Arquivo mensal: Dezembro 2020

Faust – “Faust” + Faust – “So Far” + Faust – “The Faust Tapes” + Faust – “Seventy Minutes Of… (“Munich & Elsewhere + The Last LP)”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 11.11.1992

REEDIÇÕES


REGRESSO DE UMA LENDA

FAUST
Faust (10)
So Far (10)
CD Polydor, import. Contraverso
The Faust Tapes (10)
Seventy Minutes Of… (“Munich & Elsewhere + The Last LP) (7)
CD Recommended, import. Contraverso


Na década de todos os regressos, coube a vez aos Faust de ressuscitar da sepultura. Seria impossível imaginá-los, 17 anos volvidos sobre a sua extinção, a actuar de novo ao vivo. Mas foi o que aconteceu, a 23 de Outubro passado, quando a lendária banda germânica pisou o palco do Marquee Club, em Londres. De novo tudo volta a ser possível. Os discos, com lugar reservado na eternidade, foram reeditados em compacto.
Coincidindo com a onda de renovado interesse pelos Faust, a Polydor japonesa reeditou em compacto dois álbuns da banda germânica, que, à entrada dos anos 70, criaram uma alternativa credível ao “rock sinfónico”: “Faust”, de 1971, e “So Far” (inclui reproduções das gravuras que faziam parte do pacote da primeira edição), de 1972. Estas reedições vieram juntar-se a “The Faust Tapes” (1973) e “Seventy Minutes Of…” (junção inéditos dispersos contidos em “Return of a Legend: Munich & Elsewhere” e “The Last LP” ou “The Party Album” como também é conhecido) que a Recommended já havia lançado, no mesmo formato, anteriormente no mercado. À época, a crítica inglesa arrumou o grupo alemão no compartimento geral do “krautrock”, onde cabiam tendências estéticas tão diversificadas como a ala cósmico-planante, representada por Klaus Schulze, Tangerine Dream e Ashra; os “místicos” classicistas como Popol Vuh, Wallenstein, Parzival, Höelderlin, Yatha Sidhra e Mythos; os “rockers” mais ou menos radicais, Guru Guru, Jane, Amon Düül II, Grobschnitt; os electrónicos / industriais / repetitivos Kraftwerk, Cluster, Neu, Harmonia, La Düsseldorf. E os Can, que não se pareciam com ninguém. Hipotético denominador comum entre todos, o psicadelismo levado aos limites. Da vibração cósmica pura (Klaus Schulze), por um lado, ao telurismo tribal (Can), por outro. Em qualquer dos casos, a vontade de transe hipnótico, à custa da repetição e da exploração exaustiva de timbres. A par de uma concepção totalitária da música, à maneira romântica, que encontrou inspiração nos clássicos, sobretudo Wagner, e em mestres da música contemporânea erudita – do minimalista Terry Riley ao concretista Stockhausen. Formados em 1971 por Werner Diermaier, Rudolph Sosna, Gunther Wusthoff, Joachim Irmler e Jean-Hervé Peron, a banda, logo no álbum-estreia, “Faust”, conseguiu surpreender tudo e todos. “Faust” era, em múltiplos aspectos, um disco revolucionário. Desde a apresentação (capa original, vinil e folha informativa transparentes) até à música, totalmente original, construída a partir de colagens sonoras, que aliavam a música concreta, electrónica em estado bruto, guitarras “velvetianas” no limite da distorção, vagas instrumentais wagnerianas, declamações fonético / melódicas plurilinguísticas, citações dilaceradas dos Beatles, Rolling Stones e Beach Boys, e fragmentos de canção pop que se colavam irremediavelmente ao ouvido. Neste disco os Faust inauguravam fórmulas musicais até então inéditas na pop (exceptuando talvez o caso dos Mothers of Invention), que viriam a ser compreendidas e recuperadas, melhor do que ninguém, do outro lado do Atlântico, pelos Residents e, no seu país natal, por um dos alquimistas de som dos anos 90, Holger Hiller. Se “Faust” era a transparência absoluta, “So Far”, o álbum seguinte, era o oposto. Capa e rótulo interior negros. Em separata, gravuras coloridas alusivas a cada tema. “So Far” começa por uma sinfonia de martelo-pilão e acaba num “pastiche” ao jazz de New Orleans. Pelo meio, melodias sobrenaturais, ritmos de pesadelo, uma contenção máxima do vocabulário favorável a mil ambiguidades, “riffs” de guitarra saturada na melhor tradição dos Velvet Underground, um humor que não se julgaria possível em alemães (explorado em maior extensão em “Acnalbasac Noom”, “Casablanca Moon” ao contrário, com os Slapp Happy de Anthony Moore, Peter Blegvad – que chegou a integrar uma das formações dos Faust – e Dagmar Krause) e uma síntese final que, a cada segundo, apontava novas orientações estéticas passíveis de exploração.
“The Faust Tapes”, lançado em 1972, primeiro para a Virgin, foi posto à venda no Reino Unido por 49 pence – o preço de um “single”. Depois, para quem até essa altura se havia queixado de falta de informação, uma capa completamente preenchida por textos informativos. “Overdose” semântica que encontrava paralelo na grandiosa orgia de sons e ideias que até hoje permanece como uma das obras-orimas da música experimental de todos os tempos. São quarenta e tal minutos de uma faixa única (a versão em CD foi indexada em 26 partes), composta por fragmentos de estúdio, interligados num mosaico vertiginoso. Um trabalho genial do qual, ano após ano, foram brotando sementes, que aproveitaram a uma legião de novos nomes que na Recommended encontraram terreno fértil para se desenvolverem: 5 Uu’s, Motor Totemist Guild, La 1919/Luciano Margorani, When, Jocelyn Robert, Die Vogel Europas, After Dinner, Art Barbeque, Biota / Mnemonists, Expander des Fortschritts, entre outros, sem esquecer os Negativland e os Residents. O derradeiro álbum de originais gravado antes do grupo se extinguir, “Faust IV”, é mais contido e pensado que os anteriores. No início, uma paródia demencial à paranoia repetitiva a que alguns tinham reduzido o rock alemão (repetição que, num registo sério, fora levada ao limite do suportável, no disco grabado por alguns elementos dos Faust com o violinista Tony Conrad – “Outside the Dream Syndicate”), com o título precisamente de “Kraut Rock”, mostra até que ponto os Faust tinham tomado consciência da sua importância, o que, de certo modo, acabou por limitar um pouco a criatividade. As melodias são mais óbvias. É notório um tipo de alusões explicitamente “Faust”, quer dizer, a um som tornado já imagem de marca. Indispensável, apesar de tudo, e muitos furos acima da produção média dos anos 70. Alguns anos depois da aventura ter chegado ao fim (a extinção “oficial” do grupo é geralmente dada em 1975), a Recommended lançou os dois álbuns póstumos já mencionados, “Return of a Legend: Munic & Elsewhere” e “The Last LP”, com o objectivo de manter viva a lenda que o título do primeiro não disfarça, e de trazer para a ribalta algumas das peças que faltariam à conclusão do “puzzle”. A audição dá a perceber as razões que levaram os Faust, na altura, a deixar de foa este material, embora no primeiro caso este se destinasse a ser editado. Faz então sentido dizer que o “lixo” tem tanto valor como o “ouro” de outros. Com a actual reformação da banda, voltam a ser lícitas todas as expectativas.

All About Eve – “Ultraviolet”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 11.11.1992


All About Eve
Ultraviolet
LP, CD MCA, distri. BMG



Deveria haver periodicamente uma operação de desratização da pop, de maneira a eliminar os excedentes e sucedâneos que só poluem e causam transtornos a quantos nela procuram mais do que sons em série, empacotados em supermercado. Objectos como este, ultravioletas ou não, têm contudo a virtude de servir para mostrar a diferença entre um original e uma cópia. No caso destes All About Eve, mais uma bandazita inglesa das muitas que cirandam em redor dos “tops”, sempre à procura da fórmula mágica do sucesso, a referência óbvia é o som 4AD e em particular dos Cocteau Twins. Julianne Regan poderá esforçar-se e espremer-se o mais possível a cantar “fininho” que nunca chegará contudo, à planta dos pés de Elizabeth Frazer (um crítico italiano, talvez surdo ou então enganou-se no disco, chamou à menina “um cruzamento de Grace Slick com Suzanne Veja…). É que aos All About Eve falta algo que, parecendo que não, ainda vai tendo alguma importância: o talento de composição. Em “Ultraviolet” não há uma única canção digna desse nome, mas sim arranjos que, sob a capa de um pretenso exotismo de “sitars” e ambientes místicos de pacotilha, escondem o vazio completo.
“Ultraviolet” embrulha-se em guitarras cristalinas e brumosas, em fumos de incenso de segunda, em coros celestiais ao nível do rés-do-chão. Sobre a temática do disco, Julianne, muito compenetrada, diz assim: “Flores, nuvens, árvores e sonhos não deveriam ser reduzidos a jargões ‘hippies’. Até os ‘skinheads’ sonham.” “Ultraviolet” é um pesadelo repintado. (2)

Wagner Tiso – “Wagner Tiso No Ritz Club, Em Lisboa – O Passageiro Da Noite” (concerto / ritz club)

Cultura >> Sábado, 07.11.1992


Wagner Tiso No Ritz Club, Em Lisboa
O Passageiro Da Noite



É SEMPRE noite no Ritz Club, ali na rua da Glória das pensões, escondido a dois passos do elevador. Chamem-lhe deacadente. Chamem-lhe simplesmente antigo. Aos reposteiros escarlates, às toalhas de sangue queimadas por pontas de cigarro, às luzes do tecto em forma de flor de nenúfar. Houve um tempo em que se ia lá para ver as sessões de strip. Com uma rapariga gorda, dizia-se. Agora já não. A “cultura”, parece, tomou conta do lugar.
Wagner Tiso ocupou o palco do Ritz Club, com o seu corpo e sorriso largos e um piano de cauda a condizer, quinta-feira quase à meia-noite, num espectáculo organizado pela Propalco para um número restrito de assistentes, que as dimensões da sala não dão para mais.
A música deste brasileiro natural de Minas Gerais casou bem com o lugar. Entre luzes fracas, fumos fortes e os sons em surdina que vinham lá de fora, do formigueiro da noite. Wagner interpretou temas da sua autoria, uma pavana de Fauré, Stevie Wonder e uma sequência de autores brasileiros que ele admira: Tom Jobim, Waldir Azevedo, Villa-Lobos, Gilberto Gilo e Milton Nascimento, companheiro seu de muitas músicas. Sempre com a fluência, a força e o lirismo que se lhe reconhecem, num estilo ornamentado avesso a grandes rupturas.
Pelo meio, o compositor e pianista convidou a sua amiga e “grande cantora”, Eugénia Melo e Castro, que interpretou o “standard” de Cole Porter, “The laziest girl”. Sem atingir as alturas da versão de uma Mary Coughlan, Geninha conseguiu contudo sugerir a dose de erotismo e languidez necessária, com requebros corporais e vocais nas sílabas certas. Que prazer escutar aqueles “shouldenete”, “couldenete” e “wouldenete”, ou um “I guesssssss” prolongadíssimo, ao estilo cobra, de fazer Madonna corar de vergonha.
A actuação de Wagner Tiso terminou com dois “encores” de sinal contrário – “Coração de estudante”, tema intervencionista da sua autoria, que foi hino popular durante as eleições directas para a presidência brasileira, no tempo da ditadura, e “Penny lane”, de Lennon / McCartney, tocado já em registo de bar, entre as conversas da assistência e o entrechocar dos copos, ansiosos por retomarem a faina, após o período de descanso obrigatório.
Consumadas as notas musicais, chegou a vez das sociais. No pequeno restaurante do Ritz Club, decorado a preceito e a vermelho, como não podia deixar de ser, entre máscaras de madeira, imagens da Severa e a tragédia televisiva de Ésquilo como pano de fundo, trocaram-se os habituais abraços e beijinhos de felicitações e adulações. Geninha, claro, mas também a actriz brasileira Christiane Torloni e um António Calvário muito conversador. Vitorino e Fonseca e Costa já tinham saído para a noite. No salão ficava a música africana, com a actuação de um grupo ao vivo, a aquecer a madrugada.
Nos quartos das pensões do outro lado da rua, a essa hora, a actividade era ainda mais fervilhante.