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Can – “Canibalismo – 2ª Parte” (dossier | artigo de opinião)

BLITZ 3 OUTUBRO 1989 >> Valores Selados


CANIBALISMO
2ª PARTE


Depois de uma série de obras magistrais, «Saw Delight» marca o início da decadência. Holger Czukay, peça essencial no xadrez Can, abandona o grupo. Para o seu lugar entra Rosko Gee acompanhado do percussionista Rebop Kwaku Baah, ambos vindos dos Traffic. Com a saída de Czukay perdia-se para sempre o lado genial e excêntrico, ao mesmo tempo que se desfazia uma das melhores secções rítmicas de sempre da música popular contemporânea. A posterior obra a solo de Czukay viria a confirmá-lo. Este senhor de bigode e já entradote em anos era e continua a ser o experimentador e inovador por excelência. O génio incompreendido que transporta às costas o pesado fardo de fazer avançar a música do nosso século. «Saw Delight» é a antiapoteose; «Animal Waves» é o requiem final de despedida nostálgica da antiga magia, quinze minutos de derradeiro transe africano. Anos mais tarde o continente negro voltaria a reclamar em força os seus direitos. O grupo gravou ainda «Out of Reach», título premonitório das exéquias finais. Os Can foram dados oficialmente como extintos. A sua música continua porém a ser fonte inesgotável de inspiração para os músicos e grupos das novas gerações.


Lisboa decadente

Ainda vieram a Lisboa tocar no célebre concerto do Pavilhão dos Desportos, aquele que, para a história da música ao vivo em Portugal, ficou para sempre conhecido como o dia de glória dos portuenses Arte e Ofício. O público aplaudira a banda de Sérgio Castro e vaiara os germânicos que nem tiveram tempo de aquecer. Histórias para esquecer.
Os quatro músicos da formação essencial seguiram cada um o seu caminho. Com maior ou menor sucesso, nenhum deles deixou ficar mal o grupo-pai.

Guitarras, romantismo e batucadas

O teclista Irmin Schmidt foi o mais discreto. Gravou uma série de álbuns com música de filmes, todos intitulados «Filmmuzik», divididos em vários volumes. O melhor é o duplo que inclui os volumes 3 e 4. Dois temas vocalizados ao nível dos melhores de sempre dos Can: «She Makes me Nervous» e «Mary in a Coma», com a participação do fabuloso percussionista Trilok Gurtu. O resto é música instrumental, ultra-romântica, descritiva, essencialmente à base de piano. Schmidt é uma espécie de Wim Mertens mais robusto e rebuscado. Fez ainda parte do projeto Toy Planet, com o saxofonista Bruno Spoerri. O único álbum gravado oscila entre a eletrónica ambiental e alguns ritmos mais dançáveis. O guitarrista Michael Karoli gravou um excelente álbum «Deluge», de parceria com Polly Eltes, uma menina de voz sensual, entre Annette Peacock e Laurie Anderson. A guitarra de Karoli permanece mais metálica e incisiva do que nunca.
Quanto ao percussionista Jaki Liebezeit, o seu caso é surpreendente. Formou os Phantom Band, já com meia dúzia de álbuns no ativo. São os continuadores encartados do som típico dos Can. Mais eletrónicos e bem-humorados que o original. Também mais experimentalistas. Ritmos acústicos e sintéticos, vozes hilariantes, temas superinspirados, fazem de «Nowhere», quinto disco de série, um disco essencial, indispensável não só para os incondicionais da família canibal. Registe-se ainda a participação de Liebezeit na obra-prima «Before and after Science» de Brian Eno.

Um excêntrico de génio

E eis-nos chegados a Holger Czukay, o maior entre os maiores. Czukay foi o pioneiro de muita coisa. Muito antes do aparecimento dos milagrosos samplers já ele se dedicava a entrecruzar sons das mais diversas origens. Com meios artesanais e enormes doses de paciência e de talento. «Canaxis», gravado em 68 e originalmente editado no ano seguinte, é o seu primeiro disco a solo, gravado unicamente com o baixo e cassetes pré-gravadas. Em «Boat Woman Song», a voz de um cantor vietnamita sobressai de um fundo de baixo e música medieval. Brilhante.
«Movies», de 1979, é o extraordinário antecessor de «My life in the Bush of Ghosts» da dupla Eno/Byrne. «Oh Lord Give us More Money» ou «Persian Love» são verdadeiros tratados na arte da colagem sonora.
«On the Way to the Peak of Normal», terceiro a solo, é o único disco que nunca consegui ouvir. Quem o conhece afirma estar a nível dos restantes. Acredito plenamente. O seguinte, «Der Osten ist Rot» («O Oeste é Vermelho») de 84, é o disco mais heterogéneo da sua discografia. Canções pop, Rap, música concreta, interlúdios ambientais e uma delirante paródia ao hino nacional chinês, fazem deste disco uma espécie de cartilha de todas as direções musicais exploradas pelo músico. «Rome Remains Rome» de 87, último até à data, é formalmente o seu disco mais tradicional. Os Blues e o reggae filtrados pela excentricidade do mestre. E uma ironia e humor constantes. Como em «Perfect World» ou «Blessed Easter» em que Czukay põe o pop star Wojtyla a cantar uma homilia em ritmo de blues, acompanhado por um grupo de freiras swingantes. O Vaticano não voltará a ser o mesmo.
Holger Czukay tem colaborado um pouco com toda a gente importante da música inteligente atual. Jah Wobble, Brian Eno, o duo alemão Cluster e David Sylvian são alguns dos músicos que com ele tiveram o privilégio de trabalhar. «Flux + Mutability», segundo da sua colaboração com Sylvian, foi recentemente editado e já se encontra entre nós, via importação. Já o ouvi e é excelente. Sobretudo o primeiro lado, uma continuação mais sofisticada das premissas estéticas enunciadas em «Canaxis».
Dos Can e dos seus quatro principais membros se poderá dizer que fizeram e ainda fazem História. O futuro da música continua a passar pela sua inspiração. Infelizmente hoje os canibais são outros, bem diferentes e sobretudo mais perigosos. Para a semana, Christian Vander e os Magma.

Kraftwerk – O Admirável Mundo Novo

BLITZ

3.4.90

KRAFTWERK

«I Sing the Body Electric»
Ray Bradbury

Bip Bip Bip. Boing Boom Tschak. A beleza da música dos alemães Kraftwerk é a beleza da electricidade em estado puro. A harmonia da informação circulando livremente através dos chips de circuitos integrados. O classicismo digitalizado. A herança elegante de uma Europa crepuscular rendida à imagem requintada da despersonalização e da indiferença. Ralf Hutter, Florian Schneider, Wolfgang Flur e Klaus Roeder são as quatro máscaras humanas para um rosto que deixou de o ser. Manequins de gesto suspenso sobre a imobilidade gelada do Tempo aprisionado. Save. Enter. Return.

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

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É costume considerar os Kraftwerk como os precursores de quase todas as principais inovações relativas às técnicas de estúdio. O «Disco Sound» ou o «Rap» proclamam-se devedores das manipulações sonoras levadas a cabo pelos quatro homens de Dusseldorf. Estes não confirmam nem desmentem, limitando-se a gravar discos, sem fazer grandes ondas e alargando com cada um deles as fronteiras do que se convencionou na generalidade designar por «música electrónica».
Hutter e Schneider, os fundadores da banda, encontraram-se em 1970 no Conservatório de Música de Dusseldorf, uma das cidades mais industrializadas da Alemanha, e formaram os Organisation. Sob esta designação foi editado o álbum «Tone Float», gravado e produzido por Conny Plank numa refinaria de petróleo da cidade. No mesmo ano nascem os Kraftwerk que gravam no ano seguinte o álbum estreia «High Rail», com o selo Philips. No ano seguinte a Vertigo reúne estes dois discos num duplo intitulado simplesmente «Kraftwerk», infelizmente há já alguns anos fora do mercado. Na sua fase inicial a música do grupo conciliava as explosões de metal, o minimalismo e a música concreta com um lirismo exacerbado tão caro ao Romantismo alemão. Grupos como os Einstuerzende Neubauten, Test Dept., ou os primeiros SPK deverto que ouviram e aprenderam muito com este disco seminal.
O álbum seguinte, «Ralf and Florian», de 83, prossegue a mesma via, com temas fabulosos como «Eletrisches Roulette», à beira da esquizofrenia, a dança metálica de «Tanzmusik» e os catorze minutos planantes, cristalinos e tropicais de «Ananas Symphonie».
Em 74 os Kraftwerk passam a quarteto, com a inclusão de Klaus Roeder e Wolfgang Flur, respectivamente no violino e guitarra e nas percussões electrónicas. É com esta formação que gravam, no mesmo ano, a obra-prima «Autobahn», um dos melhores discos de sempre de música electrónica. O primeiro lado é ocupado na totalidade pela faixa do mesmo nome, uma «trip» psicadélica-automobilística, só ao alcance das auto-estradas e das cabeças teutónicas. Sem despistes e com as mudanças engatadas sempre na altura exacta. Nunca os sintetizadores, «Vocoders« e «sequencers» tinham andado a tanta velocidade. O Futuro tinha começado. Do outro lado do disco o fogo-de-artifício sonoro em duas deslumbrantes versões de «Kometenmelodie». Surpreendentemente as rádios americanas e inglesa tocam uma versão mais curta de «Autobahn». O single e o álbum alcançam todos os Tops abrindo caminho para a vaga do «Eurodisco», com Giorgio Moroder à frente. «I Feel Love» é a voz de Donna Summer aobre um plágio grotestco dos ritmos robóticos dos alemães. Curiosamente este tema tem sido «samplado» pelas novas bandas até à exaustão. O Tempo é cada vez mais uma ilusão.
Em Outubro de 75 Karl Bartos (percussão electrónica) substitui Roeder, ficando assim constituída a formação que até à data se mantém inalterável. No mesmo mês os Kraftwerk abandonam a Philips/Vertigo e formam a sua própria editora a Kling Klang, distribuída pela EMI. Ainda em 75 é publicado o LP «Rádio Aktivitaet», versão original alemã de «Radio Activity» que sai em Inglaterra no ano seguinte. «Radio Activity» é o álbum mais fraco da banda, versão turístico-infantil da estética futurista. A simplicidade de meios, propositada ou não, e letras pueris à beira do imbecil tornam a audição do disco apenas divertida. Destaque mesmo assim para o título-tema «Radio Activity» e «Airwaves», dançáveis e irremediavelmente coláveis aos ouvidos.
1977 é o ano de «Trans Europe Express», dos manequins-réplicas em palco e do retorno à boa forma. «Trans Europe Express», «Metal on Metal» ou «Franz Schubert», metálicos, gelados e repetitivos são paradigmáticos e proféticos da «Cold Wave» que se avizinhava. Mais uma vez os Kraftwerk ditavam as leis, escrupulosamente seguidas pelas gerações futuras.
«The Man Machine» aparece no ano seguinte levando ás últimas consequências todas as anteriores premissas estéticas e ideológicas do grupo. O factor humano cede definitivamente ao factor máquina. O álbum abre com «The Robots» e fecha com «The Man Machine». «Spacelab», «Metropolis», e «Neon Lights» são imagens de um filme fantasmático sobre cidades percorridas por sonâmbulos, ecos de «slogans» cibernéticos e neons deslumbrantes. O filme pára. A realidade é eléctrica. A luz torna-se branca. E fria.
«Computer World», de 81, é mais humano ou talvez não consoante a perspectiva. Em «Pocket Calculator» os Kraftwerk utilizam o som de uma calculadora electrónica de bolso. «Numbers» é a Torre de Babel do Novo Mundo reduzido a acções de compra e venda, números e mais números soletrados em diversas línguas sobre um ritmo implacável de máquinas em sintonia. A realidade é matemática, rigorosa, previsível e programável. «Computer Love», bits em forma de coração, «I-L-O-V-E-Y-O-U» repete a voz sintetizada enquanto a mensagem vai piscando no monitor. «Home Computer», «It’s More Fun to Compute» e as máquinas continuam a dançar.
«Tour de France», como o nome indica, é dedicado à célebre prova velocipédica e aparece no filme «Breakdance» (!).
Finalmente, em 86, a EMI edita «Electric Cafe». Os Kraftwerk atingem com este disco o ponto de plenitude em que a superficialidade e o desprendimento se confundem com o sublime. O humor surge radioso no fim e do alto da tragédia há sempre um sorriso irónico e distante. «Techno Pop» é o estado actual da música Pop massificada, reduzida a sons empacotados e prontos a vender em supermercados. «The Telephone Call», a conversa telefónica unilateral com uma gravação que insiste em dizer que aquele número foi definitivamente desligado. «Sex Object», de novo os bonecos-fétiche de carne e osso. Palavras vazias, repetidas, destroçadas. Séc. XX ou XXI, já nada faz sentido ou tudo faz simultaneamente todos os sentidos. Todas as coisas, todos os sons, Electricidade, «Electric Cafe», sintético, sonoro, nuclear, infinito, finito, circular, sintético, sonoro, «Musique Non Stop» – «Techno Pop».

The Mix, aqui



No Secrets In The Family – “Play Strange And Laughter”

BLITZ

6.3.90
ESCAPARATE

NO SECRETS IN THE FAMILY

«PLAY AND STRANGE LAUGHTER»

no

Raros são os discos da Recommended Records que não alcançam a classificação de pelo menos «Muito Bom». A explicação para tal facto é simples: os critérios prevalecentes na estratégia editorial (desde a feitura da capa até aos últimos retoques de produção) regem-se exclusivamente pela qualidade e originalidade genuínas, ou seja, não há cedências de qualquer espécie. Parece fácil? Até é. Quando os objectivos não se resumem à obtenção de lucros a todo o custo.
A Rec Rec é uma editora suíça, subsidiária da sua congénere britânica e cuja totalidade do catálogo não foge à regra, isto é, vale a pena comprar todos os seus discos. Nomes importantes não faltam: os britânicos Camberwell Now (de Charles Hayward) e Skeleton Crew (de Fred Frith e Chris Cutler); o próprio Frith a solo, os franceses Etron Fou Leloublan (mais álbuns a solo dos seus membros Ferdinand Richard e Guigou Chenevier) e Nimal, os suíços Débile Menthol, os americanos Orthotonics, Negativland e Red Crayola ou os nipónicos After Dinner (cujo último álbum, aqui criticado, é de 89 e não 84, como por gralha saiu publicado), incluem-se no catálogo de luxo da editora.
Os alemães, ou suíços, ou austríacos No Secrets in the Family fazem parte da última fornada, juntamente com o mais recente dos germano-suíços Unknownmix («Whaba»), o já citado dos After Dinner («Paradise of Replica») e a estreia dos No Safety («This lost leg», com Zeena Parkins e Pippin Barnett).
Com os No Secrets salta imediatamente à vista (ou ao ouvido) aquilo que constitui regra de ouro em todos os «produtos» Recommended: a excelência técnica de todos os músicos envolvidos. Claro que não basta, mas também (regra n.º 2) só grava na casa quem, para além de saber tocar impecavelmente, seja ainda melhor compositor e arranjador e consiga ainda por cima ser original. É o caso destes No Secrets in the Family, liderados pela família Schonholzer: Annette (voz, sintetizador, órgão de pedais e melódica) e Markus (voz, guitarra e melódica). Os dois restantes membros são Daniel Meienberger (baixo, ukelele e voz) e Martin Gantenbein (bateria, flautas, saxofone, acordeão e voz).
Presentes ainda alguns convidados em violino, violoncelo, fagote, tuba e oboé.
Um dos trunfos da banda é possuir nas suas fileiras duas excelentes vozes, as de Annette e Markus, filiados nas escolas de Dagmar Krause e David Thomas (o gordo), respectivamente. Um dos outros vocalistas lembra outro excêntrico: David Garland (de «Control Songs» e «Worlds of Love»).
Mas é ao nível das composições que levantam voo: canções simultaneamente complexas e acessíveis, arranjadas com um bom-gosto inexcedível. Ao todo são dez, incluindo uma versão surrealista de «Que Sera Sera» e uma letra inspirada num texto de Chesterton («The Ballad of Suicide»).
«Play and Strange Laughter» é um disco a não perder. Quando por esse mundo fora se vão publicando dezenas de óptimos discos como este, porquê perder ainda tempo com o lixo que, metodicamente e com a cumplicidade dos «media», vai saturando e envenenando o mercado?
O rótulo «Música alternativa» serve, neste como noutros casos, para lembrar que vale a pena fazer desvios e arriscar no menos óbvio.
O portal Rec Rec é uma das entradas possíveis no imenso e luxuoso palácio da Recommended. Franqueá-lo é ter acesso ao paraíso.
(LP Rec Rec, Import. Contraverso, 89)

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