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Derek Jarman – “‘Blue Concert’ Hoje À Noite Na Culturgest – O Anjo Azul Da Morte”

cultura >> sábado, 24.06.1995


“Blue Concert” Hoje À Noite Na Culturgest
O Anjo Azul Da Morte


Depois de ser um filme e um disco, “Blue”, testamento cinematográfico de Derek Jarman, tomou a forma de um concerto de música. Uma fuga em azul onde os sons e as palavras fazem um retrato da agonia e procuram um sentido para a morte.



“Blue” é um filme azul. Literalmente azul. Azul ultramarino, o “International Klein blue” descoberto pelo pintor francês Ives Klein, um dos protagonistas invisíveis desta obra monocromática. Não há planos, nem sequer imagens, apenas uma mancha azul, constante e inexorável, o ecrã, a pautar o monólogo do realizador, Derek Jarman – homossexual, provocador, esteta, decadente – sobre a doença que o vitimou em Fevereiro deste ano, a sida. Um monólogo extraído dos diários que o realizador escreveu durante o período em que esteve internado no Bartholomews Hospital, em Londres, onde viria a falecer. O filme segue a mesma progressão da doença, uma lenta infecção das palavras em situações-limite que se esbatem no absurdo. Há uma “banda sonora” deste filme. Ou seja, um documento sonoro sobre a morte, num discurso, em vários andamentos, que relata com uma minúcia obsessiva, a progressão da doença e a correspondente desagregação psíquica do doente.
“Blue” é também, desde o ano passado, um “espectáculo” de música ao vivo, intitulado obviamente “Blue Concert”, organizado por Simon Fisher Turner, que a Culturgest apresenta hoje às 21h30 no Grande Auditório do Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos.
Simon Fisher Turner compôs toda a música de “Blue” que, no compacto (ver recensão no suplemento Poprock de 6 de Abril do ano passado) com o mesmo nome, inclui excertos musicais de Brian Eno, John Balance e Peter Christopherson (ambos dos Coil), Gini Ball, Miranda Sex Garden, Momus, Vini Reilly, Kate St. John, Szymanowsky, Gershwin e Erik Satie.
“Blue Concert” é uma encenação dos materiais sonoros do filme e do disco. Há músicos – neste caso talvez seja melhor chamar-lhes manipuladores multimédia – em cena. Por trás é projectado o azul do filme, e sobre este, em primeiro plano, imagens captadas em super 8 por Derek Jarman e montadas ao vivo pelo produtor do projecto James MacKay. John Quentin recita textos do filme.
No palco, na situação de intérpretes vão estar Simon Fisher Turner, no piano, guitarra Fender Stratocaster, cassetes, “Work station” (um mini-estúdio de gravação portátil) e misturas, Markus Dravs, encarregado das “distorções”, no sintetizador, percussão e misturas, Marvin Black, no “som FX”, no sintetizador, misturas, charango e bandolim, e Ian D. Smith, nos teclados. James MacKay faz a produção e os efeitos visuais. Sergio Avila responde pela criação da “atmosfera”, com a voz, cassetes e misturas. “Blue Concert” tem a duração de 90 minutos.
Antes das suas colaborações com Derek Jarman, com quem trabalhou nas bandas-sonoras de “Caravaggio”, “The Last of England”, “The Garden” e “Edward II”, todas editadas na Mute, ou na curta-metragem “Sloane Square”, Simon Fisher Turner participou na versão em “single” de “The prettiest star”, de David Bowie. Compôs ainda a música para os filmes “Melancholia” de Andi Engel, “Cycling the Frame” e “The Wild Party”, de Cynthia Beat, “Floating”, de Richard Heslop e “Young Soul Rebels”, de Isaac Julien.
Pouco tempo antes da sua morte Derek Jarman foi atingido pela cegueira, provocada por um deslocamento de retina. Extinta a esperança, extinguira-se igualmente a visão do azul da vida, do azul da cor do céu. Derek Jarman começou a sonhar em azul.

Miranda Sex Garden – “Fairytales Of Slavery”

pop rock >> quarta-feira >> 06.07.1994


Miranda Sex Garden
Fairytales Of Slavery
Mute, distri. BMG



Vozes femininas. O quê, mais vozes femininas? A música torna-se cada vez mais domínio das mulheres. Com saias e decotes. Sensual. Devemos submeter-nos, protestar ou afundar-nos, ó velha guarda machista da guitarra eléctrica e cabedal? O caso das Miranda não permite avançar grandes respostas. As Miranda Sex Garden eram três meninas que, no início de carreira, cantavam madrigais tecnológicos “a capella”. Depois meteram-se com más companhias e com uns rapazes à atirar para o agressivo – Nick Cave, Barry Adamson, Enstürzende Neubauten… – e os discos passaram a reflectir essa mudança. Principalmente porque os Einstürzende, que, como toda a gente sabe, têm da música uma visão de operários metalúrgicos, nas pessoas de Alexander Hacke, o produtor, e F. M. Einheit, a esfregar pedras e num mavioso fundo de berbequim (2Transit”), tomaram conta da ocorrência. A pureza das vozes foi infectada por descargas de produtos tóxicos. Guitarras distorcidas abriram fendas no quarto de bonecas e desataram a escaqueirar os brinquedos. As percussões aproveitam para rachar a torto e a direito. O sexo, antes motivo para jogos ambíguos e infantis, dá agora cobertura ao deboche, não só o metafísico. Veja-se a pose delas numa das fotos da capa e a sugestão de chicote, meias de rede e botas de cano alto do título. As meninas cresceram, não há dúvida. A música engordou. (6)

Miranda Sex Garden – “Suspiria”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993
NOVOS LANÇAMENTOS


Miranda Sex Garden
Suspiria
CD Mute, distri. Edisom



“Suspiria” é o título de um clássico filme de terror dos anos 70 assinado pelo italiano Dario Argento, sobre medos adolescentes e respirações entrecortadas, passado num colégio feminino cuja directora era uma bruxa. Curiosamente, o álbum inclui uma canção, “Inferno”, que é outro título de um filme de Argento. Poderia ser um material interessante nas mãos, por exemplo, de Diamanda Galas, também ela pronta a arder na fogueira do final do século, mas as cinco meninas Miranda atiram mais para o diáfano, embora tenham ousado escrever “sex” na designação. “Suspiria” soa deste modo um bocado deslocado no catálogo da editora, encontrando semelhanças mais para as bandas da 4AD, ou seja, vozes góticas, muita atmosfera, montes de produção, uns arrepios pela espinha e, na capa, veludos escarlates, dourados e pesados. As únicas novidades são a inclusão de “In Heaven”, de David Lynch, e o “standard” “My funny Valentine” que fazem suspirar pelas interpretações de Julee Cruise e Nico, respectivamente na banda sonora de “Eraserhead” e em “Camera Obscura”, ambas pintadas em tons de total abandono. O resto é verniz. (Suspiro). (3)