esta nova versão de “Calman the Dove” reuniu em estúdio a harpista (que neste álbum também toca teclados), Davy Spillane (no “low Whistle” e “uillean pipes” e Anne Wood, no violino. Respirando calma e religisoisdade, “Calman the Dove” não descura, no entanto, a proverbial tendência de Savourna para, sempre que pode, testar os limites e potencialidades do instrumento, notando-se embora um pendor místico que contraria o lado mais experimentalista de um álbum como “Tockled Pink”. Depois, sabe sempre bem escutar Davy Spillane numa onda de disciplina. (Cooking Vinyl, distri. MC – Mundo da Canção, 7).

Hector Zazou – Lights In The Dark (conj.)

06.11.1998
Catedral De Plástico
Hector Zazou
Lights In The Dark (5)
Detour, distri. Warner Music

LINK

Jon Anderson
The Promise Ring (5)
Omtown, distri. EMI-VC
“Lights in the Dark” e “The Promise Ring” têm em comum ocuparem-se da música céltica e serem ambos perfeitamente dispensáveis. Já o escrevemos antes: o “celtic revival” – que nos últimos anos se tem expandido por objectos intragáveis onde os termos “fusão” e “new age” juntam esforços naquilo que têm de pior, a plastificação e normalização de um certo imaginário de pseudomisticismo – está a dar uma imagem degradada e cada vez mais dependente das regras de mercado da genuína tradição do périplo celta.
Hector Zazou é um caso perdido sendo difícil reconhecer no autor de “Lights in the Dark” o mesmo músico que fez parte dos ZNR ou que assinou obras de categoria de “Noir et Blanc” (com Boni Bikaye), “Reivax au Bongo”, “Géographies” e “Géologies”. “Lights in the Dark” pretende dar uma visão plena de solenidade da música religiosa da Irlanda do período de transição do paganismo para o cristianismo, introduzido na ilha por São Patrício. Mas ou os vitrais estavam foscos ou o estúdio mal iluminado. Não há luz que consiga romper as trevas de um disco amorfo que dá da religiosidade dosd antigos celtas a imagem de um hipermercado de santinhos e santinhas.
Como sempre, Zazou convidou uma lista imensa de convidados de luxo – Mark Isham, Kristen Nogues, Thierry Robin, Carlos Nunez, Peter Gabriel, Jacques Pellen, Brendan Perry (Dead Can Dance), Caroline Lavelle, Ryiuchi Sakamoto, Minna Raskinen e Didier Malherbe… -, o que não impede que “Lights in the Dark” seja uma espécie de sombra negra de “Vox de Nube”, de Noirín Ni Riain a quem, de resto, o francês de ascendência argelina agradece pela recolha de material e pela sua “espiritualidade céltica”. Não chega colar harpas, por Katie McMahon e Kristen Nogues, e coros celestiais, pelas vozes de Breda Mayock e Lasairfhiona Ní Chomaola (Loreena, Enya, são tantos os anjos e tantos os céus de néon…), aos computadores para beijar os calcanhares da divindade.

Jon Anderson chegou, também tarde, a um “pub” irlandês, o Frog’n Peach, em San Luis Obispo, onde afirma ter ouvido a melhor música que alguma vez lhe chegou aos ouvidos. Com ascendência irlandesa e escocesa, o antigo vocalista dos Yes jurou gravar com os músicos que nessa noite deram mais vida às suas libações, e assim fez. Os cerca de 30 músicos da Froggin’ Peach Orchestra, sem serem grandes músicos, dão vitalidade e autenticidade a “The Promise Ring”, uma “session” carregada de optimismo, através da qual Jon Anderson faz passar a sua mensagem ahbitual de boas-vindas ao novo mundo que está mesmo aí a romper. Simpático, mas inconsequente.

Vários – Portugal DeLuxe, Volume 2: Um Cocktail Swingante

30.10.1998
Vários
Portugal DeLuxe, Volume 2:
Um Cocktail Swingante (8)
NorteSul, distri. EMI-VC

Continuando a desenterrar pérolas esquecidas do baú dos estúdios da Valentim de Carvalho dos anos 60, Rui Miguel Abreu, mentor do projecto, propõe neste segundo volume de “Portugal DeLuxe” uma nova e mais sofisticada visão do genuíno “easy listening” nacional. “Um Cocktail Swingante” é uma viagem pela embriaguez de paisagens musicais e sonoras que o tempo tornou ainda mais fortes. A Lisboa swingante dos anos 60, que Rui Miguel Abreu refere, nessa altura a respirar os mesmos ares de Londres e Paris. A versão “lounge” de Teresa, para “Fever”, ou o samba do morro “Upa Neguinho”, de Edu Lobo, pelo Duo Ouro Negro, são exemplos de uma pureza que se perdeu para a música portuguesa. O Conjunto Mistério faz a emulação dos Shadows em “Coimbea menina e moça”, defende a soul music, em “Papa’s got a brand new bag”, de James Brown, e toca no psicadelismo, no “hit” de 1967, “Judy in disguise”, de John Fred & His Playboy Band. “Poco pelo”, pelo Thilo’s Kombo, é para se dançar e beber até à eternidade. Mas são as deliciosas e exóticas orquestrações de Jorge Costa Pinto, Thilo Krassman e Shegundo Galarza (com material equivalente construíram os Nurse With Wound a sua obra-prima “The Sylvie & Babs High-Tigh Companion”…) que conferem o toque de magia a este “Cocktail Swingante”. Banhemo-nos, pois, na fabulosa cascata de irrealidade criada por Shegundo Galarza e o seu Conjunto, em “Exodus”. E como não acreditar em António Calvário e Madalena Iglésias, quando os dois cantam que “o sonho é um manto de luar”?