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Stealing Orchestra – “Querida, Encolhi A Música!” (artigo de opinião e entrevista a propósito do lançamento de ‘The Incredible Shrinking Band’) + Residents (The) + Kubik + Mola Dudle + Negativland + Biota

(público >> y >> portugueses >> artigo de opinião)
26 Setembro 2003


Querida, encolhi a música!

Para os Stealing Orchestra um disco é um mundo de possibilidades. Com velhos discos e filmes montaram “The Incredible Shrinking Band”, que alargou o espectro sonoro da orquestra.



“The Incredible Shrinking Band”, segundo longa-duração dos Stealing Orchestra, depois de “Stereogamy” (e do EP “É Português? Não Gosto!”), rouba o que pode e onde pode. A começar pelo título, adaptado de um filme de série B, “The Incredible Shrinking Man” (Jack Arnold, 1957), hoje fita de culto.
A operação de encolhimento traduz-se graficamente numa capa a fazer lembrar os Negativland e materializa-se literalmente na faixa de encerramento, “Happy ending theme”, segmento sónico que em segundos condensa as restantes 14 faixas. O disco termina com uma mensagem subliminar na voz de um Wally ambíguo que cada um tentará identificar.
Pelo meio, os Stealing Orchestra, sob a alçada ideológica de João Mascarenhas, propõem as sonoridades mais estranhas, designadas por títulos não menos bizarros como “Que Deus te dê o dobro de tudo o que nos desejares”, “Tetris (beware boy, videogames are evil)”, “The darkside of a travesti”,”The living dead whistlig quartet”, “How to make a killer rat” e o inultrapassável “Sorry captain.but…shouldn’t we be thinking about cosmic hazards instead of destroying our spaceship and kitting the crew?”.
São ilustrações, pinturas de som equivalentes às colagens surrealistas que Armando Brás criou para o folheto, ilustrativos de uma insanidade controlada que remete os Stealing para uma linhagem de grupos que inclui os Residents, Biota, Renaldo and the Loaf, Yello, Startled Insects, Olívia Tremor Control ou os já citados Negativland, bem como Pascal Comelade ou artistas como Duchamp, Breton, Ernst, e Salvador Dali.

asilos. Vale tudo e vale a pena averiguar. Os Stealing Orchestra sacam aos discos e filmes de vários estilos e épocas aquilo que neles é passível de ser manipulado até adquirir a forma de música. Os resultados variam de faixa para faixa como as simetrias de um caleidoscópio: valsas à maneira dos Stranglers, surf music, easy listening, jogos de consola, eletrónica-champagne, uma citação intrusa dos Pink Floyd psicadélicos (não, eles nunca ouviram, juram, e nós fingimos acreditar…), excertos de emissões e estática de rádio, vozes camufladas e melodias umas vezes diabolicamente retalhadas outras de uma simplicidade desarmante. Para confundir ainda mais, não faltam “Os Caretos de Podence”, com emulações de gaita-de-foles sintética de folk mirandesa formatada em disquete.
Não há uma tradição, cá dentro como lá fora, para este “tipo” de música, pela razão de que a loucura, mesmo quando elevada a método (estético ou sociológico), é ferozmente individualista. Cada caso é um caso e entrar em cada um deles pode ser uma aventura imprevisível.
Claro, encontram-se na pop asilos bem demarcados. Se os Negativland abusam da colagem como dispositivo de sabotagem, não só estética como política, e os Olivia Tremor Control recorrem ao “corte e costura” como ferramenta de um novo Psicadelismo, já Pascal Comelade se perfila como genuíno “naif” para quem a música é, como nos Stealing Orchestra, uma miniaturização de géneros e mitologias enrolados no cilindro de um realejo. O autor de “El Cabaret Galactico” é, de resto, das poucas influências assumidas pelo grupo português.
Outros mestres-redutores, como os Residents (o seu álbum de 50 “jingles” de um minuto cada permanece como símbolo da publicidade filtrada pela esquizofrenia e pela perversão), inserem-se num projeto mais global de subversão que procura atingir o âmago da pop. Os Biota fazem o mesmo mas propagam a doença, infetando cada som com uma agonia. Idem em relação aos Startled Insects, com a diferença de que estes ousam interferir com os cânones da música de dança. Já os Renaldo and the Loaf são malucos a quem ofereceram instrumentos de música e um contrato de gravação e os Yello uma variação “light” dos Residents. Ponto assente: sem o trabalho pioneiro de Raymond Scott, o cientista e visionário louco de “Manhattan Reserach Inc.”, nenhum dos outros se atreveria a fazer o que fez e a expor as respetivas
taras em público.
De entre esta lista de ilustres anjos do bizarro (parafraseando o título de um conto de Edgar Allan Poe) é no mundo mais afastado do horizonte de referências dos Stealing Orchestra que se detetam enigmáticas coincidências. E que outro grupo pode estar mais afastado da normalidade do que os Biota, autores de “Almost Never”, “Tinct” e “Object Holder”, compêndios e rituais de passagem para o pesadelo? Como os Biota, os Stealing Orchestra constroem parte da sua estranheza através da justaposição de instrumentos acústicos, como o piano ou o acordeão, e programações eletrónicas, segundo a lógica de “cadavre-exquis” surrealista, que encadeia as imagens mais incongruentes. Desta conjunção de contrários resulta uma fenda entreaberta que faz desequilibrar, ou apagar, as mnemónicas a que se recorre para fazer a descodificação de uma particular organização mental/musical. Se os Biota filtram no estúdio sanfonas e saxofones até estes soarem como emanações tuberculosas de hinos sobrenaturais, os Stealing Orchestra sequenciam valsas e fragmentos de uma folk imaginária, ou nem por isso (como nuns “Caretos de Podence” cujo mistério se desvanece ao conhecermos as origens transmontanas de João Mascarenhas), cuja força advém, precisamente, da ausência ou deformação de contexto. Nos Stealing Orchestra nada encaixa numa explicação lógica e tudo se passa como as imagens de um sonho. E, no entanto, o filme que fazemos com elas fala uma linguagem que reconhecemos. Ou julgamos reconhecer.
E daí, talvez não, se pensarmos que “The Incredible Shrinking Band” demorou três anos e meio a gravar e que a organização destes O.V.N.I.s sonoros terá custado a João Mascarenhas mais do que uma noite sem dormir. Foi difícil encontrá-lo, porque encolheu até à escala de 1:260. Encontrámo-lo a praticar natação no interior de um dos sifões de água que matam a sede à Redação do PÚBLICO. Como é que lá foi parar, não quis dizer nem nós conseguimos imaginar. Mas não podíamos desperdiçar a oportunidade. Depois de se enxugar num pedaço de toalhete de papel e de escapar por um triz a ser espezinhado por um jornalista, prontificou-se a dar explicações. Já instalado no aconchego de uma caixa de fósforos, foi mesmo assim com alguma dificuldade que conseguimos ouvir com nitidez este “incredible shrinking man”. Segue-se a relação de algumas das verdades liliputianas que nos transmitiu.

ideias em lata.
MÉTODO DE COMPOSIÇÃO: “Faço as bases, com samples, depois gravo para CD, passo aos outros músicos [Pedro Vidal, Fernando Sousa, Gustavo Costa] e discutimos o que se pode aumentar aqui ou colar ali. Finalmente trabalho outra vez os temas e dou-lhes as programações para trabalharem sozinhos”.
LOCAL DE TRABALHO: Em casa. “Às vezes não consigo dormir. Estou com um som na cabeça e não descanso enquanto não conseguir fazê-lo. Vou para o computador ver se sai alguma coisa. Se sai, continuo, se não…”
FONTES SAMPLADAS: Discos e filmes. “A mais descarada: os Bonzo Dog Doo Dah Band, em ‘Time travelling waltz’, cinco segundos de Brigitte Bardot, de “Tous les garçons”, num ‘pitch’ lento.”
AUDIÇÕES RECENTES: Robert Mitchum. Ouve pouca eletrónica. “Não gosto do som eletrónico”. Nos anos 80: Front 242, Skinny Puppy. Mais tarde: Portishead. Massive Attack, Aphex Twin…
SOFTWARE UTILIZADO: “Básico e primitivo. Já o uso há 11, 12 anos, um programa que cabe três vezes numa disquete, quando hoje é tudo ‘software’ em dois CD. Habituei-me. É como um gajo que toca guitarra e não quer mudar de instrumento”.
UM HERÓI: Raymond Scott. A fase do jazz. “Gosto de todos os discos que saem pela Basta, como os dos Beau Hunks”. “Adoro os anos 20”.
O LIXO E O LUXO: “Um sample não tem que ser lixo só porque é de um artista mais foleiro. Às vezes ouço bandas a dizer, orgulhosas, que samplam os Kraftwerk. É uma treta. O que é que interessa de onde vêm os sons? O que interessa é o que se faz com eles. Tanto pode ser Piazzolla como Quim Barreiros”. Critério: “Tem a ver com a preguiça. Uso os sons disponíveis, não tenho pachorra para arranjar mais. Na escola, quando me mandavam fazer uma redação, se não me dessem um tema, não era capaz. Com um tema, desenvolvia facilmente. Um ‘sample’ é como se fosse um tema”
MÚSICO OU NÃO-MÚSICO: “Não-músico. Não leio pautas. Músico é um gajo que tanto toca num projeto experimental como numa cena mais foleira, para ganhar dinheiro. É uma profissão”.
ECLETISMO: “Tanto podemos fazer misturas de uma banda de ‘dead metal’ como os Holocausto Canibal como de Kubik. Uma vez tentei fazer uma música pimba, para ver se era fácil. Não saía. Afinal não é assim tão fácil. Como não é fácil fazer electroclash ou hip-hop”
CONCERTOS: “Nunca vi ninguém fazer nada de jeito em palco com um computador, os tipos estão ali a fazer de conta que estão a tocar. Antigamente levava um até que me fartei. Gravo as programações todas em CD, fazemos ‘play’ e tocamos por cima, como uma orquestra que estivesse lá atrás”.
UM FINAL FELIZ: “‘Happy ending theme’ é o disco todo comprimido a andar para trás, como um grande loop. Não vou revelar o que a voz diz no final. Dá mais gozo pôr o disco a rodar ao contrário e tentar perceber. Esperemos que ninguém leve a mensagem a sério…”


anjos do bizarro

No corpo da hidra monstruosa que é a
música pop não faltam excrescências
que extravasam os limites impostos
pelo “mainstream”, ou seja, pela
“normalidade”. Os álbuns
seguintes, nacionais e
estrangeiros, são clássicos
da marginalidade
cultivada como estética, em
que as únicas regras são as
da loucura, do perigo e da
transgressão. E do humor,
tantas vezes separador entre
a patologia, a obra de arte e o
gratuito.


THE RESIDENTS
The Third Reich ‘n’ Roll

Ed. Euro Ralph

Quem são, de onde vêm, o que pretendem? Ninguém sabe. Agem como toupeiras a escavar os túneis que minam os alicerces da pop. Os “eyeballs” de fraque e cartola são os diletantes do horror em banda-desenhada, “compères” de uma alucinação sem fim que vem dos anos 70 e hoje se estende por videojogos para maiores de 21. “The Third Reich ‘n’ Roll”, de 1976, é uma das etapas mais bizarras deste percurso pelos subterrâneos da pop, dividida num par de aberrações onde são amolgados e cuspidos, numa avalanche de ruído e vozes de diabretes, “hits” pop dos anos 60 e 70: “Swastikas on parade” e “Hitler was a vegetarian”. Ou de como destapar o diabo e escancarar o carácter intrinsecamente totalitário da música de massas.

BIOTA
Object Holder

Ed. Recommended

Ao contrário dos Residentes, é conhecida a identidade dos Biota: uma equipa de músicos e artistas gráficos sediados em Fort Collins, EUA, preocupados com o “bombardeamento das crianças pela tecnologia” e empenhados na manipulação eletrónica, até à aniquilação, de instrumentos acústicos como a sanfona, trompete, teclados e, em “Object Holder”, da voz humana
Se os Residents são a subversão da pop os Biota transferem-na para um mundo de espectros. A música é um aglomerado tóxico de anti-matéria em metamorfose, miasmas desfocados de “world” inexistente, “free jazz” nas rotações e pelos músicos errados. Como num teste Rorschach é a nossa imaginação que faz nascer os monstros.

NEGATIVLAND
Escape from Noise

Ed. Seeland

Os Negativland disparam aqui rajadas de colagem e eletrónica devedoras de Raymond Scott mas que antecipavam as atuais “funny electronics” alemãs, em canções que denunciam o ridículo e os podres do quotidiano da América. Pulveriza-se com veneno mata-ratos a mediocridade do rock “mainstream” (o verdadeiro “noise”), expõem-se os vícios do pai de família que vê às escondidas o canal Playboy ou, simplesmente, sintetiza-se o atual estado de coisas num título como “Methods of torture”. Entre os convidados, encontram-se “freaks” como Steve Fisk, Fred Frith, Mickey Hart e Jerry Garcia (Grafteful Dead), Henry Kaiser, Mother Mothersbaugh (Devo), Tom Herman (Pere Ubu), Alexander Hacke (Einsturzende Neubauten) e os…Residents.

MOLA DUDLE
Mobília

Ed. Anana

Os portugueses também sabem fazer esgares. Os Mola Dudle desarrumam a eletrónica de entretenimento para nos fazer tropeçar no espanto. Desarrumação com a aparência de caos, todavia encenada com uma exatidão matemática por Nanu e Miguel Cabral, os dois que arrastam a mobília e eletrodomésticos de museu pelo chão. “Found objects”, instrumentos convencionais manipulados até ao âmago da sua estrutura atómica, programações histéricas ou “easy listening” arrancadas aos cartazes da escola de circo da editora Storage Secret Sounds e vocalizações sem tino condensam uma música inteligente mas por enquanto capaz de divertir apenas aqueles ouvidos sem receio de gozar consigo mesmos. Vale a pena mobilar a música portuguesa desta maneira. Os Mola Dudle foram ao ponto de porem microfones nas mãos do caruncho.

KUBIK
Oblique Musique

Ed. Zounds

O que nos Mola Dudle soa a polimento dos móveis, em Kubik (Victor Afonso) é metal, cimento e objetos brutos. “Oblique Musique” insere-se numa escola de sons que remonta à música industrial, aproveita os ensinamentos do minimalismo e assimila métodos de colagem, quer da eletro-acústica e acusmática quer dos figurinos “prêt-a-porter” da pop, mas neste campo, como em tudo, vale a imaginação do autor. Kubik usa o sampler como artilharia pesada, avançando nas programações a bordo de um tanque e fazendo denotar granadas a cada intersecção de géneros como a música étnica, melopeias repetitivas e o catálogo geral de deformações causadas pela “industrial”. Admirável é o modo como Kubik sobrepõe citações e humor, tripas e automatismos, linguagem de máquinas e existencialismo humano, criando perspetivas mutáveis como uma gravura de Eischer.

Adiafa – “Pop Alentejana” (artigo de opinião)

(público >> cultura >> portugueses >> artigo de opinião)
domingo, 26 Janeiro 2003


POP ALENTEJANA

Beja assiste a um fenómeno inédito. Nas suas discotecas dança-se música alentejana. “As meninas da Ribeira do Sado”, dos Adiafa, é o tema que está a fazer furor.


Nunca se viu nada assim. A música alentejana saiu do monte, desceu à cidade e introduziu-se nas discotecas. O “escândalo” rebentou quando um dos temas do álbum de estreia do grupo Adiafa, de Beja, “As meninas da Ribeira do Sado”, começou a passar nas discotecas da cidade.
Passou e pegou. Hoje torna-se difícil encontar na cidade quem não conheça o tema de cor. Dos estudantes universitários, que nos últimos anos fizeram crescer a população da cidade, à criançada da escola que, para gáudio dos pais, tem na ponta da língua os versos e a melodia não só da versão electrificada mas também da ortodoxa, em toda a pureza do “cante”, de “As meninas da Ribeira do Sado”, que também faz parte do álbum.
Fomos conhecer de perto a loucura do que se poderá chamar “pop à alentejana”, rótulo, de resto, também aplicável ao álbum de estreia de outro filho da cidade, Paulo Ribeiro, antigo elemento do grupo Anonimato. Há algo de excitante no ar. Correm rumores de que “As meninas da Ribeira do Sado” avançaram já para Norte e estão a agitar algumas pistas de dança de Lisboa. Rui Veloso e Vitorino expressaram já publicamente a sua admiração pelos Adiafa.
Curiosamente ninguém na cidade se refere a “As meninas da Ribeira do Sado” por este nome mas por “Estrala a bomba”, aproveitando o início da letra: “Estrala a bomba e o foguete vai no ar”. Os músicos do grupo são reconhecidos na rua e apanham com o mesmo epíteto. “Olha os ‘Estrala a bomba’!” exclamam, apontando, velhos e novos. Os Estrala a Bomba, perdão, Adiafa, não escondem o seu contentamento, ainda algo incrédulos com o sucesso alcançado pela sua música. “Sentimo-nos felizes por, graças a nós, as pessoas darem mais atenção à música alenteja.”
Ao almoço (afinal “adiafa” é sinónimo de “banquete”), no restaurante Os Infantes, edifício com cerca de 600 anos, antiga discoteca e antes disso sede do extinto partido político MES (Movimento da Esquerda Socialista), na lambança sem pecado proporcionada por divinais feijoada de lebre, migas com carne de porco e perdiz estufada, bem regados por um Vidigueira tinto monocasta “aragonês”, a conversa fluiu com a mesma facilidade com que à noite se dança nas discotecas “As meninas da Ribeira do Sado”.
Cada um dos sete elementos do grupo, com idades entre os 26 e os 52 anos, acrescenta a sua parte a uma história que parece ser de fadas.
António Santos, “Toy”, o idealista anarquista, admirador de Bakunine, para quem a liberdade dos homens é possível; Emídio Zarcos, aspeto “hippie” mas respeitável professor de Educação Física; João Santos, “o encarnado”, sócia de Mick Hucknall, dos Simply Red; José Emídio, apaixonado pelos “blues” e outras músicas (“sempre que posso, canto ‘blues’, mas por que raio é que não consigo cantar flamenco?”); Luís Espinho, incondicional do jazzrock (“um dia hei-de ouvir o Joe Zawinul ao vivo!”); Paulo Colaço, o homem da “house” e do “drum‘n’bass” que usou o programa Cubas” para fabricar em casa os beats da versão remisturada de “As meninas da Ribeira do Sado”; e Joaquim Simões, executante de fagote que passou uma noite em claro subjugado por uma partitura de Beethoven. Todos diferentes mas unidos por um sonho: levar a música alentejana cada vez mais longe e a mais pessoas.
A discoteca UFO’s, antigo bar “underground” onde os músicos do grupo Revisão se juntavam para fazer “jam sessions” (“bom rock e bom ‘blues’”, que ainda hoje continuam a ser tocados num recanto do recinto que Carlos Lopes, gerente da casa, considera “carismático”), faz parte dos locais de diversão de Beja onde “As meninas da Ribeira do Sado” é tocada todas as noites, inclusive na versão tradicional. “A primeira vez que me pediram para tocar a música dos Adiafa achei um bocado esquisito, mas toda a gente aderiu. Até já estamos a pensar em fazer uma sessão de karaoke… as pessoas cantam por cima”, diz Carlos Lopes.
Ninguém se recorda muito bem da origem do nome UFO’s, embora Carlos Lopes se lembre de ouvir então falar em discos voadores. Já Emídio Zarcos acha que tem a ver com “o estado da cabeça de algumas pessoas” que frequentavam o estabelecimento. O que já bate mais certo com a semelhança entre este nome e o do mítico clube inglês UFO onde, em 1967, os Pink Floyd e os Soft Machine inventaram a pop psicadélica.
É quinta-feira e faltam poucas horas para o UFO’s se encher de jovens universitários com a cabeça mais ou menos fora do lugar, desejosos de divertimento. Quinta é a noite de loucura de Beja. “3000 mulheres para cada homem”, segundo avaliação, pouco científica, dos Adiafa. “Estrala a bomba” tornou-se parte integrante dessa diversão.
A Biblioteca Municipal José Saramago, considerada modelar e uma das melhores do país, entrou nos hábitos da população mais jovem da cidade. Aberta até às onze da noite, com um espaço infantil, café e ambiente informal, além de revistas e livros, permite levar CD para casa. O dos Adiafa “está sempre fora”.
Sentados às mesas do café, os jovens voltam as cabeças para os sete Adiafa enquanto estes antecipam a folia que daí a poucas horas se instalará um pouco por todos os locais noturnos da cidade. Cristina tem 25 anos e estuda na Universidade Moderna. Investigação Social Aplicada. Vem todos os dias assistir às aulas. As discotecas Caras e Lanterna Azul contam-se entre as suas eleitas. Para dançar “As meninas da Ribeira do Sado”. “Já o fiz muitas vezes, aqui e noutros locais do Sul”. Lídia, 22 anos, a estudar no mesmo curso, já dançou a “remix” em Reguengos de Monsaraz, de onde é natural. Com a mesma idade, Ângela veio do Montijo para estudar “Animação Sócio-Cultural”. O tema dos Adiafa é dos que mais a animam. “Vi-os no outro dia num programa da televisão e achei curioso ter como base uma recolha do cancioneiro popular, uma coisa que estava esquecida.”
A partir de agora deixou de haver razões para que a música alentejana continue esquecida. Os Adiafa tiraram-na do beco do “cante” e da viola campaniça, criando a partir da tradição novos modelos. Está em curso a invasão da pop alentejana.

Vitorino e companhia

A música do Alentejo, em parte pelas suas especificidades, próprias de uma tradição que tem mais a ver com o Mediterrâneo (o canto corso, por exemplo) e o espólio polifónico medieval do que com as heranças etnográficas de todo o território situado a Norte do Tejo, em parte pelo ostracismo político a que durante décadas foi votado, conservou durante largos anos o estatuto de bolsa marginal. A sua ligação à música urbana, processo agora encetado pelos Adiafa ou por Paulo Ribeiro, tem, no entanto, antecedentes. Deixando de lado o espólio discográfico tradicional fixado nas recolhas de Giacometti, na “Viola Campaniça”, organizado por José Alberto Sardinha ou grupos corais como os das Camponesas de Castro Verde, Camponeses de Pias ou os Ganhões, também de Castro Verde, o selo alentejano está bem marcado na família Salomé, de Vitorino e Janita, ainda que num registo que começou por estar conotado com uma atitude revolucionária que era timbre da primeira geração de músicos da chamada Música Popular Portuguesa. Álbuns de Vitorino como “Semear Salsa ao Reguinho” (1975), “Os Malteses” (1977), “Não há Terra…” (1979), “Romances” (1980) e “Flor de la Mar” (1983), são exemplares dessa conjunção entre folclore, dignidade e ideologia. Após um período mais literário e “lisboeta” encetado com “Leitaria Garrett” (1984), realça-se o recente “Alentejanas e Amorosas”, de 2001, que o autor define como recuperação de um “romantismo mediterrânico e peninsular”. Janita Salomé, numa perspetiva mais “world music” e assumidamente arabizante, assinou trabalhos como “Melro” (1980), o clássico “A Cantar ao Sol” (1983), “Lavrar em teu Peito” (1985) e, numa perspetiva mais abrangente e fusionista, “Raiano” (1994) e o excelente e recentemente premiado “Vozes do Sul” (2001). Ele e Vitorino, mais o irmão Carlos e Filipa Pais (autora de “L’Amar”, 1994, com o delicioso e alentejano “Vox omnes”), encetaram a aventura, tão curta como cintilante, dos Lua Extravagante.



Adiafa – “O Alentejo Tem Ritmo” (entrevista)

(público >> cultura >> portugueses >> entrevistas)
domingo, 26 Janeiro 2003

“O Alentejo tem ritmo”

Têm o “cante” na voz e na alma
mas não descuram a irreverência.
Ao vivo põem as pessoas a rir.
À noite, a sua música é para se
dançar ao lado de Shakira
ou das Las Ketchup. As novas
“adiafas” fazem-se nas discotecas


Os Adiafa: “Sempre cantámos à alentejana. É inato. Está-nos na alma”


PÚBLICO — Como apareceram os Adiafa e o álbum de estreia?
ADIAFA — A ideia é do Emídio Palma e do Paulo Colaço que há uns anos começaram a pensar na música da nossa terra e de uma maneira nova de a apresentar. O grupo nasceu há três anos. Fruto da necessidade de termos um cartão-de-visita. Fomos nós que custeámos tudo.
Mas depois de uma primeira edição caseira, o CD vai ter lançamento oficial da Sony…
Sim, mas o processo desencadeou-se todo no Alentejo. Foi no Alentejo que começámos a ter sucesso. O disco passa nas discotecas, nas rádios locais… Só a partir daí é que a editora veio ter connosco.
“Adiafa” significa apenas “banquete” ou algo mais?
Também é “festa”. No Alentejo, antigamente, o trabalho agrícola era todo feito por pessoas. Não havia máquinas. Vinham do Algarve, das Beiras, do Norte, inclusive de Espanha. No final desse trabalho, o senhor dono das terras dava uma festa. Comia-se, bebia-se, dançavase e cantava-se. Era a “adiafa”, uma palavra de origem árabe.
Por norma as pessoas associam a música alentejana ao “cante” e aos grupos corais. Provavelmente, não há mais nenhuma formação como a vossa…
Não quisemos abandonar o “cante” mas recuperar o tempo perdido. Fez-se a promoção do “cante” mas não por opção do Alentejo, na época das recolhas. Houve coisas proibidas e outras não. A viola campaniça, por exemplo, que é o que nos liga mais à tradição, foi deixada ao esquecimento. A história tem destas coisas tristes… Nós somos o futuro.
Viola campaniça que esteve em risco de extinção. A situação continua a ser grave?
Menos do que era. Há já alguns jovens a construir e a tocar. A nossa foi construída por um rapaz de 25 anos, o Pedro Mestre. E bom tocador… A viola campaniça representa, no aspecto rítmico, a nossa ligação ao mundo árabe. No “cante” a ênfase é posta na riqueza harmónica e melódica. A verdade é que havia bailes nas aldeias todas as semanas e as pessoas não dançavam modas lentas mas coisas rítmicas. O Alentejo tem ritmo.
Fizeram recolhas?
Não andámos de gravador ao ombro. Ouvimos, fomos a “adiafas”, que ainda se realizam. Vimos velhotes, um trio de violas campaniças, tocar e cantar. Também tirámos dos discos. Mas o tema mais conhecido, “As meninas da Ribeira do Sado” aprendêmo-lo por via da tradição oral.
Mas não se considerem puristas, o que nos leva à “remix” de música de dança de “As meninas da Ribeira do Sado”…
Somos puristas na maneira de cantar quando estamos num grupo de cantares alentejanos. Se se reparar, a traça da nossa música continua a ser a do “cante”. Damos-lhe é uma roupagem diferente… O Fernando Lopes-Graça escreveu um livro chamado “Problemas da Música Portuguesa”. Uma das coisas que ele dizia era precisamente que nas recolhas a que teve acesso se percebe que o povo não está estático, as pessoas evoluem. Por exemplo, há uma moda da Dulce Pontes com um grupo coral que ninguém conhecia e que hoje se canta nas tabernas.
Sim, mas a “remix”…
Foi ideia do Paulo. Fazer uma moda alentejana ser dançada nas discotecas. Antigamente dançavam-se nos bailaricos. Hoje as “adiafas” são feitas nas discotecas. Passam “As meninas da Ribeira do Sado” ao lado da Shakira e das Las Ketchup.
Todas as pessoas reagiram bem à vossa música?
Havia um bocado a ideia de que o “cante” tem que ser sempre lento, pouco apelativo à vista. Nós, nos espectáculos ao vivo, que é o nosso forte, somos extraordinariamente bem dispostos, brincamos uns com os outros e com o público. Contamos histórias, anedotas, pomos as pessoas a rir.
Além de música alentejana o que é que ouvem em casa?
Cada um de nós tem gostos diferentes. Herbie Hancock, Joe Zawinul, Wes Montgomery, “blues”, música de dança… Antes dos Adiafa tocávamos jazz mas as pessoas não queriam saber disso. Aplicamos os nossos gostos e os nossos conhecimentos técnicos à música alentejana. Sempre cantámos à alentejana. É inato. Está-nos na alma.
Fazem parte da mesma linhagem do Vitorino ou do Janita Salomé? Ou representam uma ruptura?
Ruptura nunca. Embora o Vitorino cante com cubanos, é uma opção dele… A verdade é que quando ele nos ouviu pela primeira vez, ainda não éramos conhecidos, torceu um bocado o nariz. Mas no outro dia, ouviu-nos cantar “à alentejana”, seis ou sete modas, veio ter connosco a pedir para cantarmos mais. Convidou-nos para participar no próximo disco.
Existe mesmo uma pop alentejana?
Além de nós, há o Paulo Ribeiro, o fadista António Zambujo, o Francisco Sobral, fizeram os dois parte do musical “Amália”, todos de Beja, todos da mesma geração. Não sei se será coincidência. É como se estivesse algo a cozinhar e de repente se decidisse deixar de ser politicamente correto.