Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Danielle Dax – “Blast The Human Flower”

Pop Rock

3 ABRIL 1991
LP’S

DANIELLE DAX
Blast the Human Flower

LP / CD, Sire, distri. Warner port.

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Na frente da capa, luminosa, Danielle Dax tem olhos e cor de fada. No verso, o inverso – arma em punho, colar de balas, maquilhagem de negro e desespero, em pose de mulher habituada à escuridão. Imagens opostas definidoras de uma atitude ambígua perante o mundo. Danielle inclui-se naquela faixa obscura de cantoras marginais, nascidas da “new wave”, que não sabem muito bem para onde se hão-de voltar. Mas enquanto se deixa ficar no limbo das indecisões, consegue perturbar. Agita fantasmas e acorda outros. Professa uma religião estranha, segundo os ritos de um “rock’n’roll” cinzento e doentio atravessado por bizarras incursões de psicadelismo orientalizante (“Tomorrow never Knows”), versão do tema da dupla Lennon/McCartney, em espirais de “loop” próximas das de Brian Eno em “No one Receives” e o tema final “16 Candles”, sombrio e obsessivo à maneira dos Velvet Underground).
“Bayou” abre-se ao canto de criaturas nocturnas voando sobre ritmos tribais. O espectro dos Velvets e de Nico em particular assoma de novo em “Daisy”. “King Crack” destila veneno e violência por todos os poros e “Deadman’s Chill” faz enregelar a alma. Versão britânica, bem mais convincente, de Nina Hagen, Danielle Dax faz passar discretamente a mensagem: “Ao canto de cisne do planeta Terra/ maravilhamo-nos com um remédio bem simples/ pegar na roupa/ limpar a ardósia/ retirar calmamente a fina camada de ferrugem/ e fazer ir pelos ares a flor humana.” Perigosa, a senhora. ***

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Vários – “International”

Pop Rock

27 MARÇO 1991
LP’S

VÁRIOS
International

LP e CD, Mute, Ed. Edisom

varios

Não se trata da celebração de nenhum aniversário, mas tão-só de uma orgulhosa declaração de princípios e de uma afirmação de vitória. Compreendem-se os festejos, no caso desta editora independente inglesa, formada em 1978, que no curto espaço de 13 anos conseguiu competir, em termos de venda e penetração do mercado, com as suas companheiras mais velhas e abastadas.
Vocacionada para a música electrónica nas duas vertentes comercial e experimental, a táctica consistiu sempre, por um lado, em apostar na rentabilização de nomes como os Depeche Mode (e não Mod, como aparece escrito no rótulo interior), que hoje enchem os estádios americanos, os Erasure ou os recém-chegados Inspiral Carpets, e, por outro, na divulgação e lançamento de propostas mais radicais e obscuras, como são os casos paradigmáticos de Diamanda Galas ou dos Einstuerzende Neubauten.
A presente compilação opta pelo meio termo, procurando o justo equilíbrio entre o mais imediatamente apelativo (os temas dançáveis dos Fortran 5, “Crazy Earth” ou a recriação ao vivo dos Erasure, em “Push me, Shove me”) e o moderadamente experimental (o excerto retirado da ópera nacionalista dos Laibach – e não Laiback, como vem escrito…) “MacBeth” ou o estruturalismo pop samplado de Holger Hiller, com os Oh! Ho Bang Bang, em “The Three”). Pelo meio algumas ideias interessantes e tédios evitáveis. Interessante é o instrumental dos Depeche Mode, “Enjoy the Silence” na veia séria institucionalizada no “alter ego” Recoil, povoada de cordas sintéticas e melancolia futurista. Mark (e não Mar…) Stewart repete a brincadeira de “Fatal Attraction” (e não “attractional”…), à custa de toneladas de “samplers”, fatalmente atraído pela batida “I Feel Love”, de Donna Summer. Os Inspiral Carpets servem-se de “Sackville” para imitar Julian Cope acompanhado à guitarra. Engraçado o tema dos Wire, metronómico-minimais da pop electrónica fabril de “Drill”, como antes a tinham visionado os Cluster de “Zuckerzeit”. Nitzer Ebb parece querer homenagear o patrão da editora, Daniel Miller, nos tempos em que este, com os The Normal, gelava as pistas de dança com “Warm Leatherette”.
Nick Cave representa o seu habitual papel de “crooner” sombrio e estelar em “The Train” e os Crime & the City Solution divertem-se à grande com “I Have the Gun” de Woody Guthrie. Durante escassos minutos assomam fantasmagorias dub a 16 r.p.m. de “Pocket Porn”, invocadas pelos Renegade Sounsdwave (e não “soudwave”…). Chatos são os suecos Easy, com “Between John & Yoko” (já não há respeito?). Dispensável é também “Give me” dos A. C. Marias, uma “má viagem” da irmã mais nova de Julee Cruise. A Mute não é muda e diz de sua justiça. Cada cabeça sua sentença. •••



Doors, The – “The Doors” OST

Pop Rock

27 MARÇO 1991
LP’S

THE DOORS
Banda sonora de “The Doors”

LP e CD, Elektra, distri. Warner port.

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Deixem os mortos descansar. Por tudo e por nada se desenterram os ossos e se invocam as almas dos mártires do rock desaparecidos. Para Janis Joplin, Jimi Hendrix ou Jim Morrison, a paz não é eterna. Desta vez, o pretexto para a profanação é o filme de Oliver Stone, a estrear brevemente entre nós, sobre a vida e lenda do antigo vocalista e líder dos Doors.
Pretende-se reviver o mito e, de preferência, vendê-lo. Para não saturar, na capa, em vez dos originais, as cópias, isto é os actores, sósias satisfatórios de Morrison, Ray Manzarek, Robby Krieger e John Densmore. A música é quase toda ela excelente, como não podia deixar de ser. Quase e não toda, porque infelizmente a produtora, ou sabe-se lá quem, decidiu incluir nada menos do que cinco temas de “An Amercian Prayer”, que, como toda a gente sabe ou deveria saber, não se pode considerar propriamente um disco dos Doors, já que se trata de uma série de gravações de poemas (exceptuando o caso de “Roadhouse Blues”) gravados por Jim Morrison, a que Ray Manzarek acrescentou, a título póstumo, posterior acompanhamento instrumental. Com a agravante de, como é o caso gritante de “the movie”, fora do contexto visual, se perder muita da força que as imagens de Oliver Stone acrescentam à das palavras do poeta.
Para além da poesia do “rei lagarto”, a música e as interpretações inconfundíveis de “Break on through”, “Light my Fire” e “The End”, do álbum estreia de 1967, “The Doors”, “Love Street”, de “Waiting for the Sun” (1968) e “Riders on the Storm” e “L. A. Woman” do último álbum de originais “L. A. Woman” (1971).
“The Doors”, banda sonora não se dirige aos conhecedores e incondicionais do grupo, antes procura sensibilizar as gerações mais novas, dando-lhes talvez a conhecer pela primeira vez um nome que fez história há mais de vinte anos. Só nesse aspecto se pode considerar interessante um disco que, de outro modo, seria totalmente inútil. ••

aqui (FLAC)