Arquivo mensal: Janeiro 2010

Széki Kurva – Music For Joyriders

10.10.1997
Széki Kurva
Music For Joyriders (7)
Fekete Galamb Zene, import. Symbiose

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Na contracapa de “Music For Joyriders” vêm indicadas, tema a tema, as respectivas batidas por minuto. É normal. Trata-se então de música de dança. Bem, talvez… Mas reparem: o disco, informa-se, contém “Phencyclidina” e foi gravado no sistema ACME, com o objectivo de potenciação dos graves, que foram “compressed to fuck”, para uma dose de 100 ml. A coisa complica-se ainda mais quando nas 11 remisturas, assinadas por gente como DJ Assassin e o convidado George Death, descobrimos um alucinante utilização de “samples”, dilacerados numa tecno-hardcore-industrial de pendor étnico-satânico-intervencionista, embora na ficha técnica os Széki Kurva agradeçam a Seus e à Virgem Maria, como também agradecem, ou pura e simplesmente lhes sacaram sons, aos Ukrainians, John Peel, Two Minute Hate, Birthday Party, Waste Youth, Bela Bartok, Phil Spector e o seu “wall of sound”, Chas & Dave, e aos grupos de música tradicional húngara Muzsikas, Vujicsics, Vasmalon, além das búlgaras Bisserov Sisters. Pois, os Széki Kurva são húngaros (o subtítulo do álbum é “A Weekend in the Life of the London Hungarian Massive”) e praticantes de uma música violenta que lembra os polacos Holy Toy, no lado mais politizado e militarista, os Popular Mechanics, do russo Sergei Kuriokhin, nas técnicas de colagem e apropriações étnicas, e os jugoslavos Laibach, no totalitarismo ideológico servido por uma não menos totalitarista sonoridade. “Music For Joyriders” funde furiosamente danças balcânicas, tecno demencial, a voz de uma feiticeira e toda a espécie de ruídos industriais e citadinos, numa viagem recomendável para melómanos com sensibilidade de comando.

J P Nystroms – Stockholm 1313 km (conj.)

10.10.1997
World – Suécia
Cinco Violinos
A editora Xxource/Resource continua a fazer o seu trabalho de repescagem de clássicos, a par da edição de novos nomes da música da Suécia, na área tradicional mas também do progressivo (bo Hansson, Sammla Mannas Mama) ou de autores contemporâneos, como Lars Hollmer e o desconhecido Dan Gisen Malmqvist. Acabou de chegar mais um pacote de lançamentos. Cinco, uma equipa à base de viloinos.

Faz sentido começar pelo grupo mais antigo,, e também mais clássico, do pacote, os J P Nystroms, um quinteto oriundo da zona mineira que rodeia a cidade de Gallivare, onde, desde há séculos, está estabelecida uma comunidade de lapões. “Stockholm 1313 km” é uma colectânea de temas dos três ábuns de originais do grupo, gravados em 1979, 1980 e 1987, e de uma cassete editada em 1986. Joan Olafsson, dos Nörrlatar, refere-se aos J P Nystroms de forma entusiástica, insistindo no seu pioneirismo e na frescura das interpretações. Com base numa combinação de quatro violinos – tradição fortemente implantada em toda a Escandinávia – o som dos J P Nystroms não tem o poder de ruptura de alguns dos grupos suecos mais recentes, sendo antes uma abordagem calorosa e séria do folclore de uma região específica, equivalente ao que os Dubliners, por exemplo, fazem na Irlanda. (Resource, 6).

No capítulo das bandas novas, surgem pela primeira vez no mercado português os Trio Patrekatt, com “Adam”. A sua proposta é original, embora não propriamente destinada a impressionar uma quantidade grande de ouvidos: juntar duas “nyckelharpas” (violino arcaico munido de teclas, cuja sonoridade faz a ponte entre a rabeca e a sanfona) com um violoncelo. O som daqui resultante, não primando pela variedade, aposta necessariamente na expresiividade, aspecto em que o trio revela todas as suas capacidades. O reportório de “Adam” é constituído, além de originais do grupo, por “polskas”, ora de sabor clássico, ora de colorido mais popular e rural, que, se outro mérito não tivessem, constituem material de dança de primeira água. Depois, como acontece com frequência nesta região da Europa, a Escandinávia, a música popular está intimamente ligada às tradições mais antigas, da Idade Média e do Renascimento, o que lhe confere um sabor e poder evocativo muito especiais. Escute-se a este propósito, um tema como “Prefektens Favoriter”. A não perder, sobretudo para os apreciadores da escola violinística escandinava, que sabem apreciar as delícias de um grupo de referência como os JPP. (Xxource, 7).

Alegrem-se os furiosos do ritmo, que esperam a “next big thing” depois dos Hedningarna, Den Fule, Hoven Droven e Garmarna. Os Vasen têm tudo para corresponder a estas expectativas. O seu novo álbum, “Varldens Vasen”, assenta numa poderosa secção rítmica propulsionada pelas percussões do novo elemento do grupo, André Ferrari (um autêntico Fórmula Um…), sobre as quais os restantes três músicos, Olav Johansson, na “nyckelharpa”, Roger Tallroth, na guitarra, e Mikael Marin, na viola de arco, elaboram uma complexa tapeçaria de compassos e arranjos que, uma vez mais, estão fortemente enraizados na tradição, mas insistem na sua modernização. Reforçam a componente rítmica e – lá teremos que utilizar novamente o termo… – progressiva (“Börjar du fatta”, “Nitti pomfriti”, “Tartulingen”…) de uma música que se desenvolve em constantes alterações de andamento e soluções tímbricas, o que é notável se nos lembrarmos de que o grupo apenas dispõe de três instrumentos solistas. Curiosa a fusão Suécia-Indía em “Shapons vindaloo”. Esqueçam os preconceitos e saboreiem esta música de infinitos matizes. Bolas, os Vasen, conseguem ser tanto ou mais complexos que os Gentle Giant!… (Xxource, 8)

Dan Gisen Malmqvist é um compositor e clarinetista que andou nos anos 70 a tocar “jazz” com Ale Möller (actualmente um dos mais reputados músicos suecos, presença indispensável nos discos de Lena Willemark), quando travou conhecimento com o grupo Arbete & Fritid (já reeditado num dos primeiros álbuns da xxource), através dos quais descobriu uma nova forma de improvisação, intrinsecamente ligada à música tradicional. “Nattljus”, gravado já este ano, é o seu segundo álbum, após “Vattenringar”, de 1990. Nele encontramos uma música, quase sempre calma, que junta o lado mais introspectivo de Lars Hollmer com uma admiração pelo “bal musette” e a canção do “vaudeville” (“Motvals”, vocalizada por Karin Parrot) franceses e os folclores da Grécia e dos Balcãs, alternando com marchas mais próximas da fluidez de um Bo Hansson (“Glasskapet”) doq ue das lúgrubes fanfarras dos Arbete & Fritid. Se me é permitido escolher um tema, optaria pelo encantamento solena de “Sorg”, onde Malmqvist toca uma taragota (clarinete grego) a pensar na música de Charlie Haden. (Xxource, 7)

Para finalizar, e só para chatear, mais violinos, incluindo o típico “hardingfela” sueco, mais viola de arco, lira, violoncelo e órgaõ de vozes, gravados noutra editora sueca, a Drone, pelos Höök!. Se os J P Nystroms representam o lado maispopular deste instrumento, os “Höök!” representam a sua vertente erudita. “Höök!”, o disco, subintitulado “Musik Ur Svenska Handskrifter Fran 1600 – Och 1700-Talen”, incide no reportório do século XVII, constituindo, sem sombra de dúvida, matéria de regozijo para um melómano e música clássica, mas deixando o adepto mais intransigente da “folk” de mãos a abanar. Para este, sobra a voz de Susanne Raosenberg, cujas escassas aparições fazem lembrar as liturgias de Agnes Buen Barnas. (Drone, 7; todos os discos distri. MC – Mundo da Canção).

Vários – Voz E Guitarra

12.12.1997
Portugueses
O Princípio Da Canção
Vários
Voz E Guitarra (7)
2xCD ed. e distri. Farol

Só a listagem de nomes presentes neste duplo álbum bastaria para esgotar o espaço desta crítica. “Voz e Guitarra” é uma autêntica parada de estrelas, reunidas com o propósito de pôr em prática uma ideia que, não sendo original – o “unplugged” -, tem a particularidade de os vários intervenientes mostrarem o que valem recorrendo às suas vozes e às suas guitarras. Num projecto desta natureza, é óbvio que nem todas as canções se pautam pelo mesmo calibre qualitativo. São, na maioria, canções conhecidas, umas vezes cantadas pelos próprios autores, outras recriadas em versões alheias, permitindo assim a sua revisitação em moldes diferentes.
Escolhemos para destaque, de um total de 36, aquelas de que ressalta algo que as torna momentos especiais. Assim, no primeiro compacto, tocam esse instante indefinível as vozes e as guitarras de Kalú (na sua estreia a solo fora dos Xutos) e Nuno Rafael, com “Tonto”, um grito arrebatado do fundo da esperança; “Os melhores anos das nossas vidas”, mostrando um Miguel ângelo nostálgico e afastado das luzes da ribalta; a beleza distante de Filipa Pais, em “Praia das lágrimas”; “Mulher da erva” de Sérgio Godinho, um original de José Afonso, com introdução vocal de Filipa Pais; a nova e mais medievalesca versão de Né Ladeiras e Pedro Jóia, para “Molinera”; e as barrocas harmonias vocais das Vozes da Rádio numa “Canção da viela património mundial” que não esconde a influência de Gabriel, o Pensador. E, brilhando e agitando-se acima de tudo, a voz de Janita Salomé, ressumando espiritualidade no seu clássico “Não é fácil o amor”.
No segundo compacto, somos atirados para a quarta dimensão pela versão de um tema de Fausto, “Porque não me vês”, de Xana com Flak, um dos grandes momentos do disco. Jorge Palma assina um pedaço autobiográfico no confessional “O meu amor existe”, enquanto a voz das profundezas atlânticas do açoriano José Medeiros faz da ternura tristeza em “Menina dos olhos tristes”.
Mas “Voz e Guitarra” vale, ainda, como uma ideia que torna possível a redescoberta de algumas facetas pouco iluminadas de um lote abrangente de alguns dos nomes mais sonantes da música portuguesa. Redescubram então, além dos exemplos citados, a música, no máximo despojamento, de Paulo Gonzo, Rui Veloso, Tim, Carlos Tê, João Afonso, João Gil, Minela e Moz Carrapa, Vitorino, Nuno Guerreiro, Luis Represas, João Monge, José Soares Martins e Paulo Costa.