Arquivo da Categoria: Críticas 1996

Ry Cooder – “Last Man Standing”

Pop Rock

13 de Novembro de 1996
poprock

Ry Cooder
Last Man Standing
VERVE, DISTRI. POLYGRAM


rc

Ry Cooder é o compositor oficial das bandas sonoras dos filmes de Walter Hill. Mas enquanto estes se caracterizam habitualmente pelo excesso de acção, aquelas avançam, por regra, com a velocidade de lesmas. “Last Man Standing”, a fita, uma adaptação do universo de Kurosawa para o filme de “gangsters”, tem montes de mortes e tiroteio entre bandos mafiosos rivais. A música, pelo contrário, paira, sem chegar a lado nenhum, cumprindo a sua função de pano de fundo, através de uma sequência que mete ambientalismos sinfónico-sintético-industriais, orientalismos “new age” e umas colheradas de jazz Dixieland, com ocasionais desempenhos de Ry Cooder, a fazer o cromo habitual – a tocar guitarra no deserto. Tudo com a excitação de água a aquecer em lume brando ou das movimentações da traça à volta do candeeiro. Mais um caso em que a música de filmes não faz a história. (4)



Donovan – “Sutras” + Michelle Shocked – “Kind Hearted Woman”

Pop Rock

6 de Novembro de 1996
poprock

Donovan
Sutras (7)
AMERICAN, DISTRI. BMG

Michelle Shocked
Kind Hearted Woman (7)
PRIVATE MUSIC, DISTRI. BMG


dono

ms

Woody Guthrie, nos anos 40 e 50, Bob Dylan, a partir da década seguinte, traçaram o perfil do trovador dos tempos modernos. O escocês foi discípulo directo de Dylan. A texana que descobriu a sua vocação de cantora em torno da fogueira de um acampamento sofreu a influência de Guthrie. Ambos ressurgem na cena musical após um interregno de alguns anos. Quatro, no caso de Michelle Shocked; 13, no caso de Donovan. Ambos trazem uma mensagem no bornal. Mas se a da texana vem entrançada nas palavras, em baladas despojadas que foram beber sangue aos “blues” e lágrimas às zonas mais devastadas da “country”, a de Donovan Leitch é indissociável da auréola vibratória da voz e do misticismo. Shocked, uma “Kind Hearted Woman”, tem os pés assentes na vida e nas emoções terrenas, arriscando e ferindo-se no modo como a elas se expõe, até no modo como a voz ousa avançar até onde nunca ousara antes, como se pode ouvir logo no tema de abertura, “Stillborn”. Para Donovan, tratou-se, pelo contrário, de “limpar” a sua música da ganga que a maculara a partir de “Cosmic Wheels”, sendo, neste caso, espantoso, o facto de, aos 50 anos, a sua voz ter conseguido recuperar e mesma limpidez cristalina e a temática “hippie” dos seus tempos áureos, de álbuns como “A Gift from a Flower to a Garden” ou a “tripante” incursão mágica nos domínios de “Alice no País das Maravilhas” do duplo “HMS Donovan”. Em “Sutras”, iluminam-se de novo as fábulas cantadas com a guitarra acústica à luz da lua. Em “Kind Hearted Woman”, contam-se episódios da carne, na queimadura do fogo. Michelle Shocked fala-nos ao estômago. Donovan sussurra-nos das estrelas. Duas vias de um mesmo caminho para chegar vivo ao fim do século.


Oct '96 Kind Hearted Woman (studio version) released on Private Music label – "Silver Spoon" from Michelle Shocked on Vimeo.

Alan Vega, Alex Chilton, Ben Vaughn – “Cubist Blues”

Pop Rock

6 de Novembro de 1996
poprock

Carne crua

ALAN VEGA, ALEX CHILTON, BEN VAUGHN
Cubist Blues (8)
Last Call, distri. Megamúsica


cb

Morrer de morte lenta parecia ser até há bem pouco tempo o destino artístico marcado para o antigo vocalista dos Suicide, desde a separação do seu comparsa Martin Rev. Longe vão os tempos em que, sobre uma serração rítmica de martírio, Alan Vega atirava cadeiras para o meio da assistência ou queimava os mais agitados com pontas de cigarros acesos. A Vega restava seguir o caminho da decadência, vestindo até às últimas consequências a pele de um Elvis Presley desamparado num casino virtual. “Cubist Blues” surge não tanto como a ressurreição, mas antes como a sua redenção, de um género, o “rockabilly” industrial, que Alan Vega procurou retomar, sem sucesso, a solo, depois da dissolução dos Suicide, embora o grupo tenha regressado nos últimos anos à actividade, gravando em 1989 o álbum “A Way of Life”.
A gravação teve lugar em duas noites, num segundo andar dos estúdios Dessau, na zona baixa de Nova Iorque, recorrendo deliberadamente a escassos meios de produção (um dos temas, “Lover of love”, aproveita, inclusive, um erro de gravação…). Desta opção resultou um som directo e destituído de truques, que extrapola o minimalismo electrónico dos Suicide para fatias de carne crua cortadas a sangue frio pelas guitarras, o baixo, o piano e o sintetizador de metal de Alex Chilton, um ex-Big Star, e a batida obsessiva de Bem Vaughn, antigo colaborador de Kim Fowley, o maior e mais prolífico lunático de toda a história do rock.
Se o som dos Suicide é reproduzido praticamente na íntegra de cada vez que Chilton se agarra ao sintetizador, como é o caso gritante de “Freedom”, derivação em ritmo de massacre de “Cheree”, na maioria dos temas, porém, é a alma dorida dos “blues” que vem à tona, travestida nas intermitências vocais de um “robot” em curto-circuito. Os Velvet Underground já tinham sintonizado antes na mesma frequência, domando o caos a golpes de heroína, para soltar a poesia da desumanidade e da mecanização, mas foram os Suicide que afiaram a faca da crueldade e a cravaram no peito dos anos 80. Alan Vega corporiza o grito e os suspiros dessa dor e “Cubist Blues” a sua deslocação para a arena do rock ‘n’ roll. Entre a memória dos Doors, em “Fat city”, a devoção anedótica de “Come on Lord”, as descargas de electricidade e cimento de “Promised Land” e os “blues” em mármore frio de “Sister”. A cerimónia termina com “Dream baby revisited”, num cabaré vicioso, palco privilegiado em que os sonhos de Vega o transformaram em “the king”.