Arquivo da Categoria: Electrónica

Telectu – “Evil Metal”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 30.09.1992


TELECTU
Evil Metal
CD, Área Total



Desde os primeiros acordes da guitarra frippiana de Vítor Rua e os ambientes carregados de tensão criados por Jorge Lima Barreto nas suas “workstations”, é notório que, desta feita, os Telectu acertaram em cheio, conseguindo uma obra de síntese entre as diversas enunciações musicais que foram ordenando al longo dos anos. “Evil Metal” é, até à data, o melhor disco da banda – sem grandes conceitos a sustentá-lo e evidenciando a preocupação de apenas fazer música pela música. O resultado é uma obra imaginativa, dividida em doze peças numeradas, nas quais Rua e Barreto criam um híbrido musical possuidor de uma lógica própria e coerente. Desapareceram as concepções circulares do minimalismo, dando lugar a estruturas mais lineares que incorporam estilhaços e clonagens do jazz, da “new music” filiada na escola “brutalista” de David Fulton, David Linton ou Elliott Sharp, do rock sinfónico (o espectro dos King Crimson, omnipresente na guitarra de Rua) ou do ambientalismo étnico transfigurado por inflexões demoníacas, exemplificado no longo tema número nove – uma falsa praga de ácido e metais retorcidos, que faz jus ao título do álbum. Elliott Sharp, presente nos dois temas finais, acaba por passar despercebido. (8)

Popol Vuh – “Seligpreisung” + “Das Hohelied Salomos” + “Einsjager & Siebenjager” + “Coeur de Verre” +”Sei Still, Wisse ICH BIN”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 16.09.1992


O PIANO DOS DEUSES

POPOL VUH
Seligpreisung (5)
Das Hohelied Salomos (7)
Einsjager & Siebenjager (5)
Coeur de Verre (6)
Sei Still, Wisse ICH BIN (6)
CD, Tempel, import. Lojas Valentim de Carvalho



Florian Fricke, pianista místico, mentor espiritual, ao longo de mais de duas décadas, dos Popol Vuh e compositor privado das bandas dos filmes de Herzog, é um daqueles casos extremos de fidelidade a uma ideia que frutificou numa época determinada e posteriormente apodreceu sem que o seu autor tenha dado conta. À entrada dos anos 70, os Popol Vuh só por boa vontade e por serem alemães se podiam integrar no então chamado “cosmic rock”, “kraut Rock” ou “música planante”, entre outras designações mais esotéricas. Desde o início, o grupo foi mais um “alter ego” de Fricke do que uma banda propriamente dita, caracterizando-se por um misticismo de pendor orientalista, que incluía a mitologia egípcia (Vuh é o nome de uma divindade egípcia e, paralelamente, o título de um longo tema de “In Der Garten Pharaos”), o budismo tântrico, o hinduísmo e o cristianismo judaico. Fricke foi um dos primeiros músicos a utilizar, em espectáculos ao vivo, um sintetizador Moog. Sobretudo nas igrejas, onde a sua música encontava o ambiente ideal para se expandir. Para a posteridade ficaram, dessa época, os álbuns “Affenstunde” e “In der Garten Pharaos”, este sobrevalorizado pela crítica, mais pelo conceito do que pelas suas virtudes musicais intrínsecas. Depois, Fricke abandonou em definitivo a electrónica para se concentrar, até aos dias de hoje, no piano. Dos vinte e tal discos que os Popol Vuh gravaram até à data (contando com as várias bandas sonoras para Herzog), nenhum se afasta em demasia da ideia original, privilegiandoa acima de tudo a religiosidade. Os resultados desta atitude variaram, ao longo dos anos, entre o muito bom (“Hosianna Mantra”), talvez o seu melhor disco e “Tantric Songs”), o bom (“Das Hohelied Salomos”) e o sofrível (a maioria). Em qualquer deles, a instrumentação reduz-se por norma ao piano, à voz (dos agudos ascéticos da cantora japonesa Djong Yun, em “Hosianna Mantra” e “Das Hohelied Salomos”, às invocações tântricas do Chorensemble der Bayerischen Staatsoper, presente em “Sei Still”) e a guitarra de Daniel Fischelscher, aos quais se juntam instrumentos acúricos ocasionais como o violoncelo, o oboé, flautas, “sitar”, etc. E gongos, muitos gongos, a dar o toque ritual.
Dos cinco álbuns agora importados, “Das Hohelied” e “Sei Still” são os mais místicos. O primeiro, baseado nos salmos de David (o que já acontecera com “Hosianna Mantra”), assenta em pequenas peças vocais de Djong Yun, apoiadas de forma espartana pelo piano de Fricke e a sugestão de melodias traçada pela guitarra de Fischelscher. “Sei Still” é todo ele piano e coros, só perturbados pelo sax de Chris Karrer, a voz solista de Renate Kanupkrotenschwanz, ambos ex-Amon Düül II, à semelhança aliás de Danny Fischelscher. “Coeur de Verre” coloca o piano, que sempre foi o melhor que os Popol Vuh tiveram para oferecer, e a serenidade, ao serviço do filme homónimo de Herzog. “Seligpreisung”, gravado entre “Hosianna” e “Salomos”, apresenta uma faceta classicista, de música de câmara, com “tampuras” indianas e oboé. “Einsjager & Siebenjager” é o que mais se aproxima de uma cadência rock e do som dos Amon Düül, muito por força da guitarra de Fichelscher e pese embora a participação de Djong Yun. Qualquer dos discos soa hoje um pouco datado. Aconselhável apenas aos incondicionais do grupo que pretendam a reconversão destas obras em CD.

Brian Eno – “Nerve Net”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 16.09.1992


PROVA DE VELOCIDADE
BRIAN ENO
Nerve Net
LP / CD, Opal, distri. Warner Music



De Eno espera-se sempre, a cada novo disco, escultura-vídeo, instalação, documentário, discurso ou espirro, uma enunciação (musical ou conceptual, nos últimos tempos mais conceptual) do que o futuro tem para nos oferecer, em termos de arte, sociedade, ideologia ou simples “merchandising”. Como o futuro, entretanto, toma sempre novas inflexões, ele adapta-se. Da música ambiental, sob várias designações e variantes, da qual parecia não conseguir libertar-se, julgou agora oportuno libertar-se e dar o salto para outra espécie de modernismo (ou pós-modernismo, desiganação que lhe cai melhor, já que Eno é sempre pioneiro de qualquer coisa, encerrando sempre um ciclo e dando início a outro), bem mais violento e variado que as anteriores incursões nas esferas da beatitude. Diga-se desde já que Eno, à semelhança de alguns políticos, nunca ou raramente erra. Possui essa capacidade inata de “saber ver”, só possível através da distanciação. E, mais uma vez, Brian Eno “viu”. Desta feita, e ao contrário da fase ambiental, o resultado dessa visão não é tanto uma síntese, mas uma mistura. A aldeia global a que se refere por escrito e a que procura dar conetúdo musical em “Nerve Net”, não é, nem pretende ser, algo de novo, no sentido a que Bachelard designava por “corte epistemológico”, mas um aglomerado provisório de sons, estilos, ideias e modas girando em turbilhão acelerado, o mesmo que cada vez mais vai esvaziando o mundo de sentido. Por uma vez, Brian Eno sentiu, ou talvez seja mais correcto dizer que percebeu, a noção e os efeitos da velocidade. Mas não se deve acreditar muito nele quando afirma que deseja “habitar” este novo mundo psicótico ou que tenciona promover o disco “agressivamente”. É difícil imaginar Eno no centro da confusão. Vêmo-lo no alto do seu terraço, situado no cume de um arranha-céus em Nova Iorque, com a câmara de vídeo apontada para o céu. “Nerve Net” só é possível, ainda e sempre, graças à observação distanciada. A psicose rítmica, característica dos temas mais violentos de “Before and after Science”, de “Remain in Light” ou de “My Life in the Bush of Ghosts”, resulta da análise cuidada do ar dos tempos. Não por acaso, Eno entregou a Robert Fripp, também ele um músico “cerebral”, a tarefa de dissertar, com a sua guitarra liberta do espartilho das “frippertronics”, sobre o caos, recordando tratar-se do mesmo guitarrista que há mais de 20 anos gravou e tocou, com os King Crimson, “21st century schizoid man”. Na obra de Brian Eno tudo é estudado e “Nerve Net” soa a uma laboriosa experiência laboratorial. Não lhe falta nenhum ingrediente (o músico pode ficar descansado) e a mistura final é digna dos grandes manipuladores de bata branca. De Eno não se espere nunca o sentimento, mesmo que ele procure provar o contrário. “Nerve Net” é um edifício (ou a “rede de força”, o sistema nervoso a que o título alude) que se organiza como por magia, aglutinando de forma errática os fragmentos de infinito, mas que entra em derrocada logo que desaparece o cimento, a ordenação subjectiva do receptor. Uma espécie de anti-Cristo formal e circunstancial erguido com a argamassa do medo, das imagens e da pluralidade que o inconsciente colectivo encerras e permite dar sentido. Pelo sim, pelo não, Eno promete já nova dose de imponderabilidade, com o próximo disco, “The Shutov Assembly”. Passado que foi o tempo de entretenimento dedicado, ainda e sempre, a estudar o mundo sob uma nova perspectiva. Ou a provar a sua resistência e maleabilidade às directivas do cérebro. Uma prova de velocidade. (8)