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Jimi Hendrix – “Cornerstones, 1967-1970”

Pop-Rock 27.02.1991 – REEDIÇÕES


Lenda Viva

JIMI HENDRIX
Cornerstones, 1967-1970
LP, MC e CD, Polydor, Ed. Polygram



Hendrix parece que continua a fazer falta. Não cessam as reedições ou a descoberta de mais uma “take” abandonada na poeira de uma gaveta. “Cornerstones” limita-se a repescar da fase mais criativa do músico os temas que fizeram história: “Hey Joe”, “Purple Haze”, “All Along The Watchtower”, “Voodoo Chile (Slight Return)”, “Star Spangled Banner” ou “Room Full Of Mirrors”. Quem não tiver os álbuns originais não tem razões de queixa – a presente colectânea é de facto um “besto f” dos temas-chave do genial guitarrista.
Para quem não sabe, eis a história de cada um: “Hey Joe” foi gravada em 1966 pela Jimi Hendrix Experience da qual faziam parte o baixista Noel Redding e o baterista Mitch Mitchell. Dias antes de entrarem no estúdio tinham feito a primeira parte de um espectáculo de Johnny Halliday. O tema chegou ao quarto lugar nos tops da época. Outro clássico do mesmo período, “Purple Haze” evidencia experimentações electrónicas a que não é alheio o dedo de Roger Mayer, perito na matéria. “The Wind Cries Mary” foi o que restou de uma “jam session” de vinte minutos durante as sessões de “Purple Haze”. Bem trabalhado, deu para chegar ao nº 6 dos tops. “Foxy Lady” (do álbum “Are You Experienced?” completa o grupo de canções da primeira fase.
“Crosstown Traffic” tem a particularidade de Hendrix tocar piano e Dave Mason, dos Traffic, participar nos apoios vocais. Em “All Along The Watchtower” (um original de Bob Dylan), o mesmo Dave Mason toca guitarra acústica e Jimi ocupa-se do baixo. Outro dos grandes clássicos de Hendrix é “Voodoo Chile” (do duplo “Electric Ladyland”), editado em single após a morte do músico e única das suas canções que alcançou o primeiro lugar nas listas de vendas. Conta a lenda que depois de ter escutado o “playback” de “Have You Ever Been (To Electric Ladyland)”, Jimi Hendrix terá gritado: “Sei cantar! Sei Cantar!”
De “Star Spangled Banner” permanece na memória a imagem desolada de Hendrix à deriva entre os destroços do festival de Wight e o som convulsivo da guitarra, prenunciando o apocalipse próximo. Quando “Steppingstone” foi gravado, já Billy Cox tinha substituído Mitch Mitchell na bateria. O tema aparece no álbum póstumo “War Heroes”. Em “Room Full Of Mirrors” (já com a Bando f Gypsies), o músico toca “slide-guitar” com um anel. Steve Winwood e Chris Wood (mais dois Traffic) dão uma ajuda em “Ezy Rider”. Buddy Miles toca bateria. Completam a colectânea “Freedom”, “Drifting”, “In From The Storm” e “Angel”, representativos da fase derradeira (1970), todos incluídos no póstumo “Cry Of Love”.
Hendrix morreu mas a lenda continua bem viva, no fogo de outras cordas de guitarra. Jimi Hendrix – dos blues, do rock, da soul, do funk, do jazz, do psicadelismo, das baladas – tinha uma alma demasiado grande e demasiado sôfrega que queria beber toda a música do universo. Basta escutá-lo para se perceber que o conseguiu.
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James Brown & Friends – “James Brown & Friends” (vídeos | vhs)

Pop-Rock 27.02.1991 – VÍDEOS

JAMES BROWN & FRIENDS
James Brown & Friends
Music Club, distri. Anónima, 57 min.



Para os amantes da música “soul” este registo ao vivo das actuações de James Brown e alguns convidados muito especiais, no “Taboo Club” de Detroit, Michigan, em 1987, é uma peça de arquivo fundamental. Para todos os que não se incluem na categoria restrita atrás enunciada, funciona como um entretenimento agradável e apenas isso. Não há quaisquer efeitos especiais, para além daqueles eventualmente provocados pela audição da música. Um apresentador apresenta, como lhe compete. Os instrumentistas tocam, como se lhes pede. Os cantores cantam, como seria de esperar. Boa oportunidade para se recordar clássicos da “soul music” na voz de um dos seus expoentes – “Papa’s Got A Brand New Bag”, “In The Midnight Hour”, “When a Man Loves aWoman”, entre outros.
James Brown apresenta-se com o bom-gosto habitual: “smoking” prateado e reluzente, decotado até ao umbigo, cabelos cimentados de laca, penteados ao estilo Freddy-Mercury-de-peruca. À medida que os convidados vão chegando, a coisa aquece: primeiro Wilson Pickett, outro senhor da “soul”, seguido de Billy Vera e Joe Cocker, este para interpretar “When A Man Loves A Woman”. Robert Palmer (impecável, de barba bem aparada, gravata e fato completo, de corte irrepreensível) interpreta “Sugar & Spice” em dueto com Brown e, a solo, um dos temas que lhe deu fama e proveito, “Addicted to Love”, Aretha Franklin, decotada e dificilmente contendo dentro do vestido os excessos de adiposidade, dança um “slow”, agarradinha ao chefe Brown, e canta como só ela sabe. Por fim, juntam-se todos no palco para, felizes, cantarem em coro “Living in America”. E acabou. Muito para uns, pouco para outros. É como tudo na vida.
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Ambitious Lovers – “Lust”

Pop-Rock 27.02.1991 – LP’S


O Pecado Genial

AMBITIOUS LOVERS
Lust
LP, MC e CD, Elektra, distri. Warner port.



Depois da avareza (“greed”) e da inveja “envy”), os Ambitious Lovers voltam a pecar, desta feita incorrendo na falta da luxúria (“lust”). Por esta nova amostra, apetece dizer: pequem muito, pequem sempre. Os pecadores são Arto Lindsay e Peter Scherer. Há pouco gravaram um disco repleto de ambientalismos experimentais para a série de luxo belga Made to Measure. O disco chama-se “Pretty Ugly” e é excelente. Agora regressaram aos prazeres mais imediatos da canção e da dança. E de que maneira! “Lust” é fabuloso da primeira à última espira. Provoca emoções e empurra o pé para a dança. Excita o corpo e seduz a inteligência. Junta com todo o à-vontade os tropicalismos brasileiros, caros a Lindsay, à imaginação tecnodelirante de Scherer. Arto (guitarrista dos originais Lounge Lizards) é a palavra, inglesa e portuguesa, a alma calorosa aprendida no sertão. Peter compõe a música, arranja-a e mostra como o “sampler” e a electrónica, quando manejados, como é o seu caso, por mãos e cabeça que sabem, não têm realmente limites. Desde a bossa nova melancólica, que dá título e início ao disco, até à belíssima balada final para voz e piano, que o encerra (“É preciso perdoar”), o álbum faz desfilar uma sucessão de maravilhas diante do ouvinte extasiado. Há pormenores engraçados: Em “It’s Gonna Rain” e “Monster”, as entoações vocais de Lindsay lembram Annette Peacock (repare-se, por exemplo, na maneira como, em “Monster”, Arto canta os versos “Have you got the stamna / This is worse than non-fiction…”); os arranjos e produção de “Ponta de Lança Africano – umbabarauma” e o mesmo “Monster” recordam idênticas e luxuriantes operações levadas a cabo por Brian Eno em “Remain In Light” dos Talking Heads. Depois, não vale a pena fazer mais comparações nem buscar outras referências – o disco “agarra-nos” e submete-nos à ditadura do desejo e do prazer, fazendo jus ao título e à capacidades dos músicos. “Tuck it in” e, de novo “Monster”, já para não falar dos dois temas que contam com a participação de Nile Rodgers, são brilhantes exercícios de música de dança, excitante e inteligente. “Half out of it” é “technohousefunkyacidbody” experimental – Peter Scherer desmonta e volta a montar os esquemas rítmicos, fornece pistas, cada uma suficiente para compor nova canção, avança e recua ou as duas coisas ao mesmo tempo, enfim, o único adjectivo que se lhe pode e deve aplicar é, sem sombra de dúvida (ou de pecado), “genial”. Escute-se o “scratch” simulado em “Ponta de Lança” (composto por Jorge Bem), o “delay” cintilante do piano eléctrico em “More Light”, a maneira como enriquece cada tema com pormenores brilhantes de concisão e imaginação. Escute-se e pasme-se. Arto Lindsay escreve os textos e canta-os cada vez mais como se tivesse nascido brasileiro. Selva de estrelas. Selva de desejos. “Lust” exibe profusamente as marcas inconfundíveis que definem as obras ditas “primas”.
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