Arquivo da Categoria: Avant-Rock

Holger Czukay – “Radio Wave Surfer”

Pop Rock

1 MAIO 1991

HOLGER CZUKAY
Radio Wave Surfer

LP/MC e CD, Virgin, distri. Edisom

hc

Distantes vão os tempos de obras mestras como “Movies”, “On the Way to the Peak of Normal”, “Der Orsten ist rot” ou “Rome Remains Rome”. Mais ainda, a época áurea dos Can, de “Monster Movie”, “Tago Mago”, “Future Days”, “Ege Bamyasi” e “Soon Over Babaluma”. Holger Czukay, veterano com ar de avôzinho louco, é danado para a brincadeira. Entre outras proezas, pôs o Papa a cantar blues. “Radio Wave Surfer” prossegue a via de “Rome Remains Rome” para desembocar num beco sem saída. Aquilo que nesse álbum surpreendia (o humor, o inusitado das colagens – culminando no tal blues papal, o swing instrumental) e lhe conferia uma aura de inspirada excentricidade apagou-se numa sombra pálida e desfocada. Restam os truques, aqui circunscritos à habitual pilhagem radiofónica das já banais “vozes búlgaras” ou à monotonia declamatória do vocalista Sheldon Ancel, e os tiques de Jaki Liebezeit e Michael Karoli (dois ex-Can), reduzidos à vulgaridade. Parece mentira, mas “Radio Wave Surfer” tem tanta energia e desperta tanto interesse como uma velhota a fazer “tricot”. O avô Czukay está cansado ou é mais uma partida? **



F. M. Einheit – “Stein”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

CORAÇÃO DE PEDRA

F. M. EINHEIT
Stein

LP e CD, Some Bizarre, import. Contraverso/Bimotor

fmeinheit

“Vamos acabar com isto de vez”, era até há bem pouco tempo o lema dos niilistas berlinenses Einstuerzende Neubauten. “Isto” significa o mundo e a sociedade em geral, e a música em particular, que a banda de Blixa Bargeld parecia especialmente empenhada em destruir, à custa de golpes de serra eléctrica e martelo-pilão. A música resistiu estoicamente aos ataques destes assassinos em potência que, pelo meio, gravaram discos excelentes, como recente “Haus der Luege” faz questão de provar. Menos radical que Blixa parece ser F. M. Einheit, um dos pilares da banda germânica, decidido a experimentar novos caminhos e sonoridades menos próximos do apocalipse sónico característico do colectivo.
Não que Einheit se mostre interessado em investir no campo oposto, em suavidades ou tentações melódicas, aqui de todo ausentes. Pelo contrário, é ainda e sempre a violência que faz valer os seus direitos, apoiada no ritmo, por vezes avassalador, ou nas potencialidades tímbricas do ruído, às vezes mesmo na exploração do espectro sonoro, como as frequências de “Hafen”, vibrando nos limites do audível.
Onde “Stein” (pedra) se afasta da estética Neubauten é na recusa da carnificina, do caos, da pistola encostada à testa, tão ao gosto de Blixa, o perverso, optando em vez disso por registos mais controlados mas não menos perturbantes. A própria panóplia percussiva geralmente utilizada pela banda (bidões, peças de metal, objectos vários) desvaloriza-se em detrimento das programações rítmicas do computador – maquinismos automáticos implacáveis que alguém se esqueceu de desligar.
“Stein” começa por surpreender: “Educação” (cantado em português sem sotaque abrasileirado, por uma tal Katharina Franck que ou nos enganamos muito, ou terá uma costela lusitana) pretende ser um exercício de funk com botas marciais a que as palavras estrangeiras acrescentam um toque de exotismo. Para nós, “portugas”, soa mais a Adelaide Ferreira numa “soirée” ao lado dos DAF. No capítulo das (escassas) participações vocais, registam-se ainda as presenças da fantasma da ópera Diamanda Galas, em “Hymne (Witch burn)” e de Blixa Bargeld, em “Homeless”.
O resto de “Stein” desenvolve-se em sombrias incursões por universos rítmicos computorizados onde as únicas vozes que se fazem ouvir são as dos samplers, sejam as de multidões fanáticas urrando ao apelo hitleriano (“Das Ende einer Diskussion”), ou de uma criança balbuciando que “Batman brät Fische”.
Caspar Brӧtzmann (filho do expoente do free jazz Peter Brӧtzmann) e Alexander Hacke (dos Neubauten), ambos na guitarra, Ulrike Haage (acordeão) e Jan Schade (violoncelo) acrescentam um pouco de calor a uma música por essência e vocação pouco preocupada com a vil condição humana. O disco inclui uma espécie de homenagem, “Tribute to Cheb Mani”, dentro da mesma estética de aço inoxidável e do já citado “Das Ende Einer Diskussion”, “suite” que até ao fim se ocupa em exorcizar mais meia dúzia de fantasmas herdados do nazismo. F. M. Einheit tem um coração de pedra. À semelhança de “Wild at heart” – de novo o horror que nos fascina. ****

aqui



Tuxedomoon – “The Ghost Sonata”

Pop Rock

6 MARÇO 1991
LP’S

TUXEDOMOON
The Ghost Sonata

LP / CD, Les Temps Modernes, distri. Contraverso

tuxedomoon

“The Ghost Sonata” toma como ponto de partida a encenação de uma produção vídeo originalmente escrita pela dupla Winston Tong/Bruce Geduldig, antigos membros dos Tuxedomoon. Subintitulada “uma ópera sem palavras”, a obra, reescrita pelo actual trio Steven Brown/Blaine L. Reininger/Peter Principle, assume-se como um trabalho conceptual inserido numa vertente classicista. Encomendada pela organização Inteatro, de Polverigi, a actual produção “The Ghost Sonata” passou por várias fases até atingir a forma definitiva, dividida em duas secções. Cinco temas constituem uma “suite” distinta (incluindo “Music 32” composta para o EP de 82 “Time to Lose”, “Ghost sonata” escrita na época de “Desire”, mais três temas resultantes de improvisações efectuadas durante a gravação de “Divine”, coreografia de Maurice Bejart inspirada em Greta Garbo). “An affair at the soirée”, “Les Odalisques” e “Unsigned postcard” são peças electrónicas centradas na utilização de técnicas de música concreta e gravações de sons ambientais, aqueles onde se pode ler a assinatura de Peter Principle, o mais experimentalista dos Tuxedomoon. “The Ghost Sonata” (título retirado de uma peça de Strindberg) gira em torna da morte, de diversas maneiras de morrer provocadas por suicídio. Suicídio que cada um dos músicos encena como seu: por afogamento, excesso de bebida (Blaine Reininger), enforcamento (Steven Brown), envenenamento (Peter Principle), magia negra, hemorragia (Winston Tong). Na sequência de uma obra sem pontos fracos, esta “sonata fantasmagórica” demonstra até que ponto os Tuxedomoon são hoje dos grupos mais importantes da cena alternativa situada na convergência do rock com a música erudita. ****