Arquivo mensal: Janeiro 2010

Vários – Egypt: Music Of The Nile From The Desert To The Sea (conj.)

05.12.1997
World
O Paraíso Entre O Deserto E O Mar
Vários
Echos Du Paradis: Sufi Soul (10)
2xCD Network, distri. Megamúsica
Vários
Egypt: Music Of The Nile From The Desert To The Sea (9)
2xCD Virgin, import. Symbiose

A chamada “world music” está para a música étnica como o jardim está para a floresta. A autenticidade, por vezes selvagem, em contraste com a sofisticação e o apuro formal. Nos últimos anos tem-se assistido à proliferação de ambas no panorama editorial, de discos, livros, revistas e espectáculos ao vivo, da revitalização dos clubes ao aumento dos grandes festivais. Uma das questões que se colocam é a de saber se é a música étnica – necessariamente conotada com determinadas especificidades espirituais, culturais, sociais e geográficas – que conduz o potencial auditor para o tipo deproduto associado à “world music” ou se, pelo contrário, o caminho se processa no sentido inverso. Estamos em crer que a segunda hipótese será a mais correcta. É provável que os discos dos Chieftains, de Youssou N’ Dour ou das Zap Mama sejam os primeiros a ocupar as prateleiras em casa do melómano interessado em conhecer novas latitudes musicais. Daqui nascerá, ou não, o interesse pelas raízes genuínas que sustentam esses nomes meis mediáticos que, cada vez com mais força, se vão insinuando nos “tops” de vendas.
Faz, desta forma, todo o sentido que no último par de anos tenham surgido editoras decididas a investir num tipo de produto cultural menos imediato e mais contextualizado, para a chamda música étnica, tornando-a num objecto cultural não menos sofisticado do que as normais edições de “folk”, “world”, “fusão”, etc.
Deste grupo de editoras, a Network e a Ellipsis Arts… foram as primeiras a ter distribuição nacional, juntando-se-lhes agora a multinacional Virgin, sempre atenta às movimentações e motivações do mercado. Caracterizam-se estas edições, em geral, por conjuntos de dois ou mais CD, embalados numa apresentação invariavelmente luxuosa que inclui detalhados livros de paresentação, em geral bilingues ou trilingues, contendo textos informativos e fotos de inultrapassável qualidade.
“Echos du Paradis: Sufi Soul”, o mais recente lançamento da clássica Network, depois de “Desert Music” e “Road of the Gypsies”, é um compacto duplo (72m00 + 61m43) com exemplos das diversas tradições “sufi” do planeta, da Ásia Oriental ao Norte de África. O “sufi” á o asceta, por vezes anónimo, que dedica toda a sua vida à descoberta de si próprio e da divindade, dispensando os intermediários, ou seja, as religiões oficiais. É nesta medida, que sepode comparar o místico “sufi” ao gnóstico medieval, também ele numa procura do contacto directo com o Divino. A música, enquanto movimento puro, constitui instrumento privilegiado para aceder a esse estado de transcendência. Música ritual, de elevação. Música de condução e êxtase, mas também música de dança (prática indissociável da ascese, para os “dervishes” do Norte de África, no seu rodopio em torno de si próprios até alcançarem o transe que os atira para a outra dimensão). Dança do corpo e da lama. Por isso, faz todo o sentido referirmos a equivalência entre a música “sufi”, ou dos “sufi”, com a “soul music”, a “gospel” e os espirituais negros, os quais partilham idêntico objectivo de conduzir o corpo e alma para a liberdade e para a alegria.
São, no toal, 21 temas provenientes de regiões como o Irão, Damasco, Tajiquistão, Afeganistão, Marrocos, Turquia, Paquistão ou o Uzbequistão, recolhidos de muitas e variadas fontes, do Smithsonian Institute e Arquivos Internacionais de música popular, passando por diversas edições discográficas locais. Em “Sufi Soul”, os alaúdes, as percussões, as cordas, os sopros e, pricipalmente, as vozes, servem um propósito comum: a elevação acima do mundo e das aparências. É nesse lugar, ao qual se pode aceder através de alguns sonhos, que se encontra a forma mais pura de beleza. Nusrath Fateh Ali-Khan, provavelmente o único artista presente nesta pbra que é conhecido no Ocidente, sabia-o. Enquanto cantava.
Ao leitor, propomos que comece pela audição de “durnalar sema ‘i “ (“a dança dos 12 crânios”), de Ashik Müslüm Sümbül, da Anatólia, Turquia. Ashik, “aquele que está apaixonado”, nome dado na Anatólia aos cantores tradicionais místicos, canta e toca “saz” (alaúde de braço longo), num crescendo arrebatador. Deixem fugir a alma, deixem dançar o corpo, deixem dançar a alma, deixem fugir o corpo. Além da música, está a Música. Escutemos ainda a derradeira lição, na conversa entre o mestre Jalâl al-Din e um discípulo céptico, com a mente fechada: “não gosto di ruído do ranger das paortas!” Réplica do mestre: “Eu ouço o som das portas quando se abrem, enquanto tu ouves o som das poartas fechadas.”
“Egypt – Music of the Nile from the Desert to the Sea”, embora igualmente uma obra excepcional, não ostenta com a mesma evidência a espiritualidade e a dimensão do sagrado que brota, de forma quase violenta, de “Sufi Soul”. Agora é tempo e acompanharmos as diversas tradições musicais que eclodiram ao longo da História no rio Nilo, do deserto do Sara ao delta no Mediterrâneo, de povoações como Abu Simbel ou Ibrim, junto à nascente, até ao Cairo, cadinho de múltiplas influências, rurtais e urbanas. É igualmente uma viagem, mas marcada pela areia, pelo sol e pelo mar. Pela inconstância das dunas, pela sensualidade ou pela inclemência do astro-rei, pela ilusão da miragem e a paz momentânea do oásis, pelo descanso final das ondas ou pelo fito do lucro, na chegada à cidade, onde tudo se compra e tudo se vende, ascoisas e os corpos. A improvisação (“taqasin”) e a prece, os sons de contenção e as danças, por vezes confundindo-se com a convulsão, guiam o peregrino, numa rota onde a dor se confunde com o prazer. Os cantores do Nilo, os berberes, os beduínos, as mulheres e os homens a sós com o seu destino, marcham como um ente grandioso – o grande Sul em demanda do seu Graal.
No segundo compacto, já despertamos de súbito para o mundo exterior, das vozes discordantes e das muitas coisas separadas. É a electricidade que surge, e com ela uma outra dança, plena ainda de tradição e de autenticidade, mas marcada já pela tensão dos nervos. A música “rai”, incrustada nos hábitos das novas gerações, irrompe em remisturas de “Halat Al-Ânuâr”, por Amid, e de “Yû ud Wa Yaghlef Wa Êstanâh”, por Gâber al-‘Azab. Programações. Tecno. A música do Alto Nilo contaminada pelos fumos e pelas solicitações do Cairo. Tempo de festa, na nova síntese da música “núbia” com a música árabe, em “Nahawand”, por Sharkiat.
E se, em “Sufi Soul”, Nusrat Fateh Ali-Khan era a estrela, aqui encontramos, já perto do final, Ali Hassan Kuban, “o patriarca da música ‘núbia’ do Cairo”. Mas assim como o mundo se move, também a música retorna à origem, para de novo se lançar em direcção ao futuro, numa espiral interminável, através de um cântico ritual dos “Bechari”, a última das tribos nómadas do deserto, em errância eterna entre o Nilo e o Mar Vermelho. Fica a dúvida. O velho filósofo grego Heraclito tinha ou não razão quando afirmava: “É impossível banharmo-nos duas vezes na mesma água do rio”? Experimentemos ouvir outra vez estes dois discos desde o princípio.

Carlos Zíngaro – Release From Tension (conj.)

15.08.1997
À Margem
Bernardo Devlin
Albedo (6)
Ed. e distri. Ananana
Vítor Joaquim
Tales From Chaos
Ed. e distri. Ananana
Carlos Zíngaro
Release From Tension (7)
Ed. e distri. Áudeo

Veneno para os ouvidos e almas dos jovens. Ou antídoto contra o veneno da serpente da indústria? Seja o seu efeito a doença ou a cura, os discos até à data editados pela Ananana têm-se pautado pelo obscurantismo e radicalidade das suas propostas. Músicas intransigentes, nutrem um desprezo intenso pelas regras do “mainstream”. Correm, ao mesmo tempo, o risco de não ultrapassarem o círculo, por vezes retritíssimo, de alguns eleitos. Torna-se difícil distinguir o hermetismo, enquanto estratégia de uma “marginalidade” estética assumida, da vontade de divulgar propostas musicais que, pela sua própria natureza e vocação, têm dificuldades em encontrar veículos de gravação e promoção adequados.
Telectu, Carlos Zíngaro, Manuel M. Mota, Rafael Toral, Vítor Rua, Nuno Rebelo, Osso Exótico e Bernardo Devlin, os nomes até hoje editados pela Ananana, apresentaram obras marcadas pela diferença, ou mesmo pelo isolacionismo, algumas delas polémicas, outras narcisistas, todas elas, em maior ou menor grau, refractárias à facilidade e mergulhadas na procura ou na pesquisa de discursos musicais orgulhosa e furiosamente individualizados, por vezes, no limite da comunicabilidade.
Bernardo Devlin, antigo elemento dos Osso Exótico, apresenta nesta editora o seu segundo trabalho a solo, num registo de oposição quase absoluto ao anterior 2World Freehold”. Enfeitiçado pelas visões poéticas de estados de consciência alterados, émulo de Syd Barrett, enquanto equilibrista da vertigem, à beira dos abismos da linguagem, Bernardo Devlin cria em “Albedo” – gravado numa igreja da Ordem Cartuxa, em Caxias – uma teia poética de realismo mágico, entoada com a gravidade alucinada de um Scott Walker. Álbum de “canções”, nele se assiste a uma curiosa recorrência dos elementos (fogo, vagas, terra, luz, sol…) que em “World Freehold” se materializavam num abstraccionismo sonoro minimalista e, precisamente, elementar, e aqui se transmutaram no domínio do conceptual e da psicologia. É a diferença entre o toque da varinha na pedra e a invocação, numa música armadilhada e acústica que se aproxima, até nas suas premissas ideológicas, da “folk luciferina” de grupos como os Death In June e Current 93.
“Tales From Chaos” do projecto Free Field, aliás Vítor joaquim, discorre sobre outros motivos e com um acréscimo de meios. Gravado igualmente numa igreja, desta feita em Santiago de Palmela, divide-se em duas composições, indexadas em partes, “Nothing Is Pure (In Electric Sound”) e “Everlasting Echo”, esta última uma instalação sonora composta para uma exposição de Andreas Stocklein.
Joaquim, fundador, nos anos 80, do grupo Clã, envolveu-se, nos últimos anos, em música para teatro, dança, cinema, publicidade e vídeo, recebendo, em 1995, o Prémio da Primeira Audição Pública para obras de música erudita, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores à composição “O Autor”. Teclista, programador, manipulador de samplers e toda a espécie de tecnologia electrónica, rodeou-se ainda, na primeira daquelas faixas, de colaboradores como Carlos Zíngaro, Nuno Rebelo e Marco Franco, entre outros.
Música de síntese, “Tales From Chaos” viaja, em “Nothing Is Pure”, pela manipulação e colagem de sons e ideias, num universo ambiental não linear com localização próxima de Peter Principle ou Benjamin Lew. Pelas suas próprias características de música para suporte de imagens, “Everlasting Echo” é mais discreto e menos povoado de acontecimentos distractivos de uma linha ambiental, aqui mais claramente definida. Ideal para divagações ou contemplações várias, “Tales From Chaos” parece contradizer o seu título, oscilando antes em vibrações oníricas, parafraseadas, aliás, numa citação de capa, por J. Ellis: “Os sonhos são reais enquanto duram. Que mais podemos dizer da vida?”
Que mais podemos dizer da morte? O que Rui Eduardo Pais escreve no texto de apresentação de “release From Tension” e sobre um dos músicos portugueses mais conceituados no estrangeiro, naquela que é a primeira edição da Áudeo, como editora. Para Paes toda a obra de Carlos Zíngaro se resolve numa tensão tanática que ilustra, em forma de metáfora funerária, com o título de uma novela de Tennessee Williams: “A semelhança entre um estojo de violino e um caixão”. O violinista acalenta, de há muito, dois projectos, de aproximação e captação dos sons ocultos do corpo. Um deles é a gravação da decomposição de um cadáver, numa encenação do “rigor mortis” musical. O outro, segundo processo idêntico, de apropriação e ampliação dos ruídos internos da função digestiva. Pode descortinar-se em “Release From Tension” uma idêntica operação de necrofagia, de dar vida (música, e não som, já que a morte, pelos vistos, pode fazer-se ouvir) ao inanimado, de ordenamento depulsões musicais contraditórias que Zíngaro sublima no atonalismo e no abstraccionismo electrónico (ou ritual, como na “raga” de metal de “Open Series”) em temas cujos títulos exprimem, por si sós, essa dialéctica de silêncio/ruído, caos/gramática, vida/morte, estruturação/decomposição: “Desespero Ritual”, “Devil Angel”, “Body Parts”. “Death Ambient” chama-lhes Paes. A capa é o desenho cru de um corpo. Vivo? Morto?

Messerchups – Miss Libido 2000

18.05.2001
Messerchups
Miss Libido 2000
Solnze, distri. Ananana
7/10

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From Russia with Fun. De novo, agora com um dos elementos dos Messer Für Frau Müller, Oleg Gitarkin, mais o seu grupo Messerchups. “Miss Libido 2000” dificilmente se distingue de “Allo, Superman!”, dos Messer. É a mesma pop electrónica travestida de “easy listening”, mesclada de referências fílmicas ou à música de comerciais dos anos 50 e 60, imagens kitsch e trechos/colagens melódicos que insistem em não serem levados a sério. O que, há 35 anos, era em Raymond Scott trabalho árduo, visionarismo e um desfasamento genuíno em relação ao seu próprio tempo, é no russo Gitarkin piada estudada e ensaiada em laboratório. Funciona na mesma, mas a surpresa perdeu-se. O que não se perdeu foi a loucura, esta sim tão natural como tudo na sua personalidade, de Felix Kubin, o mais divertido e engenhoso entertainer do momento, que em 16 minutos do seu novo single (8/10), nos faz crer que a vida pode ser jogada como um “Game Boy”.