Na contracapa de “Music For Joyriders” vêm indicadas, tema a tema, as respectivas batidas por minuto. É normal. Trata-se então de música de dança. Bem, talvez… Mas reparem: o disco, informa-se, contém “Phencyclidina” e foi gravado no sistema ACME, com o objectivo de potenciação dos graves, que foram “compressed to fuck”, para uma dose de 100 ml. A coisa complica-se ainda mais quando nas 11 remisturas, assinadas por gente como DJ Assassin e o convidado George Death, descobrimos um alucinante utilização de “samples”, dilacerados numa tecno-hardcore-industrial de pendor étnico-satânico-intervencionista, embora na ficha técnica os Széki Kurva agradeçam a Seus e à Virgem Maria, como também agradecem, ou pura e simplesmente lhes sacaram sons, aos Ukrainians, John Peel, Two Minute Hate, Birthday Party, Waste Youth, Bela Bartok, Phil Spector e o seu “wall of sound”, Chas & Dave, e aos grupos de música tradicional húngara Muzsikas, Vujicsics, Vasmalon, além das búlgaras Bisserov Sisters. Pois, os Széki Kurva são húngaros (o subtítulo do álbum é “A Weekend in the Life of the London Hungarian Massive”) e praticantes de uma música violenta que lembra os polacos Holy Toy, no lado mais politizado e militarista, os Popular Mechanics, do russo Sergei Kuriokhin, nas técnicas de colagem e apropriações étnicas, e os jugoslavos Laibach, no totalitarismo ideológico servido por uma não menos totalitarista sonoridade. “Music For Joyriders” funde furiosamente danças balcânicas, tecno demencial, a voz de uma feiticeira e toda a espécie de ruídos industriais e citadinos, numa viagem recomendável para melómanos com sensibilidade de comando.
Sexo surrealista? O manual foi apresentado pelos Von Magnet em 1988, num álbum intitulado precisamente “El Sexo Sur-realista”, considerado hoje um clássico do electro-flamenco. Não se vislumbram mais praticantes deste género que combina a sensualidade das danças do Sul da Andaluzia com a electricidade das máquinas. Os Von Magnet estão, neste aspecto, sós. Isolados na visão de um mundo conceptualizado pelo cérebro e animado por pulsões sexuais tão incrustadas na carne como deslocadas do seu sentido primordial.
Embora sejam associados aos “industriais” Young Gods, Test Dept, Cassandra Complex, In The Nursery ou Psychic TV, a forma como a sua música funde os elementos étnicos e rituais com a electrónica de pendor hipnótico estará mais próxima de uns Controlled Bleeding e, sobretudo, dos Delerium, extensão electrotribal minimalista da “electronic body music” dos Front Line Assembly.
A música dos Von Magnet traduz os paradoxos, as inquietações e as fobias do homem moderno. A carne e o espírito, as tradições étnicas e a sociedade da comunicação electrónica, transe e informação, suor e magnetismo, magia sexualis e matemática aplicada, rituais arcaicos e programações digitais dilaceram-se num novo tribalismo para o novo milénio neste colectivo formado em 1985 pelo catalão Phil Von, que já actuou em Portugal, num castelo de Montemor-O-Velho, durante o festival Citemor 92. Nove anos volvidos, por iniciativa da Alcateia Plásmica, para um espectáculo multimédia com projecção de vídeos e a presença em palco de Phil Von (dança, voz), Flore Magnet (voz, cenografia), Mimetic (percussão, electrónica), Sigmoon (instrumentos étnicos) e Nikho (misturas).
Indissociável da música, a perfomance que rodeia cada espectáculo dos Von Magnet permite traçar um paralelo com os La Fura Dels Baus. Como as “ratazanas dos esgotos” da Catalunha, os Von Magnet aliam à música, predominantemente electrónica, a dança, o teatro, o circo, a tecnologia e um elemento de pânico que torna cada espectáculo numa experiência inolvidável. Não são a mesma coisa, os discos e as apresentações ao vivo. “cuidado: não estão a experienciar os Von Magnet, mas somente a escutá-los!”, explicam no booklet de “El Sexo Sur-Realista”. Fica o aviso… A arte total – e cruel – que emanava deste álbum que materializava a simbiose do humano com a máquina estabeleceu para o grupo um estatuto de culto e uma aura de esoterismo.
Um ano depois, e após colaborações com os Greater Than One e Neil Starr (dos Test Dept), renovam a sua formação que passa a contar com 14 elementos, destacando-se Jerome Soudan (Mimetic) nas percussões e electrónica. Um novo álbum, “Computador”, aprofunda a temática favorita: a ligação da Natureza com a tecnologia, dirigida para a criação de um novo ser humano, mutante cibernético, o “corpo eléctrico” que Ray Bradbury profetizou, detentor de uma alma gentil, e os Human League esticaram em betão até às alturas nietzscheianas do seu “empire state human”.
“Flamenco Mutants”, de 1992, reforça a vertente telúrica e xamânica da música e “La Centrale Magnetique” recupera ao vivo alguns dos cenários apocalípticos dos discos anteriores. “El Grito” (1993) e “Cosmogonia” (1995) são explorações divergentes do organismo Von Magnet. O primeiro é um reflexo das apropriações étnicas, e não só (“estejam À vontade para nos samplar, nós já vos samplámos a vocês!” é uma das máximas do grupo…), a que desde sempre os Von Magnet recorreram; o segundo faz circular com redobrada intensidade a corrente eléctrica e a mensagem das máquinas, através de versões de bandas como os Lassigue Bendthaus (Atom Heart, numa das suas manifestações prévias) e Bourbonese Qualk: Seguem-se, em 1996, as edições de “Mezclador” e da colectânea “Nuevas Cruzes”.
Finalmente, no ano passado, surge “El Planeta”, álbum sobre a esquizofrenia planetária e a necessidade de novas vias de comunicação para o ser humano, com base no instinto. O som de um violino, réstea de humanismo a pairar sobre as ruínas, sobrevoa paisagens de um mundo auto-regulado em circuito-fechado pelas ondas do córtex. Música electrónica sombria, plasma de sonhos, erotismo da carne vazia. O sexo surrealista dos Von Magnet é, afinal, o do corpo com os órgãos fora do lugar (como os da capa do CD) e um programa de ilusão. Posto a correr eternamente em “repeat”.
Von Magnet (1ª Parte: ZZZZZZZZZZZZZZZZZZP!)
Lisboa | Caixa Económica Operária,
R. da Voz do Operário, à Graça.
Sexta, 11 Às 21h30
Tel. 218862836. Bilhetes a 2000$00
Na primeira fila dos psicadélicos, em 1997, perfilam-se Julian Cope e Edward Ka’Spel, “acid-head” dos Legendary Pink Dots. “Hallway of the Gods” é o enésimo álbum desta banda que, surpreendentemente, se mantém firme numa linha de rumo iniciada há muitos anos e que teve a sua primeira obra capital no duplo “Asylum”. “Sing while you may” continua a ser a máxima apocalíptica inscrita ábum após álbum numa obra que continuamente explora novas facetas líricas e combinações sonoras. Segundo uma visão com fortes laivos de paganismo, onde a tecnologia electrónica, de uma complexidade barroca, se combina com os versos de Ka’Spel, compreensíveis apenas pelos argonautas do Inconsciente, “Hallway of the Gods” lança-se no abismo das alucinações, assombradas pela figura de Lúcifer, em sonhos malsãos de ascensão e queda, solidão e alienação, anjos sofredores e espectros furtivos. Depois, os LGP estão longe de ter esgotado a sua reconhecida capacidade para criar melodias insinuantes, verdadeiro veneno com efeitos nefastos sobre o cérebro, criando paisagens instrumentais – coloridas por um saxofone sonâmbulço, teclados em transe e efeitos de voz variados – que, ocasionalmente, se inscrevem no mesmo universo de sombras percorrido pelos Tuxedomoon em “The Ghost Sonata”. Surpresas constantes, encontros do terceiro grau com canções alienígenas (“The Saucers are coming2, avosam…) e os reflexos ominosos de gemas garimpadas nas minas do Eu interior, culminam na beleza, quase sobrenatural de “Sterre”, o tema das altas solidões que Syd Barrett nunca chegou a escrever. “Hallway of the Gods” remete, aliás, para o universo dos Pink Floyd, em álbuns como “A Saucerful of Secrets” e o mais abstracto “Ummagumma”, na mesma viagem pelo lado escuro da mente, paradoxalmente aquele onde as cores parecem ter cambiantes e um brilho mais intensos.