“Blue Concert” Hoje À Noite Na Culturgest
O Anjo Azul Da Morte
Depois de ser um filme e um disco, “Blue”, testamento cinematográfico de Derek Jarman, tomou a forma de um concerto de música. Uma fuga em azul onde os sons e as palavras fazem um retrato da agonia e procuram um sentido para a morte.
“Blue” é um filme azul. Literalmente azul. Azul ultramarino, o “International Klein blue” descoberto pelo pintor francês Ives Klein, um dos protagonistas invisíveis desta obra monocromática. Não há planos, nem sequer imagens, apenas uma mancha azul, constante e inexorável, o ecrã, a pautar o monólogo do realizador, Derek Jarman – homossexual, provocador, esteta, decadente – sobre a doença que o vitimou em Fevereiro deste ano, a sida. Um monólogo extraído dos diários que o realizador escreveu durante o período em que esteve internado no Bartholomews Hospital, em Londres, onde viria a falecer. O filme segue a mesma progressão da doença, uma lenta infecção das palavras em situações-limite que se esbatem no absurdo. Há uma “banda sonora” deste filme. Ou seja, um documento sonoro sobre a morte, num discurso, em vários andamentos, que relata com uma minúcia obsessiva, a progressão da doença e a correspondente desagregação psíquica do doente.
“Blue” é também, desde o ano passado, um “espectáculo” de música ao vivo, intitulado obviamente “Blue Concert”, organizado por Simon Fisher Turner, que a Culturgest apresenta hoje às 21h30 no Grande Auditório do Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos.
Simon Fisher Turner compôs toda a música de “Blue” que, no compacto (ver recensão no suplemento Poprock de 6 de Abril do ano passado) com o mesmo nome, inclui excertos musicais de Brian Eno, John Balance e Peter Christopherson (ambos dos Coil), Gini Ball, Miranda Sex Garden, Momus, Vini Reilly, Kate St. John, Szymanowsky, Gershwin e Erik Satie.
“Blue Concert” é uma encenação dos materiais sonoros do filme e do disco. Há músicos – neste caso talvez seja melhor chamar-lhes manipuladores multimédia – em cena. Por trás é projectado o azul do filme, e sobre este, em primeiro plano, imagens captadas em super 8 por Derek Jarman e montadas ao vivo pelo produtor do projecto James MacKay. John Quentin recita textos do filme.
No palco, na situação de intérpretes vão estar Simon Fisher Turner, no piano, guitarra Fender Stratocaster, cassetes, “Work station” (um mini-estúdio de gravação portátil) e misturas, Markus Dravs, encarregado das “distorções”, no sintetizador, percussão e misturas, Marvin Black, no “som FX”, no sintetizador, misturas, charango e bandolim, e Ian D. Smith, nos teclados. James MacKay faz a produção e os efeitos visuais. Sergio Avila responde pela criação da “atmosfera”, com a voz, cassetes e misturas. “Blue Concert” tem a duração de 90 minutos.
Antes das suas colaborações com Derek Jarman, com quem trabalhou nas bandas-sonoras de “Caravaggio”, “The Last of England”, “The Garden” e “Edward II”, todas editadas na Mute, ou na curta-metragem “Sloane Square”, Simon Fisher Turner participou na versão em “single” de “The prettiest star”, de David Bowie. Compôs ainda a música para os filmes “Melancholia” de Andi Engel, “Cycling the Frame” e “The Wild Party”, de Cynthia Beat, “Floating”, de Richard Heslop e “Young Soul Rebels”, de Isaac Julien.
Pouco tempo antes da sua morte Derek Jarman foi atingido pela cegueira, provocada por um deslocamento de retina. Extinta a esperança, extinguira-se igualmente a visão do azul da vida, do azul da cor do céu. Derek Jarman começou a sonhar em azul.
Roger Eno & Kate St.-John
The Familiar
CD All Saints, distri. MVM
Dos dois irmãos Eno, Roger é, sem dúvida, o sal de frutos da família. Enquanto Brian se vai entretendo a pintar quadros com sons, Roger prefere melodias que ajudam à digestão. Autor de uma estreia promissora, “Voices”, em que recuperou com credibilidade o minimalismo pianístico-maçon de Erik Satie, a sequência “Between Tides” mostra-o interessado pela música de câmara ligeira num álbum com o seu quê de enjoativo. Neste novo trabalho, Roger Eno debruça-se sobre a amizade e os bons sentimentos, o que só lhe fica bem, até porque a música, por seu lado, serve igualmente para levantar os ânimos que o “stress” deitou por terra. Não é “new age” porque de “new” não tem nada, mas como massagem é eficaz. Regressam ecos de Satie, envoltos por arranjos mais carnudos, acompanhados, desta feita, por incursões de salão no universo purcelliano de Michael Nyman. As peças declaradamente ambientais embalam sem fazer adormecer. Kate St.-John empresta a voz de mosquinha na sopa a quatro temas na linha de jardinagem musical de Virginia Astley e, no fim, os dois acendem pauzinhos de incenso e trocam beijinhos de felicitações. Gente fina é outra coisa. (6)
31.10.1997
Kate St. John Fala Do Seu Novo Álbum
“Já há música que chegue para os mais novos”
Romântica e poética. Assim se poderá definir a personalidade e a música de Kate St. John, cujo último álbum, “Second Sight”, acaba de ser editado. Com as marcas da canção francesa e de assuntos difíceis de enfrentar, como a morte, e onde a poesia é encarada como forma de redenção.
Rquisitada com assiduidade para participar em sessões de estúdio dos mais diversos artistas, Kate St. John recolhe-se nos seus discos a asolo numa música mais intimista, onde se descortinam fortes traços de romantismo e melancolia. A antiga cantora dos dream Academy prepara actualmente um álbum de homenagem a Nick Drake.
FM – “Second Sight” conta com a presença de Roger Eno, com quem já colaborara em “The Familiar”. Quando é que o conheceu?
Kate St. John – No início dos anos 90, através de um amigo comum, americano, da editora de discos. Eno andava à procura de uma cantora para “The Familiar”. Demo-nos bem e acabei por escrever as letras para o disco. Nunca tinha ouvido antes a música dele, depois percebi imediatamente que tínhamos muito em comum. Mas as melodias de “The Familiar” não eram bem canções, por isso a voz foi usada mais como instrumento. Não era a clássica sequência “verso-refrão-verso”, embora tivesse palavras.
FM – O que tem, exactamente, em comum com Roger Eno?
Kate St. John – Bem… Gostamos ambos de música bastante romântica, assim como nos interessa fazer arranjos dentro de um estilo neoclássico, em vez de uma música mais ruidosa. É como se seguíssemos os dois num ritmo sincronizado.
FM – O ambiente geral da música que ambos fazem pode definir-se como impressionista?
Kate St. John – Sim, sem dúvida. Ele prefere que a voz seja calma, de maneira a misturar-se com o resto da música. Não se trata de um cantor com uma banda por trás.
FM – Na vida real é assim tão calma e romântica como aparenta ser nos discos?
Kate St. John – não [risos]! Bem, na verdade sou uma pessoa calma, mas também tenho um lado mais gregário. Tenciono kostrar no próximo álbum outros aspectos da minha personalidade. Algumas pessoas acham que os temas de “Second Sight” já não são tão depriomentes e sombrios como costumavam ser. Penso que estou a mudar.
FM – “Second Sight” é uma viagem (“trip”) por várias paragens e ambientes do planeta…
Kate St. John – “Yeah”, meu [risos]!
FM – Não nos referimos a esse tipo de viagens…
Kate St. John – Ah, bom, não tenho nada a ver com drogas. Mas, sim, o álbum é como uma viagem, uma viagem imaginária.
FM – O que não a impediu de trabalhar com Julian Cope, a maior “acid head” dos dias de hoje…
Kate St. John – É verdade, mas isso já aconteceu há muito tempo. Nãos ei se temos algo em comum, somos amigos e ele pareceu gostar daquilo que fiz no álbum del. Ah, sim, gostamos os dois de música dos anos 60!
FM – Trabalhou em “Second Sight” com uma série de artistas estrangeiros – franceses e russos…
Kate St. John – Sim, tenho a tendência para me relacionar melhor com pessoas que vivem for a de Inglaterra. Regra geral, no resto da Europa existe uma mentalidade mais aberta. Em relação aos músicos russos que participam no álbum, os Aquarium, de Boris Grebinshikov, já tinha produzido dois álbuns deles. Foram eles que fizeram questão de entrar no meu disco. A voz de Boris é simplesmente fantástica. Gravámos uma faixa em Londres, durante uma tarde. A França surge devido ao facto de o meu co-produtor ser francês e de eu gostar bastante de trabalhar com músicos de estúdio franceses.
FM – Quando canta, em francês, “J’attendrais”, é difícil não pensar em Edith Piaf. Até que ponto foi influenciada pela chamada “chanson française”?
Kate St. John – Acha? Sim, de facto adoro todos esses velhos cantores franceses, não só Edith Piaf, mas também Juliette Gréo ou Lucienne Boyer; é um dos meus estilos de música favorito. Teria gostado imenso de fazer um álbum inteiro só de canções francesas, mas tive que me conter e gravar apenas essa, um “standard” que toda a gente em França conhece.
FM – Joseph Racaille, também francês, é outra presença importante no disco. ele veio dos ZNR, ao lado de Hector Zazou e…
Kate St. John – Ah, conhece a sua música? Ele tem um álbum novo, fantástico, na WEA, onde eu também participo, a tocar saxofone e a cantar. Infelizmente, para já, só está disponível em França.
FM – Outro nome que nos vem à mente é o de Virginia Astley. Voltou a tocar com ela depois do projecto Ravishing Beauties?
Kate St. John – Depois disso só fiz com ela um par de temas para o seu novo álbum, que apenas foi editado no Japão. Não a convidei para participar neste meu novo álbum, porque o tinha feito no anterior e porque gosto de mudar.
FM – Já trabalhou com uma quantidade enorme de pessoas, de Julian Cope, como já se falou, aos Blur, Everything But The Girl, Kirsty McColl ou Van Morrison… Sente-se à vontade a tocar com tanta gente diferente?
Kate St. John – Na maior parte das vezes, trata-se unicamente de sessões de estúdio. Entro lá numa tarde, toco uma ou duas canções e já está, adeusinho, acabou! É a minha profissão. Andei anos a estudar e a praticar saxofone e agora as pessoas pedem-me para tocar com elas.
FM – Não é um instrumento que seja muito vulgar ver tocado por mulheres, pois não? Já agora, tem alguma ligação com o jazz?
Kate St. John – Não, na verdade não é!… Mas gosto e tenho o hábito de ouvir jazz. Tento mesmo aprender a tocar jazz. Penso, aliás, que o meu próximo álbum será mais “jazzy”, com mais ritmo.
FM – Sabemos que está actualmente envolvida num projecto de produção de um álbum de homenagem a Nick Drake. Pode adiantar-nos alguma coisa sobre ele?
Kate St. John – É uma co-produção com Joe Boyd, que foi quem descobriu e produziu os álbuns originais de Nick Drake. Há alguns anos atrás começou a gravar algumas versões de temas de Nick Drake, na américa, mas depois parou e o projecto ficou na gaveta. Até que, recentemente, resolveu recomeçar e pediu-me para ser eu a co-produtora. Nesta altura estamos a contactar diversos artistas, para aprticiparem no disco, como Kate Bush, Brian Kennedy ou Paul Buchanan, dos Blue Nile e, talvez, Paul Weller, não sabemos ainda. Contamos que o álbum saia por altura do Ano Novo.
FM – Numa altura em que muitas intérpretes femininas se voltam para o hi-hop e para a música de dança, você permanece fiel a uma linha musical bastante recatada. Gosta assim tanto de se manter afastada do resto do mundo?
Kate St. John – Faço discos apenas para meu próprio prazer. É por isso que stou numa pequena editora independente que pode não vender muitos discos, mas me deixa fazer aquilo que eu quero. Não estou interessada em fazer algo que me desagrade do ponto de vista musical. No meu caso, a vida de músico é dura – pouco dinheiro e muito trabalho. Se não tivesse uma recompensa, uma satisfação estritamente musical, não faria qualquer sentido continuar. Já não tenho 20 anos, mas 40, e gosto de fazer música para pessoas mais velhas. Porque é que não se há-de fazer música para toda a gente, em vez de só para os jovens? Já há música que chegue para os mais novos. Então e os outros, não têm direito a outra música? Então e eu, não tenho esse direito [risos]?
FM – O que procura fazer chegar às pessoas, o que gostaria que elas sentissem ao ouvir a sua música?
Kate St. John – Alguns dos temas das minhas canções são bastante tristes, como a morte de pessoas, assuntos difíceis de encarar, mas com os quais toda a gente tem de viver. Escrever sobre esses temas, de uma forma poética, ajuda-me a lidar com eles. Trata-se, no fundo, de poder encará-la sob uma perspectiva menos terrífica. Vi há alguns dias escrito num jornal que a poesia pode ajudar a recuperar os doentes de cancro. Em vez de se sentirem aterrorizados, a pensar em suicídio, na doença do seu corpo, que vão morrer, concentram-se na beleza. Mesmo que seja na forma da tragédia.