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The Beach Boys – “Summer Tracks – 32 Classic Tracks”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Na Capa

SONHOS DE UM DIA DE VERÃO
Artigo coletivo, em que FM escreve sobre Beach Boys

Imaginámos a banda sonora de um dia perfeito de Verão. Começa às oito da manhã e termina às duas da madrugada. Claro que você poderá prolongar o horário, mas não se esqueça de que está de férias, precisa de descanso, por isso não abuse. As sugestões são variadas, como seria de esperar, vão do clássico ao popular, passando pelo intemporal e o erudito. São, no fundo, a maneira mais simples de ouvir as melhores sonoridades sem ter que dar voltas à cabeça…


12 horas para sempre

SUMMER DREAMS – 32 CLASSIC TRACKS
BEACH BOYS
Capitol



Evidente. Luminoso. Nem de propósito. A recente edição deste duplo álbum, contendo a grande maioria dos temas dos rapazes da praia que foram êxito na década de 60, vem recordar novamente duas coisas: o génio de Brian Wilson, confirmado como um dos mais inspirados compositores de sempre de melodias pop perfeitas, e a intemporalidade de uma música que mantém eternamente vivo o espírito do Verão. Brian descobriu o elixir da juventude. Ao som de “Fun Fun Fun”, “Wendy”, “Heroes and Villains”, “Surfin’ USA”, “Sloop John B.” e das eternas “Good Vibrations” (considerada por muitos a maior canção pop alguma vez escrita), o tempo para. Nada mais na nossa vida senão o mar, o sol e as longas horas em que o pensamento foge para lá do horizonte. Aquelas harmonias a quatro vozes permanecem connosco num lugar muito escondido, cheio de luz. Quantas vezes as cantámos? Quantas mais as voltaremos a cantar?

Squeeze – “A Round and A Bout”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Programas


SQUEEZE
A Round and A Bout
IRS, dsitri. EMI / Valentim de Carvalho – Venda Direta



Do ponto de vista artístico, não se vislumbra o interesse de edições como esta. Uma banda a tocar ao vivo, câmaras quase estáticas, inexistência de efeitos visuais tornam o termo “video art” pouco menos que utópico. Neste caso concreto são os Squeeze, como poderiam ser quaisquer outros. Sim, já se sabe, são objetos que integram as estratégias promocionais das editoras, mas, que diabo, não é demais exigir um mínimo de imaginação e criatividade, de maneira a tornar o estratagema menos ostensivo. Assim, somos confrontados com os rapazes tocando, cheios de empenho, músicas dos discos mais recentes. Os fãs são capazes de cair no logro, sensíveis ao apelo de ver os seus ídolos no ecrã, mas valerá a pena? E ao crítico, quem o reconforta e recompensa do esforçado penar a que a visão do produto obriga? Os danos morais e psicológicos? O cansaço espiritual, o desalento?
Os Squeeze não têm culpa, coitados. Limitam-se a cumprir o seu papel. Sem rasgos, com a competência que se lhes reconhece. Glenn Tilbrook e Chris Difford formam uma dupla competente na composição de apelativas melodias pop, não muito profundas, mas que se colam imediatamente ao ouvido. Não era afinal esse também o maior talento de uma certa dupla formada aqui há anos, lá para os lados de Liverpool? A única diferença reside na distância entre o génio e a competência, a inspiração e a habilidade. Também se costuma compará-los (os Squeeze) aos Kinks e a Ray Davies, mas ainda aqui, os discípulos têm muito que aprender até chegarem aos calcanhares dos mestres. Elvis Costello admira-os sem reticências. Produziu-lhes o álbum “East Side Story”. “Is That Love?” foi uma canção que, na época, não nos largou. São coisas que acontecem, melodias que não se esquecem.
Separaram-se em 1982, para se reunirem, novamente, no ano passado. A pop, neste caso, não ficou a perder. Quanto ao vídeo, estamos conversados.

Vários (Wes Montgomery, Terje Rypdal, John Abercombie, Pat Metheny) – “Lugares Distantes” (Dossier | ECM | Discoteca | artigo de opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Pop

A DISCOTECA

LUGARES DISTANTES

São três guitarristas e gravam normalmente para a ECM. Por muito que os seus caminhos por ali se tenham cruzado, cada qual parte para novas aventuras – para chegar a outras músicas, outras paragens, em que o jazz é apenas um pretexto.



Norueguês, 42 anos, admirador do lendário Wes Montgomery, um imenso e insuspeito currículo feito de incursões por territórios afastados e aparentemente inconciliáveis: o jazz, a música contemporânea, o classicismo romântico, mesmo o rock de tonalidades “hard”. Na ECM encontra-se grande parte destes trabalhos. O duplo “Odyssey” deu-lhe fama de contemplativo, propenso à introspeção e a um esteticismo marcado pelas imensidões geladas do país dos fiordes. “After the Rain” parecia dar razão àqueles que persistiam em ver nele apenas o guitarrista de sonoridade “String ensemble”, por vezes mesmo comparada à de Mike Oldfield, compositor de harmonias e melodias sustentadas por um lirismo pouco dado a fraturas rítmicas e temáticas. Álbuns como “Wave” (com o trompete de Palle Mikkelborg) e aqueles que recentemente gravou com o grupo The Chasers obrigaram à reformulação destes conceitos.

O fogo do espírito

“Undisonus/Ineo” (ECM, distri. Dargil) insere-se na vertente clássica do músico, que aqui não participa como intérprete. Nada de guitarra, portanto. Duas composições, como o genérico refere. “Undisonus” (op.23), em três andamentos, para violino e orquestra, composta entre 1979 e 1981. Terje Tønnsen, o instrumentista solista, acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Londres, dirigida por Christian Egsen. “Ineo” (op.29), dividida em quatro andamentos: “Ineo”, “Lux”, “Memini” e “Adeo”, para as vozes corais do Grex Vocalis e a orquestra de câmara The Rainbow Orchestra, dirigida pelo mesmo maestro.
Terje Rypdal é um compositor prolífico. Só em “opus” já vai em 48, o último dos quais intitulado “The Big Bang”. O disco agora em análise confirma as suas capacidades neste campo, através da criação de uma música aberta aos grandes espaços e possuidora de uma intensidade dramática por vezes próxima da pungência mahleriana. Aparentemente serena na forma, avança em crescendo de tensão, através do emprego específico das cordas (nomeadamente os violoncelos e o baixo) e dos sopros, como massas sonoras poderosas, correspondentes ao telurismo da natureza. Pairando sobre o turbilhão elemental, o violino angustia-se, foge, investe, sussurra e grita, voz humana questionando o infinito. Música do fogo (o violino), da água (nos reflexos e cintilações da harpa fluindo como um rio) e da terra. Música do homem e do mundo primordial.
Do outro lado, “Ineo”, a ascese, o fogo transformado em espírito, elevando-se para as alturas libertadoras, até chegar ao céu. Sublimação das pulsões do corpo na voz coletiva da humanidade inteira. Maior contenção no volume, um júbilo subtil. Demanda de Deus. Na grande arte inventa-se o destino, deposto aos pés da eternidade.
“Undisonus/Ineo” transporta o misticismo de anteriores obras até às dimensões da religiosidade pura, que, na mesma editora, só encontra paralelo no total despojamento da trilogia “Tabula Rasa/Arbos/Passio” de Arvø Part. Ambos perseguem o sublime.

Academismo

John Abercrombie mantém-se fiel a uma sonoridade que fez escola na ECM. Em “Animato” apresenta na companhia de Vince Mendoza (nos sintetizadores e compositor da maior parte dos temas) e de Jon Christensen (na bateria e percussões). Reconhece-se a técnica irrepreensível, o bom gosto dos arranjos, mas não se confunda o belo com o bonito. Beleza, encontramo-la no disco de Rypdal, cores e sons agradáveis ao ouvido, no de Abercrombie. Falta-lhe o génio que torna irrelevantes todos os academismos. “Animato” é um disco académico, quando opta pela segurança de um estilo mantido a níveis qualitativos aceitáveis mas incapaz de reservar já qualquer surpresa ou transgressão. O que se torna irrelevante para os indefectíveis da editora.

As virtudes do trio

“Question and Answer” (Recycle, distri. WEA) é uma grata surpresa. Pat Metheny parece ter recuperado bem das inenarráveis concessões feitas ao comercialismo mais baixo, com que se distinguiu no ano passado no execrável “Open Letter”. Neste novo disco, chamou dois músicos fabulosos: o baixista Dave Holland e o baterista Ray Haynes. A gravação processou-se como se de uma “jam session” se tratasse – oito horas no estúdio, sem ideias preconcebidas, apenas o prazer de tocar, de ouvir e responder. E o deleite de quem assiste e frui a imensa riqueza de pormenores, de soluções tímbricas e harmónicas que o trio desenvolve ao longo de nove temas, em que o jogo de grupo prevalece sobre as ações individuais. Pat Metheny revela aqui até que ponto soube assimilar as influências que se lhe reconhecem – Wes Montgomery, sempre, Jim Hall, Gary Burton, Ornette Coleman, Miles Davis, dando-lhes um cunho pessoal inconfundível. Inesquecível a abordagem do tema de Miles que abre o disco, “Solar”, bem como de “Law Years”, de Ornette. Só escutando se torna possível distinguir a gama infinita de soluções rítmicas de Haynes que, sem nunca repetir uma frase, uma acentuação, mantém, contudo, a solidez necessária ao desenvolvimento harmonioso do todo. Quanto a Dave Holland, basta referir que a sua prestação é um contínuo solo, inesgotável no duplo papel de suporte e estimulador dos outros instrumentos, fluxo assombroso de ideias que se interligam e constantemente se renovam. Aqui se reitera a opinião de que Pat Metheny, sendo embora um compositor apenas competente, se transfigura quando integrado em formações instrumentais, ou em contextos formais suscetíveis de o colocarem em situações de interação musical deslocadas do seu “approach” habitual. Seja nas peças de Reich, ou na companhia de Sonny Rollins e Ornette, é sempre em situações de diálogo e confronto que as suas capacidades se revelam ao mais alto grau.
“Question and Answer” vem repor as velhas questões sobre o papel determinante da interpretação sobre a composição. Sendo esta, em última análise, sempre improvisação. Criatividade solta no instante, com Metheny, sempre partilhada.