Arquivo da Categoria: Industrial

Blectum From Blechdom – The Messy Jesse Fiesta

12.01.2009
Excêntricos De Luxos
Matmos
The West
8/10

Blectum From Blechdom
The Messy Jesse Fiesta
8/10

blectumfromblechdom_themessy

LINK

Electric Birds
Electtric Birds
7/10
Todos Deluxe, distri. Symbiose

A distribuição em Portugal da editor Americana Deluxe traz para já consigo três objectos fascinantes, à margem dos parâmetros mais em voga na música electrónica.
“The West”, terceiro álbum dos Matmos (Drew Daniel e M. C. Schmidt), foi considerado um dos melhores discos de 1999 para a revista The Wire. Colaboradores remisturadores de Aerial M, Cul de Sac, Pluramon, Kid606, The For Carnation, tortoise, Labradford, Ground Zero e Björk, os Matmos fazem em “The West” uma música difícil de catalogar na qual se redimensiona o imaginário do western, através de processos que, numa primeira leitura, requisitam todo o formulário identificável do pós-rock para, de forma subliminar, lhe introduzirem o factor electrónico. É usada instrumentação acústica (violino, violoncelo, guitarras) para criar atmosferas de “saloon” que, por força da repetição e de subtis sequenciações computorizadas, se transmutam em “trompe l’Oeil” sonoros e emissões de rádio galáctica. A uma distância apesar de tudo considerável das cavalgadas épicas dos Godspeed You Black Emperor! Os Matmos estarão porventura mais próximos dos Gastr Del Sol, enquanto inovadores de uma linguagem, o pós-rock, a necessitar urgentemente de novas reformulações. Para que consta, o próximo trabalho da banda terá como base as sonoridades de tecnologia médica.
Ainda mais estranhos são os Blectum from Blechdom que, em termos gráficos, remetem para os “cartoons” dos Residents ou Renaldo and the Loaf. A escuta mostra a actividade de cabeças com febre tocadas pelo génio. Grooves cortados à lâmina pelos Severed Heads, samples de conversas em contramão, breakbeats no “sítio errado”, loops em inversão de marcha, humor a la Mr. Bungle, caixas de música com monstros dentro, esgares Aphex Twin e toda a espécie de delírios colados num puzzle sem manual de soluções, arrastam o ouvinte para uma terra de ninguém, fazendo desde já de “The Messy Jesse Fiesta” a primeira grande surpresa de 2001.
No álbum de estreia dos Electric Birds (Mike Martinez, patrão da Deluxe), com co-produção dos Matmos, apesar da estranheza que parece caracterizar todos os lançamentos da editora, descortinam-se com alguma nitidez as vigas que constroem o edifício: Steve Reich, ambientes de digitalindustrial, saturação de software, em “Acoustic Orange” um andamento hipnótico falsamente acústico evocativo dos primeiros Biosphere e, já no final, uma verdadeira canção com patente 4AD, seguida de uma imagem impressa no mesmo formato dos Labradford que, se amenizam o som, contrariam em absoluto a orientação estética do resto do álbum.
Os amantes do bizarro têm nestes três discos com que se entreter para os próximos meses.

Der Plan – Die Letzte Rache

26.01.2001
Der Plan
Die Letzte Rache
Ata Tak, distri. Symbiose
7/10

derplan_dieletzte

LINK (“Geri Reig” LP – 1980)

O plano era disfarçar a conspiração industrial dos anos 80 com o surrealismo e o humor. Kurt Dahlke, ideólogo dos Der Plan antes da fundação a solo, como Pyrolator, do seu próprio colégio de insanidades, conseguiu com “Die Letzte Rache” (banda sonora para “A Última Vingança”, de Rainer Kirberg) alcançar apenas em parte o objectivo, que viria a ser plenamente conseguido nos primeiros álbuns gravados para a Ata Tak, peças fundamentais do puzzle da electrónica germânica da década de 80, a juntar a Holger Hiller, D.A.F. e Einstuerzende Neubauten. Os 30 temas correspondem À descoberta por Dahlke do Synclavier, envernizando uma música que, apesar de tudo, deixa adivinhar a sua estranheza nas cadências de jazz “doente”, nas programações e soldadinho de chumbo, nas construções de “jingle” publicitário e nas vozes de marioneta que deram aos Der Plan a fama de variante alemã dos Residents.

Patricia Dallio – D’où Vient l’ Eau Des Puits?

14.11.1997
Desta Água Não Beberei
Patricia Dallio
D’où Vient l’ Eau Des Puits? (8)
Musi, import. Planeta Rock

patriciadallio_douviens

“De onde vem a água dos poços?” pergunta a teclista dos Art Zoyd no seu quarto álbum a solo, depois de “Procession”, “Champ de Mars” e “La Ronce n’est pas le Pire”. A questão pode parecer retórica mas deixa de o ser quando tomamos conhecimento da temática do disco, a poluição ambiental causada pela crescente acumulação de materiais radioactivos no subsolo do planeta. Assim, a totalidade dos textos é constituída por testemunhos verídicos, de cariz ecologista, de pessoas e instituições que lutam contra a política e os interesses internacionais em jogo nesta matéria. A alinhamento alterna sequências instrumentais e interlúdios textuais, acentuando o carácter de manifesto. Aquelas cultivam o neo-classicismo atravessado por guitarras eléctricas em agonia, referências étnicas várias e o ocasional ar de “bal musette” do fim dos tempos que lhe é conferido pelo acordeão de Michel Besson, um dos convidados do álbum, juntamente com Fabienne Ringenbach, no violoncelo. Neste particular assume particular relevância um tema como “Hors les Gonds”, que junta a religiosidade apocalíptica de Olivier Messiaen com os “samplers” sinfónicos dos Art Zoyd e o clamor delirante do planeta inteiro. “Tour de Force” são ainda as três partes em que se divide “Humanité cherche futur”, libelo dramático de cores subterrâneas, mistura de sangue, noite e labaredas de revolta, entre palavras declamadas, torcidas pela tecnologia, apelos ambientais, um piano em busca de luz e um violoncelo que parece querer enterrar a derradeira réstea de esperança. A voz de uma criança (“Jeanne-Vera”, a fazer lembrar a “Vera C” de Richard Pinhas com os Heldon) e a ironia final de “Tout Va Bien” (“Dizem os especialistas: Não há nenhuma razão para nos inquietarmos… Tudo está bem… A central de Tchernobyl é a mais segura da Ucrânia… Não há nenhuma razão para nos inquietarmos… Tudo está bem…”) projectam um cenário que infelizmente não faz parte de um filme de ficção.