Arquivo da Categoria: Pós-Rock

To Rococo Rot & I-Sound – “Music Is A Hungry Ghost”

Y 25|MAIO|2001
discos|escolhas


TO ROCOCO ROT & I-SOUND
Music is a Hungry Ghost
City Slang, distri. EMI – VC
8|10



Mergulhar nos meandros mais obscuros da eletrónica sem perder a aura de romantismo crepuscular, foi o desafio colocado aos To Rococo Rot, com um dos seus principais elementos, Stefan Schneider, finalmente liberto das obrigações dos Kreidler. A parceria com I-Sound determinou a evolução do som no sentido do minimalismo e da abstração, invadindo os territórios de Vladislav Delay e Thomas Brinkmann. Mas o “swing” que distingue os To Rococo Rot das outras bandas eletrónicas do momento, arranca “Music is a Hungry Ghost” do convívio com a house e a tecno. Ainda que em temas como “How we never” esse balanço caia nos braços esqueléticos dos Suicide, em “Overhead” receba a bênção do velho Dieter Moebius e em “The trance of travel” manifeste uma costela Can. “From dream to daylight” é “música no Coração”, decorado pelo violino de câmara do convidado Alexander Balanescu. Mas algo mudou nesse romantismo. Tornou-se húmido e morno, parecendo escorrer do interior de uma bolsa amniótica.



Trans AM – “Trans AM esgotam lotação na Galeria Zé dos Bois – Muita TRANSpiração e pouca TRANSgressão” (concerto)

cultura 21 de Janeiro 2000


Trans AM esgotam lotação na Galeria Zé dos Bois

Muita TRANSpiração e pouca TRANSgressão



Riff de guitarra eléctrica, feedback e solos de bateria fazem parte do vocabulário dos Trans AM. Afinal de contas, o velho rock ‘n’ roll enfeitado com futurismo kitsch. Os 150 que conseguiram entrar na ZDB aderiram à sessão de new wave, enquanto outros tantos ficaram à porta sem bilhete. Não houve crise. O povo é sereno.

Não houve motins nem ataques bombistas, como seria de esperar quando se organizam concertos com grupos tão populares como os Trans AM num espaço tão pequeno como a ZDB. Neste aspecto, a actuação do grupo norte-americano, na quarta-feira, no minúsculo cubículo do Bairro Alto, em Lisboa, decorreu com a serenidade de um encontro “new age”. Não houve feridos nem partos prematuros, nem sequer um baixo-assinado a protestar. Tudo na santa paz do Senhor.
Depois que os que ficaram de fora a chuchar no dedo se dirigirem pacatamente para os seus lares, as cerca de 150 pessoas que entraram, com bilhete ou recurso a expedientes vários, concentraram-se na actuação dos três rapazes de Washington D.C., preparados para uma lição de pós-rock. Bem entendido, só as 20 da frente conseguiram ver as caras dos professores, daí para trás dava para vislumbrar as pontas dos cabelos e as aranhas do tecto.
Foi mais uma sabatina do que uma lição. Nathan Means, Philip Manley e Sebastian Thompson, os três Trans AM, não conseguiram, como alguém dizia à saída, esconder que por detrás do rótulo de “banda electrónica”, o seu coração tende é para os Van Halen, AC/DC e outras bandas de heavy-metal. Aliás, parte do público presente, era composto por “headbangers” dispostos a abanar o capacete e a esguichar adrenalina. Esses adoraram. Os outros, mais conhecedores do pós-rock, aceitaram com relativa facilidade e alguma felicidade esta sessão de hard rock, acentuando o lado visceral e energético da coisa. Os Trans AM são retro-futuristas. Tão retro que remetem 20 anos para o passado, até uma noite numa cave mal iluminada de Manchester para ouvir música new wave. A sua música não esconde nem um bocadinho os sons onde foram beber a inspiração, sacados a discos antigos metodicamente estudados e reciclados de maneira a soarem a pós-rock, quer dizer, música suficientemente datada para poder ser utilizada com alguma distância e “atitude”.
Nas duas primeiras canções, do novo álbum “Future World”, as vozes filtradas por Vocoder e as melodias naif saíram em linha directa dos Kraftwerk do álbum “Radio Activity”. Kraftwerk mais carnudos, com bateria em vez de programações. Divertido como um filme de desenhos animados dos Jetsons.
Porém, à medida que o espectáculo foi avançando, impôs-se o lado mais rockeiro do grupo, com citações sucessivas aos Tubeway Army, New Order, devo, num contexto hard rock e, já perto do fim, a indispensável referência-reverência ao krautrock, através do mesmo compasso “martelo no prego” de “It’s a rainy day, sunshine girl”, dos Faust.
Quanto ao lado futurista, tão bem conseguido nos discos, resulta ao vivo na banda sonora de um filme de ficção científica de série B, com marcianos verdes com antenas, discos voadores em feitio de chávenas e pistolas de raio laser. Quem se lembra, em plenos anos 80, da “Music for Parties” dos Silicone Teens? Não eram pós-rockers mas já andavam vestidos com roupas metalizadas a voar em carros anti-gravitacionais por cima de casas transparentes a derramar “beep beeps” e serpentinas. Os Trans AM não brincam, levam-se a sério. O seu “Future World” tem polícias e câmaras vigilantes. Nada como o rock ‘n’ roll para agitar a bandeira do revisionismo. Dos Trans AM esperava-se mais visionarismo. Na ZDB os outrora rivais dos Tortoise (para quando um concerto em Portugal na casa-de-banho dos Armazéns do Conde Barão?) fizeram solos de guitarra e bateria, entornaram riffs a torto e a direito e, para disfarçar, rodaram timidamente os botões dos sintetizadores.
Não foi diferente do que seria de esperar? Provavelmente não. Mas bem feitas as contas talvez todos ficassem a ganhar se tivesse havido mais disciplina e menos desbunda. Menos transpiração e mais transgressão. É pois com alguma expectativa que esperamos por um próximo concerto dos Pink Floyd no Hot Clube de Portugal.



Mice Parade – “Collaborations”

20 Outubro 2000
POP ROCK – DISCOS


Mice Parade
Collaborations (7/10)
Bubble Core, distri. Symbiose



Para entrarmos a 100 por cento na música dos Mice Parade (um sexteto formado por gente conhecida do pós-rock como Jim O’Rourke e Doug Sharin) é preciso afastarmo-nos para o canto mais escuro da mansão assombrada por Freddy Kruger e aí juntarmo-nos ao grupo de crianças que recitam obscuras “lengalengas” aos fantasmas. “Collaborations” apresenta-se sob a forma de três longos temas instrumentais, “The fall from Andalucia”, “Rela circle” e “Mystery brethren vironment”, mais duas remisturas deste último. “Andalucia” integra-se na geografia geral do pós-rock, com batida sincopada, flocos de vibrafones e uma guitarra de flamenco a justificar o título. Podia passar por um tema dos Gastr Del Sol. “Rela circle” é mais ambiental, colando efeitos de reverberação ao vibrafone e à guitarra acústica mas sem alcançar qualquer lugar de relevo. “Mystery…” quase amedronta e é nele que, sobre vibrafones minimalistas, se fazem ouvir as vozes das criancinhas aprisionadas na mansão do homem das garras de metal. Virginia Astley podia ser uma delas. Mas, ai dela se o fosse, pois na parte final do tema vem uma guitarra elétrica ”hardcore” com dentes a devorar a delicada cançãozinha. Das duas remisturas, a primeira, assinada por Jim O’Rourke, é a mais interessante, ao transformar o tema num jogo de círculos minimalista pulverizado primeiro por um “Wall of sound” de guitarras e a seguir por um loop de fita a rodar ao contrário e pelo cântico das infantas recolocado sob a forma de “cut ups”, sobre uma base rítmica estacionada nos The Sea and the Cake. O mesmo tema é remisturado de novo numa variante “noise”/Glenn Branca. Aí a meninada bem tenta afinar as vozes mas Freddy Kruger, atento, atira-lhes para cima um caldeirão borbulhante de metal fundido.