Arquivo da Categoria: em Portugal

Rolling Stones – “Rolling Stones Diabólicos Deitam Fogo Aos Clássicos Em Alvalade – Retro Activos”

cultura >> quarta-feira, 26.07.1995


Rolling Stones Diabólicos Deitam Fogo Aos Clássicos Em Alvalade
Retro Activos


Os Stones ainda mexem. Como cobras. O espectáculo “Voodoo Lounge” que apresentaram em Lisboa combina canções antigas, energia em doses transbordantes e cheiro a enxofre. Significa que os Rolling Stones foram “retro” e mais activos do que nunca. Cinquenta mil pessoas receberam em Alvalade o que estavam à espera: “Satisfaction”.



O estádio de Alvalade, em Lisboa, encheu na noite de segunda-feira para cumprir o segundo ritual português de adoração aos Rolling Stones. Mick Jagger e companhia corresponderam com a celebração de outro ritual, este pagão, inspirado no fogo e no rock ‘n’ rol remetido às suas origens e premissas de base: os “blues”, o sexo, a dor e a revolta. Claro que aos cinquenta anos de idade tudo se reduz à encenação, com o espectáculo a sobrepor-se às convicções e os quatro Stones a funcionarem como actores de si próprios e de um passado com o qual agora procuram estabelecer contacto a todo o custo.
Mas funcionou. Durante duas horas e um quarto Jagger, Richards, Watts e Wood conseguiram oferecer a ilusão de que ainda acreditam. Melhor ainda, que têm força para continuar a acreditar.
O mesmo não aconteceu com os Black Crowes, que durante a hora de aquecimento que lhes coube, deram a ideia de já estarem mortos há muito.
O seu “hard rock” fabricado sobre intermináveis e massacrantes solos de guitarra constituiu uma barragem decibélica que em vez de animar cortou a excitação que pairava no ar. Foram chatos. Foram Inúteis. Foram incomodativos. Ninguém lhes ligou. Quando puseram, por fim, termo à chinfrineira, nas bancadas suspirou-se de alívio.
Quinze minutos antes das 11h00, Mick Jagger irrompe sobre o palco e é a primeira descarga de adrenalina. Os seus movimentos reptilíneos adaptam-se na perfeição à temática do concerto. Como uma serpente, o avô do rock, hipnotizou e segregou veneno. “Fade away” inaugura, por entre um mar de fogueiras, uma sequência de canções que no final registaria um total de vinte e três.
Em termos visuais, depois da cobra de metal que se erguia de um dos lados do palco, já ter cuspido um jacto de chamas, o primeiro grande momento acontece durante “Sparks will fly”, “trompe lóeil” luminotécnico em que as luzes de palco se prolongam pelo espaço virtual criado no gigantesco ecrã (o termo técnico é “jumbotron”) instalado atrás dos músicos. À explosão de luzes segue-se de imediato a explosão de meia centena de milhar de gargantas que entoam em coro cada verso de (I can’t get no) Satisfaction”, o “single” de 1965. Ilusão ou não, foi impossível não sentir um arrepio ao ver Jagger vociferar e correr como um possesso, como se, passados 30 anos, ainda conservasse a mesma insatisfação e a mesma raiva. Estava instalada a cumplicidade. A partir daí Jagger estabeleceu várias vezes com o público aquele tipo de comunicação só possível num concerto de música rock, a qual consiste na emissão e recepção de urros entre o artista e a assistência. O tribalismo na sua versão mais mediática. Chamam-lhe “show business”.
“Beat of burden” é acompanhado, no ecrã, por imagens animadas subtilmente escabrosas, e “Angie” faz levantar os isqueiros. Nas bancadas e na relva vêem-se pares enlaçados. Uns dançam, outros aproveitam para ensaiar outro tipo de encaixes anatómicos, como forma de luta contra o frio da noite. Mas Jagger não lhes dá descanso e regressa em alta voltagem, com “Like a rolling stone”, de Dylan, harmónica na boca e uma sessão de pulos. Depois de “Ooh ooh the heartbreaker” tem início a parte erótica, com Lisa Fisher a assumir o protagonismo e os olhos da multidão em bico contra os primeiros-planos da senhora oferecidos pela câmara. 2Gimme Shelter”, “I go wild” e, sobretudo, “Miss you” pertencem-lhe. “O melhor da noite”, exclama alguém. Bobby Keys dispara num solo desenfreado no saxofone enquanto Ron Wood faz o seu número da corrida para finalmente Jagger exclamar em português: “Vocês são fantásticos!”. A multidão não se fez rogada e a apreciação de Lisa Fisher encontra uma nova forma de expressão: “Tira, tira, tira!”. “Honk tonk women” mantém os ânimos acesos com nova série de imagens projectadas no “jumbotron” – desta feita “bad girls” de várias épocas e feitios – algumas delas em poses pouco ortodoxas. Richards pontapeia o piano, pondo fim a um apropriado solo “honky tonk”.
É preciso põr água na fervura e, par tal, nada melhor que pôr Keith Richards a cantar. O que ele faz, conseguindo num ápice gelar a assistência com as interpretações paquidérmicas de “Happy” e “Slipping Away”. 2Está na altura de a gente se ir embora”, diz uma voz mais enfastiada. Não era caso para isso.
Das trevas surge entretanto um aglomerado de insufláveis de aspecto diabólico. O palco transforma-se num “Grand Guignol”, com várias personagens sinistras a balouçarem-se sobre os músicos que cantam “Sympathy for the devil”. Mick Jagger, – de óculos escuros e um chapéu como os de um velho alquimista dos sons de New Orleans e das artes “voodoo”, Dr. John – não esqueceu um velho amigo. “Old Mick” e “Old Nick”. Os dois, por vezes, confundem-se…
Até ao final é uma sucessão imparável de velhos êxitos: “Street fighting man”, demoníaco, entre a orgia das luzes, “Start me up”, acompanhado de nova explosão de fogo, “It’s only rock ‘n’ rol (but I like it)”, “Brown sugar”, e, no “encore” previsto, “Jumpin’ Jack flash”, em que Jagger leva ao extremo as suas proezas atléticas. Tudo termina como começou. Com fogo, já não das fogueiras do “bayou”, mas o dourado do fogo de artifício. Os répteis recolheram à toca.

The Rolling Stones – “Reeditada Discografia Americana Dos Stones Dos Anos 60 – Arco-Íris Desbotado”

cultura >> segunda-feira, 24.07.1995


Reeditada Discografia Americana Dos Stones Dos Anos 60
Arco-Íris Desbotado


HOJE à noite, os Stones regressam ao Estádio de Alvalade para mais um grandioso espectáculo geriátrico, perdão, mediático. A acompanhar esta nova prova de vitalidade dos avozinhos do rock, acabam de ser reeditados, pela Polygram, as versões “digitally remastered from original master recordings” de toda a discografia dos anos 60 do grupo. Bom, a chatice é que não se trata exactamente dos discos originais – edições inglesas com o selo Decca -, mas de reproduções das edições americanas que até 1967 se publicaram em paralelo do outro lado do Atlântico. E daí, não é a mesma coisa? Não é bem. Os álbuns americanos não respeitavam os alinhamentos originais e tinham o mau costume, muito americano, de acrescentarem aos discos, como quem não quer a coisa, alguns “hits” do grupo, sacrificando outros temas que foram e simplesmente deitados para o lixo.
Significa isto que os discos agora relançados com o chamariz de um som mais consentâneo com os pergaminhos daquela que foi considerada “a maior banda de rock ‘n’ roll do planeta”, constituem o que se pode chamar publicidade enganosa. Em local algum dos mesmos vem mencionado que se trata das edições americanas. Estão incluídos neste caso o disco de estreia dos Stones, de 1964, no original inglês sem qualquer título, conhecido simplesmente por “The Rolling Stones”, que na versão americana da London passou a chamar-se “England’s Newest Hitmakers” – The Roling Stones”, 2Out of Our Heads”, de 1965, “Aftermath”, de 1966, e “Between the Buttons”, de Janeiro de 1967. A partir de “Their Satanic Majesties Request”, também de 1967, as versões inglesa e americana passaram a ter alinhamentos coincidentes.
Temos então o disco de 1964 que aparece aumentado com “Not Fade Away”, enquanto “Out of our Heads”, de 1965, se viu “enriquecido” com “The last time” e o megahit “8I can’t get no) satisfaction”. “Aftermath” ganhou uma nova abertura, “Paint it black”, que não existe no original inglês, tendo desaparecido “Mother’s little helper”, “Out of time” e “Take it or leave it”. Quanto a “Between the Buttons”, arranjou-se “Let’s spend the night together” para abrir e deitou-se fora “Back street girl” e “Please go home”. Os alinhamentos diferem igualmente dos ingleses. Se não se compreende muto bem esta opção pelas edições “adulteradas” menos se compreende ainda que tenha sido deixado de fora o segundo álbum do grupo, de 1965, igualmente sem título na versão original inglesa e conhecido por “The Rolling Stones no. 2”.
Em resumo, o lote de reedições inclui, além da já citada reconversão do primeiro disco, “Out of our Heads” e “Between the Buttons”, ainda “Their Satanic Majesties Request”, “Beggar’s Banquet” (1968) e “Let it Bleed”, o último dos Stones dos anos 60, lançado em Novembro de 1969, tudo gravações de estúdio. Depois há as colectâneas destinadas mais a quem não gosta propriamente dos Rolling Stones mas sim das canções que andaram nos ouvidos ou nos “tops”: “12×5” (64, espécie de contrapartida do segundo álbum inglês de originais), “The Rolling Stones now!” (65), “December’s Children (and everybody’s)” (65), “Big Hits (High tide and Green Grass)” (66), “Flowers” (67, nunca editado em Inglaterra) e “Through the Past Darkly (Big hits, Vol.2)”.
Ainda mais recicladas são as colectâneas de colectâneas, caso dos compactos duplos “Hot Rocks 1964-1971” e “More Hot Rocks (Big Hits & Fazed Cookies2)” que misturam os temas das colectâneas “Big Hits” e “Through the Past Darkly”. Confusos? Considerem que é preciso rentabilizar o produto, baralhar de novo, impingir o mito às gotas, custe o que custar! Já nos estávamos a esquecer: também voltou a sair o disco ao vivo “Got Live if you Want” que não é mais do que o correspondente americano de “Have you Seen your Mother Live1”, de 1966. Por fim aí está o ajuntamento de “singles”, “The Singles Collection, The London Years”. Fica um sabor a frustração e a oportunidade perdida.
Os Stones não têm culpa. A música, façam o que lhe fizerem, há-de perdurar em desafio. A erguer a espada dos “rhythm ‘n’ blues” negros na voz de brancos contra a imagem “clean” projectada na mesma época pelos Beatles. A obrigar a pensar no “rock ‘n’ rol” como um acto de revolta e transgressão. Dizem que o Jagger assinou um contrato com o diabo. É bem possível que tal tenha acontecido. O que este lhe deu em troca estamos nós agora a levar com isso em cima. Cada pulo e correria pelo palco do vocalista da banda de cinquentenários é uma facada no coração, um dó de alma, uma traição à música e ao próprio passado do grupo.
Consta que os Stones estão a vender saúde e que no seu novo espectáculo ainda são capazes de não deixar cair as guitarras no chão. Folgamos em sabê-lo. Até os respeitamos. Mas se quiser mesmo saber o que o diabo lhes ofereceu na altura, realmente valioso, talvez seja preferível escutar esse manifesto do psicadelismo voltado do avesso que é “Their Satanical Majesties Request”, resposta maldita a “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (Porque será que existem tantas respostas a este disco?…) dos “fabulous four” de Liverpool, o compêndio de Pop malsã chamado “Between the Buttons” ou a obra-prima “Beggar’s Banquet”, onde os “blues” voltam com um brilho estranho, como se ainda não tivessem secado da inundação de LSD. Mas quem é que acredita que o demo se escondia entre os “hippies”, tinha rosto de mulher e as cores do arco-íris’”?

Michel Redolfi e Steve Shehan – “Redolfi Apresenta ‘Jungle Sofisticada Na Estufa Fria – Na Selva, Com Chanel” (concerto | reportagem)

cultura >> quinta-feira, 20.07.1995


Redolfi Apresenta “Jungle” Sofisticada Na Estufa Fria
Na Selva, Com Chanel


“Jungle” não obedeceu às leis da selva. A “performance” multimédia criada por Michel Redolfi não soube aproveitar a excelência do local, a Estufa Fria, nem conseguiu ultrapassar os lugares comuns da música “new age”. Steve Shehan foi o único que deu vida a uma selva demasiado civilizada.



“Ganda banhada!”. O desbafo, ouvido à saída do concerto de Michel Redolfi e Steve Shehan, terça à noite, na Estufa Fria, em Lisboa, incluído no programa do Festival de Música dos Capuchos, descreve sem dúvida um certo estado de espírito que no final do espectáculo grassava entre a assistência. Mas será um pouco injusto chamar-lhe isso, na medida em que em “Jungle”, a obra apresentada, ao contrário do que é costume acontecer com outros trabalhos do compositor Redolfi, nem sequer há uma relação directa com a água.
2Jungle” prometia ser um retrato musical e olfactivo da selva amazónica, integrado no ciclo “Carnets Brésiliens”, com base em gravações efectuadas na floresta virgem pelo compositor francês. Acabou por ser uma sessão sofisticada de música “new age”, relaxante, colorida e, sem as devidas cautelas, propícia à sonolência. Em palco, apenas um músico, Steve Shehan, rodeado de uma panóplia de instrumentos de percussão. Redolfi encontrava-se no meio da sala, ao comando da consola dos sons, das luzes e dos cheiros – o tal “húmus amazónico” que acabou por soçobrar às vagas de perfume Chanel, Christian Dior e Calvin Klein que emanavam das senhoras da assistência. O marselhês não tocou sintetizadores, nem Luc Martinez flautas, como o programa dava a entender. À excepção das percussões foi tudo pré-gravado.
Luz negra iluminava motivos pseudo-amazónicos (lianas, folhas, troncos,…) espalhados pelo palco enquanto num ecrã eram projectadas imagens da floresta virgem e pinturas “naif” de Hervé di Rosa. Um cenário bem montado, exótico q.b. mas que não chegou para disfarçar a futilidade da partitura. Depois, e como bem perguntava também alguém da assistência, não teria sido mais lógico e apropriado apresentar este espectáculo no ambiente, ali mesmo à mão, da estufa, entre a flora luxuriante, em vez das quatro paredes de cimento do auditório? Porque “Jungle” é música ambiental, pano de fundo para os sentidos, espaço acústico de mimetismos tropicais e, como tal, funcionaria na perfeição naquelas condições. Assim, para um auditório especado em frente aos acontecimentos, terá sido para muitos a tal “banhada”, acompanhada pelo abandono prematuro de um número razoável de caras enjoadas e por certo arrependidas de terem largado três notas de conto na bilheteira. “É como na Igreja Universal do Reino de Deus”, ironizava um dos mais inconformados, “acaba tudo por deixar lá o seu!”.
Steve Shehan, só com as suas peles, madeiras, metais, caixas ressonantes, campainhas e chocalhos de toda a espécie, tambores de infinitos apelos e reverberações, um gongo monstruoso e outros artefactos percussivos, conseguiu manter-se desperto e fazer despertar. Desacompanhado da vertente electrónica ou imerso nas malhas sintetizadas Shehan fez jus à sua reputação de alquimista das fusões universais. Percutiu extractos da selva, fez gemer sinos com um arco de violino, obrigou os tambores a assobiar, povoou o silêncio de sonhos e revelou vazios no eterno rumor da floresta. Materializou os animais imaginários que se escondem na floresta do inconsciente primevo dos humanos. A selva – poética – foi ele. Num instante de magia, o autor de “Arrows” concentrou o Cosmos inteiro no murmúrio estelar de uma “mbira”. Atrás de si, no ecrã, a imagem de um lago de águas planas, silenciadas, sobre as quais meditavam dois flamingos quase fábula. Zen. “Jungle” acabou aqui.
Quebrado o encanto, deu para deixar o pensamento voar para o que fazer com os restos da noite, entre olhadelas para o relógio e suspiros de inconformismo pelo dinheiro gasto. Terminada a função, a facção estóica (ou mais anestesiada) do público concedeu aos músicos um aplauso polido, por obrigação. As noites de Lisboa, por muito quentes que sejam, nunca são tropicais.