Arquivo mensal: Novembro 2009

Tortoise – As Metamorfoses Da Pós-Tartaruga

30.03.2001
Tortoise
As Metamorfoses Da Pós-Tartaruga

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“That’s me, the president of the junta! I am the president of the junta!” (“Eu, eu é que sou o presidente da junta!”), gritam em coro John McEntire e Jim O’Rourke. A junta é o pós-rock, género musical algo estafado nos dias que correm, mas cuja liderança era de primordial importância, há cinco, seis anos atrás. Eles são de facto os dois presidentes da junta do pós-rock de Chicago.
Mas, perguntarão vocês, porquê falar aqui de política regional? Fácil: porque um destes autarcas, John McEntire, visita-nos amanhã, na qualidade de dirigente dos Tortoise, uma das mais importantes instituições musicais de Chicago e uma das que mais e melhor contribuiu para conferir credibilidade ao pós-rock. Tortoise pela primeira vez em Portugal é um acontecimento. Ainda para mais numa altura em que mal pousou nos escaparates nacionais o novo álbum “Standards”, capítulo mais recente de uma aventura sónica que não cessa de surpreender.
Os Tortoise (“tartaruga”, designação inspirada em John Fahey, um dos heróis da banda, recentemente falecido, cujo gosto por este réptil constituía uma das suas muitas idiosincrasias…), expoente da cena alternativa de Chicago, formaram-se – surpresa – em… Chicago, mais concretamente no Illinois, em 1990. Quatro anos após a sua fundação, o álbum de estreia “Tortoise”, juntamente com outros álbuns de bandas como os Rome, Trans AM, Slint ou Him, alertou a crítica e o público para a existência de um movimento ao qual foi colado o rótulo “pós-rock” (“post rock”). Na prática, queria dizer: rock que recusava sê-lo, ou que queria levá-lo para fora dos seus parâmetros tradicionais, para tal recorrendo e reformulando influências, passadas e contemporâneas, como o krautrock, a cena de Canterbury, progressivo, jazzy, easy listening, art-rock e até… bem camuflado, o rock.
Mas “Tortoise” não fazia prever a dimensão que viria a ter o álbum seguinte, “Millions now Living Will never Die” (existe um disco intermédio de remisturas, de 1995, nunca distribuído em Portugal, “Rhythms, Resolutions & Clusters”). De imediato, o álbum ganhou um estatuto de culto, muito por culpa de um tema, “Djed”, que não se envergonhava de permanecer a girar durante cerca de 20 minutos, recuperando sem traumas a tradição das faixas longas, quer do krautrock, quer da música progressiva, dos anos 70. “Djed” é uma experiência sem paralelo nos domínios da experimentação, abrindo ao então emergente pós-rock novas pistas, tanto a nível estético, como ao das técnicas de estúdio.
Muita desta liberdade criativa – é forçoso reconhecê-lo – deve-se ao visionarismo de dois dos produtores, Steve Albini e… Jim O’Rourke, precisamente, o outro presidente da junta, com quem McEntire trabalhara nos Gastr del sol.
Quem, hoje, quiser saber os caminhos que em 1996 se abriam ao pós-rock, deve consultar “Millions now Living Will Never Die”. Os Tortoise tinham-se tornado a ponte que ligava a tradição à inovação. E uma referência incontornável da música de Chicago que deste modo voltava a fazer frente a Nova Iorque, sede desde a década passada da tentacular cena “downtown2, na liderança das “novas músicas” americanas. Os Tortoise ficavam paralelamente imortalizados numa novela de Timothy White, “Low Fidelity”, onde se narra a viagem de um fanático a Londres para comprar todas as edições discográficas do grupo.
Depois de novo disco de remisturas, “Remixed”, o passo seguinte, “TNT”, indica uma viragem musical de 180º. O som torna-se difuso, menos focado, em abstracções que sugerem improvisação, novas investigações de estúdio e experimentação nas franjas do jazz. O que não surpreende se atendermos a que um dos músicos, Jeff Parker, faz parte da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians) e que os Tortoise mantêm relações com outras duas bandas importantes de Chicago, os Isotope 217º e os Chicago Underground Orchestra, ambas do universo do jazz alternativo.
O novo “Standards” volta a surpreender. É o “disco punk” dos Tortoise. O pós-rock afastara-se tanto do rock que, no fim, fechando um ciclo, encontra… o rock. Mas um rock que perdeu a inocência para se assumir como criação mutante. Ainda um álbum sobre a América, onde também a inocência cedeu o lugar, definitivamente, ao império do espectáculo. A mais recente edição da série “Red Hot”, “Red Hot + Indigo”, dedicada a Duke Ellington, conta com a colaboração do grupo, numa versão do tema “Didjeridoo”.
Na primeira parte, actuam os “The Sea and the Cake”, um dos múltiplos projectos paralelos de John McEntire (também autor, a solo, da banda sonora de “Reach the Rock”). Nostalgia, memórias de Canterbury, pop e bossa-nova, numa música de nuances suaves que pode ser ouvida em disco no novo “Oui”.

Spectrum – Forever Alien

24.10.1997
Spectrum
Forever Alien (8)
Space Age, import. Torpedo

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Os Spectrum, actual projecto de Sonic Boom, levam às últimas consequências a estética psicadélica cultivada pelos Spacemen 3, da qual Sonic foi um dos elementos fundadores. Recorrendo exclusivamente a tecnologia electrónica formada por componentes analógicos (sintetizadores EMS, VCS3 e OSCar, Theremin, Serge Modular System e Vocoder), o grupo persegue o espaço como a última fronteira, explorando alguns dos clichés da “space music” dos anos 60 e 70, dos Pink Floyd aos Hawkwind, aflorando ainda alguns dos caminhos percorridos por Julian Cope em “Interpreter”. Nesta corrida para reencontrar a magia perdida das viagens onde a separação do espaço interior e do espaço exterior não fazia sentido, os Spectrum ligam e desligam durante 77 minutos botões e cabos, construindo e desfazendo mensagens da mente enviadas para o cosmos, incluindo uma “private joke” muito especial, ao chamarem a um dos temas “Delia Derbyshire”, que alguns saberão tratar-se do nome do vocalista dos White Noise, projecto de David Vorhaus, pioneiro da electrónica psicadélica, num álbum gravado em 1969, “An Electric Storm”, cujo fascínio permaneceu intocável até aos dias de hoje. Há, aliás, outro título que não deve ter sido escolhido por acaso: “Sounds for a thunderstorm”. Vinte e oito anos depois de largada, a nave retoma o seu rumo em direcção às estrelas.

Charlie McMahon – Tjilatjila

17.10.1997
Charlie McMahon
Tjilatjila (7)
Spectrum, distri. Megamúsica

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“Tjilatjila” significa “movimento lento” ou “suave”, na linguagem dos povos aborígenes da Austrália. Com base neste conceito o australiano Charlie McMahon acrescentou mais um volume à escassa discografia centrada no “didgeridoo”, ou “didge” como o músico chama carinhosamente a este estranho instrumento dos aborígenes. O “didgeridoo” tem a forma de um tronco oco, de comprimento variável, cuja sonoridade, uma “drone” hipnótica em constante vibração, evoca as próprias profundezas da Terra. Utilizado no contexto das novas músicas rituais, por grupos como os Lights In A Fat City ou Trance Mission ou, na “new age” étnica de um compositor como Steve Roach, o º”didgeridoo” não se presta, da música étnica, a grandes variações. A este problema respondeu Charlie McMahon com o desenvolvimento de novas técnicas de execução que passam, inclusive, pela introdução do chamado “didge horn”, em que, ao contrário das técnicas tradicionais, permitem a criação de melodias simples. Em segundo lugar, com a preocupação de aligeirar o carácter hermético do som do didgeridoo, McMohan adornou uma série de temas com ornamentações acústicas de violino, piano, guitarra e violoncelo, introduzindo em “Tjilatjila” coordenadas mais próximas da “new age” e de artistas como Roger Eno ou os Penguin Cafe Orchestra. Nos temas de “didgeridoo” solo, sem dúvida os amsi interessantes, a música torna-se verdadeiramente curativa, podendo fazer descer as pulsações cardíacas aos 48 batimentos por minuto, os mesmos com que McMohan executou o transe ambiental de “48 slow heart”. Chegados a este ponto, “Tjilatjila” transporta-nos numa viagem astral para as vastas vastidões do deserto australiano.