Vai De Roda – “Polas Ondas”

POP ROCK

16 de Outubro de 1996
world

As ondas de estranho nome

VAI DE RODA
Polas Ondas (10)
Alba, distri. MC – Mundo da Canção


vdr

No início, é um poema de Rosália de Castro, “Follas Novas”. Os mesmos versos que inspirara os Milladoiro, em “As Fadas de Estraño Nome”. Elas, as fadas, e “cores de transparência húmida”, fundiram a Galiza e o Porto, esse “glaciar de granito que desce até ao Douro”, num álbum de águas, fogueiras, maquinismos e danças. “Polas Ondas” é o terceiro álbum dos Vai de Roda, projecto de Tentúgal, um universo próprio tão mergulhado nos sonhos do seu autor quanto distante de quaisquer abordagens convencionais na recriação da música tradicional, neste caso portuguesa e galega. Não se procure em “Polas Ondas” nem reproduções de museu nem angústias de utópicas fidelidades a linguagens que o tempo se encarregou de devorar. O vínculo dos Vai de Roda e do seu mentor com a tradição processa-se pelo lado do mito, do simbolismo iniciático, da fusão dos sons com a memória.
É um álbum de contradições assumidas, de enigmas, de extrapolações mágicas. O som é o do búzio (símbolo e instrumento da música imaginária do mar que escutamos a borbulhar no nosso inconsciente) e das ondas electrónicas do sintetizador. A capa sobrepõe uma imagem marítima (uma rede de pesca) à cor do sangue. Tentúgal é um “louco”, no sentido “tarotiano” do termo. Um buscador de unidade que não hesita em se quedar diante do abismo. Neste seu terceiro trabalho, cruzou Álvaro de Campos com contradanças e fanfarras e António Silva Leite (1759-1833), Afonso X, “o Sábio”, com um aluno seu de 11 anos, Vasco Bruno, numa leitura da tradição galaico-portuguesa que, em termos estéticos e de produção, está mais próxima de projectos galegos de fusão paralelos (Armeguin, Milladoiro, Luar na Lubre) do que das coordenadas portuguesas mais comuns.
Da Galiza, desceram polas ondas, a cantora Uxia (que em “A roupa do marinheiro” rubrica uma das suas interpretações mais tocantes de sempre) e Xúlio Vilaverde. Do lado português estiveram na Roda, Abílio Santos, Cristina Martins, Helena Soares, Sérgio Ferreira, Eduardo Coelho e Jorge Lira, o “irlandês”…
Gaivotas, o mar, percussões do longe, arcos afagando violinos e violoncelos, abrem alas à gaita-de-foles e à sanfona, em “Polas ondas”, o tema cinco vezes recorrente que dá sentido a uma nova música de câmara, com raízes na música tradicional, que parece querer fazer escola entre nós. Um terreno que se encetou com “Terreiro das Bruxas”, anterior trabalho dos Vai de Roda, prosseguiu com o disco de estreia dos Realejo e agora culminou em “Polas Ondas”.
Álbum de recriação de ambientes relacionados, mais do que com os espaços, com um tempo mítico e imemorial, “Polas ondas” compõe pequenas odes à imaginação, num “puzzle” construído sob a forma de labirinto. Um disco de estações, de divisões de um extenso palácio onde em cada uma é possível escutar um eco. Seja numa contradança, no gemido de um velho sem idade ou na música antiga – medieva de “Rosa das rosas” de Afonso X, ou renascentista, de “Floripes na terra chã” –, dando à costa em sintetizadores, seja na serenidade “new age” alando numa harpa, ou numa Irlanda chegando-se numas “uillean pipes” à Terra anterior à divisão, “Finis Terrae” – porto de uma nova idade além-mar.
Ondas são as do mar, do movimento do verde das folhas das árvores batidas pelo vento, das nuvens e, talvez mais, da mente, essas águas eternamente fluindo nos domínios da Grande Mãe.
Não se abarca “Polas Ondas”de uma vez só, se alguma vez for possível abarcar a dimensão do sonho. Repetimos, não é música tradicional, mas uma viagem, musical e poética, através de um povo e de uma cultura recuperados, redimidos e recriados pela visão de Tentúgal: visão universalista, excessiva, receptiva a todas as vozes, mas milagrosamente unida por fios invisíveis que ligam o coração à vontade, o sopro ao barro. Ouviremos em “Polas Ondas” tão fundo quanto formos capazes de nos ouvir. A Roda mergulhou “nas ondas para um outro cais”. Se Fausto traçou, em “Por este Rio acima”, a rota de uma viagem de navegação, de regresso à nascente, os Vai de Roda – nos antípodas da perspectiva de ruptura proposta pelos Gaiteiros de Lisboa – levaram-na a bom porto, pelas ondas, por cima do mar, conduzindo a música portuguesa ao Outro lado. Um clássico.



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