Arquivo da Categoria: Críticas 1992

Ferdinand Richard Et Les Philosophes – “… Enclume”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 02.12.1992


Ferdinand Richard Et Les Philosophes
… Enclume
CD Rec Rec, import. Audeo



Filosofia à parte, Ferdinand Richard é, de facto, um amante da palavra, do texto. Ganhou notoriedade como baixista dos Etron Fou Leloublan, grupo francês que aliava o “vaudeville” e Captain Beefheart às divagações literárias de pendor surrealista. Tudo bem se Ferdinand não insistisse em ser ele próprio a cantá-las. Pela simples razão de ser tão bom baixista como mau vocalista, mas parece que ninguém tem coragem para lhe dizer isso. Nem sequer Fred Frith, com quem gravou um bom disco intitulado “Dropera”. “… Enclume” é um festival de baixo, guitarra (Alain Rocher) e bateria (Dominique Lentin) ao desafio, em intricadas texturas ao modo Etron Fou com o toque Frithiano que caracteriza grande parte das produções guitarrísticas com o selo Recommended. O pior são as tais palavras, excessivas, que brotam em catadupa em cada canção, no estilo discursivo de Richard – “50 sílabas por cada verso; se não couber, aperta-se” – que impede a respiração e uma maior eficácia na explanação instrumental. Não fora a oratória (e alguns textos até são interessantes, corrosivos e sarcásticos na análise a estereótipos sociais) e o tom redundante das vocalizações e a filosofia de “… Enclume” poderia ser bastante mais que um mero exercício de retórica. (6)

António Manuel Ribeiro – “Pálidos Olhos Azuis – P.O.A.”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 02.12.1992

OS OLHOS DO TÉDIO


ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO
Pálidos Olhos Azuis – P.O.A.
LP / MC / CD, Edição BMG



“Há uma parede mágica que rodeia a canção (…) não sabemos se alguém a vai descortinar à primeira escuta / essa magia que vive do outro lado da escuridade.” Escreve-se isto a propósito de “Velhos tamborins”, primeira canção a ser editada no formato de “single”, retirada do álbum de estreia “P.O.A” de A.M.R., vocalista dos UHF. Deve haver, de facto, uma parede a rodear cada canção de “P.O.A.”. Nem à primeira, nem à segunda, nem à vigésima sétima audição se consegue descortinar nelas qualquer tipo de magia, muito menos um bocadinho de música original – um mínimo de interesse que seja. Só escuridade. Só banalidade em cada melodia estafada, disco após disco, dos UHF.
António Manuel Ribeiro tinha que fazer um disco a solo, para dar a conhecer às multidões o enorme artista que é. Era preciso mostrar uma visão autónoma, um talento liberto das imposições do colectivo, a grande arte do génio solitário, abandonado à magna angústica da criação. Então A. M. R. pegou na guitarra, abriu a boca e a obra fex-se. Não devia. “P.O.A.” aproveita o pior dos UHF. Vai buscar o típico ambiente das noites de Benfica e passa-o a ferro em linhas melódicas sem ponta de inspiração, e textos que repisam velhos chavões e paranoias: a estrada, sempre madrasta, mas a que não se pode fugir; a marginalidade dos subúrbios; a violência juvenil como forma de fuga ao tédio; e agora, em estreia mundial, os “olhos das miúdas”, das “groupies”, aquelas mosquinhas que cirandam à volta do artista a pedir migalhas. Um espectáculo que visivelmente comove António Manuel Ribeiro. São pálidos olhos azuis, faróis na escuridão, essas tretas.
Tudo estaria bem e tudo seria perdoado, se não fosse a música. Com “P.O.A.” A.M.R. esqueceu uma década de evolução, regressando à pré-história do “rock português”, dos primeiros UHF, GNR e CTT. Não falta sequer um “puro sangue”, na melhor tradição dos “cavalos de corrida” e um coro de impensável parolice, no “épico” “A noite inteira”. Escapa à mediocridade total um “Aqui na arena” cantado de raiva, entre o ódio e a introspecção, contra o “portuga”, o “show business” e, por tabela, a humanidade em geral – o melhor A.M.R. na pele de D. Quixote em luta com os moinhos e consigo próprio. O CD inclui o tema-extra “Hi John”, dedicado a John Lennon, e a versão longa de “Velhos tamborins”. A António Manuel Ribeiro deseja-se rápidas melhoras e votos de um bom descanso. (3)

Andy M. Stewart & Manus Lunny – “At It Again”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 02.12.1992


ANDY M. STEWART & MANUS LUNNY
At It Again
CD Green Linnet, distri. Megamúsica



Colaboração assídua têm mantido Andy M. Stewart (vocalista dos Silly Wizard) e o mestre do bouzouki Manus Lunny, por vezes em colaboração com outro músico dos Wizard, o acordeonista / teclista Phil Cunningham (2Fire in the Glen”, com reedição recente no selo Shanachie, distribuído pela MC-Mundo da Canção). “Ati t again” apresenta o duo num momento de inspiração, o que não acontecia no disco anterior, “Dublin Lady” no qual a veia criativa de Stewart tendeu para a composição de baladas que roçam a sonolência.
Nos melhores momentos e em melhores canções, como é o caso, o vocalista revela atributos suficientes para não o deixarem ficar mal quando comparado a Andy Irvine, com quem partilha semelhanças ao nível do timbre, textura e inflexões da voz. No seu novo trabalho a solo, inteiramente dedicado às canções de Robert Burns – “The Songs of Robert Burns” – alterna o melhor com o pior.
Em “Ati t again”, as composições do vocalista rivalizam com outras de Lunny e alguns tradicionais (interessante a recriação de “the haughs of Cromdale”, tão diferente, por exemplo, da versão dos Five Hand Reel, em “For ‘a that”). Em todas elas as vocalizações de Andy M. Stewart colocam em relevo os aspectos que mais o valorizam: o toque suave e caloroso do timbre, a flexibilidade tonal, as “nuances” que emprestam a temas como “The exile of Erin” uma originalidade que sabendo respeitar os “cânones” tradicionais, lhe conferem um cunho pessoalíssimo. O acompanhamento instrumental, composto por”uillean pipes” e “whistle” (Ronan Browne), rabeca (Charlie McKerran), teclados e acordeão (Donald Shaw) e “bodhran” (Damian Quinn), permite uma excepcional riqueza de arranjos que fazem de “Ati t again”, exceptuando o horror da capa, a obra até agora mais conseguida do duo. (8)