Arquivo da Categoria: Progressivo

NEU! – “Komplett”

Pop Rock

8 de Março de 1995
álbuns poprock
reedições

Sobressaltos maquinais

NEU!
Komplett (8)

2xCD, import. Carbono


neu

Depois do material não disponível dos Kraftwerk, alguém se lembrou dos Neu!, outra das bandas emblemáticas do chamado “rock alemão” dos quais não existem compactos oficiais. “Komplett” reúne a totalidade da obra da banda de Michael Rother e Klaus Dinger, ou seja, os álbuns “Neu!”, de 1971, “Neu! 2”, de 1973, e “Neu! ‘75”, de 1975, originalmente editados na Brain. O som não é famoso (por vezes acontecem mesmo distorções, nos momentos de maior intensidade sonora), ruídos do vinil são o pão nosso da gravação, mas, na ausência de uma alternativa, temos que nos conformar. A música, essa, permanece como uma das mais inovadoras oriundas da região do Ruhr, berço do “folk industrial”, termo inventado pelos Kraftwerk para designar um som cru e maquinal que se opunha à escola planante de Berlim e que teve, além dos próprios Kraftwerk e dos Neu, nos La Dusseldorf e Cluster (anteriores a “Sowiesoso” e à entrada em cena de Brian Eno) os seus principais cultores. A brutalidade sonora ou a abstracção ambiental são regra no primeiro disco, feita de embates de placas de metal, ritmos de martelo pneumático e electrónica em estado de liquefacção. Algo na mesma zona de experiências com a música concreta e a escola futurista de “Electronic Meditation” dos Tangerine Dream ou dos dois primeiros álbuns dos Krafwerk. “Neu! 2” é uma manipulação bizarra de ritmos e fragmentos melódicos colados a ambiências industriais. Um mesmo tema aparece modificado apenas pela alteração de velocidade das fitas de gravação, como se fosse tocado a 16 ou a 78 rotações. Há paragens súbitas, mudanças imprevisíveis e um clima de constante sobressalto. Último dos originais da banda, “Neu! ‘75” inclui um par de temas ambientais, “Seeland” e “Leb’wohl”, maquinaria a marchar em passo ordenado, em “E-musik”, e dois temas proto-punks, “Hero” e “After Eight”, que dão razão a John Lydon, ou Johnny Rotten, quando este afirma que os Neu! São uma das suas principais influências.



Klaus Schulze – “Picture Music”

Pop Rock

8 de Março de 1995
álbuns poprock
reedições

Klaus Schulze
Picture Music

FNAC, DISTRI. MC –MUNDO DA CANÇÃO


ks

Representante da escola electrónica/planante que no final dos anos 60 eclodiu em Berlim, Klaus Schulze forma com os Tangerine Dream e os Ash Ra Tempel o trio de nomes mais importantes do movimento. São, por sinal, os três ainda no activo e com uma produção discográfica regular (no caso dos Ash Ra Tempel mantida graças à actividade a solo de Manuel Göttsching, que continua a assinar os seus discos como Ashra). Schulze é o denominador comum. Depois de uma passagem fugaz pelos Psy Free, tocou bateria na primeira formação dos Tangerine Dream (em “Electronic Meditation”) e teclados nos Ash Ra Tempel. A solo, após a estreia “Irrlicht” e do duplo “Cyborg”, álbuns sombrios e planantes no sentido original do termo, indutores de estados de consciência alterados, Klaus Schulze conheceu uma maior projecção fora da Alemanha. Foi quando assinou contrato, já a meio da década de 70, com a Virgin, em cujo selo subsidiário, a Caroline, foram editados “Black Dance” e “Timewind”. “Picture Music”, gravado entre estes dois discos, saiu entretanto sob o selo alemão Brain e foi reeditado mais tarde, com outra capa, na Virgin. É o disco onde Klaus Schulze se assume como improvisador, deixando patentes as suas limitações como executante, compensadas largamente pelas suas capacidades de manipulador na electrónica. Com os habituais dois longos temas (um por cada face, no vinilo), “Totem” e “Mental Door”, fica de “Picture Disc” a imagem de uma longa cavalgada pelas escalas do órgão e dos sintetizadores analógicos Moog e A.R.P. “Totem” é um tema mais estruturado, na linha de “Black Dance”, com percussões ainda não muito automatizadas, enquanto “Mental Door”, como o próprio título indica, se propõe abrir as portas da mente, através de uma longa improvisação no órgão electrónico pontuada pelos típicos efeitos de sintetizador que viriam a ser organizados e direccionados de forma superior nos álbuns posteriores “Timewind”, “Mirage” e “X”, as três melhores obras de Schulze. A elas se poderá juntar, numa fase mais recente, “Audentity”. “Picture Music” é música cósmica no seu lado mais imediatista e visceral. (7)



Steve Howe – “Beginnings”

Pop Rock

18 de Janeiro de 1995
álbuns poprock

Steve Howe
Beginnings

ATLANTIC, DISTRI. WARNER MUSIC


sh

Estava Steve Howe tão bem nos Yes quando lhe deu para embarcar na “ego trip” que tanta e tão boa gente vitimou nos idos de 70. Em pleno apogeu de “Close to the Edge”, “Tales from Topographic Oceans” e “Relayer”, onde se encontra a melhor música dos Yes, Steve Howe, maestro da guitarra, resolveu seguir as pisadas dos seus colegas Jon Anderson (“Olias of Sunhillow”), Chris Squire (“Fish out of Water”) e, na altura, Patrick Moraz (“The Story of ‘I’”), já para não falar das megalomanias conceptuais de Rick Wakeman, e mostrar que também ele era uma entidade autónoma. Ficou provado que não era. “Beginnings” é, entre os álbuns atrás citados, o mais fraco. Em termos técnicos não há reparos a fazer. Howe deu, na altura, o que se chama um banho à concorrência, nem sequer se esquecendo de incluir a faixa curta na linha de “Mood for a day” e “The clap”, aqui intitulada “Ram”, onde deixava bem vincadas as suas capacidades de executante, neste caso no “dobro”, no banjo e na “steel guitar”. Na maior parte do tempo o álbum não difere em demasia da obra dos Yes, faltando-lhe porém a força do colectivo, embora Patrick Moraz e Alan White estivessem presentes, bem como Bill Bruford e, em “The nature of the sea”, três elementos dos Gryphon. Mas o que estraga de facto “Beginnings” são as vocalizações, medíocres, de Steve Howe, que se deve ter convencido que também era capaz de cantar. Teria sido bem melhor ter convidado alguém para o fazer. Assim, a voz estraga temas como “Doors of sleep”, “Australia” ou “Will O’ the Wisp”, enquanto os instrumentais “The nature of the sea” e “Beginnings” (este um pequeno exercício com pretensões sinfónicas, na linha do que mais tarde, e de forma radical, fizeram os The Enid) ilustram bem o espírito da época e se deixam ouvir como se fossem peças deixadas de lado pelos Yes. Steve Howe não voltou a repetir a experiência, comprovado que ficou que o seu talento como guitarrista não se estendia à composição. Apesar de tudo um álbum curioso. (5)