Arquivo mensal: Agosto 2021

Four Men And A Dog – “Shifting Gravel”

pop rock >> quarta-feira, 09.06.1993
WORLD


Four Men And A Dog
Shifting Gravel
CD Special Delivery, distri. MC – Mundo da Canção



A música tradicional dá pano para mangas, é verdade, mas nem toda a indumentária lhe fica bem. Os Four Men and a Dog, incensados pela, por vezes suspeita, “Folk Roots” (o álbum de estreia “Barking Mad” foi considerado álbum do ano por esta revista), chegam ao segundo álbum aureolados com a etiqueta de “grande revelação da música irlandesa tradicional”. Poderiam sê-lo, na realidade. Para tal, bastaria o facto de contarem nas suas fileiras com Arty McGlynn (o homem tem o dom da ubiquidade), o mago da guitarra contrapontística, e Gerry O’Connor, (Lá Lugh, Skylark) não menos assombroso, no banjo e no violino. Afinal, perdem-se. Não nos temas tradicionais, onde a prestação instrumental é imaculada, mas nas composições pessoais, onde o vector tradicional é totalmente posto de parte, em favor da energia dos “rhythm ‘n’ blues” de batida infernal, no atropelo de “Work Together”, da pop roçando à tangente na tradição, de “Another irish rover” ou em baladas que passam sem deixar marcas, como “Joh”. Pouco, para uma banda com as suas potencialidades, ainda por cima com sentido de humor, como dão a entender em “The Kilfenora sexy jig”. (6)

Compagnia Strumentale Tre Violini – “Matuzine”

pop rock >> quarta-feira, 09.06.1993
WORLD


Compagnia Strumentale Tre Violini
Matuzine
CD Associazone Culturale Barabàn, distri. MC – Mundo da Canção



Formação especializada na tradição violinística dos Apeninos e dos Alpes italianos, os Tre Violini são a face complementar dos La Ciapa Rusa e Barabàn, cujas obras se realizam dentro de parâmetros formais mais latos. Neste caso os arranjos primam pela fidelidade às respectivas fontes, sobressaindo, por oposição à sofisticação, o jogo cruzado dos três violinos, entre os quais o de Giuliano Grasso, membro dos Barabàn. Bailes de carnaval, matuzinas (daí o nome do grupo), valsas, mazurcas, polkas, um “scotis” (equivalente da “scottishe” britânica) e contradanças que, nalguns casos, põem em relevo estruturas que radicam na música italiana da Renascença. Guitarras acústica e renascentista, “bassetto” e contrabaixo acompanham as deambulações melódicas dos violinos e das violas de arco. Um álbum com maior ou menor apelo, consoante o gosto, para o consumidor generalista, mas de aquisição indispensável para quem já retira prazer das incursões pelos territórios delimitados por um determinado instrumento. (7)

Júlio Pereira – “Júlio Pereira Estreou Novo Espectáculo Em Lisboa – A Matemática Do ‘Swing'” (concertos | s. luiz)

cultura >> segunda-feira >> 07.06.1993


Júlio Pereira Estreou Novo Espectáculo Em Lisboa
A Matemática Do “Swing”


Para Júlio Pereira, o concerto de sábado, no Teatro S. Kuiz, em Lisboa, representava a sua estreia a solo na capital. Ultrapassada uma fase inicial de algum nervosismo, o bandolim disparou para uma actuação brilhante, num recital de intuição e virtuosismo. Só a voz de Minela pecou por falta de discrição.



A responsabilidade era muita. A assistência não tanto, mas mesmo assim suficientemente numerosa para compor a sala e testemunhar o novo projecto ao vivo de um dos grandes instrumentistas de música popular portuguesa da actualidade. Acompanhado por Moz Carrapa, antigo elemento dos Salada de Frutas, na guitarra acústica, e por Minela, voz e sintetizador, o autor de “O Meu Bandolim” percorreu fases diversas do seu reportório, dos tempos de divulgação do cavaquinho até ao período recente de vassalagem ao bandolim, único instrumento que tocou ao longo da moite.
Excelente na técnica de “rasgar” e no dedilhar das cordas, Júlio Pereira soube precaver-se contra o perigo do mero exibicionismo técnico. Deixou-se levar pelos caminhos da intuição sem com isso perder a bússola. O “swing” nas equações da matemática. Moz Carrapa assumiu-se como suporte e contraponto ideal das malhas urdidas no bandolim. Seguro, sempre, dialogante quando lhe foram pedidas explicações e comentários. Acima de tudo foi protagonista atento e equilibrado, resistindo de igual modo à subserviência e ao autoritarismo.

O Grito De Minela

Teriam sido só harpas e rosas se a magia não quebrasse por onde à partida não seria suposto tal acontecer, pela prestação de Minela, uma voz que sabe e costuma ser de assombro mas que no S. Luiz não soube encontrar o registo adequado. A ela coube interpretar uma série de canções de José Afonso – “Teresa Torga”, repetida no segundo “encore”, “Maio maduro”, “Fura fura”, “Milho verde”, “Entrudo”… – que defendeu com garra mas onde se perdeu quando lhe era exigida maior contenção. Demasiada estridência (defeito que a mesa de som poderia ter corrigido mas não corrigiu), hesitações no tempo e, sobretudo, alguma ostentação, situaram a cantora na margem oposta à de Moz Carrapa. O equilíbrio das cordas da guitarra por oposição ao excesso das cordas vocais.
O despropósito atingiu o auge numa improvisação (?) sobre “Milho Verde” com pretensões a experimental, segundo aquela concepção de que o experimentalismo, quando da utilização da voz, é sinónimo de gritaria. Até poderá ser “de gritos” mas não da forma como Minela o fez, descontrolada, pulmão à rédea solta, qual Castafiore serialista. Visivelmente, a cantora açoriana não é uma Diamanda Galas nem uma Irene Papas. Depois também não se percebeu muito bem aquela passeata pelo palco, em dança, sem graça nem leveza, acompanhada de palmas fora do compasso, durante uma conversa arrebatada mantida entre Júlio Pereira e Moz Carrapa, na introdução de “Fura Fura”. Desviou as atenções e não acrescentou fosse o que fosse à música. Pelo contrário, o sintetizador esteve mais apagado do que seria desejável, marcando presença a um nível quase subliminar.
Fora tais despautérios foi uma delícia escutar as cordas em festa do bandolim, no duelo com a guitarra, em “Palaciana”, numa “Nortada” em que o bandolim serviu de instrumento de percussão, na pura vertigem de um “Miradouro” revisitada, nas encruzilhadas da música búlgara que antecederam a explosão do “Entrudo”.
Júlio Pereira, sem computadores a estorvá-lo, é um músico que não cessa de evoluir. O caminho está livre à sua frente. A música tradicional, não há espanto nisto, chama do futuro. Saber dar-lhe voz sem lhe cortar as raízes, eis a vereda, eis o segredo. Júlio Pereira tem as cordas do tempo na mão.