Arquivo da Categoria: Críticas 1997

De Almaden, Escudero & Ramos – “The Flamenco De Triana” + Vicente Amigo – “Poeta” + El Kiki – “Mala Suerte” + Pepe De Lucia – “El Orgullo De Mi Madre”

POP ROCK

14 Maio 1997
world

Poetas ANDALUZES de agora

DE ALMADEN, ESCUDERO & RAMOS
The Flamenco de Triana (10)
Tradition, distri. MVM

VICENTE AMIGO
Poeta (7)
Columbia, distri. Sony Music

EL KIKI
Mala Suerte (6)
Clave, distri. MC-Mundo da Canção

PEPE DE LUCIA
El Orgullo de Mi Padre (7)
Nuevos Medios, distri. Farol


da

Flamenco não é só palmas e olés, vermelho e sapateado, guitarras e “cajón”, mas um estado de alma de múltiplos cambiantes, uma afirmação de orgulho e uma forma de ligação cujo segredo pertence aos ciganos do Sul. Sendo uma música que reivindica para si o direito exclusivo de impor as fronteiras que quiser, é uma música da qual se aprende a gostar, exigindo inteira disponibilidade mas dando tudo em troca. Aqui se reúnem quatro discos correspondentes a outras tantas formas de viver o flamenco e de pôr em prática os ensinamentos do “duende”.
“Flamenco de Triana” pertence ao domínio dos deuses e da liberdade pura de expressão. Um “cantaor”, Niño de Almaden, e dois guitarristas, Mario Escudero e Carlos Ramos, com o acompanhamento, nas castanholas, de Anita Ramos, oferecem-nos momentos de pura transcendência, em particular o canto de Niño de Almaden, que arranca à tradição da região de Granada o mais profundo que a terra encerra, como nesse total arrebatamento vocal que é “Canta de la sierra”. Quem acompanhar interiormente as evoluções da voz, nesse ou noutros temas, como “Fandanguillos variados” ou “Melodia de un corazon dolorido”, terá tocado a essência mais funda do flamenco. As guitarras são água ardente. Em “Sevillanas” que se erguem da terra ao céu como uma catedral embriagada de paixão.
Vicente Amigo, todos os apreciadores portugueses de guitarra de flamenco o conhecem, dada a assiduidade com que nos visita. Tecnicista, amigo de muitas músicas, tem em “Poeta”, subintitulado “Concerto Flamenco para Um Marinero en Tierra”, oportunidade de mostrar todo o seu talento, com acompanhamento de uma orquestra, numa obra inspirada na poesia de Rafael Alberti, um doas maiores poetas andaluzes de sempre. Texto declamado, gravações de sons naturais, uma produção envernizada e uma arquitectura orquestral rigorosa remetem, neste caso o flamenco, para o mundo da erudição que, em definitivo, não é o seu. A guitarra de Vicente Amigo, essa, brilha como sempre.
Considerado uma das revelações do “canto jondo”, Santiago Cortiñas, El Kiki, começou a cantar flamenco, ao vivo, aos quatro anos, estreando-se agora nesta difícil arte, em disco, aos dez. Considerado herdeiro de Camarón de la Isla, tem a particularidade de ter nascido em Lugo, na Galiza… Tem a companhia, neste disco, dos seus mestres Cuchus Pimentel, guitarras flamenca e eléctrica, e Marcos Teira, guitarra flamenca, e de Pedro Onieva, nas percussões. Disco engraçado, demasiadamente marcado pelo tom infantil da voz, torna-se difícil escapar à sensação de exibicionismo de menino prodígio que provoca. O “duende” saberá decidir do se futuro.
O oposto aplica-se a Pepe de Lucia, irmão de Paco de Lucia, “cantaor” e compositor de méritos firmados, produtor de vários discos de Camarón de la Isla. Em “El Orgullo de Mi Padre” faz-se acompanhar, entre outros nomes ilustres, pelo seu irmão Paco, Vicente Amigo, o baixista Carlos Benavent, o guitarrista e compositor Juan Manuel Cañizares e o credenciado homem das fusões, o saxofonista e flautista Jorge Pardo, bem como o cantor pop Alejandro Sanz. O álbum começa com a gravação amadora de um ensaio, em Algecira, nos anos 50, dos dois irmãos Lucia, desenvolvendo-se depois por um flamenco extrovertido e disponível para outras linguagens, como o jazz (“Tio Pringue”), ou certas condescendências “new age” (“La vida es un espejo”, “Nana de mi nina”), mais facilmente assimiláveis e nos antípodas do ascetismo iniciático de “Flamenco de Triana”.



Shelley Phillips & Friends – “The Faerie Round”

POP ROCK

30 Abril 1997
world

Sonhos bons de se sonhar

SHELLEY PHILLIPS & FRIENDS
The Faerie Round (7)
Gourd Music, distri. Strauss


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Apesar do título e da gravura da capa (por sinal, belíssima, embora segundo padrões hoje pouco em voga…), “The Faerie Round” é um objecto curioso, merecedor da nossa simpatia. Quer dizer, nem todo o disco (que começa com sininhos e uma versão medievalesca de um tradicional irlandês) é necessariamente dispensável, embora possa, sem dúvida, ser arrumado na prateleira das coisas fora de uso. Shelley Phillips é uma daquelas senhoras com ar de princesa da Idade Média (como Loreena McKennitt) que tocam harpa e parecem ter nascido fora da sua época. Gravado na Califórnia (tinha que ser!), “The Faerie Round” é uma incursão despretensiosa na “música antiga” e na “tradição folk”. Não se vão já embora. A senhora tem curso de conservatório, não fugindo, por isso, a abraçar uma variedade de temas que abrangem tradicionais da Macedónia e da Bulgária, um excerto da “Música Aquática” de Händel, um velho e amigável “planxty” irlandês ou um dos muitos instrumentais legados pelo harpista cego Turlough O’Carolan. Umas vezes indistinguível da “música antiga” a sério, outras seguindo rumos idênticos aos de John Renbourn, com a sua banda medievalista posterior aos Pentangle, “The Faerie Round” descai apenas por duas vezes na “new age”, mesmo assim de uma forma não demasiado ofensiva, em “The water is wide” e “Skye boat song”. Um disco belo e melancólico, talvez obsoleto, capaz, no entanto, de oferecer sonhos bons de se sonhar.



Krishna Bhatt & Zakir Hussain – “Kirwani, Essence Of A Raag”

POP ROCK

30 Abril 1997
world

Krishna Bhatt & Zakir Hussain
Kirwani, Essence Of A Raag
AMIATA, DISTRI. MOVIEPLAY


zh

Krishna Bhatt, em “sitar”, e Zakir Hussain (frequentador habitual da ECM), em “tablas”, com acompanhamento de outros dois músicos na “tambura”, explicitam em duas longas “ragas” a essência deste género com origem na música clássica do Norte da Índia. Explorando a diversidade de compassos permitidos pelos diversos “taals” (os quais, por sua vez, servem de base a uma multiplicidade de modos de improvisação), estas duas “ragas” percorrem uma gama de emoções descritas como “tranquilas”, “meditativas”, “espirituais”, “patéticas”, “alegres”, “heróicas”, “românticas” e “eróticas”. Claro que o auditor menos assíduo da música indiana dificilmente distinguirá neste fluxo vibratório que parece eterno a lista daquelas sensações, mas dará, decerto, razão ao seu enunciado fundamental: a necessidade de, primeiro que tudo, se entrar no som, habitar psiquicamente nele, para, então sim, descortinar no seu interior a tal multiplicidade de “nuances”. Uma vez lá, trata-se da experiência da liberdade. (9)