Uma faixa na banda Sonora de “Until the End of the World”, outra em “The Crow”, de Alex Proyan, outra ainda em “Far away, so close”, também de Wenders, participações em “Chansons ders Mers Froides”, de Hector Zazou, e “Arcane”, obra colectiva dirigida por Simon Jeffes, dos Penguin Café Orchestra, com o selo Real World de Peter Gabriel – que convidou Jane Siberry para os espectáculos da “Real World Recording Week” realizados no ano passado em Bath, Inglaterra. Nada mau para uma cantora com a tendência para ser discreta e gravar álbuns fora de moda como “No Borders here”, “The Speckless Sky”, “The Walking”, “Bound by Beauty” e “When Was a Boy”.
“Maria” (porque será que nos lembramos logo de Julie Andrews a cantar pelas montanhas, perseguida pela putalhada, em “Música no Coração”?…), diz Jane, aborda tópicos como “crianças”, “pessoas perdidas e encontradas”, “carneiros” (em “mary had a little lamb”, claro, famosa canção de embalar as criancinhas que percebem inglês), “sacrifícios” e, em especial, “sexo”. Descontando o item “carneiros” e sem querer valorizar em demasia o último, é uma base interessante de trabalho. Um trabalho que Siberry dividiu em duas partes.
A primeira é constituída por nove canções pausadamente jazzy, nada que alguém como Mathilde Santing não tenha já ensaiado antes. Segue-se uma faixa de intervalo com dois minutos de silêncio e depois, na segunda parte, tempos de seca e uma enorme surpresa: vinte minutos de aborrecimento (leia-se experimentalismo formal) sobre “sitars” psicadélicas e trompetes encerados, com o título “Oh my my”, onde ela se entretém a contar a sua vida e a chamar de cinco em cinco minutos pela mãe. Há formas curiosas de se falar com o umbigo. (5)
JANE SIBERRY
When I was a Boy (6)
CD Sire, distri. Warner Music
MATHILDE SANTING
Texas Girl & Pretty Boy (9)
CD Columbia, distri. Sony Music
Duas senhoras com duas belas vozes que cantam os rapazes. No caso da senhora Siberry, a voz chega, sobeja e está bem acompanhada. Quer dizer: Jane Siberry tem as cordas vocais afinadas mas as canções é que nem por isso. Valha-lhe a produção e carradas de cosmética a disfarçar a vulgaridade que espreita ao virar de cada esquina. Mathilde Santing, por seu lado, além de ser uma senhora é uma senhora intérprete. No novo disco reduziu o leque de compositores a um só – Randy Newman, de cujas composições se serviram, entre outros, Ray Charles, Ringo Starr, Nuna Simone, Peggy Lee e os Three Dog Night. Jane Siberry apostou mais nas vestimentas. Escolheu bons costureiros: Brian Eno e Michael Brook, ambos especialistas na “ambientalização” do som. Mas só em três temas: no que abre o disco, “Temple”, co-produzido por Eno (que também toca oboé) em conjunto com ela, em “Sail across the water”, já com Eno sozinho aos comandos, na produção e nas teclas de um Hammond marado, e em “Love is everything”, com produção e “guitarra infinita” de Michael Brook. Engraçado o modo como Eno, no primeiro tema citado, faz com que o tema se pareça com um dos que assinou para David Bowie. “Sail across the water” é música para dançar sem frenesim. No meio deste bom gosto inicial ainda cabe a voz de K. D. Lang, em “Calling all angels” que não sendo uma senhora por convicção é na mesma uma senhora cantora. E pronto. As promessas do início vão sendo aos poucos dissipadas pela falta de ideias que atravessa o resto do álbum. Siberry faz uns arremedos de ousadias Meredith monkianas no início de “All the candles in the world”, lança a rede da música de dança nesse tema e em “An angel stepped down” e desagua nos madrigais góticos à sombra dos This Mortal Coil nos longos “Sweet incarnadine”, “The vigil” e “At the beginning of time”. Sobra o afago da voz e a sensação de que esta poderia ter sido bem melhor aproveitada. É outra a conversa de Mathilde Santing. Com bom material nas mãos, a cantora holandesa faz maravilhas (a maior das quais é o jardim de histórias irreais de “Water under the Bridge”). A sua voz pode não ter o mesmo calor que a de Mary Coughlan, o calor e o sabor de ressaca de Marianne Faithfull, o “pico” atrevido de Rickie Lee Jones ou o intimismo majestoso de K. D. Lang. Mas as armas que tem ao seu dispor – clareza tímbrica, agilidade, controlo dinâmico, elegância e, cada vez mais, doses enormes de sentimento – usa-as da melhor maneira para esculpir cada canção, arrancando-lhe o melhor que ela tiver para oferecer. No caso das canções de Randy Newman, recorrendo a uma base instrumental que privilegia o piano (a cargo de Onno Krijn e Nico van der Linden) e o baixo, por Simon Panting, com colaborações adicionais de acordeão, naipe de cordas, guitarras e os tratamentos ambientais de Mimi Izumi Kobayashi, Mathilde Santing parte numa cruzada pelas estações do riso e das lágrimas, transportada na melancolia de pianos, ora melancólicos, ora fumegantes, ora em queda trágica pelas esquinas de “Same girl”, “Old man on the farm”, e do fabuloso “Bad news from home”. “Tickle me” é irónico e divertido, contrariando a tonalidade sombreada da generalidade do disco, e “Living without you” balança na gravidade de um violoncelo, sobre as luzes infantis de uma caixa de música. Em “Pretty Boy”, Mathilde lança-se sem pára-quedas por ousadias formais que se pensava serem exclusivo de Laurie Anderson. A Randy Newman deve agradecer-se o ter proporcionado à cantora holandesa a oportunidade de subir a grande altura. Tão alto que já a vemos do lado das chamadas “grandes damas”, as tais senhoras que se entregam por inteiro às dores e volúpias da voz.