Arquivo da Categoria: Críticas 1995

Jane Siberry – “Maria”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995


Jane Siberry
Maria
REPRISE, DISTRI. WARNER MUSIC



Uma faixa na banda Sonora de “Until the End of the World”, outra em “The Crow”, de Alex Proyan, outra ainda em “Far away, so close”, também de Wenders, participações em “Chansons ders Mers Froides”, de Hector Zazou, e “Arcane”, obra colectiva dirigida por Simon Jeffes, dos Penguin Café Orchestra, com o selo Real World de Peter Gabriel – que convidou Jane Siberry para os espectáculos da “Real World Recording Week” realizados no ano passado em Bath, Inglaterra. Nada mau para uma cantora com a tendência para ser discreta e gravar álbuns fora de moda como “No Borders here”, “The Speckless Sky”, “The Walking”, “Bound by Beauty” e “When Was a Boy”.
“Maria” (porque será que nos lembramos logo de Julie Andrews a cantar pelas montanhas, perseguida pela putalhada, em “Música no Coração”?…), diz Jane, aborda tópicos como “crianças”, “pessoas perdidas e encontradas”, “carneiros” (em “mary had a little lamb”, claro, famosa canção de embalar as criancinhas que percebem inglês), “sacrifícios” e, em especial, “sexo”. Descontando o item “carneiros” e sem querer valorizar em demasia o último, é uma base interessante de trabalho. Um trabalho que Siberry dividiu em duas partes.
A primeira é constituída por nove canções pausadamente jazzy, nada que alguém como Mathilde Santing não tenha já ensaiado antes. Segue-se uma faixa de intervalo com dois minutos de silêncio e depois, na segunda parte, tempos de seca e uma enorme surpresa: vinte minutos de aborrecimento (leia-se experimentalismo formal) sobre “sitars” psicadélicas e trompetes encerados, com o título “Oh my my”, onde ela se entretém a contar a sua vida e a chamar de cinco em cinco minutos pela mãe. Há formas curiosas de se falar com o umbigo. (5)

Ficções – “Zambra”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995
portugueses


Ficções
Zambra
POLYDOR, DISTRI. POLYGRAM



No terreno que escolheram para se movimentar, a música de fusão, os Ficções dão cartas aos melhores. O problema está em que se no estrangeiro, nomeadamente nos Estados Unidos, existe uma franja vasta de público consumidor deste tipo de sonoridade, em Portugal devem contar-se pelos dedos os seus apreciadores. É música agradável, superiormente tocada (condição indispensável no género), que se aproveita de diversas tipologias étnicas e as reveste da fluidez e da (muitas vezes aparente) capacidade de improvisação do jazz.
Na mistura própria dos Ficções cabem em geral todas as latinidades – do flamenco às aflorações marroquinas -, as meditações orientalizantes e os calores brasileiro e africano. O desenvolvimento de cada tema é quase sempre previsível e estilisticamente espartilhado, o que, curiosamente, acontece com frequência em grande parte da produção de um género que se pretende o mais democratizante possível. Há uma entrada e um final “exóticos”, onde se dá um cheirinho da fonte onde se foi beber e um interminável desenvolvimento intermediário onde cada intérprete mostra o que vale. Aqui a regra é o “jazz rock” convencional e a sequência virtuosa de “clichés”.
“Zambra”, é pena, não foge à regra. Será bom como manual técnico, mas como objecto criativo não difere de milhares de outros, sem chama nem uma vontade declarada de romper novos caminhos. Faz sentido perguntar o que distingue a verdadeira arte do funcionalismo, a coragem de arriscar da resignação de quem se refugia no conforto dos lugares-comuns. Mas isso é um mal da música portuguesa em geral e os Ficções lá saberão a que porto pretendem chegar. Com as ferramentas de que dispõem poderiam navegar para bem mais longe. Também é verdade que o mundo está cada vez mais pequeno e não falta quem se contente em mandar um postal ilustrado… (4)

Brigada Victor Jara – “Danças e Folias”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995
portugueses


Abrigada Nos Clássicos

BRIGADA VICTOR JARA
Danças e Folias (9)
Ed. Farol



Não existe um som Brigada da mesma maneira que existe um som Vai de Roda, um som Romanças, um som Ronda ou um som Realejo. Significa que falta personalidade a uma das bandas, juntamente com os Almanaque e o G.A.C., mais antigas no circuito folk nacional? A questão deve ser respondida a outro nível. A banda de Manuel Rocha, Ricardo Dias e Aurélio Malva, para citar apenas três dos seus principais solistas, tem vivido, desde o ano da sua formação, em 1975, do colectivo. Ao invés da procura e apuramento de uma assinatura singular, a opção, bem mais difícil, foi e continua a ser a de desenvolver um trabalho em profundidade em torno das nossas raízes. Se em anos anteriores este trabalho derivou para experiências de fusão, sobretudo em “Contraluz2 e “Monte Formoso”, que resultaram ocasionalmente desequilibrados, em “Danças e Folias” assiste-se ao regresso a um certo classicismo, entendido – aliás como referiu Manuel Rocha na entrevista que concedeu a este suplemento na passada semana – como uma postura mais próxima do formato tradicional da canção, que não das danças propriamente ditas (jota, chula, llaço, fofa, mazurca, chote), neste caso exploradas pelo seu lado mais intrinsecamente “musical”. A diversidade impera, fazendo prova do vasto leque de possibilidades que a banda tem ao seu dispor, ao mesmo tempo que de uma sensibilidade não confinada a fórmulas específicas ou estereotipadas.
O lado mais céltico, transmontano (incluindo dois temas de Rio de Onor, derradeira fortaleza comunitária, fiel aos ritmos e ritos da eternidade, oculta da modernidade nas faldas das terras para lá dos montes…) que enceta o disco esbarra ao quinto tema na surpresa de um dramatismo exacerbado, na vocalização – muito perto do paroxismo – do convidado Zeca Medeiros, uma força da Natureza à solta da sua ilha natal. S. Miguel, Açores. Uma mazurca palaciana, ainda aberta às reminiscências célticas, é por seu lado perturbada por uma das grandes canções do álbum, “Moda da Zamburra”, canção de folia entoada no Entrudo, na Beira Baixa. “O mineiro”, melodia estremenha da região de Torres Vedras cruza-se com as síncopes e as modulações habituais na música da Bretanha, a bombarda substituída pela ponteira de Aurélio Malva e o sax soprano de outro convidado, Jorge Reis, a apontar para divertimentos bretões como os dos Gwendal ou Ti Jaz.
Muito a propósito, a Brigada volta a saltar para Trás-os-Montes, para o canto mirandês, o convénio das percussões a chamada de veludo (nada frequente no meio da rudeza rochosa destes lugares…) da gaita-de-foles, em “Fraile cornudo”. O violinista Manuel Rocha mostra ser o Dave Swarbrick português no “Chote” muito Fairportiano que se segue. 2Donde vas” fecha em beleza, com um romance uma vez mais recolhido nos silêncios escuros de Rio de Onor, iluminado pela voz de Margarida Miranda, aqui assombrada pela mesma interrogação que traz suspensa Né Ladeiras em “Traz os Montes”, e o longo solo de filiscórnio, imbuído de religiosidade e do espírito barroco, de Tomás Pimental. “Danças e Folias” aí está como exemplo para os aprendizes de feiticeiro que julgam poder fazer num dia o que demora uma vida a aprender.