Arquivo da Categoria: Artigos 1997

Tim Tim Por Tim Tum Na Sua Estreia Discográfica

05.12.1997
Tim Tim Por Tim Tum Na Sua Estreia Discográfica
Homens Com O Centro Na Bateria

“Diálogo de Baterias” é o álbum de estreia dos Tim Tim por Tim tum, quarteto de bateristas formado por José Salgueiro, Acácio Salero, Alexandre Frazão e Marco Franco. Quem assistiu ao seu concerto realizado na Primavera passada no CCB terá reparado na forte componente cénica e lúdica do grupo, algo impossível de passar para uma gravação. A questão foi contornada com o recurso a uma faixa interactiva em CD-ROM para PC-Windows que inclui imagens de actuações ao vivo do grupo, Às quais se acede através de uma espécie de jogo.
A oportunidade para a gravação do disco surgiu na altura em que se encontrava em Portugal o baterista norte-americano Jim Black – acompanhante habitual do contrabaixista português Carlos Bica e músico de créditos firmados na cena jazzística internacional -, convidado para um “workshop” com os bateristas dos Tim Tim. Foram juntos para o teatro da Malaposta, onde estiveram dois dias a trabalhar. “Senti que havia ali uma forma espontânea do que estava a acontecer e pedi os meios para gravar”, explica José Salgueiro, principal força impulsionadora deste projecto único em Portugal. “gravou-se como se grava um disco de ‘jazz’, um disco de ‘takes’, tocado em tempo real com o técnico de som junto a nós, com a mesa e os gravadores na borda do palco. Criámos um ambiente, carregámos no “rec” [“record”, gravar] e estava a andar.”
Disco de bateristas, por oposição a um disco de percussionistas, “Diálogos de Bateria” constrói-se a partir de um respeito mútuo entre todos os músicos participantes e da sua capacidade para se “ouvirem uns aos outros”. “Não tentamos sacar malhas uns aos outros”, garante José Salgueiro, para quem “Tim Tim por Tim Tum é igual a comunicar”. Representou ainda a possibilidade de explorar um instrumento, a bateria, do qual andara arredado nos últimos tempos. “Sempre fui baterista, toquei bateria nos Trovante durante oito anos. Depois, quando o grupo acabou, houve uma altura em que comecei a ser requisitado como percussionista. De repente dei por mim sem trabalho na bateria”, diz José Salgueiro, baterista de gema mas que nos últimos anos se tem notabilizado como percussionista em grupos como os O Ó Que Som Tem, de Rui Júnior, que abandonou recentemente, ou nos Gaiteiros de Lisboa.
“Diálogo de Baterias” tem sabor a “jazz”. Alimentado pela improvisação. Um dos temas, “um verdadeiro diálogo de baterias, sobre um ritmo típico do Max Roach”, é dedicado a este baterista, uma das lendas vivas do jazz que, de certa forma, foi também responsável pela génese do grupo. “Fiz um ‘workshop’ com ele e o seu grupo, só de percussionistas, os M’Boum, em Barcelona. Foi um estalo. a experiência repetiu-se em Portugal, na Gulbenkian, desta feita sem o grupo, e foi aqui que se decidiu fazer a coisa com músicos portugueses. O Max Roach falou connosco e pôs-nos a tocar, dando-nos pistas musicais, mais do que ensinando-nos pormenores técnicos. Os Tim Tim germinaram nessa altura na minha cabeça.”
No horizonte do grupo perfila-se a hipótese de realização de uma série de espectáculos no estrangeiro. “Há imenso espaço para os Tim tim”, diz José Salgueiro. “Para já, começámos a trabalhar com a companhia de dança do Paulo Ribeiro, na mesma peça de percussões com as mãos e o corpo que fizemos no CCB, só que agora também dançamos, eu e o Marco Franco.” Além disso, já existem contactos no Brasil, Bélgica e talvez nos Estados Unidos.
Neste momento, além dos Tim Tim por Tim Tum, José Salgueiro reparte a sua actividade pelos Gaiteiros de Lisboa, pelo projecto “Suite da Terra”, com Carlos Barreto e Mário Delgado, uma tentativa de recriação original da música tradicional, “com linguagem de improvisação”, que sairá proximamente em disco, e pelo quarteto de João Paulo Esteves da Silva, com o qual irá também gravar em breve. Quando chegar a Expo-98, José Salgueiro terá em mãos espectáculos com os Tim Tim, com os Gaiteiros e com João Paulo Esteves da Silva, além de um outro girando em torno do adufe. “É um instrumento sobre o qual, curiosamente, não percebo muito. Vou ter que pesquisar para fazer um espectáculo de percussão em que o adufe seja a estrela.” “Já tenho uma agenda nova e ando a ver se consigo conciliar estas coisas”, desabafa com satisfação José Salgueiro, um músico para quem o ritmo é uma paixão.

Robert Wyatt – Mercador de Sonhos

19.09.1997
Mercador de Sonhos
Seis anos de silêncio depois de “Dondestan”, cortados pela colecção de gravuras sonoras do mini-CD “A Short Break”, Robert Wyatt tem um novo álbum de originais, “Shleep”, gravado no estúdio de Phil Manzanera, com a participação, entre outros, de Brian Eno, Paul Weller, Evan Parker e Annie Whitehead. Um disco de “sonhos maus” por um sonhador que tem experimentado na carne a dor, a utopia e a revolução.

LINK

“Shleep” é o melhor álbum de Robert Wyatt, desde “Rock Bottom”, a obra-prima gravada em 1974 a seguir ao acidente que o atirou para uma cadeira de rodas. O mesmo acidente que acelerou o processo de descoberta de uma “voz pessoal” que nos últimos 25 anos insite em se fazer ouvir com o poder de transfiguração de um guerrilheiro que faz da poesia a principal arma.
“Shleep” é uma mistura de “Sheep” com “Sleep”. De massificação com dormência. Wyatt explica que “começou por ser apenas o título de uma canção”, embora sejam lícitas outras conotações, como “The Little Sleep”, uma novela policial de Raymond Chandler.
O sono e o sonho. Robert Wyatt teve problemas com o primeiro, transformando em arma o segundo. “Há dois, três anos, tive uma fase em que, pura e simplesmente, não conseguia dormir.” “Shleep” resgata o onirismo, da mesma forma que “Rock Bottom” exorcizava os traumas deixados pelo acidente que o tornou paraplégico, e “Nothing Can Stop Us” era a reacção violenta contra uma situação política considerada “intolerável”.
Cada canção de “Shleep” é então como que o “polaroid de um sonho”. “Prefiro os sonhos maus aos sonhos bons. Quando acordo de um sonho bom, o choque com a realidade od dia-a-dia é maior.” Não se trata, diz, de um projecto iseológico – “Nunca injecto os meus discos com qualquer forma de ideologia, tento sempre que sejam totalmente independentes.” Mesmo “Nothing Can Stop Us” ou um tema como “East Timor” de “Old Rottenhat”? “Talvez nessa altura, nos anos 80, sim, a situação política em Inglaterra estava a tornar-se intolerável, com a emergência de movimentos racistas e nazis. Foi uma época em que passava mais tempo a participar em comícios do que a ouvir ou a preocupar-me com música.”
Trata-se, afinal, tão-só da projecção intuitiva de estados de alma que tanto exigem, para se fazerem ouvir, do canto panfletário da Internacional Socialista, como se encolhem num balbuciar triste e, por vezes, incoerente, de uma criança ferida. Ou de um louco encarcerado na certeza das suas próprias convicções. De um pouco como “Rock Bottom” não se sai igual ao que se entrou. Os álbuns seguintes, de “Ruth Is Stranger Than Richard” a “Dondestan”, demonstram essa mesma impossibilidade de fazer frente, com a constância dos iluminados ou dos masoquistas, ao reflexo do espelho. Mas aí está “Shleep” para nos fazer crer o contrário.
Gravado no estúdio de Phil Manzanera, companheiro de longa data de Wyatt, “Shleep” reúne memórias e fragmentos da anterior discografia, num “puzzle” que necessita de tempo para se fazer compreender na sua totalidade. Um tempo que o próprio músico reserva para si, de forma a tornar coerente “um processo de composição orgâncio, feito de intuições”. Processo que tem início em casa, num gravador de quatro pistas, em articulação estreita com a sua mulher, Alfreda Benge – autora dos textos e das capas de grande parte da discografia recente do músico -, com quem Wyatt tem partilhado inúmeras experiências e viagens pelo mundo.
Para “Shleep”, Robert Wyatt convidou velhos amigos, como Phil Manzanera e Brian Eno, este último “um aventureiro que lida com a música como uma criança”, cuja influência foi determinate no resultado final de um tema como “Heaps of Sheeps”, a fazer lembrar álbuns como “Taking Tiger Mountain (By Strategy)” ou “Another Green World”.
Mas é ainda no modo de articulação dos músicos convidados que “Shleep” se afasta de “Rock Bottom”, embora sejam evidentes traços comuns entre os dois discos (as “drones” de sintetizador, o piano sincopado a 16 rotações, inspirado em Cecil Taylor, as melodias de “nursery rhyme” em contraste com sequências instrumentais de “big band” espectral). Mas enquanto “Rock Bottom” era grande dor, redimida pelo génio, suportada pela companhia de amigos, “Shleep” é a partilha fraterna com esses mesmos amigos, numa assunção do colectivo como força impulsionadora do acto criativo.
Por vezes o jogo de memórias cruzadas está escondido, surgindo de forma indirecta. Como uma linha de sintetizador dos Cluster introduzida por Brian Eno. Ou a utilização de fitas magnéticas com fundo industrial em “Was a Friend”, nas quais Wyatt reconhece haver uma relação com a música de outro amigo seu, Charles Heyward, dos This Heat e Camberwell Now. Noutras, a fonte revela-se de maneira mais óbvia. Como a fabulosa apropriação das inflexões vocais de Bob Dylan de “Subterranean Homesick Blues” e dos blues em geral, em “Blues In Bob Minor”, sobre um ritmo binário decalcado de um tema de “Old Rottenhat”, na segunda das duas participações de Paul Weller, fundador dos The Jam, neste álbum.
Evan Parker e Annie Whitehead, representantes da “velha” escola do “new jazz” britânico, acrescentam a improvisação e a surpresa. Antes mesmo da aventura, iniciada nos anos 60 ao abrigo do movimento de Canterbury, com os Soft Machine, Wyatt era presença assídua em gravações de jazz, tocando bateria ao lado de músicos como Wolfgang Dauner. O acidente – uma queda de um quarto andar, no decorrer de uma festa mais animada – de que foi vítima terá inviabilizado uma carreira promissora como instrumentista de “jazz”? Wyatt recusa esta possibilidade. Prefere dizer que a bateria era um empecilho que o impedia de trabalhar em profundidade a música que verdadeiramente sentia.
De resto, basta lembrar que na altura em que, em 1970, os Soft Machine iniciavam a sua própria aventura pelo jazz, com outro dos álbuns que é um marco da música dessa década, o duplo “Third”, Robert Wyatt contrapunha às longas improvisações, em compassos esquisitos, dos seus companheiros, a sua própria “suite” pop vocalizada, “The Moon In June”, canção mágica mas que o votaria ao ostracismo pelos intelectuais do grupo, Hugh Hopper, Mike Ratledge e Elton Dean. “Adorava fazer esse tipo de música, mas era óbvio que os outros não queriam vocalizações. Acabei por ser marginalizado.” Wyatt viria ainda a reformular a eterna questão – pop contra vanguarda – no projecto Matching Mole (tradução em inglês da fonética, em francês, “machine mole”, Soft Machine, precisamente), de cujos dois únicos álbuns gravados, “Matching Mole” e “Little Red Record”, sairia um hit como “O Caroline” (repescado pelos Mynci Zygoti Mynci no seu disco de estreia), a par de instrumentais obscuros do mais puro experimentalismo.
Mas Robert Wyatt desdenhou sempre do jazz mainstream, preferindo a ala mais radical deste género musical e os cantores de soul que ouvia na juventude.
Regozija-se ao fazermos menção de duas obras, pouco conhecidas, que resolvem a questão de uma vez or todas, a velha guerra entre vanguarda e acessibilidade, nas quais a sua participação é decisiva: “The Hapless Child and Other Incrustable Stories”, de Michael Mantler, discípulo hermético de Don Cherry (outro dos heróis trompetistas de Wyatt, a par de Mongesi Feza), com a guitarra de Mike Oldfield, e “Fictious Sports”, com a chancela de Nick Mason, baterista dos Pink Floyd, e a alta inspiração das composições de Carla Bley, com quem o ex-Soft Machine viria a tocar em posteriores ocasiões.
Em “Fictious Sports”, Robert Wyatt cantava “I’m a Mineralist”. Hoje o compositor de uma banda sonora contra o abuso de animais em experiências científicas, “The Animals Film”, confessa o seu interesse por duas temáticas, na aparência, díspares: os insectos e as estrelas. O micro e o macrocosmo, segundo “uma tradição de simbolismo que sempre existiu, de forma quase subterrânea, em Inglaterra, em autores como William Blake”. E é de uma estrela que acaba a falar, Diana Spencer: “A minha reacção à sua morte foi semelhante à da maior parte das pessoas. Fiquei triste. É sempre bom as pessoas poderem viver um conto de fadas, ou participar numa ‘soap opera’. E, ao menos por uma vez, foi possível ver o povo inglês a exprimir uma emoção. “O sono e o sonho, uma vez mais. A comandarem o mundo, simultaneamente secreto e luminoso, esculpido em cicatrizes, de Robert Wyatt.

Sacerdotes de Alquimia – Polémica / Opinião –

11.07.1997
Polémica / Opinião
Na edição de 14 de Maio último, no suplemento PopRock, Fernando Magalhães fez a crítica (desancou) do álbum de estreia dos Sacerdotes da Alquimia. António Duarte Bento não gostou.

Sacerdotes de Alquimia
(Contra-Crítica a Fernando Magalhães)
O Sebastianismo cristalizou-se de tal modo nas mentes dos críticos de arte portugueses que, sempre que lhes escrevem poemas ou lhes cantam canções a falar de Portugal, ficam de cara crispada e alma sombria, e vá de zurzir sobre os pobres de espírito que ousam falar da mãe e do pai portugueses. Nunca falando estes críticos de D. Sebastião, o sofrimento que lhes é afligido quando deste alguém fala compara-se ao terror primário perante qualquer coisa tabu. Estes críticos são órfãos primitivos, daqueles que, perante o mediático deslumbramento dos pais dos outros, não toleram que lhes seja lembrada a paternidade. Com um “locus” de controlo externo anglófilo, só toleram palavras como “states”, “américa”, “england”, ou então, mimetizando simiamente os américas, qualquer arte exotêstica porque é “cool”.
Sinfonismos e palavras como Portugal, o mar, marinheiros, universalismo português e ingenuinismos lusos (estes, a base de um autêntico pensamento revolucionário planetário) são, para eles, coisas de almocreves e bardos nescientes. Curiosamente, se estes críticos emigrassem e se fixassem nos tais “States” ou noutro país gato-por-lebremente dito desenvolvido, fariam grandes festivais de música pátria, a ouvir bacalhau quer alho, pois é o melhor tempero para a sua saudade. Estes críticos são daqueles que, como diz o povo, confundem o cu com as calças. Nunca leram António Quadros e, se o folhearam, sofreram de náusea primitiva de saudade. Só leram Fernando Pessoa depois de os américas o terem autorizado, e assim lhes terem prescrito os comprimidos antieméticos. Compreende-se.
O sacristão Fernando Magalhães, apesar de pertencer à mesma igreja, não tem nada que ver com o sacerdote Fernão de Magalhães, que deu nome ao estreito. E porque esta banda não é do Norte, o primeiro não seria sequer capaz de ajudar à missa do segundo. Ficaria a carpir “esta banda não é do Norte”, no Restelo. Assim, os Sacerdotes de Alquimia seriam uma banda pentagonal (perfeitamente sintonizada com o Pentágono ou com a “Penthouse” – o que agradaria muito mais, ora bem), ou hexagonal (perfeitamente sintonizada com o 6 da estrela judaica ou embrulhada num qualquer código de barras europeu). Não, os Sacerdotes de Alquimia são uma banda quadrada, e assim seja. Sintonizada com os quatro lados do quadrado, que são também os quatro pontos cardeais, que são também os quatro caminhos do vento, fotógrafos do vento que enfuna (enfuna é bonito, não é?) os cabelos dos quatro cavaleiros do Delírio Final. Sim, é verdade, cheira a PIGS do Sul. Decididamente, este Magalhães é do Norte.
António Duarte Bento
Poeta-cavaleiro da Ordem Lilás da Triste Figura
autor de vários arremessos a moinhos e outros monstros (arremessando por conta própria)
Buarcos-Figueira da Foz

Contra-contra-crítica a António Duarte Bento
Enfunemos então. Como todo o aspirante e adepto da verdadeira Tradição sabe, a Ordem Lilás da Triste Figura é uma farsa, uma sitazita sem dimensão proscrita pela Ordem-Mãe, a Yrmandade dos Mestres Comedores de Abóbora, invocada em surdina nos meios iniciáticos, como Y.M.C.A O que retira, de imediato, qualquer autoridade ao cavaleiro Bento para mencionar, sequer, o baluarte da espiritualidade lusa que é a P.I.G.S. (Pátria Imaculada dos Grandes Sábios) que o Bento Lilás lamentavelmente confunde com o PIGS (Portugal infestado de gente suja). Por estas e por outras é que muitos perdem o norte, na defesa daqueles que, arvorando-se em alquimistas, não passam de vulgares sopradores.
Fernando Magalhães (monstro)