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Almanaque – “Desfiando Cantigas” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

20 de Setembro de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Almanaque
“Desfiando Cantigas”


almanaque

Como foi

Menos de um ano passado sobre o golpe de Estado do 25 de Abril, forma-se em Março de 1975 o Almanaque, Grupo de Recolha e Divulgação da Música Popular da Juventude Musical Portuguesa, com o objectivo de fazer, como se pode ler num comunicado de imprensa da época, citado por Mário Correia na sua obra “Música Popular Portuguesa – Um Ponto de Partida”, a pesquisa folclórica e a divulgação por todos os meios ao seu alcance da verdadeira música popular portuguesa, tendo por base o seu próprio trabalho junto do povo que canta, os resultados práticos do trabalho de dois grandes etnomusicólogos – Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti -, os seus próprios estudos colectivos sobre o assunto e, por fim, a sua própria prática musical”.
Esta ênfase posta na “verdadeira música popular” encerra toda uma crítica ao desvirtuamento daquilo a que o grupo designava por “folclorite”, personificada, nessa altura, por artistas como Carlos Alberto Moniz, Tonicha ou os Intróito, e a vontade de trabalhar e divulgar uma música de raiz o mais aproximada possível das origens. Em 1979, o grupo edita o seu primeiro álbum onde concretiza estes princípios e intenções, “Descantes e Cantaréus”, uma obra revolucionária que somente cinco anos mais tarde viria a apurar-se na maior sofisticação de “Desfiando Cantigas”. Aida no âmbito de actividades do Almanaque, é editada em 1982 uma obra importantíssima de recolhas – em três volumes discográficos – da autoria de José Alberto Sardinha (de quem acaba de ser publicado o livro “Tradições Musicais da Estremadura”), com a colaboração de Vítor Reino: “Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa”.
“Naquele tempo era difícil gravar”, recorda José Alberto Sardinha, justificando o intervalo de cinco anos entre o primeiro e o segundo disco do Almanaque com “convulsões internas” no seio do grupo. “Éramos muitos, havia sempre pouca estabilidade para fazer um disco.” “Desfiando Cantigas” é justamente o último disco gravado sob aquela designação. José Alberto Sardinha deixa o colectivo por “razões profissionais”, para se dedicar à advocacia, sem contudo abandonar o trabalho na área da música tradicional, continuando no campo da recolha e da investigação.
Durante este período que medeia entre os dois discos ocorrera “uma grande cisão” dos elementos do Almanaque que ditara, inclusive, a saída do terceiro director musical do grupo, José Manuel David, hoje nos Gaiteiros de Lisboa e mentor de um projecto de fusão que ostenta ainda o nome do grupo. “Tentámos seguir uma direcção democrática, não autoritária nem rígida”, continua José Alberto Sardinha, que considera “o domínio da tradição popular um domínio muito fluido em que qualquer pessoa pode dar opiniões”, o que, na sua perspectiva, esteve na origem dos problemas: “Veja o que é um grupo de trinta pessoas, cada uma a dar a sua opinião! Pessoas que não tinham feito recolhas, que não tinham lido nada nem estudado nada, que não sabiam nada, a pôr em causa o que eu dizia!” O abandono de José Manuel David, “que se deixou levar pelos cantos de sereia de uma certa parte do grupo e começou a fazer contravapor contra os outros dois”, teria sido, segundo o etnomusicólogo, o gatilho que desencadeou a tal “grande cisão”.
Seja como for, nada disto parece ter afectado a gravação de “Desfiando Cantigas”, já com o poder de decisão nas mãos de José Alberto Sardinha e Vítor Reino. “Tínhamos as recolhas feitas, da minha responsabilidade exclusiva, com o compromisso de as facultar ao grupo e de fazer todos os anos, no Verão, uma recolha aberta a quem quisesse”, diz o primeiro, sobre quem recaía também a maior parte da responsabilidade do estudo desse material. “Depois seleccionávamos aquelas que víamos que eram mais adaptáveis ao nosso instrumental e à nossa maneira de cantar.”
Só que, nos ensaios, tal direcção tinha “pouca autoridade”. “Eu só podia ir a um ensaio por semana, morava fora de Lisboa e entretanto tinha-me casado e organizado a minha vida profissional em Torres Vedras” – conta. “Nos ensaios em que eu não estava era uma barafunda! O Vítor Reino, por ser invisual, não podia assegurar uma regência efectiva. Gerou-se um clima de democracia de base exagerada que depois não funcionava.” Em estúdio, porém, “a coisa correu bem.” Aí a direcção musical de Sardinha e Reino “não era muito mais que dar as entradas e marcar os compassos”, embora a direcção coral, a cargo do advogado, exigisse outro tipo de cuidados, pela sua “maior expressividade”. “Desfiando cantigas” demorou, mesmo assim, alguns meses a fazer.
Em pé fica a atitude, manifestada desde a formação do grupo, de lutar contra o que consideravam ser o desvirtuamento do nosso folclore, e da qual “Desfiando Cantigas” permanece como um manifesto. “Mais do que uma reacção”, diz José Alberto Sardinha, o projecto Almanaque “era uma afirmação”. Na altura eram eles, a Brigada e “outros grupos – hoje em dia existem aos milhares, todos a dizer que têm recolhas feitas… – que continuavam a transmitir da música tradicional apenas a música bailada, no fundo a mais superficial, a mais simples e a mais agradável ao ouvido”.
O Almanaque seguiu por outra estrada. Repleta de escolhos mas que permite chegar a bom porto, sob a orientação das estrelas. “Tínhamos uma concepção própria de espectáculo. Fizemos uma vez um na Fundação Gulbenkian em que tentámos fazer o ciclo rural todo, desde a Natividade, passando pelo Entrudo, a Quaresma – com uma “encomendação das almas” – , a Páscoa… Não era uma coisa agradável de se ouvir, a encomendação das almas. Nós apagávamos as luzes, acendíamos velas e cantávamos a encomendação, o que provocava um efeito cénico muito bom.”
O futuro da música tradicional portuguesa, descontando honrosas excepções como as da Brigada, Vai de Roda, Raízes ou Terra a Terra, viria a atravessar uma noite bem mais escura. “Os grupos que apareceram depois, continuavam a dar aquela musiquinha…” Como um guardião, ou um farol, o Almanaque continua disponível para consulta. “Tínhamos uma perspectiva purista. De reproduzir tal e qual como encontrávamos no campo. Arrostando com os riscos próprios de sermos um grupo urbano. Não me parece que seja chocante”.

Como é

Ressalta em primeiro lugar, de “Desfiando Cantigas”, o seu rigor. O rigor que resulta da aplicação de um método e de uma opção estética bem definidas e orientadas. José Alberto Sardinha e Vítor Reino, os dois directores musicais do projecto, sabiam o que queriam. Movia-os o amor a uma causa que ambos viriam a prosseguir posteriormente em separado e por vias diferentes. O primeiro por um trabalho de recolha e investigação sistemático, o segundo numa continuação musical que frutificaria na Ronda dos Quatro Caminhos e viria aos poucos a definhar nos Maio Moço.
“Desfiando Cantigas” é um disco puro, feito por puristas. Um trabalho elaborado sobre gravações de campo efectuadas sobretudo por José Alberto Sardinha, que procurava pôr em destaque os aspectos mais genuínos e profundos da música tradicional portuguesa, desvalorizando o seu aspecto espectacular (quando não o fútil e o deturpado, daquilo a que chamavam “folclorite”) se destituído dessa componente essencial que liga os sons e os ritmos do povo às pulsões da natureza. Tendo sempre presente a compreensão de que, tratando-se em qualquer caso de uma reprodução – que se procurou ser o mais fiel possível – levada a cabo por músicos urbanos, nunca o resultado final poderia ser uma cópia exacta da música vivida e criada no contexto original das populações rurais.
A alternativa foi ensaiar como que um “aperfeiçoamento” formal das características intrínsecas das várias peças etnográficas abordadas – danças, cantos de trabalho, romances e cânticos religiosos, entre outras – de maneira a valorizar os seus núcleos rítmicos, modais ou harmónicos, sugerindo uma focagem afinada com maior ênfase e nitidez.
Afastada deste modo uma perspectiva meramente arqueológica, é de facto um almanaque que se desfolha, na forma de percurso pelas tradições do Norte ao Sul do país, do Minho e Trás-os-Montes ao Algarve, com desvio pelos Açores. Ciclo concêntrico ao dos rituais mágicos do ano solar que se desenrola, em sentido inverso, entre a despedida a um dia de trabalho de uma “Chamarrita” açoriana e o apelo à festa de uma “Alvorada” matutina vibrante no casamento das gaitas e bombos transmontanos.

Né Ladeiras – “Alhur” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

26 de Julho de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Né Ladeiras
Alhur


nl

Como foi

A “Alhur” fica longe daqui. “Sempre tive ideia de fazer uma coisa que falasse do lado de lá.” Né Ladeiras explica desta forma a génese deste seu maxi-single onde as referências usuais da música pop fazem pouco ou nenhum sentido. “Costumava dizer que tinha prometido a mim própria fazê-lo, na outra dimensão”. O disco surgiu na sequência de viagens por outras terras e, muito provavelmente, de caminhadas de outro tipo. Quando regressou da Suécia, um dos países por onde andara, trazia um sonho no corpo de viagem. Foi na mesma altura em que os Heróis do Mar provocavam por cá um tremor de terra nos meios musicais, com o sei disco de estreia, dos hinos de saudade e de bandeiras. “Quando cheguei, o Nuno Rodrigues [antigo companheiro de Né na Banda do Casaco] mostrou-me o disco. Adorei o trabalho deles. Já tinha assinado contrato com a Valentim de Carvalho, disse-lhes que o Miguel Esteves Cardoso estava a fazer as letras e que eu já escolhera os músicos: os Heróis do Mar. Lembro-me do Pedro de Vasconcelos me perguntar se eles tinham alguma coisa a ver com a minha música. Respondi-lhe que sim, que tinham tudo a ver. A começar pelo espírito em si.” Com Miguel Esteves Cardoso, o encontro foi casual, nas escadas da sede da Valentim. Apresentaram-se, simplesmente. Exprimiram uma admiração mútua. E partiram à aventura.
Né Ladeiras recorda das páginas do seu diário o primeiro dia de gravações: “O ponto de encontro foi na Rádio Comercial, às dezoito horas. Só eu, o Paulo Gonçalves e o Ricardo Camacho é que comparecemos no ‘local do crime’. O Miguel já se encontrava lá para dar o tiro de partida. Os outros encontraram-se connosco no Ouriço, um restaurante em frente à estação da CP de Paço de Arcos. Chegámos ao estúdio já passava das oito da noite. Mas também não fez muita diferença, porque o técnico chegou com meia hora de atraso mas cheio de boa disposição. Últimos preparativos para daqui a pouco arrancarmos para o primeiro alvo: ‘Holoteta’…”
As sessões de gravação duraram “aí uns quinze dias”. Quinze dias para imprimir no vinilo quatro estações de um rito de passagem. No estúdio, criou-se um ambiente especial. “Havia alturas em que o Pedro de Vasconcelos queria torná-lo mais íntimo. Então ou apagava as luzes por completo ou deixava acesa só uma. Não havia rigidez na postura dos músicos. Lembro-me de o Paulo estar a tocar acordeão, de Pedro Ayres estar a tocar baixo, pareciam figuras retiradas de livros, de desenhos, muito etéreos.”
As canções de “Alhur”, no espírito dos sons e dos textos, respiram com um ritmo próprio, dos primórdios da vida, se calhar. “Quis dar uma ideia às pessoas de como tudo isto se inicia. No ‘Húmus verde’, o tema das águas, pretendi mostrar algo que é verdade, que nós todos iniciamos a nossa vida num saco de águas, dentro do ventre das nossas mães. Só que as coisas passam-se antes, somos nós que escolhemos em que saco de águas é que queremos viver durante aqueles nove meses. É um mundo muito aquático, um mundo que, em termos sonoros e de movimentos, deve ser muito calmo. Quando mergulhamos numa piscina, os sons que sentimos do exterior vêm todos amplificados de uma outra forma. É assim que os mestres dizem que os sons e os movimentos são feitos – do lado de lá. Quando os bébés nascem, nem sequer sabem respirar pelos pulmões. É preciso dar-lhes aquela palmadinha!…”
“Alhur” dá essa palmada, na passagem de um meio para outro. É um disco que fala das águas, todas as águas, das águas-régias do pensamento às águas salgadas dos oceanos e das lágrimas. E há uma fada chamada “Holoteta” que Né Ladeiras foi buscar a um livro de ficção científica com o título “O Baile das Estrelas”. “É o nosso anjo da guarda ou a fada da Luz, do Caminho do Bem. Mas é assim uma fada já bastante evoluída. Nós temos a ideia da fada com umas vestes compridas e uma varinha de condão. Provavelmente poderá ter um computador à frente.”
A capa do disco – considerada, em 1982, “capa do ano” – aponta o caminho que se deve seguir para chegar a “Alhur”: uma imagem de um postal dos anos 20, do Caramulo ao pôr-do-sol. “Comprei-a num alfarrabista na Rua do Alecrim. Andava à procura de uma imagem que pudesse ser sugestiva para aquilo que acho que vai ser a passagem daqui para lá. Há pessoas que dizem que é um túnel. Eu acho que é antes um caminho assim, com curvas e muitas nuvens. Foi reproduzida tal e qual.” Passados 13 anos sobre a edição do disco, de que lado estamos, afinal? Né Ladeiras está já do outro lado. Atrás dos montes. A falar uma língua diferente.

Como é

O outro lado existe. Fica “Alhur” na curva de um caminho. No alto de uma serra que pode ser no Caramulo, mas, melhor ainda, de Sintra. Né Ladeiras curvou esse caminho, subiu essa serra, colou asas de água na terra em fogo. “Alhur” fica invisível quando nele se procura uma bússola ou a rosa-dos-ventos. Porque a direcção e o mapa variam e de cada vez levam-nos para lugares diferentes, para onde os impelem os textos de Miguel Esteves Cardoso (MEC) e os sons da própria Né. Mais invisível fica quando o queremos comparar com o que, por cá, se tinha feito antes e se fez depois na música popular. “Alhur” não encaixa em lugar nenhum. Escorre como areia entre os dedos. Ou água da chuva que não se deixa beber. Ouve-se como a um silêncio. Vai-se por lá. “Húmus-verde” chora nas águas-furtadas sem janelas onde MEC o fez desaguar. Do outro lado fica o céu. Do outro lado do disco. “Holoteta” voa nas asas de uma fada-borboleta. Nos saltos altos das percussões. “Essência” é a essência de uma canção. Das que se sonham em azul num cabaré vazio no meio das estrelas. Com um acordeão gemendo de aonde? De “Alhur”, por certo, o tema final que está além. Onde as amarras do tempo se rompem e a voz de Né nasce e flui sem precisar de palavras. Estendendo a mão e a alma aos cantares tradicionais do Norte, para os levar como a uma criança para o lado de lá dos montes, a um futuro que não existe porque, para uma criança, apenas há e conta o presente. No texto de promoção distribuído na época aos meios de informação, um excerto da “Chronologia ou Reportório dos Tempos”, do capítulo “Do som e estrondo, ou música, que cuidarão os antiguos ser causado com o movimento dos ceos”, pode ler-se o seguinte: “Muito deu que cuidar aos philosophos antiguos se por ventura os ceos com seu movimento causavão algum som e doce consonância a armonia de música, porque consideravam que como o som se causa do tocamento movimento tardo, ou apressado, com que dous corpos se roção hum com outro, donde nace neste concertado acidente, que chamamos som, o qual recebido no ar como em subjecto se vai multiplicando por elle, atê nossos ouvidos, que são os orgãos com que a alma percebe o tal objecto e se faz aquillo que chamamos ouvir”. “Alhur” é esse “concertado acidente” dos “ceos”.



Júlio Pereira – “Braguesa” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

12 de Julho de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Júlio Pereira
Braguesa


jp

Como foi

“Tive que adiar o estúdio por três meses porque parti duas unhas na Holanda.” Não podia ter principiado de pior maneira a gravação de “Braguesa”, o álbum de Júlio Pereira que haveria de suceder ao muitíssimo aclamado “Cavaquinho”. De novo com as unhas crescidas e de fora, Júlio Pereira não se lembra de ter acontecido durante as gravações “nada de especial”. “Normalmente distancio-me dos meus discos mal acabo de os fazer.” Em concreto, o músico lembra-se da “dificuldade” que sentiu “por causa do enorme êxito” do seu antecessor: “Lembro-me de ainda estar a gravar e ir com o José Fortes a uma pastelaria que havia ao lado do estúdio, e durante dois ou três dias vermos nos jornais prémios que ainda estavam a sair, relacionados com o «Cavaquinho’.”
“Se eu tive tanto êxito com esse disco, o mais normal seria gravar outro com o mesmo instrumento, só que nunca vou pela maneira mais fácil.” É a sua explicação para ter passado do cavaquinho para a braguesa. “Se me dediquei a um instrumento e curti ao máximo as suas características, e o que se podia fazer com ele, acabei por pensar ‘porque é que não faço isso com outro? ‘ Até porque quando fiz o ‘Cavaquinho’ já tinha algum contacto com a viola braguesa.” Júlio Pereira descobriu este instrumento “quando ia lá acima ter com o construtor, Domingos Machado”. Ainda na altura em que estava a fazer o ‘Cavaquinho’, comprei uma braguesa. Aí decidi atirar-me a um projecto novo, à descoberta de um instrumento novo”, conta o instrumentista que reconhece ter sido este seu segundo trabalho, e ao contrário do seu antecessor, sobretudo do agrado “ de alguns eruditos que o consideraram mais interessante que o próprio ‘Cavaquinho’”, um álbum que, pelas limitações e condicionalismos deste pequeno instrumento de cordas, o próprio autor define como o mais “regionalista” de toda a sua discografia. “De resto, já a atmosfera da primeira parte de ‘Cantar galego’ era feita com a braguesa, já com outra sonoridade.” Entre os que manifestaram a sua preferência por “Braguesa”, contavam-se José Afonso e o etnólogo dr. Ernesto veiga de Oliveira, ambos já falecidos.
Depois do cavaquinho e da braguesa, seguir-se-ia, anos mais tarde, o bandolim. Uma inconstância, ou falta de fidelidade, para a qual Júlio Pereira encontra uma justificação: “Nunca serei uma espécie de Carlos Paredes, porque uma coisa natural que tenho é jeito para tocar vários instrumentos de corda. Tenho a certeza de que nunca me irei dedicar apenas a um. Não há nada a fazer quanto a isso.”
Comparando com “Cavaquinho”, as sessões de “Braguesa” foram “mais difíceis”: “Já era uma gravação que utilizava muitas pistas, ou seja, 24 pistas, uma mesa praticamente nova, isto no Angel Studio 1, que foi o estúdio idealizado e gerido pelo José Fortes.” Estúdio que, pelas suas características inovadoras, representou o ponto de partida para as “melhores gravações nacionais, o que está amplamente demonstrado em discos”. “Braguesa” foi a “segunda experiência” aí realizada. “Só foi um bocado complicado porque já tinha talvez pistas a mais.” Lá dentro, “alguns temas eram tocados parcelarmente ao vivo, quer dizer, podiam tocar três músicos ao mesmo tempo, e noutro tocar só um”. Rodagem para o disco, já tinha sido feita. “Ensaiei com os músicos todos, aliás, nessa altura tinha um grupo do qual faziam parte o Janita, o Serginho [Sérgio Mestre], o Zíngaro e o Rui Júnior.” Com uma excepção: “Em dois ou três dos meus discos costumava fazer um tema final fora do contexto geral, onde houvesse uma onda mais ou menos de improvisação e sobretudo algo que fosse mais contemporâneo do que antigo. Neste caso foi ‘Quatro elementos’, onde entrava a Amélia [N.R.: Amélia Muge, então uma ilustra desconhecida, que Júlio Pereira conheceu em Moçambique, quando a cantora andava em digressão com José Afonso] e o Edgar Caramelo, embora inicialmente estivesse prevista a presença do Rão Kyao. Só que o Rão Kyao teve uma atitude esquisita, mandando o ‘manager’ dizer que eu queria ganhar quatro vezes mais do que os restantes músicos. Claro que não permiti isso, como é óbvio.”
Puxando um pouco mais pela memória, Júlio Pereira recorda que nesse ano, 1983, devia ser “o único músico neste país que tinha computador”. “Já estava informatizado”, garante. Uma faceta explorada ainda de forma embrionária em “Braguesa”, mas que viria a ser aprofundada nos álbuns seguintes. “A braguesa estava muito ligada a uma região. Isso implicava ir lá, conhecer pessoas, ouvi-las tocar, tocar com elas.” Uma “experiência demasiado absorvente” para que o músico pudesse dedicar nessa altura mais atenção aos sons sintetizados.
Para Júlio Pereira, “Braguesa” fica ainda como o álbum que lhe deu a oportunidade de conhecer as duas filhas de Janita Salomé, Catarina e Marta, “então duas gaiatas”, que cantam em “Olha a triste viuvinha” e com quem viria a trabalhar mais tarde no derradeiro álbum de José Afonso, “Galinhas do Mato”. Júlio Pereira salienta por fim que “Braguesa” foi o disco que mais o fez “rebuscar coisas, em termos de material didáctico”. “Nunca rebusquei tanto em bibliotecas ou em arquivos, nem nunca fiz tantas viagens.” Para conhecer a braguesa, o seu reportório e a sua história.

Como é

O sucesso com que foi acolhido “Cavaquinho”, um álbum que deixou marcas no modo de sentir e fazer música tradicional portuguesa, fez aumentar as responsabilidades de Júlio Pereira, curiosamente um músico saído da escola do rock. “Braguesa” constituiu a melhor resposta ao imediatismo e apelo popular do álbum anterior, forçado a obedecer às exigências de um instrumento, o cavaquinho, demasiado arreigado à tradição minhota com as suas características de vincada extroversão. A braguesa, pelo contrário, de sonoridade menos cerrada, permitiu a Júlio Pereira libertar-se para uma visão mais pessoal e experimentalista do universo tradicional. Não foram só os horizontes geográficos que se alargaram, agora num roteiro que descia de Trás-os-Montes ao Alentejo: a própria noção de interpretação incorporou novos conceitos e possibilidades estilísticas, e começar pelo enriquecimento das estruturas rítmicas populares, desde sempre uma das particularidades formais da obra deste autor. A isso acrescentou-se uma diversificação e exploração tímbrica, que em “Milho Verde” anunciava já as futuras incursões no tratamento computorizado dos sons e em “Ó Aninhas ó Aninhas” e “Murinheira”, dois tradicionais transmontanos, se manifestava num conhecimento, não apenas intuitivo, no primeiro caso, das cadências que neste século andam associadas à música antiga e, em “Murinheira”, de algumas das premissas hoje seguidas na chamada “world music”. Dois extremos que ilustram, ao nível dos arranjos, toda uma atitude demonstrada por um músico que chegou a estar enredado nas malhas de um estilo inconfundível, sem, contudo, deixar de manter a necessária distância de si próprio, de maneira a, nas alturas devidas, romper com o passado e dar o salto seguinte na escala da sua evolução pessoal. “Braguesa”, no perfeito equilíbrio que estabelece entre a voz popular e a erudição do perfeccionista (sintetizado de modo exemplar num tema como “Olha a triste viuvinha”), representa a matriz dessa evolução que vem caminhando dos espaços rasgados do nosso folclore, para os espaços milimétricos e labirínticos que são os da arte, pessoal e intransmissível, de Júlio Pereira, aqui desenhados sem preconceitos de qualquer espécie no tema final, “Quatro elementos”.