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Telectu – “Telectu, Cutler, Berrocal”

POP ROCK
15 de Novembro de 1995

Álbuns portugueses

Telectu
Telectu, Cutler, Berrocal

ED. FÁBRICA DE SONS, DISTRI. MOVIEPLAY


telectu

Quem porfia sempre alcança, diz-se, e Jorge Lima Barreto tem porfiado bastante. O mais recente “opus” da dupla Barreto/Rua reúne actuações ao vivo com os convidados Chris Cutler, nas percussões e electrónica, e Jac Berrocal, trompete e electrónica, realizadas o ano passado, no Teatro S. Luiz, em Lisboa; só com Berrocal, no mesmo ano, na Casa de Serralves, no Porto; e com Cutler, há dois anos, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Os 42 minutos e 13 segundos da “performance” em Lisboa constituem o prato forte da improvisação em quarteto, onde o principal atractivo consiste em tentar descortinar onde termina o aleatório e começa o discurso previamente, pelo menos em parte, estruturado. O caos mostra deter as rédeas de comando neste périplo pela cacofonia que substitui os anteriores “mimetismos” da dupla portuense. Há sons estranhos, encadeamentos com a duração de segundos onde os músicos se surpreendem a tocar juntos, instantes de poesia, até de silêncio. É óbvio que tanto Rua como Barreto assimilaram convenientemente algumas das cifras correntes da chamada “new music”. A maior virtude dos Telectu tem sido, desde sempre, a de tirar o máximo partido das limitações próprias. Por fora, este disco tem um néon a piscar “novidade” e “experimentação”. Difícil, a exigir esforços da imaginação, é descortinar nele um sentido mais além, um dizer algo que não se esgote no próprio instante interpretativo. Por ora os Telectu parecem comprazer-se nas delícias do fugaz. Guardamos na memória o bom entendimento de Rua com Cutler no tema do Gil Vicente, e o “tour de force”, entre o litúrgico, o magmático e a música concreta, de Lima Barreto, nos sintetizadores do terceiro e último acto. O invólucro pictórico leva a assinatura, como de costume, de António Paolo. (7)

Regiões Autónomas da “New Age” – artigo de opinião (balanço português de 1994)

Pop Rock

28 de Dezembro de 1994

Balanço Português 94

REGIÕES AUTÓNOMAS DA “NEW AGE”


Biombos

A estética “new age” parece ter ganho este ano em Portugal novos adeptos. O registo ambiental, a espiritualidade e a função apaziguadora e terapêutica dos sons são algumas das linhas de força presentes nos novos trabalhos de artistas como Madredeus, com “O Espírito da Paz”, Rão Kyao, com “Águas Livres”, Fredo Mergner, com “À Sombra da Figueira” e, inserido num outro tipo de pesquisa, os Telectu, com “Biombos”.
Cada um destes discos foge ao discurso linear e à imposição de esquemas rígidos da música. Põem o ênfase na criação de ambientes, em detrimento do formato tradicional de canção. Não ilustram uma cena, não contam uma história, antes buscam criar um estado de espírito e investigam no interior dos próprios sons. De igual modo, embora com menor evidência, também Né Ladeiras, em “Traz os Montes”, e José Peixoto, em “Taifa”, não são indiferentes a este conceito paisagístico da música, mas aqui interligado com as raízes étnicas, transmontanas (no caso de Né) ou árabes e inseridas numa lógica improvisacional e jazzística (no que diz respeito a José Peixoto).
De resto, quaisquer dos artistas, nos álbuns mencionados, mesmo os Telectu, não quebram os elos de ligação à música tradicional de matriz lusófona, uma preocupação que os coloca num lugar da “new age” de carácter regionalista, em comparação com a atitude “cósmica” e aquariana dos seus congéneres estrangeiros. Torna-se por outro lado curiosa a inexistência em Portugal de projectos que façam a conexão da “new age” com a música de dança, seja na chamada “ambient house” ou na mais recente “etnotechno”, duas correntes fortes actualmente na Europa. Ou por falta (ainda) dos meios tecnológicos necessários ou devido à inexperiência neste campo dos produtores, o facto é que, até agora, ninguém ensaiou explorar as vias deixadas em aberto há uns anos por Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro, em “Mr. Wollogallu”.

torrent

Telectu – “Evil Metal”

POP ROCK

27 DEZEMBRO 1992
DISCOS PORTUGUESES DE 1992
ALTERNATIVA

TELECTU
Evil Metal

Edição Área Total

Os Telectu progridem por avanços e recuos. Mudam de géneros e conceitos como quem muda de camisa – inconstância que tem, porventura, obstado à exploração de uma linha musical definida. Seja como for, “Evil Metal” é um tiro em cheio no panorama das músicas alternativas feitas em Portugal, podendo ombrear com obras da escola nova-iorquina representada por David Linton, David Fulton, J. A. Deane e Elliott Sharp, entre outros nomes. Jorge Lima Barreto tira o melhor partido dos timbres e estruturas repetitivas electrónicos, Vítor Rua navega entre as ondas frippianas e as fragmentações de Robert Musso. Elliott Sharp aparece num par de temas, mas a sua presença era escusada.
“Evil Metal” divaga e transtorna. Brinca, destrói e refaz géneros como o rock sinfónico, o art rock, o jazz mutante e a “systems music”, com uma mão cheia de acentos numa espécie de etno-traficada. A propósito, haja a esperança de que, desta vez, nenhum “p” atrevido transforme “raga” em “praga”. Mesmo que o tema em questão de indiano pouco tenha. Monstro devorador de músicas e ideias feitas, “Evil Metal” passa a liderar o pequeno pelotão dos discos nacionais que se posicionam orgulhosamente à margem. Das negociatas e do vil metal.