Arquivo da Categoria: Artigos 1997

“Ó Tempo, Volta Para Trás No Próximo Milénio” – Artigo de Opinião

POP ROCK

29 Janeiro 1997

Ó tempo, volta para trás no próximo milénio

Duas novas colectâneas da música portuguesa vão ser postas no mercado nos primeiros dias do próximo mês, “Millenium”, pela EMI-VC, e “Sunset Music from Portugal”, pela MVM. Ambos procuram capitalizar no mercado (florescente?) da new age.

“Millenium” é uma tentativa de revalorização de material de fundo de catálogo da EMI-VC sob o dito rótulo “new age”. “Um disco de ambientes, para repousar o espírito do ‘stress’ e da canseira, para convidar o ouvinte a uma doce viagem por paisagens longínquas que só na imaginação existem (…), para descobrir o terceiro milénio que se aproxima”, explica a promoção. Assim, o próximo século será recebido ao som de Nuno Rebelo, Sétima Legião, Ala dos Namorados, Lua Extravagante, Fernando Lopes-Graça, Banda do Casaco, Rui Veloso, Carlos Paredes, Janita Salomé, Diva, Grupo Etnográfico de Idanha-a-Nova, Amália Rodrigues, Madredeus, António Pinho Vargas, Carlos Seixas e Heróis. Música clássica, tradicional, fado, rock e electrónica juntas num mesmo pacote de ambientes para o próximo milénio.
A MVM irá, por seu lado, distribuir uma edição da SPA (ver PÚBLICO de 19 de Janeiro), onde são notórias idênticas intenções de receber os próximos mil anos com músicas já um bocadinho amarelecidas pelo tempo. Com a agravante de, além de velhinhas, serem requentadas e postas na mesa por um senhor – Thilo Krassman – que não se pode considerar, propriamente, sinónimo de modernidade. Thilo agarrou no seu sintetizador, convidou Tomás Pimentel, na flauta, José Meneses, m saxofone, e Silvestre Fonseca, na guitarra acústica, e tratou de transformar em música de elevador algumas das “melodias de sempre” da música portuguesa.
Com uma capa, também ela, convenientemente “new age” (facção pôres-do-sol com filtro), “Sunset Music from Portugal” faz uma papa de temas como “Canção do mar”, “Feiticeira”, “Coimbra (April in Portugal)”, “Venham mais cinco”, “Vem”, “Uma casa portuguesa”, “Vila faia”, “Lisboa à noite”, “Queda do império”, “Porto sentido”, “Amélia dos olhos doces”, “Sol de Inverno”, “Desfolhada portuguesa” e “Lisboa, menina e moça”, entre outras. Ou seja, compositores como Frederico de Brito, Luís Represas, Raul Ferrão, Pedro Ayres Magalhães, Rui Veloso, Carlos Mendes, Jerónimo Bragança/Nóbrega e Sousa, Ary dos Santos/Nuno Nazareth Fernandes e Paulo de Carvalho/Fernando Tordo, entre outros, misturados e enfrascados num boião cheio de nada. Bom, mas não nos esqueçamos que a intenção dos responsáveis pelo aborto, perdão, projecto, é boa, uma vez que, dizem, “nada há que traduza melhor o pulsar do coração dum povo do que a sua música”. Digamos que o coração do povo, a pulsar desta maneira, anda a precisar de um “pace-maker”.
Aliás, o fenómeno new age à portuguesa não se esgota na edição destas duas colectâneas. A Strauss – responsável por de metros quadrados de escaparates, pelo menos, em cada discoteca, dedicados a este género musical onde cabem discos das boas editoras, como a Hearts of Space, e pavorosos catálogos cheios de desenhos coloridos, signos do horóscopo e sons de baleias – lançou o seu selo subsidiário Evolution, vocacionado para a edição dos sons lusos da nova idade. O responsável é o músico e produtor Zé da Ponte e do catálogo fazem já parte “De Pacem Domine” do Coral de São Domingos, “Mapas”, de José Calvário, os mais recentes lançamentos, “Marés”, de Nanutu, vulgo o saxofonista angolano Nandinho, e “Lusitânia Candles”, dos Nau. O mote da Evolution garante que, “na era das transformações e das decisivas opções, há momentos em que o pensamento humano se detém para se interrogar e buscar à sua volta o ponto de identificação com o tempo e o lugar que ocupa”.
No meio de tanta relaxação, bio-ritmos, baleias (e alguns golfinhos), flautadas de índios, baralhos de Tarot, tantrismo para domésticas, magias avulsas e um infindável folclore que tem mais a ver com o esgotamento de uma época do que com o espírito da que aí vem, ainda é possível descortinar fugas à facilidade e ao lugar-comum num disco como “Deep Travel”, de Carlos Maria Trindade, onde alguns dos estereótipos new age são reformulados numa linguagem personalizada e atenta aos ventos da mudança.
Depois, é esperar pela noite que há-de suceder ao falso ouro do pôr-do-sol do planeta virtual e pelo dia que há-de romper a escuridão da “nova ordem”. Estejamos atentos aos sinais.

Música Portuguesa – Balanço 1996 – Artigo de Opinião

POP ROCK

8 Janeiro 1997

Balanço 1996
Música PORTUGUESA – Raízes

O acontecimento editorial de 1996 foi a edição de “Polas Ondas”, dos Vai de Roda, num ano que também viu aparecer “Ó Tambor”, de Rui Júnior, e “A Portuguesa”, de Isabel Silvestre. O “cante” alentejano revelou uma pujança renovada. Júlio Pereira e Dulce Pontes gravaram com parceiros estrangeiros de nomeada. A integral de José Afonso é reeditada em condições. Espectáculos houve o dos Gaiteiros e da Brigada no Intercéltico. A “world” portuguesa ainda é regional.

EQUILÍBRIO ESTÁVEL


vai-de-roda

O ano começou com a edição de um disco de cante alentejano, com o título apropriado de “Cantes de Natal e de Ano Novo”, com modas alusivas à quadra. Pedro Abrunhosa assistiu às gravações e gostou. Das ilhas dos Açores chegou “O Feiticeiro do Vento”, banda sonora inspirada e carregada de magia, numa produção televisiva da RTP-Açores. José Medeiros compôs a música e realizou as imagens. E cantou, de forma arrasadora, como pôde verificar quem o ouviu na qualidade de convidado, em espectáculos da Brigada Victor Jara.
Em Fevereiro, “Maio Maduro Maio”, o projecto de homenagem a José Afonso, de José Mário Branco, Amélia Muge, José Martins e João Afonso ruma até Madrid, para uma apresentação ao vivo. Amélia Muge põe a hipótese da gravar o seu novo disco na editora galega Arpa Folk. Sai o álbum dos Danças Ocultas, concertinas de Águeda com direcção de Artur Fernandes, que respiram e dançam. E o de Júlio Pereira com Kepa Junkera, intitulado “Lau Eskutara” (“A Duas Mãos”) – encontro de dois “virtuoses”, das cordas dedilhadas e do “trikitixa”. O saxofonista Carlos Martins trabalha os seus Sons da Lusofonia. África, Brasil e jazz unidos.
Em Março, surge a nova editora África, para divulgar a música deste continente. A cantora cabo-verdiana Maria Alice é o primeiro lançamento. Sai “Trilho do Sol”, dos Quinta do Bill. Com cânticos e batuques índios. Carlos Guerreiro, Manuel Rocha e José Manuel David, em representação dos Gaiteiros de Lisboa e da Brigada Victor Jara, fazem para o POPROCK um “blindfold test” com discos de música tradicional. O pretexto é a presença destes dois grupos no Festival Intercéltico do Porto, onde rubricam actuações de bom nível.
O angolano Filipe Zau lança “Canto da Sereia – O Encanto”, enquanto o seu compatriota Carlos Nascimento surge com “Angolando”. São as primeiras notícias de Abril, na mesma altura em que o POPROCK faz a pré-publicação de um texto de José Niza para a reedição da obra integral de José Afonso pela Movieplay. Waldemar Bastos assina contrato com a Luaka Bop, de David Byrne. Fica decidido que o disco terá arranjos de Arto Lindsay. É editado o álbum de estreia das Cramol. Ficam para a posteridade as polifonias, o teatro e o sortilégio deste grupo de mulheres de Oeiras.
Maio festeja a saída de “Ó Tambor”, de Rui Júnior, com os Ó Que Som Tem – as percussões elevadas à potência do sublime. O POPROCK acompanha os Quinta do Bill na sua digressão pelo Norte do país. Paulino Vieira, o cabo-verdiano responsável pelo projecto acústico que transformou Cesária Évora num fenómeno de massas, lança em Portugal, “Nha Primero Lar” e apresenta-se ao vivo no Teatro S. Luiz, em Lisboa, ao lado dos moçambicanos Ghorwane e das estrelas internacionais Ray Lema e Henri Dikongue.
A EMI-Terra lança dois álbuns de “cante” alentejano com produção de Vitorino, “Vozes das Terras Brancas”, pelo Grupo Coral e Etnográfico As Camponesas de Castro Verde, e “O Cante na Margem Esquerda”, pelo Grupo Coral e Etnográfico Os Camponeses de Pias. É o acontecimento editorial de Junho.
Em Julho, Pedro Jóia lança “Guadiano”, a guitarra de flamenco nas mãos de um português. Né Ladeiras entre em estúdio para gravar versões de canções de Fausto, que também vai para estúdio para gravar versões de canções de si próprio. Os Com-Tradições lançam “Água Nascente”.
São finalmente reeditados, após vários adiamentos, os onze compactos com a obra integral de José Afonso. É a notícia de Setembro.
Cesária Évora tem, já em Outubro, nos escaparates, o álbum “Cesária Évora à L’Olympia”. Isabel Silvestre estreia-se a solo, sem os Cantares de Manhouce, com “A Portuguesa”. Música tradicional e o hino nacional ao lado de versões de canções de José Afonso, Rui Veloso, José Mário Branco e António Variações, entre outros. Luís Represas, depois do disco, repete colaboração com o mago irlandês das “uillean pipes”, Davy Spillane. Agora em cinco noites ao vivo – esgotadas – no CCB. “Polas Ondas”, terceiro álbum dos Vai de Roda, vê a luz do dia. Portugal, na visão de Tentúgal: um país e uma tradição nas margens do mistério. Artur Fernandes, director musical dos Danças Ocultas, compõe para “Mortinho para Chegar a Casa”, do realizador Carlos da Silva. João Afonso termina as gravações da sua estreia em disco. Presentes estão Júlio Pereira e, em escala reduzida, a obra do seu tio, José Afonso. Cabo Verde regressa no álbum de Paulino Vieira “M’Cria Ser Poeta”.
Saem, em Novembro, os “Caminhos”, de Dulce Pontes, com Paddy Moloney, dos Chieftains, e Carlos Nuñez entre os convidados. Fausto filma “clip” nos Açores sob a direcção de José Medeiros.
A colectânea “A Alma de Cabo Verde” sai no último mês do ano. A Musicoteca lança, em homenagem ao autor, os três primeiros volumes da série “Canções Regionais Portuguesas”, de Lopes-Graça.



Celso De Carvalho Estreia-se A Solo Em Edição De Autor

05.12.1997
Celso De Carvalho Estreia-se A Solo Em Edição De Autor
30 Graus Celsius

Celso de Carvalho, 47 anos, antigo elemento dos Plexus e da Banda do Casaco, violoncelista numa orquestra sinfónica, participante em gravações de estúdio ou em concertos dos mais diversos artistas nacionais e estrangeiros (Quarteto 1111, José Afonso, Rão Kyao, Filipe Mendes, António Pinho Vargas, Steve Potts, Gunther Hampel, Marcos Resende, Né Ladeiras, Jerry Marotta, António Emiliano, Chico Buarque, Ramuntcho Matta, Amélia Muge, e Ala dos Namorados, entre outros), acabou de “lançar” o seu primeir álbum a solo, intitulado “Celsianices”, do qual é autor, intérprete, produtor, arranjador, misturador, programador e engenheiro de som.
Mas este álbum tem uma particularidade: trata-se de uma edição de autor do qual foram apenas prensados 30 exemplares, numerados e assinados, que têm sido distribuídos “por pessoas amigas, por amantes de música em particular e mesmo por pessoas que o autor não conhece pessoalmente, sendo, contudo, apreciador dos seus critérios musicais, gente ligada à crítica e à divulgação nos ‘media’. Porque, quando Celso de Carvalho quis dar a conhecer a sua música, “flataram-lhe todos os apoios”. “É que a coerência e a opção pelo não-comercial têm os seus custos”, diz. Foi assim que tivemos conhecimento de “Celsianices”, um álbum gravado entre Julho de 1994 e Julho de 1995, passado para CD em Fevereiro de 1996, inteiramente realizado com teclados Roland JV-90 e Yamaha PS-S-680, e recurso ao programa de computador Korg Audio Gallery.
Para trás ficaram o baixo eléctrico, o violoncelo e o vibrafone, instrumentos nos quais se notabilizou ainda na década de 60 com o primeiro grupo de “free music” português, os Plexus, do qual também fez parte o violinista Carlos Zíngaro. Mais tarde, Celso de Carvalho marcou presença em sete álbuns da Banda do Casaco e recentemente foi visto a acompanhar a cantora Amélia Muge na sua última digressão.
destes 30 exemplares prensados, fica a esperança de que alguns cheguem às mãos de quem eventualmente possa estar interessado em editar este trabalho. Para já, não existe qualquer certeza, mas apenas um interesse vago manifestado por pessoas como o engenheiro de som José Fortes ou Nuno Rodrigues, da MVM, antigo companheiro de Celso na Banda do Casaco. “É o meu manifesto, para mostrar que estou vivo e a fazer coisas”, desabafa Celso de Carvalho.
Problemas de saúde atrasaram a distribuição de “Celsianices”. “Um ‘bad timing’ absoluto”, agravado por dificuldades com o texto do livrete, com um desenho da autoria do próprio Celso quando tinha cinco anos. Os temas de “Celsianices” abrangem um período compreendido entre 1972 e 1995, tendo a maioria sido composta nos últimos quatro anos. “É um tipo de composições que nunca consegui meter nos Plexus nem na Banda do Casaco porque não se adaptavam muito bem. Ficaram sempre na prateleira. “Por feitio ou por ter uma vida muito ocupada, a sua música foi sendo adiada, em termos de projecção pública. O computador surge como uma maneira de se autonomizar, sem que tal implique que Celso tenha esquecido as suas raízes, pop e jazzísticas. “Tento fugir ao som que eles me impingem no programa, fazendo, por exemplo, sobreposições várias, alterações de timbre ou glissandos com o botão de ‘portamento’, equivalentes ao que faria no violoncelo.”
Essa abordagem orgânica do som é uma das características mais interessantes de “Celsianices”, álbum nem sempre fácil mas sem dúvida preocupado em escapar ao exercício de estilo e ao hermetismo, evidenciando uma espécie de “swing” electrónico que se vislumbra em músicos como Wayne Horvitz, teclista e companheiro de longa data de John Zorn, ou nos Weather Report, que Celso refere a propósito de “Ah, bom”. O tema de abertura, “Figurante da vida”, inspirado pelos Genesis dos anos 80, entraria facilmente nas rotas do éter radiofónico. “Celsianices” cria ainda uma aura autobiográfica, em temas rotulados como “Celsinho” e “Megacelso”. “Não é narcisismo”, garante o autor, mas apenas uma reflexão em torno de uma vida, desde a infância, vocacionada para a música, desde a filtragem de melodias ouvidas em criança, em “Celsinho”, a um dos primeiros temas compostos e gravados digitalmente, “Megacelso”, onde se concentram, quase até à saturação, sons e direcções musicais díspares. “Celsianices” inclui-se no grupo dos não alinhados da música portuguesa. Cabe aos ouvidos inteligentes da indústria fazerem-no chegar aos ouvidos inteligentes do público. A música isenta de compromissos exige-o.