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Jorge Palma – “Jorge Palma – Em Público / M”

pop rock >> quarta-feira, 15.09.1993


JORGE PALMA *
EM PÚBLICO
M


– Viajante das músicas, de lugares, de si próprio. Aceita a definição?
Viajante um bocado forçado, neste momento… Um gajo vai arrecadando coisas e às tantas dá por si com coisas a mais, uma tralha que nunca mais acaba!
– No princípio não era assim…
No princípio era um saco e chegava… mas um gajo vai arrecadando coisas… responsabilidades… o espírito do viajante, porém, feliz ou infelizmente, não morre e um gajo vê-se perante uma imagem de si próprio que não é a ideal. Às tantas, com as responsabilidades, dá por si a dizer: “Mas eu não posso viajar assim!”
– Quer dizer que era um nómada e que agora se viu forçado a ser sedentário?
É isso. E não posso ignorar factos concretos como por exemplo o meu puto. Neste momento seria um disparate, na minha maneira de ver… Não posso ir para África ou para outro sítio qualquer e levá-lo comigo. O gajo precisa de estar na escola e criar raízes e amigos…
– Não quer que saia ao pai, é isso?
[Risos]. Não me importava que saísse a mim, mas eu sou um sobrevivente, fiz toda a espécie de asneiras e sobrevivi! Mas como é que eu posso fazer em relação ao meu puto? Tento protege-lo, quero que ele seja feliz… Mas como é que um gajo como eu lhe diz para fazer isto ou aquilo? Ele já me responde: “Então e tu?”
– Disse que sobreviveu. Sobre “o fio da navalha”, utilizando a expressão de Somerset Maugham?
Sim, confesso que tenho lá o livro mas ainda não o li, como muitos outros… É o “living on the edge”. Conheces o vídeo dos Metallica? O gajo está a tocar guitarra em cima de uma linha de comboio, no momento preciso em que o comboio vai passar, o gajo dá um único passo em frente e sai fora da linha. O comboio passa e continua tudo na mesma, ninguém deu por nada. Isso é “timing” que eu acho que tenho tido…
– Nessa vida de viagens que levou, lembra-se de uma que o tenha marcado, pela positiva ou pela negativa?
Tenho saudades de uma viagem em que vim à boleia da Dinamarca. Comecei com um gajo sueco que tocava contrabaixo comigo. O gajo desistiu ao fim de uma hora, foi apanhar o comboio. Viajar com um contrabaixo é complicado… Fiz duas vezes essa viagem. Na primeira cheguei onde queria, uma aldeia onde vivia a namorada do meu bandolim. Cheguei de Alfa-Romeo, com o número de telefone da última senhora que me tinha dado boleia e por quem eu estava apaixonado. Devorámos o supermercado lá da terra, que era dos pais da namorada do meu amigo. Da outra vez demorei três dias para atravessar a Alemanha. Foi na altura dos Bader-Meinhoff, dormi na auto-estrada, sem saco-cama, sem nada, com a guitarra ao lado, à chuva e a ouvir tiros. Disse para comigo: “O melhor é não me mexer daqui!” Acordei, sozinho, ao fim de quatro ou cinco horas de sono, e pensei: “Estou vivo. Agora, o melhor é ir pela Bélgica [risos]. O que é que paga isto, pá?”
– A propósito de viagens, de uma vez por todas, o seu álbum “Viagens na Palma da Mão” é ou não uma referência explícita ao ácido?
Coincide. Eu andava no segundo ano de Engenharia, na Faculdade de Ciências e a coisa foi perdendo o interesse, completamente. Cada vez mais e mais estava envolvido em esquemas de orquestrações e comecei a ganhar dinheiro com a música. Era puto, tinha 22 anos, e quando arranjava coragem para ir às aulas práticas (às teóricas não era preciso!), havia greves e confusões, o pessoal aos gritos a insultar os professores. Por isso, “ciao”, acabou.
Fui para a Dinamarca e, altamente influenciado pelo rock sinfónico dos Genesis, Van Der Graaf, Yes, Soft Machine, fui ter com um gajo com quem tinha tentado encenar “Godspell” em Portugal, que tinha uma casa enorme e um piano de cauda onde eu construí esse primeiro álbum. Fi-lo em inglês porque não sabia quando voltaria para Portugal e estava com uma “fitada” em Inglaterra. Depois, deu-se o 25 de Abril. Hesitei, voltei para Portugal. E quando volto gravo o primeiro álbum – “Viagem na Palma da Mão”. Antes do ácido. O ácido vem depois. Nessa altura era ópio e haxixe. Na Dinamarca tinha-se de tudo…
– O ácido, o ópio e o haxixe influenciaram a sua música?
O que é que eu teria sido se não fosse isso tudo? Era de certeza diferente, se calhar era um gajo muito mais atinado. Mais pontual, por exemplo…
É uma questão de espírito – tu sabes que existe aquilo e queres experimentar e tem sido sempre esta a minha abordagem das coisas. Mas há coisas em que um gajo fica “agarrado”. Os copos, os cigarros… O xutos, a heroína…
– Conseguiu livrar-se facilmente disso?
Foi relativamente fácil. Apesar de ter havido um ano em que “enfiei” de tudo, acho que não estava vocacionado para ali, não era o que me interessava. Mantive um distanciamento, apesar de saber que há aqui um problema… um gajo tem que se alienar um bocado, há uma força que falta às vezes – ou pelo menos um gajo pensa que falta -, precisa de ir buscar estímulos…
– Essa alienação é inevitável?
Acho que ainda conseguia “limpar-me” fisiologicamente se as condições ideais existissem. Só que elas não existem… De que é que me serve fazer ioga ou comer macrobióticos, para depois levar com uma camioneta? Eu vivo aqui e por isso tenho que pactuar com o esquema vigente. Não posso ser um ET na minha terra. Idealizo coisas, tomo conhecimento de coisas desagradáveis, mas não me posso esquecer de que estou aqui, no Princípe Real, num bar, e não vou beber água – vou beber “whisky” ou cerveja e vou fumar cigarros. Porque eu já experimentei beber água e não fumar e depois comecei a olhar para os gajos e pensei: “Isto está mal! [risos]? E “ouvi” silêncios gélidos e disse: “Porra, eu não quero esta merda!” Eu quero o pessoal a beber e a divertir-se…
– Por vezes dá ideia de que existem dois Jorges Palmas: o do conservatório, perfeccionista, e outro com a voz completamente rebentada, da desbunda, sem controlo. Tem uma explicação para isso?
Há uns tempos que não era convidado para tocar piano como um músico de estúdio e ontem fui tocar. Estive lá três horas a tentar perceber o que é que os gajos queriam que eu fizesse. Não tenho escrito canções nos últimos tempos, tenho escrito letras quando me pedem… Tenho estado a evitar um reencontro com uma realidade que é a minha… Hoje vou ver os Xutos e não sei o que vai acontecer. Se eu tiver uma sessão de estúdio amanhã ou qualquer coisa importante, é melhor ir ver os Xutos e dormir uma hora ou duas. Se eu for para a cama não consigo dormir a pensar naquela merda. Já lá vai o tempo em que eu tomava “drunfos”…
Tenho dificuldade em dormir porque estou a imaginar tudo e a viver tudo antecipadamente. Eu sei que sou muito desastrado e que muitas vezes estrago as coisas por tê-las antecipado, e depois quando lá chego já não tenho a energia que tinha umas horas antes. Não dormi, bebi demais e nem sequer é uma perspectiva egoísta, é a minha maneira possível de ser. Se acontecer alguma coisa comigo neste momento, esqueço-me do que vem a seguir. O importante é o que está a acontecer agora. Sou um hedonista.
– Depois de “Só”, lançado em 1991, de canções antigas acompanhadas ao piano, tem algum novo trabalho em perspectiva?
Estou a trabalhar numa espécie de complemento desse disco. Terá quatro guisttras eléctricas, bateria, gravado ao vivo, sem artifício nenhum. Eu sou o guitarrosta, faço os acordes e canto, outro é o Zé Pedro com a sua Gibson, o Flak também com uma Gibson, o Alex no baixo e o Kalu na bateria. O título vai ser “Palma’s Gang ao vivo no Johnny Guitar”.
– Fechemos o ciclo. É um nómada, um viajante, mas dá a impressão que Lisboa desempenha um papel muito importante na sua música. Se Lisboa fosse mulher, como a definiria?
Uma puta! [risos]. Uma puta morena…
*Cantor, compositor, guitarrista, pianista, viajante, hedonista. O próximo álbum, com o título “Palma’s Gang ao Vivo no Johnny Guitar”, será lançado em breve pela Polygram.

Annette Peacock – “Annette Peacock Regressou A Portugal – Voz De Gata”

cultura >> domingo, 12.09.1993


Annette Peacock Regressou A Portugal
Voz De Gata


Na sua segunda apresentação em Portugal, Annette Peacock fez questão de afastar os preconceitos de uma cantora fria e distante do público. Partiu com os “blues”, viajou com a “funky” e disse o que tinha a dizer na sua forma pessoal de fazer “rap”. Uma voz de gata que seduz e fere quando e como quer.

Estavam lá todos, na noite de sexta-feira, os do costume, os apreciadores e “poseurs”, frequentadores com passe vitalício destas coisas da “alternativa”, das vanguardas, enfim das músicas que fazem a diferença. Annette Peacock, a cantora norte-americana de voz como um semifrio, capaz de provocar paixões para logo de seguida as apagar, gelo e degelo, serviu de pretexto. Já cá tinha estado há três anos. Agora voltou, mais descontraída, qual “cat woman” portadora de uma mensagem que por vezes se tornou difícil de entender.
O teatro S. Luiz, em Lisboa, local bem mais apropriado para intimismos musicais que a Aula Magna, onde a cantora se apresentou na anterior visita ao nosso país, não estva a abarrotar mas pouco faltou. Na primeir aparte actuaram os portugueses Sensaborões, perdão, Ficções. Tocaram bem, muito afinados, muito atinados, muito “jazz rock” betinho, temas com princípio meio e fim (por esta ordem), sem derrapagens, montes de melodia, com tudo no lugar, onde é que nós e eles íamos…? Intervalo.
Para a passagem de modelos da praxe. Pela “passerelle” do “foyer” passaram várias raparigas disfarçadas de Annette Peacock, com base nas fotografias ou nas imagens conservadas na memória, em traje austero, negro, claro, gorro ou chapéu (faltou o véu…), armando um “look” frio e distante a condizer. A senhora pavão, a verdadeira, trocou-lhes as voltas, surgindo em palco de “jeans” e camisa claros, luvas brancas e o ar de quem estava ali para se divertir. Foi de facto uma Annette Peacock diferente da cantora de pose hierática que assombrou a Aula Magna. Vê-se que está mais madura, mais solta. Meneou as ancas, na procura do “beat” exacto para cada canção, encenou com o corpo o gesto sensual, rodopiou sobre si própria, num dos temas avançou até à boca de cena, atrevendo-se a uma proximidade com o público que não lhe é habitual.
Acompanhada por Michael Mondesir, no baixo, Eric Appapoulay, na guitarra, e Keith Le Blanc, na bateria, a cantora nova-iorquina interpretou temas de álbuns como “X-Dreams”, “The Perfect Release”, “Skay Skating” e “Abstract Contact”, além de uma canção nova apresentada na ocasião em estreia mundial. Num registo que começou por se deixar habitar pelas labaredas dos “blues” para aos poucos se instalar no território da palavra, que Peacock maneja com a concisão e perícia de um médico legista, o concerto progrediu de forma descontínua, entre o gemido e o manifesto, o sussurro e o grito, nas baladas de amor (e o amor, em Peacock, é sempre algo complexo que passa pelo cérebro) ou nos “raps”, declamados como um repto à sociedade norte-americana, racionalizados ao extremo. “The succubus” e “Elect yourself”, que a cantora procurou recriar simulando a atmosfera de um “dark club in New York”.
Canções conhecidas como “Memory is”, “Happy with my hand” (na qual faz a apologia da masturbação), “Pride”, “My mama never taught me how to cook”, “We’re adnate” ou a derradeira “The real & defined androgens” (onde a voz, transformada pelo sintetizador, adquiriu tonalidades angelicais) apareceram transfiguradas por arranjos, quase sempre “funky”, que já haviam sido explorados em “The Perfect Release”, com os textos a funcionar como catalisador.
E aqui residiu o principal problema. Não sendo fácil o inglês cantado (falado) por Peacock, ficaram perdidas pelo ar as frases que magoam e perturbam, sobrando o vulcão e a circularidade de um som não muito versátil que a artista utilizou na definição de um universo talvez demasiado fechado sobre si próprio. Deixados de fora, fomos como crianças que faltaram à chamada. Na posse da chave, entrámos num mundo sensível ao toque virtual, infiltrado pelo medo e pela alienação (“the age of the individual is over”, escutou-se numa das canções). Um mundo de imagens em constante mutação que aos humanos mais nãoconcede, di-lo o título do álbum mais recente (“Abstract Contact”), senão um contacto abstracto.

Annette Peacock – “Conversa Reatada”

pop rock >> quarta-feira, 08.09.1993


CONVERSA REATADA

Annette Peacock, segunda parte. Esteve entre nós já lá vão três anos. Na Aula Magna, em Lisboa, onde acendeu labaredas geladas com um canto paradoxalmente apaixonado e distante. O seu regresso, marcado desta vez para uma sala que convida ao intimismo, será, no fundo, o raetar de uma conversa interrompida.



Não se fala muito dela. Os jornais e as revistas especializadas quase esquecem que ela existe. Há quem diga que Annette Peacock é fria, que a sua voz e presença não convidam à adesão nem ao entusiasmo. Mas esta sensação de frieza, que para alguns poderá soar incómoda, sobretudo a ouvidos habituados às incandescências das vozes do jazz no feminino, transporta afinal consigo o fascínio maior da arte da cantora.
Annette Peacock começou no jazz, é verdade – no convívio com Charles Mingus e Albert Ayler. E nesse outro convívio (menos musical é certo, mas de que alguns artistas costumam extrair uma ou outra ideia interessante), com a droga. Guiada pelas teorias do guru Leary e as palavras de Ginsberg. Uma fase de escândalos e de procura que culminou com uma apresentação em “topless” na Câmara de Nova Iorque e com a descoberta do sintetizador – um modelo pioneiro que o próprio Robert Moog fez questão de lhe oferecer.
Dessa época, início dos anos 70, fazem parte as primeiras experiências com o canto declamado, filtrado pelo sintetizador, e o aperfeiçoamento de um estilo vocal sóbrio, espécie de sussurro, pausado e sensual, semelhante ao ronronar de um gato. Procura de uma via pessoal que a levou a percorrer os claustros da catedral da ECM, em companhia do seu então marido Gary Peacock, e a recusar os convites que lhe dirigiram David Bowie e Brian Eno. Tivesse a resposta sido afirmativa e talvez a cantora palmilhasse hoje as vias bem iluminadas do sucesso. Mas Annette Peacock preferiu seguir só, desinteressada dos processos que conduzem ao estrelato e à perda de identidade. Para ela, a questão do controlo sempre foi essencial. “O sucesso acarreta a perda de controlo” – disse, numa entrevista ao PÚBLICO, quando da sua primeira vinda a Portugal. Um controlo de qualidade do seu trabalho, “imprescindível para poder continua”. Mais: uma garantia de “sanidade mental”.
Mas se Bowie e Eno não conseguiram convencâ-la, o mesmo não aconteceu com o minimalista Andrew Poppy, no seu segundo (e, até à data, último) álbum, 2Alphabed” (A Mistery Dance9”, no qual Peacock introduz uma ssombração vocal na abertura do segundo lado.
No espectáculo de há três anos, na Aula Magna, ficou a recordação de uma voz que pode não ser compreendida à primeira mas cuja sensualidade deixa cicatrizes profundas, e de uma ironia suave (recorde-se que a autora montou uma editora com a designação Ironic, destinada em exclusivo à edição dos seus próprios discos), sem deixar de ser fulminante, que fulgiu em temas como “Pride”, “Lost in your speed” ou na longa declamação, em estilo de “rap” minimal, de “Elect yourself”, Um “contacto abstracto” com o cérebro e os sentidos, por onde passaram a exposição de alguns tabus sexuais (um tema caro à cantora), a crítica social e um humor corrosivo, características presentes no autobiográfico “My mama never taught me how to cook” e nos perturbantes “Memory is” e “We’re adnate”.
Jogo de gato e do rato com as palavras e as suas armadilhas, com a cumplicidade e a sedução erótica da voz, que poderá voltar a ser jogado, com um acrescento de conhecimento e de experiência, nesta segunda visita da cantora. Os preparativos poderão ser feitos através da audição dos álbuns, todos disponíveis entre nós via importação directa, “X-Dreams”, “The Perfect Release”, “Sky Skating”, “I Have no Feelings” e “Abstract Contact”.
ANNETTE PEACOCK COM FICÇÕES (NA 1ª PARTE), DIA 10, TEATRO S. LUIZ, 22H