Arquivo da Categoria: Críticas 2000

Tracy Chapman – “Telling Stories”

25 de Fevereiro 2000
POP ROCK


Tracy Chapman
Telling Stories (6/10)
Elektra, distri. Warner Music



É engraçado como sempre que ouço a veterana Tracy Chapman cantar me lembro de algumas vozes masculinas dos anos 70, algumas engraçadas, como a de Cat Stevens, outras simplesmente “obscenas” como a de Chris de Burgh, que não consigo deixar de recordar ao ouvir um tema deste álbum como “Less than strangers”. Aliás, tudo na música de Tracy Chapman faz lembrar os “singer songwriters” dos anos 70 – as mesmas inflexões dramáticas, o mesmo idealismo, até o mesmo tipo de arranjos. Claire Hamill, por exemplo, fez coisas muito parecidas, há muitos anos, com este “Telling Stories”, como “One House Left Standing” e “October” (desta vez é “Speak the word” a conduzir-me aos arquivos da memória). Mas “Telling Stories” não é um álbum para deitar fora, antes pelo contrário: numa linha de música-comercia-feita-com-dignidade, Tracy Chapman é uma grande senhora, incapaz de descer abaixo da mediania. Mesmo quando grande parte dos seus álbuns conquistou discos de platina. Mesmo quando já guarda em casa quatro prémios Grammy. Tradicional no capítulo dos arranjos, sempre elegante no que toca ás interpretações, “Telling Stories” não deslustra a sua autora, que afirma: “Quando gravo um disco, o meu objectivo é sempre ter alguma coisa para oferecer e que essa coisa seja a melhor possível no momento.” Em “Telling Stories” oferece belíssimas canções, com “Wedding song” à cabeça, desviando-se mais para o final do disco para uma vertente country que culmina em “The only one” com a participação, nos apoios vocais, de Emmylou Harris. Álbuns destes podem ser uma boa companhia.



Lambchop – “Nixon”

10 de Março 2000
DISCOS – POP ROCK


Nashville ao retardador

Lambchop
Nixon (6/10)
City Slang, distri. EMI-VC



Reclamam-se herdeiros de Chey Atkins numa linhagem de country atmosférico à qual se convencionou chamar “Nashville sound” e sentem-se orgulhosos por serem considerados a “banda mais estranha de Nashville”. Chegados ao sexto álbum, os Lambchop continuam pachorrentos, envoltos numa cortina de fumo e de lamentações soul, atentos aos pequenos episódios da vida que, bem trabalhados, podem servir para encher um álbum de canções. Kurt Wagner, vocalista e líder desta formação de 13 músicos, confessou um dia que escrevia e cantava devagar por se sentir exausto quando chega a casa após um dia de trabalho (Kurt trabalha na construção civil) e a música ser assim um factor de relaxamento. Neste aspecto, “Nixon” cumpre o seu papel até fazer ressonar.
As canções enrolam o novelo que aperta o tal country atmosférico contra a soul (aliás, os Lambchop seguem a máxima que afirma que “a country é a soul branca”), com todo o vagar, ao longo de uma longa noite iluminada pelo cartaz “romantismo”. “Nixon” sofreu ainda de uma demora adicional, sendo arrancado a ferros do estúdio, fruto da obsessão de Wagner e do engenheiro de som Mark Nevers pelo pormenor e pelos pequenos efeitos de produção que podem transformar um disco medíocre num objecto colorido. Em “Nixon” a sedução e o sedativo escorrem nos arranjos para cordas que num tema como “Nashville parent” pousam num easy-listening soul complementar dos High Llamas de “Hawaii”. Otis Redding, Nick Cave e Tindersticks habitam alguns dos outros mundos escuros que dão para o dos Lambchop. Mas, se é verdade que Curtis Mayfield continua a ser uma referência na música do grupo (“What else could it be?”), isso não impede que “Nixon” se confunda nalguns casos com um decorativismo que em “The book I haven’t read” recorda Tom Jones e em “Up with people” acompanha a fase mais country de Peter Blegvad, de “King Strut and Other Stories”.
E ficaríamos pela eternidade fora a contemplar esta verdadeira homenagem ao homem-estátua – a qual, diga-se de passagem, não destoaria como banda sonora de “Uma história Simples”, de David Lynch. Mas eis senão quando as duas últimas faixas nos vêm arrancar do sossego, gritando-nos que, afinal, num ápice, os Lambchop se podem virar do avesso para mostrar o lado convulsivo da sua música. “The petrified florist” (o homem-estátua sorri mas não compreende…) escurece no gume da faca de John Cale para se elevar numa escalada épica de sopros e sintetizadores Boeing e finalmente tombar com majestade no cemitério dos Current 93 e Death in June. A fechar, “The butcher boy” monta no bisonte, guiado primeiro por Johnny Cash e depois por Stan Ridgway, para correr (sim, correr!) ao encontro do rock ‘n’roll e do tempo perdido a desfalecer no resto do álbum.



Fennesz, O’Rourke, Rehberg – “The Magic Sound of Fenno’Berg”

24 de Março 2000
POP ROCK


Fennesz, O’Rourke, Rehberg
The Magic Sound of Fenno’Berg (8/10)
Mego, distri. Matéria Prima



Está a tornar-se verdadeiramente fascinante assistir ao desenvolvimento das correntes mais liberais da música electrónica actual. O mais recente capítulo de uma saga que parece interminável é “The Magic Sound of Fenno’Berg”, realização colectiva com base em improvisações “separadas e depois coladas” de Christian Fennesz, Jim O’Rourke e Peter Rehberg. Sentem-se, descontraiam-se e gozem tanto quanto puderem esta sequência verdadeiramente notável de ideias postas em prática segundo um método que alia a lógica à loucura mais desalinhada. São filmes em 3D e som “sensaround” de uma civilização distante onde tudo é possível e lícito, e a surpresa e o risco acontecem a todo o momento. A electrónica junta-se à música electro-acústica, de acordo com uma atitude próxima da dos Faust e de experiências do tipo que a canadiana Diane Labrosse tem levado a cabo na editora Ambiances Magnétiques. O tema final, “Fenn O’Berg theme”, é um mundo à parte dentro da sucessão de mundos de “The Magic Sound of Fenno’Berg”: uma superprodução de Hollywood, em reverso de easy-listening, realizada por um Cecil B. de Mille transformado em zombie, onde samples de “Moonraker” de John Barry formam o sustentáculo de uma banda sonora composta por uma simbiose mutante dos High Llamas, Stereolab e Holger Czukay num passeio de sonâmbulos à meia-noite no túnel do terror. Um álbum difícil. Um álbum “sexy”. Um álbum mágico. Um álbum de aventuras.