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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #47 – “Texto, sem cortes, dos Biosphere… (FM)”

#46 – “Texto, sem cortes, dos Biosphere… (FM)”

Fernando Magalhães
30.11.2001 150346

Para quem eventualmente estiver interessado em ler na íntegra o meu texto de hoje no Y sobre os Biosphere, aqui está ele, sem os cortes que tornaram demasiado abruptas determinadas passagens…

Nada de fundamental mudou, mas para o Mário, pode ser importante… 🙂

Há vida no espaço

A estreia nacional, no Porto, do projecto Biosphere, do norueguês, Geir Jenssen, poderá constituir um dos mais espectaculares concertos deste ano em Portugal. Imbuída de uma forte carga cinematográfica, a música electrónica de Biosphere conjuga — a partir de uma depuração da “ambient tecno” de que Jenssen foi percursor — a imensidão dos grandes espaços árticos e o brilho hipnótico de pequenas estrelas vivas. O novo álbum, “Cirque”, abrir-se-á numa dimensão multimédia, para ver, ouvir e sonhar. Como um planetário.

1 – ORIGEM

Biosfera. “A fina camada da superfície da terra e do mar que contém a massa total dos organismos vivos existentes no planeta, que processam e reciclam a energia e os nutrientes disponíveis no meio ambiente” (in “Enciclopedia Britannica”). Em 1990, ao tomar conhecimento do projecto “Biosphere 2 Space Station Project” — uma gigantesca cúpula de vidro fechada instalada no deserto do Arizona — o músico norueguês Geir Jenssen adaptou esta designação ao seu próprio projecto musical. Na estação “Biospehere 2” testava-se a viabilidade da manutenção, no espaço, de uma colónia terrestre auto-suficiente. Na cúpula “Biosphere 2” habitaram várias famílias em completo isolamento do mundo exterior, durante vários anos. Da mesma forma, a música de Biosphere evoca a solidão dos grandes espaços polares e recria a biodiversidade de organismos sónicos em permanante mutação. A sua serenidade advém de uma visão distanciada do planeta, observado a partir do espaço. Música genética que lança a semente das estrelas no húmus do solo da Terra.

2 – AMBIENTE

Nos anos 80, Geir Jenssen integrou o grupo Bel Canto, responsável por dois álbuns editados na editora belga Crammed Discs, um dos quais, “White-out Conditions”, é considerado um clássico da chamada “pop atmosférica”. Atmosfera que viria a revelar-se ainda demasiado densa para a respiração e desejo de silêncio do músico norueguês. O passo seguinte dá pelo nome de Bleep. A electrónica liberta-se do formato da canção pop e passa a desenvolver-se através das pulsações da tecno ambiental, de que Geir Jenssen foi um dos percursores. É já como Biosphere que Jenssen grava os clássicos “Microgravity” e “Patashnik”, este último verdadeiro indutor de sonhos para a geração do “chill-out”. Transe boreal cuja síntese se encontra no cume gelado de “En trance”, tema paradigma da “ambient tecno”. Mas quando “Novelty waves”, retirado de “Patashnik”, é usado como anúncio da Levi, Geir Jenssen percebe que era chegada a altura de partir de novo. Viagem que culminaria nas paisagens de “arctic sound” de “Substrata” e da obra-prima “Cirque”.

3 – ESPAÇO

Depois de Bruxelas e Oslo, Geir Jenssen estabelece a sua residência fixa em Tromso, cidade norueguesa situada 400 milhas a Norte do Círculo Polar Ártico. Aí, longe do caos urbano, a atmosfera é mais límpida e o céu parece estar mais próximo. Biosphere é um telescópio apontado ao negro do firmamento, emissão galáctica, pesquisa de sinais de vida extraterrestres, mas também colónia de organismos microscópicos em agitação atómica sob o manto do “groove” electrónico. “Trabalho devagar”, declarou Geir Jenssen em 1994. O espaço resolve-se no tempo e na distância, que o norueguês considera essencial para a criação musical.

4 – CINEMA

Geir Jenssen afirma que toda a música que o entusiasma tem a capacidade de provocar visões na sua mente. Afinal o mesmo estímulo que o cinema. Não admira pois a relação estreita entre som e imagem que existe dentro da própria estrutura Biosphere, extensiva ao exterior, na composição de bioelectroentidades Biosphere para filmes. Como o clássico do cinema mudo soviético, “The Man with the Movie Camera”, 1929, de Dziga Vertov, com o tema “The silent orchestra”, ou “Kill by Inches”, 1999, de Doniol-Valcroze, bem como a totalidade da banda sonora de “Insomnia”, 1997, de Erik Skjoldbjærg. É ainda Jenssen quem aconselha o ouvinte a construir as suas próprias narrativas e visões.

5 – ILUMINAÇÃO

“Cirque”, editado no ano passado, é o culminar de um trabalho de depuração que em definitivo abandonou o macro-impacto auditivo da tecno. Da embalagem – um digipak luxuriosamente povoado de paisagens e texturas orgânicas que por si só iniciam a projecção do filme interior — ao conteúdo musical, é todo um universo de abstracções, temperaturas, ventos, topografias mentais e alucinações que se desenrola num espectro que vai da busca de auto-descoberta e des paisagens glaciares sem fim ao beat minimal. Cristais de gelo, fauna e flora subliminares, contraponto glaciar e estratosférico da selva tropical nocturna dos Can de “Future Days”. “Cirque” seviu-se como inspiração do livro “Into the Wild”, de Jon Krakauer, crónica de viagens de Chris McCandless que, após anos de viagens solitárias pela América do Norte, em busca da auto-descoberta e da iluminação, terminou a sua demanda nas paisagens desoladas do Alasca, onde o seu corpo acabou por ser encontrado morto, junto com uma nota de SOS.

6 – CRISTAIS

Além das obras já citadas, Geir Jenssen/Biosphere tem a sua assinatura impressa numa quantidade de outros álbuns, entre encomendas, compilações ou simples remisturas. De entre eles destacam-se “Nordheim Transformed”, uma recriação da música do compositor de música electrónica norueguês dos anos 70, Arne Nordheim, elaborada em colaboração com Deathprod, no selo Rune Gramophon, os dois volumes de “The Fires of Ork”, de parceria com o alemão mentor da editora Fax, Pete Namlook, e “Substrata 2”, lançado já este ano, outro digipak com embalagem de luxo, onde cabe a versão remasterizada de “Substrata”, considerado um dos melhores álbuns de sempre de “ambient tecno”. Também deste ano, “Light” reúne pela primeira vez a totalidade dos nove temas compostos para a banda sonora de “The man with the Movie Camera”.

Fernando Magalhães

Space – “Space”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 26 SETEMBRO 1990 >> Videodiscos >> Pop


SPACE
Space
LP e CD, Space, import. Contraverso



Ao ler-se a ficha técnica, não se pode dizer que haja falta de espaço. O espaço em questão é ocupado pela mesma dupla que dá pelo nome de KLF, ideia de Jimmy Cauty e Bill Drummond, destinada a anestesiar os habituais frequentadores das pistas de dança, e colocá-los em órbita de seguida. Se em “Chill Out”, dos KLF, era a Natureza que piava, mugia, balia e produzia outros ruídos bucólicos suscetíveis de acalmar os ânimos mais exaltados e levar ao Nirvana aqueles propensos às grandes contemplações metafísicas, em “Space” é o grande salto para as imensidões siderais. Holografia dos espaços cósmicos, de densidade quase nula, pontuada por farrapos de música enviados via rádio, como se a Terra ficasse a anos-luz de distância. Vozes longínquas, contagens decrescentes, crescendo de foguetões preparando-se para desafiar o infinito. Astronautas suspensos no vazio. A pulsação de corações angustiados diante da eternidade.
Música espectral, infiltrando-se no cérebro de quem vive já uma realidade alternativa, à maneira dos enredos de Philip K. Dick. Música que recupera o sinfonismo aberto ao Cosmos dos percursores Tangerine Dream (de “Phaedra” e “Rubycon”), Vangelis (“Albedo 0.30”) e Brian Eno (“Apollo Atmospheres & Soundtracks”), para lhe inverter o sentido. O espaço transforma-se em alucinação. Entre a consciência e o mundo exterior, um ecrã de imagens refletidas. Recebem-se sinais, ecos de ecos de uma realidade fragmentada e fantasmática. No final do primeiro lado, uma voz líquida, excessivamente cândida, entoa o “Twinkle, Twinkle, Little Star”, do mesmo modo sobrenatural e perverso que Julee Cruise, nas escuridões luminosas de “Floating into the Night”.
Do outro lado de um disco em que o ritmo se limita à batida deliberadamente fria e mecânica dos sequenciadores, sugerem-se cadências vagamente dançáveis, como se ao corpo fosse possível agitar-se à gravidade-zero. No final, o lento retorno ao planeta, o som de gaivotas e do mar. Para os Space o espaço é um lugar triste e gelado onde flutuam almas perdidas. Como o inferno.

A Split Second – “Kiss Of Fury”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


A SPLIT SECOND
Kiss of Fury
LP e CD Antler, import. Anónima



O problema dos A Split Second, duo belga constituído por Marc Ickx e Chrismar Chayell, é o mesmo das dezenas de bandas suas congéneres. Demasiado empenhados em refletir a imagem de uma certa Europa, tecnológica, angustiada e, contrariando as aparências, ansiando por um novo totalitarismo comunitário, os A Split Second fazem afinal já parte do passado. No território desbravado à força pelos Front 242 e Frontline Assembly, é difícil encontrar uma réstia de espaço para a originalidade. “New Beat” ou “Electronic Body Music” resumem-se hoje em dia a meras estratégias de mercado – a CEE discográfica transformada em fábrica de dança pronta a consumir. Estes belgas procuram furar o esquema, afirmando-se influenciados por uma mistura em que cabem Klaus Schulze, Brian Eno, Roxy Music, Judas Priest e os Black Sabbath. Pode ser que sim, mas o resultado sonoro de “Kiss of Fury” assemelha-se em demasia ao que os velhinhos Simple Minds conseguiram, muitos anos antes, com “Empires and Dance”. Ideal para masoquistas que gostem de dançar.