Arquivo da Categoria: Críticas 1997

Durindaina – “Durindaina”

Pop Rock

5 Fevereiro 1997
world

Durindaina
Durindaina
DISCMEDI, IMPORT. DISC 3


dur

Dois Pasodobles, três muiñeiras, uma valsa, uma mazurca, uma foliada, uma rumba, um fox-trot e uma jota. A ocasião é de baile, como se vê. Festa rija, pelos Durindaina, quinteto galego apostado em lutar contra a “massificação, a uniformidade homogenizante e o individualismo” que os tempos atuais fomentam na Galiza. Em conformidade, evocam-se as “entranhas mais profundas” da terra e os locais onde aquelas danças “fluíam com mais força, como a água de uma corrente”. Que “ninguém permaneça, então, com os pés quietos” é o conselho dado pelo grupo. As gaitas de foles de Guancho, Luis Mouriño e Camilo Regueiro comandam a dança, suportadas pelas percussões ou no “tapete” harmónico do acordeão, com ocasionais intromissões solistas da requinta e do clarinete. “Asen”, a foliada, pertencente ao reportório comum a todos os grupos de “gaitas” de Compostela, é o único tema vocalizado, funcionando como uma espécie de separador inserido a meio do álbum. O som é cheio e vivo, fruto de uma produção esmerada, e a diversidade de andamentos dá garantias de que o baile não se desmancha até final. Música, pois, sem quaisquer propósitos de inovação mas que cumpre maravilhosamente a função de que está imbuída. Para todos os “galeguistas” ferrenhos, é um álbum a não perder. (8)

Maria Kalaniemi – “Iho”

POP ROCK

15 Janeiro 1997
world

Maria Kalaniemi
Iho
OLARIN MUSIIKKI OY, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


mk

Com a chancela da Academia Sibelius, “Iho” sucede a “Maria Kalaniemi” na discografia desta acordeonista, uma das mais reputadas executantes deste instrumento da atualidade. Álbum heterogéneo de referências e cruzamentos de estilo, conta com o apoio de uma superbanda de músicos finlandeses, entre os quais uma das eminências pardas da “finnish folk”, o violinista Arto Järvellä, dos Tallari, e Matti Mäkelä, dos JPP e Troka. A música, composta pela acordeonista ou por Timo Alakotila, também dos Troka (e igualmente presente no álbum das irmãs Kaasinen), não é fundamentalista, não se destinando ao gozo exclusivo de meia dúzia de iniciados. Tem, pelo contrário, um apelo universalista, apostando em simultâneo nos parentescos com a referência céltica e numa riqueza harmónica só possível em executantes de alto nível. Exemplo desta capacidade de tocar nos arquétipos do que poderíamos designar por “folclore universal” é um tema como “Green score”, onde o acordeão de Kalaniemi percorre diversas escalas e modos por uma vereda algures entre o “jazz” e um “folk rock” aveludado. Uma secção de metais usada com subtileza e um tango de Carlos Gardel contribuem para conferir a “Iho” a tal variedade de registos que torna a sua audição numa sucessão de pequenas e grandes surpresas. No título-tema, os metais juntam-se a uma guitarra elétrica aquática no que poderia ser a versão escandinava de uns Brass Monkey ou Home Service. “Trolipolska” possui o mesmo balanço sincopado de um “horo” dos Balcãs. Tudo somado, significa que Maria Kalaniemi, um dos poucos músicos naturais da Escandinávia ativos na cena folk europeia, soube aproveitar deste convívio o melhor que este tem para oferecer: o diálogo de culturas e de estilos, traduzido na afirmação daquilo a que já, por várias vezes, chamámos, “nova tradição”. (8)



José Mário Branco – “Ao Vivo Em 1997”

Sons

19 de Dezembro 1997
DISCOS – PORTUGUESES

José Mário Branco
Ao Vivo em 1997 (7)
2xCD ed. e distri. EMI – VC

Ao vivo de certa maneira


jmb

Ainda não é desta que temos o prazer de escutar um novo álbum de estúdio do autor de “Margem de Certa Maneira”. Para José Mário Branco, compositor do outro lado, será ainda tempo de espera e de preparação interior, antes da concretização de um novo passo em direcção ao desconhecido. “Ao Vivo em 1997” é um ponto de ordem, uma chamada de atenção, um gesto de cumplicidade retomada. Uma inquietação intermédia num percurso de criatividade cujo derradeiro testemunho continua a ser as suas “Correspondências”.
José Mário Branco veio no passado mês de Junho dizer de si próprio e da sua arte, em 23 temas gravados nos espectáculos realizados a 14, no Coliseu do Porto, a 15, 16 e 18, no Teatro da Trindade, em Lisboa, e a 20, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Fora do disco ficaram os temas compostos por José Mário Branco para a peça “Gulliver”, encenada pela Barraca, que pertenciam ao alinhamento dessas cinco datas, deixando entender que o músico pretendeu conservá-los para inclusão no disco da banda sonora a editar esperemos que muito em breve.
Para já ficamos com a recordação desses espectáculos, através de um punhado de canções de total exposição, às quais, em alguns casos, a voz de José Mário Branco não terá feito toda a justiça, revelando, sobretudo na sequência inicial deste duplo álbum, algum cansaço. Mas a expressividade, o teatro da alma, a força das palavras e os renovados arranjos de clássicos como “Engrenagem” (com as harmonizações dos Tetvocal), “Elogio da corporação”, “Margem de certa maneira” (mais escurecido e desamparado do que nunca), “Ser solidário”, “Emigrantes da quarta dimensão”, “Queixa das almas jovens censuradas” e “A noite” chegaram, e chegam, como sempre, para desassossegar. Mesmo se pelo lado da ternura. Ou da sátira, aqui retomada, de forma deliciosa e, de novo com a preciosa colaboração dos Tetvocal, por um José Mário Branco “rapper” em “Arrocachula”.
O segundo compacto inclui os inéditos “De pé, saudação a Antero”, “Menina dos meus olhos”, “Teu nome Lisboa” (um “unplugged” sem rede, suportado pelo contrabaixo de Carlos Bica), “Capotes pretos, capotes brancos” e “Terra quente”, este último a solo pelos Tetvocal. Estarrecedor é o balanço final de “Cantiga de alevantar ‘leva leva’”, um cântico ritual de trabalho que serve de metáfora à obra seminal de José Mário Branco. Momento privilegiado para quantos acompanharam de perto estes espectáculos ao vivo do músico, no mês da graça de Junho de 1997.