Arquivo da Categoria: Céltica

Pierce Turner – “Now Is Heaven”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 05.06.1991


PIERCE TURNER
Now Is Heaven
LP / CD, Beggars Banquet, distri. Ananana



Começou apadrinhado por Philip Glass e logo se lhe adivinharam tendências minimalistas para a feitura de óperas, que decerto superariam quaisquer “Einsteins na Praia”. Falso alarme. Pierce Turner aprecia sobretudo uma boa canção, de preferência nostálgica, sugerindo origens célticas e apetências melódicas insuspeitáveis. Nada de genial, mas suficientemente agradável para não se lhe voltar as costas. Na modesta opinião do crítico, por natureza voltado para as franjas, digo, tranças, mais radicais da música actual, “Now Is Heaven” oscila entre os arranjos Pet Shop Boys da abertura ou de “Zero here”, as baladas imediatamente referenciáveis à tradição irlandesa, e o inacreditável “rap” em câmara lenta que é “Sunday Night Yap”. Pierce Turner navega por águas musicalmente mornas. Não é o mesmo que “águas mortas”. ***

Vários – “Música Das Terras Altas” (mundo da canção)

Pop-Rock / Quarta-Feira, 01.05.1991


MÚSICA DAS TERRAS ALTAS



“O Porto é um mundo” – dizem os que lá vivem. É bem verdade. E dentro desse mundo há a Mundo da Canção, importadora e distribuidora portuense vocacionada para as músicas menos imediatistas, nomeadamente o jazz, a contemporânea e a tradicional. Sobretudo neste último campo, tem sido exemplar o trabalho empreendido pela Mundo da Canção, representante entre nós de catálogos importantes que abrangem grande parte do périplo celta, como é o caso das editoras Temple (escocesa), Hannibal (inglesa), Claddagh (irlandesa) ou, mais recentemente, a Edigal (galega). Portugal, é óbvio, tem estado presente nos projectos da casa. Refira-se, como exemplo, que “Terreiro das Bruxas”, segundo e excelente álbum dos Vai de Roda, editado pela UPAV, muito deve, em termos de apoio e divulgação, aos esforços empenhados dos responsáveis da Mundo da Canção. De raiz mais étnica são os álbuns “Terra do Marão”, pela tuna O Toque de Carvalhais, e o volume seis da série Música Tradicional, “Terra de Miranda”, ambos editados no selo madrileno Saga e distribuídos pela Mundo da Canção. “Terra do Marão”, com produção, coordenação e investigação a cargo de Salustiano Lopes e António Tentúgal (mentor dos Vai de Roda), recolhe temas tradicionais de Carvalhais, freguesia de Louredo, concelho de Santa Maria de Penaguião, distrito de Vila Real, na fronteira das províncias de Trás-Os-Montes e Ato Douro, em plena serra do Marão, interpretados pela tuna da aldeia. As tunas são conjuntos instrumentais populares de cordas e sopros, ao “serviço da música de feição meramente profana”, cujos elementos “lutam contra os ‘altifalantes’ que lhes abafam completamente os instrumentos e as mentes”. A de O Toque de Carvalhais toca a música da serra e da aldeia que “jaz aos pés do monstro, situada num dos seus fossos mais profundos”. De Carvalhais, onde “ao crepúsculo de um dia de sol melhor se vê a silhueta da mulher deitada na serra”. “Terra de Miranda” recupera o dialecto mirandês, os instrumentos artesanais e as vozes rudes de homens e mulheres cujos corpos e almas se confundem com a própria matéria de que o mundo é feito. Nos lugares de Póvoa, Duas Igrejas, Constantim e Paradela. Escutar as melopeias e cadências ancestrais transmontanas é sentir a vida a fluir, pulsando ao ritmo das gaitas e dos bombos. É sentir o sabor do sangue.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #116 – “BRASIL e GALIZA () Dois grandes álbuns (FM)”

#116 – “BRASIL e GALIZA () Dois grandes álbuns (FM)”

Fernando Magalhães
19.06.2002 170522
Ouvidos ontem, ambos me deixaram entusiasmado.

Do Brasil:

FRANCIS HIME: Choro Rasgado (ed. Biscoito Fino)
Classicismo do mais puro. Bossa-nova, samba, choro. Uma tristeza belíssima, a contrastar com os dias de sol que atravessamos. Instrumentais complexos (entre o ambiente dos “Dias da Rádio” e algumas das equações Recommened – a sério!) alternam com canções de uma delicadeza extrema, do agrado decerto, dos apreciadores de Tom Jobim ou João Gilberto.

Da Galiza (creio eu, embora o texto da capa não esteja escrito em galego, são muiñeiras, mas também uma quantidade de composições assinadas pelo próprio…):

FLAVIO BENITO: Mara (ed. Fonomusic)
Um novo portento da gaita-de-foles, capaz de fazer frente a Carlos Nuñez, Budiño, Bieito Romero, etc…
Benito é um inovador, tocando em escalas pouco habituais e com um fraseado também muito “sui generis”. As canções, vocalizadas por uma cantora (ainda não me dei ao trabalho de ver o seu nome…), também são muito boas. Escreverei em breve sobre este álbum, um “must” caído de surpresa no panorama folk deste ano.

FM