Gong
Continental Circus
MANTRA, IMPORT. MC-MUNDO DA CANÇÃO
Os Gong não eram ainda os “pot head pixies” da fabulosa trilogia do haxe e dos bules voadores, “Radio Gnome Invisible”. Mas já pouco faltava. Corria o ano de 1972 e corriam as motos no seu circuito de grandes prémios. “Continental Circus” é a banda sonora de um filme de Jérome Lapperrousaz sobre o “circo” de motos, no tempo de um dos seus maiores heróis, Giaccomo Agostini. Gilli Smyth assina a totalidade dos temas – quatro –, diferentes de tudo o que os Gong tinham feito para trás, “Banana Moon” e “Magick Brother, Mystic Sister” (existem por aí alguns exemplares espalhados…) e iriam fazer no futuro. “Blues for Findlay” é rock Kawasaki, directo e sem aditivos psicotrópicos, e “Continental circus world”, uma montagem sobre sons do “circo”, partidas, ruído de motores, som das boxes, etc. “What do you want” e a versão instrumental de “Blues for Findlay” são rock psicadélico numa linha idêntica à dos Hawkwind de “In Search of Space” ou de um disco estranho, “Obsolete”, lançado, nessa época, na Shandar por um dos parentes loucos da família, Dashiell Hedayat. Aqui, a loucura acelera sobre duas rodas. (7)
Encontra-se finalmente disponível a reedição em compacto da totalidade dos álbuns, gravados entre 1977 e 1987, de Michael Rother (de fora ficou, para já, apenas a colectânea de singles editados entre 1977 e 1993, “Radio”), um dos mais importantes e, de certa forma, marginais representantes da escola electrónica alemã.
Michael Rother foi membro fundador dos Neu! (ver recensão neste mesmo número), fez parte dos Harmonia (com Dieter Moebius e Joachim Roedelius, dos Cluster), enveredando a partir de 1977 por uma carreira a solo. Forma com Manuel Göttsching o par de guitarristas mais originais saídos da “Kosmisch musik” germânica dos anos 70. Da música mecanicista e repetitiva dos Neu! e do industrialismo romântico dos Harmonia, Rother partiu para um outro tipo de discurso, totalmente personalizado. Logo com “Flammende Herzen”, de 1977, que, juntamente com o álbum seguinte, teve na altura edição portuguesa, Michael Rother traçou os fundamentos de um estilo que nunca mais abandonou, onde a melodia, desenhada pela sua guitarra – ora infantil e de cristal, ora desmultiplicada num naipe de orquestra – e pelos sintetizadores, e a simplicidade de processos passaram a ser uma constante.
Patente ficou desde logo uma quase obsessão pela melodia perfeita (enquanto nos Neu! era a obsessão pelo ritmo e pela velocidade…), ao ponto de, álbum após álbum, os temas parecerem ser espelhos uns dos outros, repetindo motivos rítmicos e melódicos, investigando uma parcela particular, um timbre, uma cadência, buscando em cada novo arranjo uma luminosidade maior.
“Flammende Herzen” estrutura-se em sequências particulares, simétricas, sobre a batida metronómica do baterista dos Can, Jaki Liebezeit. É, de todos os álbuns, aquele onde, apesar de tudo, se notam influências do passado, sobretudo dos Harmonia, nas suas ambiências entre o circuito de corrida e automóveis e o espectáculo de circo.
O disco seguinte, “Sterntaler”, também de 1977, esgota-se na repetição, até no “design” da capa, dos esquemas do primeiro álbum, à excepção de “Fontana di luna”, flutuante nas cintilações de um vibrafone. “Sonnenrad”, salvo erro, é o tema que durante uns tempos foi aproveitado para indicativo do Boletim Meteorológico do canal 1 da RTP.
“Katzenmusik”, de 1979, é o disco mais minimalista e o último onde participa Jaki Liebezeit, com os seus 12 temas, todos intitulados, com a respectiva numeração, “Katzenmusik”, ou seja, “música de gatos”. Michael Rother ensaia aqui até à exaustão os mesmo ritmos, ora mais lentos ora mais acelerados, idênticos conjuntos de notas exploradas em diversas ordens. O disco cria uma espécie de hipnose, induzindo na sua aparente monotonia, movimentos subliminares, sonhos monocromáticos, talvez os de um gato… “Fernwärme”, de 1981, dá o salto. É um disco onde Michael Rother investiga novas pistas e um tipo de ambientes mais diversificados. O som da guitarra esbate-se nas harmonizações electrónicas, mais complexas e de texturas orquestrais. “Elfenbein” é, entre todos, um tema mágico, um lago onde nadam criaturas de fábula.
O minimalismo espartano regressa em “Lust”, de 1983, e com ele a guitarra reinicia o seu trabalho de sapa, revolvendo-se numa busca angustiada na procura de mais luz. Nova mudança de registo é operada em “Süssherz und Tiefenschärfe”, de 1985, desta vez em direcção a um maior lirismo e a uma estética que no álbum seguinte, e último de originais até à data, “Traumreisen”, de 1987, se integra já de forma inequívoca na “new age”, a guitarra mergulhada na panóplia de efeitos dos samplers, em temas, por vezes belíssimos, como “Südseewellen”, mas que noutras ocasiões rondam perigosamente a “muzak” sinfónica e a redundância melódica de um Vangelis.
Qualquer dos álbuns foi acrescentado de temas novos, gravados por Michael Rother em 1993 e 1994, mais ou menos adaptados ao ambiente específico de cada um. Em “Traumreisen”, por exemplo, foram incluídas remisturas “radio dance” e “Ambient” de “Sudseewellen” e uma tentativa, incipiente, de fazer “techno” como toda a gente, em “Trance Atlantik”.
A música solar de Michael Rother pode agora ser apreciada como um corpo único com múltiplos apêndices. A merecer audição atenta.
Retrospectiva dos Roxy Music
EM CADA SONHO UMA INQUIETAÇÃO
LONDON – JULY 05: Andy Mackay, Paul Thompson, Bryan Ferry, Brian Eno, Phil Manzanera, Rik Kenton, Roxy Music posed group shot at the Royal College Of Art in London on July 5 1972 (Photo by Brian Cooke/Redferns)
Odeon, Rialto, Plaza, Gaumont, Ritz… De entre os vários cinemas disponíveis, a escolha recaiu no Roxy. Roxy Music, mais do que uma banda, foi um conceito, único na história do rock. Desde o início, Bryan Ferry sabia o que queria. O rock como arte de conciliação de sons, imagens e estímulos antagónicos.
Nos Roxy Music, sobretudo na discografia compreendida entre 1972 e 1975, dos álbuns “Roxy Music”, “For Your Pleasure”, “Stranded”, “Country Life” e “Siren”, encontramos a projecção dos delírios artísticos e pessoais de um estudante de Arte a transbordar de ideias, Bryan Ferry. Os Roxy Music, mesmo admitindo a razão dos que não se esquecem de apontar a importância de decisiva de Brian Eno nos três primeiros discos, foram sempre propriedade e campo de sonhos pessoal e intransmissível de Ferry.
Tudo começu, ainda nos anos 60, no Newcastle Art Centre. Foi aí que o Ferry estudante, que já nessa época dava nas vistas pelo modo elegante e afectado como se vestia, travou conhecimento com duas figuras que ajudaram a criar a estética visual do futuro grupo: Richard Hamilton e Nick de Ville. O primeiro era um pintor pop que tentava anular a diferença entre a arte popular e a arte erudita, além de admirador ferrenho da mitologia da Hollywood dos anos 40. O segundo foi discípulo de Hamilton e aplicou os ensinamentos recebidos no “design” de todas as capas dos Roxy Music até “Siren”.
O seu estilo caracterizava-se pela exposição crua de mulheres, ora “glamourizadas” ao limite do “kitsch”, como a mulher-bombom de “Roxy music”, ora de uma beleza agressiva e quase masculina, como as duas amazonas de “Contry Life”, tapando/destapando as partes estratégicas das respectivas anatomias, passando pela sereia escandalizada de “Siren”, a mulher-elementar de “Stranded” e a mulher-predadora de “For Your Pleasure”.
Em 1968, Ferry trocou Newcastle por Londres. Foi já na capital inglesa que ensaiou os primeiros passos com o baixista Graham Simpson. Ferry tocava piano e órgão de pedais. O seguinte a entrar foi o guitarrista Roger Bunn, de imediato substituído por David O’List, ex-Nice, o grupo de “rock sinfónico” de Keith Emerson, anterior aos ELP. O trio gravou um par de sessões para John Peel. Andy MacKay chegou pouco tempo depois, introduzido no grupo por outro artista plástico, Tim Head.
MacKay nem sequer tocava saxofone. Na sua bagagem trazia uma formação clássica, um oboé e um sintetizador. Ferry aconselhou-o a ser mais “funky” e a ouvir King Curtis. Mas Andy trouxe ainda consigo um amigo, de ar efeminado e com um gravador constantemente às costas. O amigo, cuja missão, de início, era gravar as actuações do grupo, chamava-se Brian Eno. Do circuito dos clubes chegou Paul Thompson, baterista profissional. Entrou para os Roxy Music através de um anúncio num jornal. Nessa altura já os jornalistas andavam intrigados, como Richard Wiliams, do “Melody Maker”, que arriscou incluir os Roxy na secção “novos nomes que podem quebrar a barreira de som”.
Quando actuaram no 100 Club já se criara o ambiente, simultaneamente retro e futurista, que se tornaria imagem de marca da banda. Perante uma assistência predominantemente feminina enfiada em “hot pants” e roupas apertadas, Ferry experimentava as tácticas do fingimento e da sedução, obedecendo a uma necessidade de estimular não só pela música como visual e sexualmente os fãs. Antony Price teve um papel importante no desenho da indumentária, cheia de brilhos e reflexos, e dos penteados, cortados rente e esculpidos em brilhantina, dos cinco Roxy Music.
O choque maior, porém, foi causado pela música. “Roxy Music”, o disco de estreia, com data de 1972, incluía já o novo guitarrista Phil Manzanera, antigo companheiro de Robert Wyatt nos Quiet Sun. Inclassificável, o álbum misturava o rock ’n’ roll dos anos 50, a pop dos 60 e o Progressivo dos 70 com o minimalismo e a experimentação mais ousada. Em estúdio sucederam-se os malabarismos e os truques em nome da originalidade e da provocação. O tema de abertura, “Re-make/re-model” é todo um enunciado dos propósitos musicais dos Roxy Music, uma sucessão alucinante de estilos, quase numa montagem em “cut up” que termina com solos, não menos vertiginosos e concisos, de todos os músicos. O refrão era a entoação de uma matrícula de automóvel, a célebre “CPL 593 H”. Os ruídos iniciais, de uma festa, indiciavam já, por seu lado, o universo concentracionário onde Ferry se viria a enclausurar após o crepúsculo do primeiro período da banda, cujo ciclo encerraria em 1976, com o álbum ao vivo “Viva!”.
Na Island, etiqueta na qual “Roxy Music” acabou por ser editado, começaram por torcer o nariz à proposta, inovadora em demasia, dos Roxy Music. Algo espantoso, para quem acolhia nessa época nas suas fileiras a nata do Progressivo e um grupo como os King Crimson. Cite-se, a propósito deste grupo, que em 1970 Bryan Ferry esteve prestas a tornar-se no substituto de Greg lake como cantor da banda de Robert Fripp. Este afirma ter ainda em seu poder as fitas com as gravações dos ensaios. De referir também que outro dos candidatos ao lugar de voz principal dos Crimson foi Elton John…
Os King Crimson tiveram, aliás, uma proximidade estreita com os Roxy nos anos da gestação. O produtor de “Roxy Music” foi Peter Sinfield, letrista dos Crimson até ao álbum “Islands”. Há quem critique o seu trabalho, por não ter feito justiça à excitação e coesão instrumental que caracterizavam as prestações ao vivo do grupo de Ferry, Eno e Manzanera. O próprio Sinfield assume os seus erros, chegando mesmo a admitir que os Roxy Music não precisavam de um produtor mas apenas de um engenheiro que lhes garantisse um “som decente”.
O álbum seguinte, “For Your Pleasure”, é para muitos, Ferry incluído, o melhor de sempre da banda. Abandonado o lado “kitsch” e a tónica do excesso, a música abre as portas ao que o jornalista Tony Palmer, do “The Observer”, chamou então o “lado obscuro do rock ‘n’ roll”. Da cena nocturna nas traseiras da cidade retratada na capa – com a mulher e a pantera, ambas de negro, à espera da vítima – até à narrativa de uma relação amorosa com uma boneca insuflável, no crescendo semideclamatório de “In every dream home, a heartache”, “For Your Pleasure” puxa para o abismo e para as conotações eróticas obscuras. Arrepiante e, ao mesmo tempo, de um humor refinadíssimo é o clímax final do referido tema: “I blew up your body, but yu blew my mind!”, jogando com a ambiguidade dos verbos “soprar” e “explodir” (‘eu fiz explodir o teu corpo, mas tu insuflaste – ou fizeste explodir – o meu espírito’).
“Stranded” explora a vertente de “crooner” de Ferry, como na paródia ao festival da Eurovisão, “Song for Europe”, só que aqui ainda mantendo a distância e a pose irónica, ao contrário do que acontece a partir de “Manifesto” e dos seus álbuns a solo mais recentes, onde a imagem se confunde com a pessoa e Ferry passa a levar a sério uma personagem que no início não pretendia ser mais do que uma caricatura. “Country Life” anuncia já a decadência “chique”, num álbum de ressacas, entre a ilusão do “Champagne” e a excitação fugaz da cocaína, com Ferry a sofrer precocemente a angústia do envelhecimento e da andropausa, numa fuga para a frente, em direcção ao sexo sem futuro nem freio, dramaticamente exemplificada no tema “Casanova”. A idade de ouro culminaria com “Sirens”, um álbum desvalorizado por muitos, mas onde se encontra um dos melhores lotes de sempre de canções dos Roxy.
Depois, seria o ponto final e a ressurreição, em 1979, para a segunda vida, da maturidade e da elegância. Mas esses eram já outros Roxy Music e outro Ferry, tão atentos à evolução do mercado como à sua própria interior. “Manifesto”, “Flesh and Blood” e “Avalon” fizeram as delícias dos adolescentes e das rádios de todo o mundo, servindo de cobertura a reuniões de negócios, anúncios de televisão e repasto geral dos “tops”, com Ferry, cada vez mais gordo e ar de galã saloio, no papel de “gigolo” engatatão que a sabe toda. Mas tomara todas as bandas decair e morrer com a dignidade dos Roxy Music. “The party is over?” Nunca se sabe.