Arquivo da Categoria: Punk

The Stranglers – “10”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


THE STRANGLERS
10
LP e CD Epic, distri. CBS portuguesa



O brilho oleoso dos esgotos foi substituído pelo do verniz de “manicure”. As ratazanas transformaram-se em engraçados hamsters domesticados para as crianças brincarem. Da violência apocalíptica de “Black and White”, nada resta. A conspiração dos “Men in Black” deu em nada. Os Stranglers são hoje uma banda bem comportada, dirigida aos tops e absolutamente anódina. A formação é a mesma de sempre só por fora. Jean-Jacques Burnel, Hugh Cornwell, Jet Black e Dave Greenfield deixaram de ser “enfants terribles” para se comportarem como meninos apenas ligeiramente traquinas, rendidos ao revivalismo dos “Sixties” e aos rhythm and blues, versão “Euromarché”. Dos dez temas referidos no título (e não o 10º álbum, como se poderia pensar), salva-se “In this Place”, na tradição dos bons temas lentos da banda. Ah, sim, e a capa, com os quatro “stranglers” travestidos de algumas figuras políticas e religiosas da atualidade.

Cramps – “Stay Sick”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


CRAMPS
Stay Sick
LP e CD Enigma, distri. Valentim de Carvalho



“Stay Sick” é mais um presente envenenado da dupla Ivy Rorschach/ Lux Interior. Fiéis a um estilo e atitude mantidos com coerência ao longo de uma já vasta discografia, os Cramps prosseguem a sua saga provocatória e viciosa. O “Rock And Roll” ou mais exatamente o “Rockabilly” é de novo posto à prova e volta a sair vencedor de mais esta prova de fogo. Ao longo de doze temas corrosivos, a fórmula resulta como suporte musical ideal das mansagens viciosas com que os Cramps nos querem corromper. Digamos que a banda é a versão mais clássica dos também pouco saudáveis Suicide. As mesmas vocalizações sincopadas, entre o angustiado e o desdenhoso, sobre uma rítmica pesada e repetitiva. Os temas tratados são bem elucidativos das preocupações e sentido de diversão destes senhores: “Beach Girls”, “surfando” armadas de metralhadoras (“Bikini Girls With Machine Guns”), chauvinismo maricas (“All Women Are Bad”) ou sexo cósmico em “Journey To The Center Of A Girl”. “Saddle Up A Buzz Buzz” é uma chuva cerrada de ácido sulfúrico, perigosa de verdade se escutada a elevados níveis decibélicos. Sãos de corpo e espírito, abstenham-se!

Devo – “Hot Potatoes: The Best Of Devo”

pop rock >> quarta-feira, 08.09.1993
REEDIÇÕES


Devo
Hot Potatoes: The Best Of Devo
CD Virgin, distri. EMI-VC



Génios ou batatas? No caso dos Devo, talvez a resposta certa seja que foram batatas geniais. Entre a postura pós-atómica e imbecilóide que ostentavam (expressa, por exemplo, na predilecção dos membros da banda em se vestirem daqueles tubérculos, como na presente colectânea) e o som sintético-futurista aliado a melodias pop irresistíveis, mistura que seduziu o próprio Brian Eno, a banda de Akron surgiu na altura (finais dos anos 70) décadas è frente da “new wave”. Aos Devo se deve a criação de uma teoria confusa e pouco científica, mas estranhamente profética dos tempos que haveriam de vir, a “de-evolution”, explanada em temas como “Jocko-homo” e “Mongoloid”, cuja correspondência visual, em vídeo, mostrava um bebé mongoloide a introduzir a mão numa torradeira eléctrica ligada. Versão paródica da “cold wave” europeia, a música da banda deu corpo e cérebro a um som diferente, estranho e bem-humorado, por vezes perturbante (quando se atravessava a camada de plástico dos arranjos e do “nonsense” dos textos), que a situava como parente deficiente mental dos Residents, que por seu lado costumavam disfarçar-se de camarões, de Beatles e de globos oculares.
Os sintetizadores e as guitarras motorizadas manipuladas pelos manos Casales e Mothersbough, juntamente com o “beat” esquizoide de Alan Myers, fizeram dançar ao som do holocausto uma nova geração de jovens saturados do punk e reconciliados com a electrónica, num par de exercícios delirantes de de-evolução: “Q: Are We not Men? A: We Are Devo” e “Duty now for the Future”. Dois portentos de minimalismo pop em estado de graça num universo alternativo, apenas retomado, embora em toada mais bm comportada, em “New Traditionalists”. A presente colectânea recupera praticamente os mesmos temas de um “greatest hits” editado há alguns meses pela Warner e inclui todos os melhores temas da banda: “Jocko-homo”, “Mongoloid” (os dois a abrir, em jeito de manifesto), “Satisfaction (I can’t get me no)”, “Whip it”, “Through being cool”, “Gates of steel”, “Come back Jonee”, “Secret agent man” (a melodia pop perfeita), “Beatiful world”, “Whip it” (com nova mistura), entre outros. Os tempos chegaram para a de-evolução. (8)