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Vários (Brigada Victor Jara, La Bottine Souriante) – “A 19ª Edição Abre Hoje Na Quinta Da Atalaia – Militantes Da Folia”

cultura >> sexta-feira, 01.09.1995


CULTURA | FESTA DO “AVANTE!”

A 19ª Edição Abre Hoje Na Quinta Da Atalaia
Militantes Da Folia


“Danças e Folias”, o novo álbum da Brigada Victor Jara, é apresentado esta noite ao vivo no espectáculo de abertura da XIX edição da Festa do “Avanat!”. É o regresso em força da banda coimbrã que há 20 anos cantava o trovador chileno Victor Jara e hoje surge como uma das bandas de música de raiz tradicional portuguesa com mais pergaminhos.



Depois de “Monte Formoso”, editado em 1989, e da colectânea “15 Anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa”, “Danças e Folias” traz finalmente a Brigada de novo para a ribalta, com um lote de 11 novos temas inspirados no nosso folclore, fruto de recolhas efectuadas por Michel Giacometti. Margot Dias, Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, António Maria Moutinho e Aurélio Malva.
Com este último elemento do grupo, o PÚBLICO falou a propósito do disco e do concerto agendadopara hoje.
PÚBLICO – A apresentação desta noite tem características especiais?
AURÉLIO MALVA – Vai ter um alinhamento especial, com incidência no novo trabalho, ao qual acrescentámos três temas antigos. Por outro lado, vai haver algumas coreografias, uma vez que o disco incide realmente sobre danças: uma entrada de “caretos” [bailarinos mascarados] de Trás-Os-Montes, uma coreografia sobre o tema da mazurca e outra, uma dança, sobre a “Cana Verde”, numa linha mais tradicional, com a colaboração do GEFAC, Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra.
P. – Estão previstos convidados?
R. – Sim, todos os que participaram no disco. André Sousa Machado, na bateria, António Pinto [colaborou nos últimos anos com Fausto], na guitarra, José Medeiros [trabalhos na área da televisão e do vídeo, na RTP dos Açores, tendo produzido a série “Xailes Negros”, gravou ainda, a solo, o álbum “Ala Bote”], voz, Jorge Reis, no saxofone, Pedro Jóia, que vai fazer um solo de guitarra andaluza na “Moda da zamburra”, Tomás Pimentel, no trompete, e uma rapariga, muito pouco conhecida mas que canta divinamente, Margarida Miranda. Tem uma formação mais clássica, ligada à música sacra, e uma voz muito trabalhada.
P. – Alguns desses nomes, como André Sousa Machado, Jorge Reis e Tomás Pimentel, vêm do jazz…
R. – São nossos amigos. E gostam de música de raiz tradicional. Penso até que os músicos de jazz em geral, mesmo a nível internacional, de alguma maneira procuram raízes étnicas, até como forma de análise da música modal ou das harmonias. Nós procuramos percorrer o caminho inverso, não nos fecharmos nem cristalizarmos na mera reprodução do tradicional.
P. – A que se deve um intervalo tão longo entre este novo disco e o anterior, “Monte Formoso”?
R. – É complicado. É feio dizer isto, mas talvez tenha havido alguma preguiça… Por outro lado, o processo de criação no grupo passa de cada vez por um ou outro músico particular que avança com propostas, soluções ou arranjos. No caso de 2Danças e Folias”, a maior parte dos arranjos passaram por mim e pelo Ricardo Dias. O que significa que, de certa forma, tenho que ser eu a penalizar-me por não ter acelerado um pouco mais as coisas…
P. – Até agora tem valido a pena esperar, com o pormenor de todos os discos da banda serem bastante diferentes uns dos outros…
R. – Tentamos apresentar-nos como um grupo homogéneo, ao nível do produto final, do que aparece em cima do palco ou no disco, mas essa homogeneidade é difícil de conseguir. A Brigada começou por ser um grupo muito ligado à recolha e à sua reprodução, mas hoje, e de há uns anos a esta parte, quer ir avançando mais e mais. É evidente que há várias linguagens musicais no seio deste grupo. Chegarmos a uma estética final coerente não é fácil.
P. – A Brigada tem tocado ao vivo com assiduidade nos últimos tempos?
R. – Temos feito bastantes espectáculos e continuamos a fazê-los, quer neste jardim à beira-mar plantado, quer lá fora. O ano passado, por exemplo, estivemos em Macau. E na Bélgica, em Bruxelas, ombreando com bandas de alto gabarito, inglesas e irlandesas. Tem-nos é faltado uma gestão de carreira. Agora já temos alguém para cuidar deste aspecto, o Soares Neves, da Vachier e associados. Vamos lá ver como é que a coisa vai funcionar. Há ideias curiosas no sentido de mediatizar mais aquilo que fazemos.
P. – Volvidos 20 anos de carreira, não existe um desfasamento entre a designação do grupo e a sua estética musical actual?
R. – Um nome demora muito tempo a construir. Temos 20 anos e recomeçarmos tudo de novo, pelo menos ao nível da designação, seria um perfeito suicídio. Mesmo assim, o nome Brigada continua a fazer sentido. É claro que a questão do Victor Jara, podemos talvez, enfim, pô-la um bocado em segundo plano. Não porque tenhamos reservas em relação a ele – a Brigada, quando surgiu, em 1975, começou por cantar música da América Latina, fundamentalmente do Chile. De resto, os nossos cartazes, destacam “A Brigada”, o nome Victor Jara aparece já relegado para segundo plano. Continuamos a assumir o nome de Brigada porque continuamos a ser, de certa forma, militantes. Não a nível politiqueiro, mas de uma militância cultural. Choca-nos bastante que a nossa música, a música portuguesa, verdadeiramente popular, que se revê nas raízes do que somos, passe horas e Às vezes até dias sem ser ouvida na rádio. A Brigada rema contra essa maré.

(Fernando Magalhães com Jorge Dias)
O Humor Do Quebeque Com La Bottine Souriante
Uma Bota, Crocodilos, “Blues” E Um Pé De “Ceilidh”



LA BOTTINE Souriante, o humor e a diferença a música do Quebeque, vão aterrar na Quinta da Atalaia, vindos do Canadá, para mais uma edição, a 19ª da Festa do “Avante!”. Directamente de Montreal, a “Bota Sorridente” apresenta (no palco 25 de Abril, no sábado, pelas 20h00) a sua mestiçagem de sons que sintetizam as tradições francesa, inglesa, irlandesa e escocesa, chegadas ao novo continente no século XVII. Ou seja, música de raiz celta, filtrada pela bonomia e o espírito de aventura dos colonos para quem o respeito pelos antepassados não obsta a mil e uma tropelias e transgressões. Algo que se nota sobretudo no seu álbum mais recente, “La mistrine”, uma orgia de jogos bem humorados com a língua francesa, os ritmos de “reel” e incursões no rock, no jazz e até num “Rap a Ti-pé-tang” que contrastam com a maior seriedade dos álbuns anteriores “Chic & Swell” e “La Traversée de l’Atlantique”, ambos com o selo Green Linnet e distribuição nacional pela MC – Mundo da Canção.
Do Sul, oriundos dos pântanos (“bayou”) da Louisiana, chegam os French Alligators, um quarteto de música “cajun”, essa mistura bizarra de influências europeias, africanas e caraibenhas com os “blues” nativos (actuam também no sábado, mas no auditório 1º de Maio, pelas 21h00). Os “blues” que marcarão presença em força nesta Festa através dos Chicago Rhythm & Blues Kings, uma superbanda que trará consigo convidados de renome como A.C. Reed, Cash McCall, Sidney James Wingfield e Katherine Davis, e que são apresentados como fazendo “uma fusão entre os ‘blues’ eléctricos de Chicago, o impacte dos metais da ‘soul’ de Memphis e o enérgico balanço do ‘rhythm ‘n’ blues” (sábado, palco 25 de Abril, pelas 23h00).
Os White Horse Ceilidh Band representam, por seu lado, a Irlanda, este ano menos sofisticada, mas com uma reserva adicional de danças “ceilidh” em duas actuações (sábado e no domingo, no auditório 1º de Maio, respectivamente pelas 19h30 e 15h00). Fapy Lafertin, guitarrista francês de origem cigana (“manouche”), fará com os Le Jazz uma homenagem a uma das lendas da guitarra, Django Reinhardt, também ele de ascendência cigana (sábado, auditório 1º de Maio, pelas 22h00).
Numerosa e diversificada vai ser a presença portuguesa, este ano com a inclusão de algumas surpresas, com especial destaque para Pedro Abrunhosa e os Bandemónio, que irão fechar a programação do palco maior da Festa (domingo, palco 25 de Abril, pelas 20h45), e Fausto, que regressa às lides comunistas após longos anos de ausência com a apresentação do seu mais recente álbum, “Crónicas da Terra Ardente” (sábado, também no palco 25 de Abril, pelas 21h30).
Em alta, a Brigada Victor Jara vem estrear à Atalaia o seu novo álbum “Danças e Folias” (sexta, no palco 25 de Abril, pelas 22h00) – ver texto principal), o mesmo acontecendo com os angolanos Kussundolola (que, na sexta, irão abrir o palco 25 de Abril, pelas 21h00) com os sons reggae de “Tá-se Bem”. De resto, este ano, e no campo dos nomes nacionais, a Festa é mais diversificada que nunca em termos de estilos, com a presença de General D (sexta, palco 25 de Abril, pelas 23h30) em antestreia do seu primeiro álbum com os Karapinhas; o novo fado apresentado por Mísia (sexta, auditório 1º Maio, 23h00); o jazz apresentado pelo quarteto de João Paulo (no mesmo dia e local, às 22h00) e o Quinteto de Carlos Barreto (sábado, também no auditório 1º Maio, pelas 23h00); o heavy metal dos Ramp (sábado, no palco 25 de Abril, pelas 15h30), o rock de Xana (mesmo dia, mesmo local, pelas 16h30); o folk-rock dos Quinta do Bill (idem, pelas 17h45); mais música de raiz tradicional com a Quadrilha (idem, pelas 19h00), e a música de vanguarda e o jazz com os Telectu que se apresentam com a colaboração do “terrorista” da “downtown” novaiorquina Elliott Sharp (sábado, auditório 1º Maio, 18h00) e ainda Vítor Rua, que mostrará o seu projecto paralelo Vidya Ensemble (domingo, no auditório 1º de Maio, às 16h00).
Jorge Palma apresentará o espectáculo “Na Terra dos Sonhos”, acompanhado por uma grande banda e com uma retrospectiva das melhores canções da sua carreira (domingo, no palco 25 de Abril, pelas 19h30), os Tabanka Djazz introduzirão os presentes aos ritmos de África (mesmo dia, mesmo palco, pelas 15h00), enquanto o novel grupo Navegante irá apresentar canções de tradição portuguesa com homenagens a Zeca Afonso e Fernando Pessoa (domingo, palco 25 de Abril, 16h00). De destacar ainda uma “Noite de Fado Clássico”, com Beatriz da Conceição, António Rocha, Camané, Aldina Duarte, Maria da Nazaré e um grupo de guitarra e violas sob a direcção do professor José Fontes Rocha (domingo, auditório 1º Maio, pelas 20h30), e uma apresentação da Orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida pelo maestro Miguel Graça Moura (sábado, no mesmo local, pelas 16h00).

Jorge Quintela + Pedro Duarte + Armindo Neves + Luís Filipe – “Os Músicos Que Toda A Gente Ouve Mas Ninguém Vê” (dossier | músicos de sessão)

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995


OS MÚSICOS QUE TODA A GENTE OUVE MAS NINGUÉM VÊ
(Fernando Magalhães e Marta Duarte)

JORGE QUINTELA
Director Musical da C.C.A. e pianista do programa “Zona +” (Canal 1)
“Antes os bastidores do que dar a cara”



Desempenha as funções de director musical dos programas da CCA, Carlos Cruz Audiovisual. Organiza os genéricos e dirige as bandas. A sua intervenção no Zona Mais, o “talk-show” de Carlos Cruz, limita-se a ser a de teclista do grupo. Para Jorge Quintela, esta acumulação de responsabilidades não o impede de, no actual programa, ter inteira liberdade para “escolher os temas que mais prazer lhe dão tocar”. Isto, nos chamados “temas de exibição”, porque no que respeita ao acompanhamento dos artistas convidados obviamente que o “arranjo deverá ter minimamente a ver com eles”.
Antes do Zona Mais, Jorge Quintela trabalhou dez anos como demonstrador da Valentim de Carvalho, período durante o quela “começou a entrar na produção discográfica” e a “fazer arranjos para discos”, de Carlos Paião a Lara Li. Entretanto, conheceu Carlos do Cruz, com quem colabora há já bastante tempo. O tempo, na actividade a que se dedica, é vital. “Ter três dias para preparar quatro temas” nãoé fácil, embora no caso de Zona Mais essa dificuldade recaia nos ombros de Pedro Moreira, responsável pelos arranjos da banda. “Na parte da composição, torna-se mais complicado, tem que se imaginar o programa, a imagem que ele vai ter, qual a música que deverá corresponder ao genérico, tudo muitas vezes feito em cima da hora. Com um certo “forcing”, comigo tem funcionado. Há menos tempo para termos dúvidas.” Jorge Quintela, “por uma questão de feitio”, prefere trabalhar nos bastidores a “estar à frente de uma situação e dar a cara”. Por esta razão nunca participou em “grandes formações musicais” porque sempre sentiu mais prazer em “trabalhar em estúdio”. O que não o impede de se sentir “realizado”: “Dou uma parte de mim, em termos da linguagem musical que estou a põr nos programas.”
Admite que aquilo que faz “é compensatório”, em termos materiais, essencialmente “porque dá uma certa estabilidade económica de saber que pelo menos durante ‘x’ semanas o trabalho está garantido”. Também nunca teve vontade de liderar o seu próprio grupo, embora um dos seus objectivos seja a gravação de um disco, “um projecto de música instrumental, de fusão, que ainda não foi editado porque infelizmente neste país é considerada música de elevador”. Mas como considera gratificante a sua função no Zona Mais, onde “o Carlos Cruz tem feito questão de promover bastante a música e os músicos da banda”, o adiamento do disco também não constitui grande problema. É ate´”perfeitamente admissível” que o grupo, na exibição a solo que lhe compete, “se sobreponha ao artista principal”. Quando se trata de acompanhamento, a história muda e as fronteiras apertam-se. Deu-lhe particular gozo tocar com o Rui Veloso mas também com um grupo de concertinas tradicionais. Uma das suas maiores ambições é compor música para filmes, o que em Portugal considera ser bastante difícil devido “aos orçamentos, tão baixos, que não dão para fazer nada de especial”. Se pudesse, Jorge Quintela adoraria trabalhar com Steven Spielberg.
(Fernando Magalhães)

PEDRO DUARTE
Director Musical e pianista do programa “Parabéns” (Canal 1)
“Se não houver adrenalina isto não serve de nada!”



Aos 29 anos e com o sexto ano do Conservatório, Pedro Duarte tem prazer no que faz. É director musical do concurso de Herman José, “Parabéns”, faz os arranjos e é pianista do grupo. Não se considera um “artista”, no sentido de “alguém que tem que criar uma determinada imagem, como acontece nos grupos de rock”, mas sim “uma pessoa de fundo, que trabalha segundo princípios”, em que acredita e sobre os quais teoriza: “Têm a ver com a democratização das artes. Acredito que todas as pessoas, na posse das suas faculdades normais, podem compor. Toda a gente é capaz de pintar, de fazer teatro, de dançar”. “A questão”, diz, “é que a nossa cultura e a nossa sociedade tem frustrado grandes talentos logo à partida. Acredito numa sociedade em que as pessoas têm o seu trabalho e em paralelo, como ‘hobby’, a criação de qualquer coisa”. Pedro Duarte afirma ter mesmo um projecto para fazer funcionar as coisas nesse sentido, e “pôr as pessoas a mexer”, baseado na aprendizagem através do computador.
Antes dos “Parabéns”, Pedro Duarte já tinha trabalhado em programas como “Regresso ao Passado”, de Júlio Isidro, “Joaquim Letria Apresenta” e “Os Olhos da Lua”, de Raul Solnado, num grupo de cuja formação fazia então parte um contrabaixista chamado Pedro Abrunhosa. Considera que o seu papel no actual grupo consiste em “fazer música altamente funcional”, contando para tal com eventuais sugestões do próprio Herman José. O músico distingue o trabalho de acompanhamento dos artistas convidados do programa, dos chamados separadores, “aquels pequenos temas de 10, 12 segundos”, e dos “tapetes”, como chama à música de fundo. “Gostaria um dia de juntar uma série deles e fazer um álbum. Postos em voz alta são capazes de mostrar muito mais do que parecem ter”. Pedro Duarte não considera frustrante o facto de a música estar em segundo plano e cita a propósito John Williams quando diz que “a melhor música para cinema será aquela em que as pessoas nem sequer notam que existe”. No fundo, tudo “depende da ideia que se tem da música”, explica, “é como que o sangue do programa”. Nem tudo tem que estar em primeiro plano para ser importante”. Vai mais longe quando afirma que “aquilo que normalmente não aparece é mais importante doq eu aquilo que aparece”. Pormenoriza: “Se eu tenho um tema que está a servir de ‘tapete’, que gera um determinado ritmo e ambiente, carregado de energia, isso, mesmo inconscientemente, ajuda o presentador e a envolver as pessoas emocionalmente”. Pedro Duarte compara estes “tapetes” de som com “os ambientes mágicos religiosos, carregados de música com um sentido muito profundo, como o som de um órgão de catedral, em que as pessoas por vezes nem percebem nada do que se está a passar, mas onde há uma profundidade espiritual muito grande”. Música de transporte? “Eu gosto de lhe chamar o sangue deste corpo inteiro que é o programa”. Uma linguagem litúrgica que, em termos mais prosaicos, no “Parabéns”, atinge um máximo de intensidade no “Boião da Cultura” e durante a entrevista. “Temos uim bocado a tendência de pensar a arte pela arte, como algo abstracto. Eu sou um bocado romano a pensar. Prefiro pensar nas funções. Nos filmes, por exemplo, temos os chamados efeitos sonoros, que são tão ou mais importantes que a própria música”. A pressão do tempo não assusta este admirador de Henry Mancini, Jerry Goldsmith e John Williams,a ntes pelo contrário. “Assim é que tem piada”, diz, “se não houver adrenalina isto não serve para nada. Podem entregar-me as coisas três meses antes que eu não pego nelas. Quando chegar ao limite, aí assim agarro-me e começo a escrever. Sou mais espontâneo desta maneira”.
(Fernando Magalhães)

ARMINDO NEVES
Guitarrista e maestro do programa “Não Se Esqueça da Escova de Dentes” (SIC)
“Por que é que não vão ganhar o dinheironho para outro lado?”



“Um dos pontos que estão errados no profissionalismo musical em Portugal é a ideia de que tocar na televisão é apenas mais uma forma de ganhar dinheiro.” Armindo Neves, guitarrista e responsável pela banda de Não Se Esqueça Da Escova De Dentes, considera que por trás da atitude interesseira se esconde uma certa cobardia. “Há os que dizem que se recusam a tocar na televisão e essa recusa serve para esconder certas deficiências técnicas… A mediocridadezinha impera no meio musical.” Armindo Neves vê no trabalho musical para televisão a dignidade que todas as profissões devem ter. “Em programas como o Parabéns e o Zona Mais, encontram-se excelentes músicos, bons leitores (de pautas, entenda-se), bem disciplinados, com bom som. Eles tocam a sério.” Para Armindo Neves, que entre outras coisas tocou e produziu discos como “Coisas do Arco da Velha”, da Banda Do Casaco, perante a música não pode ter-se a atitude de “vir aqui ganhar uns dinheiros”. É mais honesto assumir que não se gosta de televisão, ou de um determinado programa, e recusar-se a ir lá tocar. Afinal, ele próprio admite que trabalhou em muitos programas que lhe deram pouco prazer. Sem mais desculpas esfarrapadas. Não gosta é de quem se arma em “chico-esperto”, desprezando por completo o trabalho da música em televisão, apesar de, em situações de aperto, ser a ele que recorrem. “Por que é que não vão fazer o dinheirinho para outro lado?” Provavelmente, porque tocar na televisão é, muitas vezes, a única saída profissional, e de sobrevivência, para músicos vindos das mais diferentes áreas e formações sonoras. “Na vida não é tudo uma questão de ganhar mais. Há que contar com o gozo”, corta Armindo Neves. E é o gozo que retirou de trabalhar em programas como o polémico Fisga, o Festival da Canção e o último de Joaquim Letria que o faz estar em Não Se Esqueça da Escova de Dentes. Esse gozo é visível no entusiasmo com que descreve as suas funções no programa da SIC: “Neste momento estou com duas noites sem dormir para conseguir transcrever dois arranjos do Frank Sinatra com a Orquestra do Count Basie para serem tocados hoje aqui, a acompanhar o Carlos do Carmo. E já cá tive o Janita Salomé, a Lena d’Água, o Luís Represas. São desafios musicais. Nós somos forçados a ser extremamente flexíveis para ter uma atitude perante a música de compreensão do reportório do artista. Tem que haver responsabilidade da parte dos músicos, para aproximar a sua sonoridade, para conhecer o artista.” Se fosse tudo uma questão de preferências, é óbvio que lhe seria mais gratificante tocar, compor e fazer arranjos para um programa estritamente musical. “A guerra das televisões e o controlo sobre a escolha que se pode fazer da programação levaram as direcções dos vários canais a concluir que os programas musicais não intyeressam muito. A televisão vive das telenovelas, do futebol e dos concursos.” Portanto, é só nos concursos que pode haver espaço para a música. Há é que saber aproveitar a oportunidade. Das audiências, sobretudo, que estão sempre à espera de coisas cada vez mais fantásticas. “E isto é do caneco. Acima de tudo temos que aproveitar o meio audiovisual para fazer passar a música. Este programa, e eu já fiz muitos, é de longe o que me dá mais gozo.”
Armindo Neves não teme que a voracidade da televisão, que precisa de músicos, bons e maus, conforme os orçamentos, acabe por aniquilar talentos e carreiras. Não acredita na exclusividade. “Qualquer um de nós é livre para ter o seu projecto lá fora. Os músicos que aqui estão, à excepção dos metais, que mudam consoante as emissões, trabalham todos comigo no grupo do Luís Represas. E não é por causa disso que o grupo e o Luís ficam para segundo plano.”
(Marta Duarte)

LUÍS FILIPE
Director musical do programa “Eu Tenho Dois Amores” (Canal 1)
“Um problema de dor de corno”



Luís Filipa já fez vários programas para a RTP, mas a maior parte do seu historial na música expande-se pela produção discográfica da chamada música ligeira. Ao contratá-lo, frisa Luís Filipe, a RTP deixou ao seu critério a escolha de elementos para a banda e de artistas convidados, de que resultam três momentos musicais distintos: as canções de Marco Paulo, para as quais faz os arranjos; as dos convidados, igualmente com produção do director artístico, e a prestação de Maria Rueff, “um momento especial, meio cómico”, em que lhe “dá um prazer especial avacalhar um bocado, com letras muito mordazes e bem feitas da Rosa Lobato Faria”.
Ao contrário do que se passa nos outros programas visitados, em Eu Tenho Dois Amores, a música é preproduzida. Ou, trocando por miúdos, os membros da banda e os convidados actuam com “palyback”. “O som que se consegue fazer em estúdio [de som] é impossível de reproduzir num estúdio de televisão, a não ser que se grave o programa a partir de um estúdio de som”, justifica Luís Filipe, argumentando que o que interessa é dar qualidade sonora ao telespectador. Assim, nem todos os membros da banda que vemos no ecrã a tocar o estão a fazer. Alguns são os que em estúdio gravaram os temas, mas os outros limitam-se a ser figurantes. No entanto, segundo Luís Filipe, “mais vale estar a gravar um ou dois programas de televisão por semana do que a tocar uma noite inteira num bar, onde se ganha miseravelmente: os donos dos bares exploram os músicos”. Se em termos financeiros é compensador, em termos de experiência, tocar na televisão é também um passo importante. Através dos programas para que gravam, os músicos vão sabendo adaptar-se a diversos estilos e sonoridades, ficando aptos para tocar em qualquer ocasião. “A televisão é o meio de comunicação do século XX e XXI, é natural que os músicos também a ele acedam. Acho que dizer que é desprestigiante actuar na televisão é um problema do crónico atraso de Portugal”, diz Luís Filipe quando interrogado sobre a dignidade de um trabalho feito para o televisor. “Sei que os músicos na maioria, nem sequer ficam conhecidos – o nome passa no genérico, mas ninguém o lê. As pessoas apenas os conhecem visualmente, e isso fá-los serem identificados com outros projectos exteriores ao programa.”
Mas esse anonimato que a televisão impõe também concorre para a recusa de muitos profissionais de actuarem nos seus programas, ou não será? Luís Filipe considera que não, e é categórico na resposta: “Estou-me marimbando para os músicos que acham mal tocar na televisão. Penso que é um problema de como dessas pessoas, que se calhar nem sabem tocar como deve ser. Provavelmente são músicos específicos de uma determinada área, têm três meses de aulas no Hot Clube e julgam que já são músicos de jazz e não são nada.
(Marta Duarte).

Deep Forest – “Deep Forest Lançam ‘Boheme’ Com A Voz De Márta Sebestyen – ‘É Estúpido Pensar Que Se Pode Preservar Uma Cultura Bloqueando-a'” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995


Deep Forest Lançam “Boheme” Com A Voz De Márta Sebestyen
“É Estúpido Pensar Que Se Pode Preservar Uma Cultura Bloqueando-a”



Com “Boheme”, o duo francês Deep Forest volta a apostar numa fórmula que está a render dividendos: vozes étnicas “vestidas” e arranjadas por computador. Michel Sanchez e Eric Mouquet traziam a Índia na mochila quando descobriram a voz da cantora húngara Márta Sebestyen. Eric Mouquet, em entrevista ao PÚBLICO, explicou, entre outas coisas, que a estreia ao vivo do grupo terá cantores reais ao lado de cantores virtuais.
PÚBLICO – Como é que descobriram a música dos Balcãs e, em particular, de Márta Sebestyen?
ERIC MOUQUET – A ideia inicial para este segundo disco era usarmos vozes da Índia. Aconteceu que entretanto descobrimos a voz de Márta Sebestyen numa colectânea de música da Transilvânia. Uma das músicas que ela canta neste disco [“Istenem, istenem”] tornar-se-ia “Marta’s song”. A sensação foi incrível, semelhante à que tivemos quando ouvimos pelaprimeira vez “Sweet Lullaby”, algo que nos deu arrepios. Decidimos então partir para escutar um pouco melhor as músicas do Leste. Estive há alguns anos na Checoslováquia e Michel já tinha trabalhado num barco que fazia a travessia do Mediterrâneo, com passagem pela Jugoslávia. Mas foi Márta que nos fez optar por fazer um disco onde a maior parte das vozes vem do Leste.
P. – No caso de Márta, no tema “Bulgarian melody”, foi a primeira vez que trabalharam com uma voz em tempo real?
R. – No início dos Deep Forest, em 1991, não tínhamos possibilidade de fazer nós próprios as gravações. Não tínhamos viajado o suficiente para recolher música para um álbum completo. Fomos buscar o material de que necessitávamos às gravações dos musicólogos, capazes de andar em viagem uns trinta anos, em exploração, reunindo documentos sonoros excepcionais. Se fizéssemos o mesmo, isso significaria que teríamos igualmente de andar pelo menos cinco ou seis anos em viagem através do mundo. Com o segundo álbum começámos a viajar. Fomos ao Candá gravar vozes “innui” e à Austrália recolher sons dos aborígenes. Também temos alguns sons da América do Sul ainda por utilizar.
P. – Hoje toda a gente fala de world music, é quase uma moda…
R. – Não estou certo de que se trate apenas de uma moda, embora seja muito utilizada pela música “avant gard” ou pela música para publicidade. Mas além disso creio que há uma necessidade real do público e dos músicos de tentar escutar e tocar coisas diferentes. O que é extraordinário é que não são só os europeus que estão a recuperar os cânticos tradicionais e a fazer música com eles, mas também os músicos tradicionais que sentem o desejo de fazer música com instrumentos e culturas diferentes. Não há um sentido único.
P. – No caso dos Deep Forest não será um pouco a exploração de uma fórmula, mais do que uma estética?
R. – Neste disco procurámos uma evolução. O primeiro disco era muito rítmico, com cânticos africanos utilizados como sequenciadores de ritmo. O segundo álbum é mais uma construção de melodias, de canções. Os ambientes e os instrumentos são bastante diferentes. Usámos acordeão, piano “cymbalon”…
P. – Mas um dos objectivos do grupo continua a ser fazer música de dança?
R. – Não forçosamente. Se quiséssemos fazer música de dança, faríamos de outra maneira. O problema que os DJ das discotecas têm com a nossa música é ser demasiado lenta. Para poderem passar os Deep Forest têm de fazer remisturas em tempos mais acelerados. Mas no disco não pretendemos fazer música de dança, house ou ambiental… Há quem mencione influências da jungle music oriunda de Inglaterra, feita em 140 b. p. m. [batidas por minuto], por termos uma canção no disco com a mesma batida. As vozes decerto perderiam a sua emoção se fossem forçadas ou encaixadas a martelo num estilo determinado.
P. – Não existe o perigo de essas mesmas vozes se vulgarizarem?
R. – É uma música que não passa muito na rádio mas vende bastantes discos, porque o público gosta. Os programadores dizem que não tem um formato para a rádio. O perigo da normalização vem de outro lado, do rock, por exemplo.
P. – Há algum tipo de mensagem política na vossa música, uma vez que ela junta e altera sons de culturas e sistemas sociais diversos?
R. – É verdade que a mensagem política, mesmo sem querer fazer política, está implícita, quando se vive numa sociedade como a nossa. O que aconteceu recentemente em França, nas últimas eleições, com a subida da Frente Nacional, dos sentimenso nacionalistas e fascistas – de resto, à semelhança do que se passa um pouco por toda a Europa -, é exactamente o contrário do que tentamos fazer. Ouvimos Le Pen dizer: “A França para os franceses” e “A África para os africanos” ou “Portugal para os portugueses”, mas a realidade actual não é essa. A realidade é que tudo se mistura. A História de França é uma sucessão de invasões, guerras, tudo o que lhe conferiu a sua identidade e a sua riqueza. É estúpido pensar que se pode preservar uma cultura bloqueando-a, fechando-a ao exterior. Através da nossa música, procuramos demonstrar que não existem fronteiras, utilizando ingredientes do mundo inteiro.
P. – Apesar dessas misturas, não acha um pouco bizarro “Marta’s song” ter sido incluída na banda sonora de um filme como “Prêt à Porter”?
R. – Quando soubemos que Robert Altman procurava uma música dos Deep Forest para o seu filme – o que nos lisonjeou bastante, porque é um excelente realizador -, marcámos um encontro em Nova Iorque para lhe mostrar uma maqueta com o som do novo álbum. Mal ouviu “Marta’s song” exclamou que era aquela mesmo que queria. Dissemos-lhe que era um pouco delicado, até porque iria ser o novo single, mas ele insistiu tanto que não pudemos recusar.
P. – Pode adiantar pormenores sobre a estreia ao vivo do grupo?
R. – Optámos por trabalhar com dois criadores de Montreal que adoptaram um sistema que permite usar imagens virtuais em palco, criar personagens virtuais, com hologramas. Esses hologramas serão activados pela música nos teclados, o que significa poder improvisar ao mesmo tempo com os sons e com as imagens. Numa primeira fase, como a tecnologia é muitíssimo cara, faremos um espectáculo de apenas 20 minutos, onde iremos misturar cantores reais, Márta Sebestyen, por exemplo, com cantores virtuais. O “show” será filmado em cassete vídeo e passado para a Internet, o que permitirá a qualquer pessoa ligada à rede assistir em casa. Estamos à espera de algum patrocinador interessado em financiar um espectáculo maior, de duas horas.