Em vinilo, “Andromeda”, de 1968, único álbum de originais lançado nos anos 60 por esta banda obscura, é uma raridade dispendiosa. A presente reedição, servida pela indispensável remasterização, dobra no entanto a parada, amontoando em dois CD uma quantidade adicional de versões ao vivo, demos (para um segundo álbum nunca editado) e cinco contribuições do grupo para um programa “Top Gear” de John Peel. “Andromeda” destina-se prioritariamente aos apreciadores e arqueólogos de hard rock mas uma audição despreconceituosa (e paciente…) permitirá a descoberta, entre os riffs imaculados do guitarrista John Du Cann (mais tarde nos Atomic Rooster), de súbitas deslocações rítmicas, ênfases em pormenores que “não deviam estar lá”, vocalizações em tons menores e desvios para escalas exóticas que remetem para o mesmo tipo de rock psicadélico/progressivo de bandas como os T2, High Tide ou Clear Blue Sky. O próprio John Du Cann conta como era, nas extensas notas de capa.
07.11.1997
Electrónica
Enfermagem Planetária
Ligar “on”. “Turn on”. Todos os circuitos “ok”. Sequenciadores, monitores, sintetizadores – máquinas em movimento. Esta semana o “laser” varre uma série de discos de música electrónica de vários estilos e quadrantes. Do “easy listening” cerebral à respiração da Terra. O Planeta em busca de uma cura.
Além da Califórnia, o infinito. O radiotelescópio de Steve Roach continua assestado aos consfins da galáxia, lá onde o silêncio reina, emitindo para a Terra os seus sinais anteriores à própria Criação. “On This Planet” é o mais recente trabalho deste prolífico compositor californiano erradamente conotado, em alguns sectores, com a “new age”. Autor de obras importantes como “western Spaces” e “desert Solitaire”, ambas com a colaboração de Kevin Braheny, “Dreamtime Return”, “World’s Edge”, “Kiva” (com Michael Stearns e Ron Sunsinger), “Well of Souls” (com Vidna Obmana), “Halcyon Days” (com Stephen Kent e Kenneth Newby) e as duas colaborações com Robert Rich, “Soma” e “Strata”, Steve Roach deu origem, mais recentemente, a uma derivação da “ambient music” a qual recebeu a designação de “sombient”, ou “Ambient noire”, através de um álbum seminal, “The magnificent Void”. A “sombient”, enquanto protótipo de uma nova categoria musical, tem paralelo com a “discreet music”, de Brian Eno, na mesma medida em que estabeleceu novas regras e paradigmas estilísticos.
“On This Planet” aterra outra vez no plantea, tomando como ponto de partida uma abordagem “ao vivo” do som, com posterior recriação em estúdio. Em termos estéticos e de uma filosofia que, sem preconceitos, poderemos designar de ecologista, está mais próximo de “World’s Edge” e dos dois álbuns gravados pelos Suspended Memories (Roach com o mexicano Jorge Reyes e o espanhol Suso Saiz) do que das mais recentes incursões na “sombient”. Predominam os sons cardíacos da Terra: didgeridoos, pedras, potes de água percutidos, flautas pré-hispânicas, em relação harmoniosa com os samplers, os sintetizadores analógicos e digitais e os sequenciadores. Ouvem-se trovoadas, rios de lava, vento e chuva, a ondulação dos vastos oceanos, reflexos de estrelas na superfície calma de um lago. Fogo e pedra, pulsações surdas de um planeta que ora repousa na frágil ondulação de uma flor, ora se agita em violentas convulsões. Temas como “Heart of the tempest”, “Trilobite”, “Cloud watching with the toolmaker” e “A darker star” funcionam como símbolos da interactividade do Espírito humano com a Natureza, dando a escutar os ritmos primevos da vida, em ligação estreita com o Cosmos. Que esta ligação se faça também através da tecnologia electrónica mais sofisticada, eis uma das maravilhas de uma música que verdadeiramente nos religa à Totalidade (Fathom, distri. Strauss, 8).
Do fundo dos oceanos, subamos à superfície para um banho de espuma. Para tal, nada elhor que o “jacuzzi” musical dos Turn On, projecto de Tim Gane e Andy Ramsay, dos Stereolab, com Sean O’Hagan, dos High Llamas, onde a vertente “easy listening” dos autores do recente “Dots and Loops” se sobrepõe a quaisquer intenções metodológicas de maior fôlego. “Turn On” são 29 curtos mas limpos minutos de borbulhar e “glissandos” analógicos (com uma única intervenção vocal de Laetitia Sadier, em “Ru Tenone”) em que os Turn On propõem a sua própria música de fundo para ouvir na Estação MIR, transformando a “space age batchelor pad music” de Esquível num bailado espacial festivo. É como se os Can se tivessem metamorfoseado numa borboleta e voado dentro de uma bolha de champanhe. Ouçam um tema como “Glangorous” e flutuem nos sonhos da vossa cápsula pessoal. (DuophonicSuper’45, import. Symbiose, 7)
A leveza do mais recente trabalho de Pete Namlook (correspondente ao 758º álbum editado na Fax, no mês de Setembro de 1996), desta feita em colaboração com Move D, vulgo David Moufang, é de tipo diferente da dos Turn On, uma leve fogagem na epiderme servida com o pomposo título de “Exploring The Psychedelic Landscape”. Como acontece com a generalidade dos álbuns da Fax, a música parece ter sido gerada a partir de um único “take” e durante uma única sessão de gravação, dando ideia de que os músicos nem sequer se terão dado ao trabalho de mudar mais do que uma ou duas vezes os registos dos sintetizadores. Psicadélica não é de certeza, e de exploratória tem muito pouco, esta “lanscape” que não é tecno, nem “trance”, nem ambiental, onde os sons, embora agradáveis, desde muito cedo esbarram na monotonia de programações preguiçosas e em timbres electrónicos já mil e uma vezes ouvidos em anteriores e bem melhores trabalhos de Namlook. (Fax, import. Symbiose, 5)
Finalizamos com uma ligação a máquinas mais ameaçadoreas e ruidosas. Os neurónios vibram ao contacto com os circuitos da fábrica electrónica dos To Rococo Rot, projecto dos irmãos Robert e Ronald Lippok com Stefan Schneider, também mentor dos Kreidler. Depois de “Veiculo”, chega ao mercado nacional o disco de estreia desta banda alemã, singelamente intitulado “CD”. Mais ainda do que em “Veiculo”, torna-se evidente a filiação dos To Rococo Rot não só no minimalismo fabril dos Cluster e, em particular, no abstraccionismo matemático característico da obra a solo de um dos seus elementos, Dieter Moebius, como também nos exercícios fragmentários de todoa a primeira fase da discografia de Conrad Schnitzler, membro fundador dos Kluster (pré-Cluster) e dos Tangerine Dream. É por aqui que o pós-rock tem terreno livre à sua frente para avançar, numa música que dispensa a tentação do programático para se abandonar ao prazer da sensação pura. (Kitty-Yo, import. Ananana, 8)
Para os adeptos da “new age” de papel (reciclável), há a registar ainda a chegada ao mercado nacional de novas referências do catálogo Hearts of Space, outrora um excelente selo de “space music” (experimente-se a audição dos primeiros álbuns de Constance Demby, Michael Stearns, Kevin Braheny, David Lange ou Robert Rich). “Nomad”, de Paul Sauvanet, envernizamento digital de uma música pretensamente com raízes árabes, “Bridges”, de Oysten Sevag, tecno ambiental para uso em casas de banho de escritório, e “Klezmer Soul”, de Kol Simcha, música “klezmer” em registo de variedades, recomendam-se talvez apenas aos demonstradores de alta-fidelidade.
Na primeira fila dos psicadélicos, em 1997, perfilam-se Julian Cope e Edward Ka’Spel, “acid-head” dos Legendary Pink Dots. “Hallway of the Gods” é o enésimo álbum desta banda que, surpreendentemente, se mantém firme numa linha de rumo iniciada há muitos anos e que teve a sua primeira obra capital no duplo “Asylum”. “Sing while you may” continua a ser a máxima apocalíptica inscrita ábum após álbum numa obra que continuamente explora novas facetas líricas e combinações sonoras. Segundo uma visão com fortes laivos de paganismo, onde a tecnologia electrónica, de uma complexidade barroca, se combina com os versos de Ka’Spel, compreensíveis apenas pelos argonautas do Inconsciente, “Hallway of the Gods” lança-se no abismo das alucinações, assombradas pela figura de Lúcifer, em sonhos malsãos de ascensão e queda, solidão e alienação, anjos sofredores e espectros furtivos. Depois, os LGP estão longe de ter esgotado a sua reconhecida capacidade para criar melodias insinuantes, verdadeiro veneno com efeitos nefastos sobre o cérebro, criando paisagens instrumentais – coloridas por um saxofone sonâmbulço, teclados em transe e efeitos de voz variados – que, ocasionalmente, se inscrevem no mesmo universo de sombras percorrido pelos Tuxedomoon em “The Ghost Sonata”. Surpresas constantes, encontros do terceiro grau com canções alienígenas (“The Saucers are coming2, avosam…) e os reflexos ominosos de gemas garimpadas nas minas do Eu interior, culminam na beleza, quase sobrenatural de “Sterre”, o tema das altas solidões que Syd Barrett nunca chegou a escrever. “Hallway of the Gods” remete, aliás, para o universo dos Pink Floyd, em álbuns como “A Saucerful of Secrets” e o mais abstracto “Ummagumma”, na mesma viagem pelo lado escuro da mente, paradoxalmente aquele onde as cores parecem ter cambiantes e um brilho mais intensos.